Trabalho de campo será feito após Ação Civil Pública e apelo dos moradores que foram afetados pelo problema
Por Davi Salsa, no Tribuna Hoje
O Laboratório de Lavra de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) vai iniciar, na próxima semana, os estudos para avaliar a relação da atividade mineradora com as rachaduras em residências na área rural do município de Craíbas, no Agreste de Alagoas.
Os estudos sismológicos serão financiados pela Mineradora Vale Verde (MVV), após a Justiça Federal ter homologado acordo em setembro do ano passado.
O início dos trabalhos acontecerá depois de a Defensoria Pública da União (DPU) em Alagoas ter recomendado estudos técnicos e aparelhamento das Defesas Civis Municipais de Craíbas e Arapiraca, no âmbito da Ação Civil Pública nº 0800795-44.2023.4.05.8001, que tramitou na 8ª Vara Federal de Alagoas.
A ACP foi ajuizada pela DPU em 2023, após moradores de Craíbas relatarem rachaduras em casas e excesso de poeira, coincidentes com as detonações da mineradora.
Em 2024, a Defensoria pediu à Justiça que acelerasse a produção de estudos técnicos, alertando que a demora colocava em risco direitos coletivos, como o direito à vida. O pedido inclui monitoramento independente, vistorias nas residências e reforço das Defesas Civis.
Segundo apurou a Tribuna, o trabalho das equipes do Laboratório de Lavra de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) inclui a produção de relatórios, mapas e diagnósticos acerca da gestão de riscos da atividade mineradora na Região Agreste de Alagoas, mais precisamente no município de Craíbas, que está situado a apenas 10 km de Arapiraca.
Desde o ano de 2021 que a MVV realiza o trabalho de extração de minério de cobre, ferro e ouro, no Povoado Serrote da Laje e outras áreas rurais do município de Craíbas.
Em março do ano passado, a empresa foi adquirida pelo grupo chinês Baiyn Nonferrous pelo valor de R$ 400 milhões de dólares, o equivalente a R$ 2,3 bilhões de reais.
A mina com lavra a céu aberto tem reservas estimadas em 52,7 milhões de toneladas de minério de cobre, ferro e ouro. O projeto tem previsão de 14 anos de atividades, mas o período de atividades para extração de minérios pode ser ampliado para 20 anos, conforme consta no site da Agência Nacional de Mineração (ANM).
As explosões semanais, denominadas pela mineradora apenas de “desmontes”, seriam a causa das rachaduras em várias residências.
Documento produzido pela Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil de Alagoas (Cepdec/AL) revelou residências apresentaram fissuras e rachaduras.
Os moradores responderam a um questionário e atribuem os danos às fortes explosões provocadas pela atividade mineradora no município. Além disso, as explosões lançam muita poeira no ar e estariam provocando doenças respiratórias em adultos e crianças, bem como lançando metais pesados e contaminando as águas do Rio Traipu, que faz parte da Bacia do Rio São Francisco em Alagoas.
Em reiteradas notas oficiais, encaminhadas à imprensa, a MVV, sempre que é indagada sobre a relação de suas atividades com os tremores de terra na região, nega qualquer vínculo com os abalos sísmicos e reforça que mantém as melhores práticas de ESG, que consistem em monitoramento ambiental contínuo estando rigorosamente dentro dos padrões exigidos na legislação brasileira e em linha com as melhores práticas internacionais.
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Imagem: Fissuras nas paredes apareceram no mesmo tempo em que estava havendo detonações da mineradora – Foto: Divulgação
