Jesus inicia sua missão pública se aproximando dos últimos e com eles irradia justiça (Mt 4,12-23). Por Gilvander Moreira

Nos dois primeiros capítulos do Evangelho de Mateus fala-se das origens de Jesus. Mateus 1-2 é para explicar para as comunidades cristãs oriundas principalmente da cultura judaico-semita Marcos 1,1, isto é, para dizer que “Jesus é o Cristo, Filho de Deus, Messias”, mas não messias conforme esperado pelos saduceus – “messias da ideologia da prosperidade” -, pelos fariseus – “messias legalista” – e nem pelos chefes dos sacerdotes – “messias da pureza cultual” – , mas um Messias que vem do meio do povo marginalizado, “gente da gente”, que só nasceu porque houve gente, principalmente mulheres, que rompeu com o lugar que a sociedade patriarcal e machista lhes impunha. Um Messias que provoca o pânico no poder estabelecido e nos Herodes de plantão, apenas por ter nascido. Um Messias que refaz o caminho do povo libertando-se da escravidão do imperialismo egípcio e que convoca seus seguidores e suas seguidoras a fazer o mesmo caminho libertador.

Inspirando-se na caminhada libertadora dos povos oprimidos no deserto em busca da terra prometida, em Mateus 3,1-12, temos a atuação do profeta João Batista, chamando à conversão e ao acolhimento do “reino dos céus que está próximo”, batizando e animando para a prática da justiça. Jesus embarca na missão proposta por João Batista, pede para ser batizado e é confirmado por “uma voz do céu” como Filho muito amado.

Em Mateus 4,1-11, Jesus, por “quarenta dias”, supera as grandes tentações e diz um não contundente à idolatria do poder, à visão mágica segundo a qual com um poder não humano se resolveria em um passe de mágica a fome do povo e refuta com firmeza também a idolatria religiosa que mente ao dizer que “pessoas ungidas” são protegidas de forma especial por Deus.

Em sintonia com o exposto acima, em Mt 4,12-23, Evangelho do Terceiro Domingo do Tempo Comum (Ano A), se narra como foi o início, onde e como Jesus iniciou sua missão pública. Antenado com os acontecimentos da realidade “ao saber que o profeta João Batista tinha sido preso, Jesus voltou para a Galileia, deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, à beira-mar, nos confins de Zabulon e Neftali” (Mt 4,12-13). Um acontecimento político, a prisão de um profeta, ato repressor do Estado, foi o que deu o estalo na consciência de Jesus de que era chegada sua hora de arregaçar as mangas e abraçar pra valer a bandeira empunhada pelo profeta João que acabara de ser preso e, segundo pesquisas arqueológicas e informações do historiador Flávio Josefo, provavelmente jogado algemado em uma prisão de segurança máxima.

Jesus poderia ter fugido como outros discípulos de João fugiram, mas, ao contrário, envolvido por uma ira santa, Jesus viu a voz de Deus o chamando naquela repressão político-militar que tentava abafar um movimento popular religioso que se dedicava lutar por justiça social e combater as desigualdades socioeconômicas.

Jesus não se faz neutro diante dos conflitos políticos e socioeconômicos da sociedade. Jesus se posiciona ao lado de quem luta por justiça, mesmo sabendo que poderá ser preso como foi o mestre João Batista. Jesus não aceita as desculpas religiosas levantadas por pessoas que se dizem religiosas e que são cúmplices das opressões políticas e das explorações econômicas.

Jesus não inicia sua missão pela capital, pela classe dominante, nem pela pequena burguesia eufemisticamente chamada de “classe média”, nem pelos religiosos de várias matizes. Jesus sabe que seria “bater em ferro frio”, pois em uma sociedade desigual, que cultua a mentira que é a meritocracia, “quem está na sombra” curtindo algum privilégio, não vai, por iniciativa própria, partilhar a sombra com quem se queima no sol escaldante. Jesus vai para a “beira-mar”, nos “confins…”, se aproxima e começa a conviver com trabalhadores manuais artesanais, pescadores, que conquistam o pão cotidiano com o próprio suor do trabalho.

Jesus tece aliança com as pessoas que estavam marginalizadas, na “Galileia das Nações/gentios”, considerados “povos das trevas”. Ao conviver e reconhecer a dignidade destas pessoas, Jesus é compreendido como “uma grande luz”. Esta convivência desperta seguimento e, por outro lado, desperta o ódio e a intolerância de quem ganha ao manter o povo explorado nos “confins”.

Este Evangelho acontece atualmente pelo mundo afora, por exemplo, com o padre Júlio Lancellotti no meio do povo em situação de rua na capital de São Paulo. Padre Júlio, luz para o povo da rua, mas execrado por quem insiste em violar e pisotear na dignidade de milhares de pessoas forçadas a sobreviver nas ruas por muitos motivos.

Qual a mensagem de Jesus neste início de missão? “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 4,17). Se Jesus tivesse absorvido a ideologia dominante, diria: “Abandonem o movimento de João Batista, pois vocês podem ser presos e terem o mesmo destino dele. Cultivem a pureza, pois o mundo está acabando, o julgamento está chegando.” Entretanto, ouvindo a voz divina nas entranhas dos acontecimentos, Jesus intui no meio de gravíssimo conflito e de crise existencial inclusive que era hora de fazer autocrítica, mudar o jeito de pensar e de agir, se libertar do que aprisionava e se irmanar na construção do reinado divino. Este era o apelo a ser seguido.

Jesus descobre que é ignorância agir sozinho e procura construir seu movimento inspirando-se em parte no movimento popular religioso de João Batista. No meio do povo trabalhador, convivendo, Jesus chama dois, Pedro e André, que eram pescadores artesanais. A partir do mundo deles Jesus propõe: Venha comigo e vamos juntos “pescar” pessoas para o reinado divino. Estes o seguem imediatamente. O mesmo se deu com outros dois irmãos, Tiago e João, que deixando o barco e seu pai, seguem Jesus.

A expressão “pescar homens…”, à primeira vista, tem tom pejorativo, pois insinua fazer proselitismo e fisgar o outro para “meu barco”, minha igreja, minha religião. E pior, se pensarmos que a pesca implica sempre na morte dos peixes. Mas exegeticamente não é este o sentido proposto pelo Evangelho de Mateus. Na maioria das pessoas bíblicas envolvendo acontecimento no mar, normalmente, o mar é considerado o lugar das forças do mal. Assim sendo, “pescar pessoas” retirando-as do “mar” indica salvar as pessoas de lógicas e estruturas opressoras e exploradoras, ou seja, libertá-las para participar de uma sociabilidade com justiça, respeito, amor e paz. Não é buscar oásis no mundo, mas transformar o mundo criando relações humanas e sociais justas, éticas, solidárias, de justiça e paz, de empatia pelo outro principalmente pelos mais enfraquecidos/as.

Assim, a partir dos últimos e com eles, Jesus ensina nas sinagogas da Galileia periferizada, anuncia o reinado divino e cura doenças e enfermidades.

Atualizando, podemos dizer que “de onde menos se espera” vem libertação, amorosidade, respeito, ética, empatia, solidariedade, amor gratuito… Podemos perceber este Evangelho de Mt 4,12-23 acontecendo no meio dos Povos Indígenas, no meio dos Povos Tradicionais, Quilombolas, no Povo em situação de rua, nos povos das favelas, de ocupações urbanas e camponesas, em mulheres vítimas de violência, em pessoas com orientação homoafetiva vítimas de homofobia, em pessoas de Terreiros de Candomblé, de Umbanda…

Enfim, no meio de pessoas discriminadas, muitas vezes a luz divina brilha e o amor divino é testemunhado. É preciso termos a sensibilidade de captar esta luz no meio de tantos que são empurrados para “as trevas”. Eis o caminho que liberta e salva. Jesus e os primeiros pescadores nos deram o exemplo. Feliz quem segue neste caminho de contramão do que é hegemônico e enaltecido pelos arautos do status quo opressor.

A opção revolucionária de Jesus pelos excluídos, desprezados, “impuros”, indica para a defesa da vida, para a luta pela libertação de todos os males que ferem a dignidade de filhos e filhas de Deus. Seguir Jesus implica em comprometer-se com essa causa. Que tenhamos a coragem necessária de assumir verdadeiramente nossa missão de cristãos.

20/01/2026, dia de São Sebastião.

Imagem: Jesus chamando os primeiros discípulos – Reprodução Redes Virtuais

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