Indígenas Hupd’äh querem investigação sobre tiroteio na fronteira

Lideranças indígenas e Funai vão pedir investigação sobre a circunstância de um suposto confronto entre militares do Exército e traficantes em território indígena do Alto Rio Negro (AM), no dia 8 de janeiro deste ano. Durante o episódio, um indígena morreu e outro ficou gravemente ferido enquanto pescavam em sua comunidade. Ambos são do povo Hupd’äh, considerado de recente contato. Indígenas da etnia cobram respostas e explicações sobre quem fez efetuou os tiros enquanto os Hupd’äh pescavam

Por Elaíze Farias, da Amazônia Real

Manaus (AM) – Dois indígenas do povo Hupd’äh que pescavam na noite de 8 de janeiro deste ano foram atingidos por tiros de fuzil durante um suposto confronto envolvendo soldados do 1º Pelotão Especial de Fronteira (PEF) em uma comunidade localizada na fronteira do Brasil com a Colômbia, na região do Alto Rio Negro, município de São Gabriel da Cachoeira, norte do Amazonas. Em nota, o Exército diz que o confronto foi com traficantes, que teriam disparado com arma de fogo em direção ao patrulhamento. Na versão dos indígenas, os dois Hupd’äh podem ter sido confundidos com traficantes pelo Exército e atingidos pelos tiros.

Moradores da comunidade Fátima, à margem do rio Papuri, da Terra Indígena (TI) do Alto Rio Negro e Uaupés, no Distrito de Iauaretê, Sandro Andrade, de 19 anos, morreu com tiros na perna, e Domingos Andrade, de idade estimada entre 55 a 60 anos, ficou gravemente ferido. Ele foi internado no Hospital de Guarnição do Exército, em São Gabriel da Cachoeira, e depois transferido para um hospital de Manaus. Domingos passou por cirurgia, conforme apurou a Amazônia Real, mas a reportagem não obteve atualização sobre seu estado clínico.

Depois de ouvir muitos tiros na noite de 8 de janeiro, familiares dos indígenas decidiram fazer o resgate por conta própria, mas foram impedidos por um comandante do Exército, que afirmou que o local estava perigoso devido à suposta presença de traficantes, segundo relatos de lideranças. O corpo de Sandro foi encontrado no sábado (10) pelos indígenas. Domingos foi resgatado um dia antes por militares.

Informações obtidas com exclusividade pela Amazônia Real por fontes que ouviram lideranças Hupd’äh na semana passada e que pediram anonimato indicam que os familiares de Sandro e Domingos suspeitam que os tiros saíram “do lado brasileiro”, e partiram do próprio Batalhão do Exército na fronteira.

Na sexta-feira (16), equipes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei), organizações indígenas e representantes do Comando Militar da Amazônia (CMA) reuniram-se com os Hupd’äh e lideranças de outros povos que moram no Distrito de Iauaretê. A Unidade Técnica Local (UTL, antiga CTL) da Funai no Alto Rio Negro disse à Amazônia Real que após a reunião, os depoimentos serão encaminhados, através de um relatório, a instituições para abertura de inquérito no Exército, na Polícia Federal e no Ministério Público Federal.

Amazônia Real apurou que Sandro e Domingos, sobrinho e tio, respectivamente, pescavam piaba (termo genérico para pequenas espécies de peixe) por volta de 20 horas, quando foram surpreendidos por tiros repentinos. Eles estavam acompanhados à distância de outro indígena Hupd’äh e da filha adolescente deste. Sandro encontrava-se na água e os demais à beira do rio.

A adolescente viu os dois indígenas feridos, se desesperou e começou a gritar e passou mal. Seu pai a carregou de volta para a comunidade. Segundo a testemunha sobrevivente, o grupo de Hupd’äh que pescava não viu qualquer embarcação passando pelo rio antes dos tiros.

No dia seguinte (9), uma liderança Hupd’äh solicitou informações do comando do Batalhão para saber se os tiros foram dados pelos soldados do Exército ou pelos traficantes (brasileiros e colombianos), mas não obtiveram resposta. Nesse mesmo dia, Domingos foi retirado da beira do rio e levado para um hospital na sede do município de São Gabriel da Cachoeira. Já as informações sobre Sandro foram dadas apenas no sábado, quando seu corpo foi encontrado pelos indígenas.

Os próprios Hupd’äh tentaram resgatar o corpo, mas foram mais uma vez orientados pelos militares a não irem até o local devido à suposta presença de traficantes. Ainda no sábado, com a demora, eles cobraram o Exército para buscar o corpo de Sandro. Segundo os relatos, os soldados fizeram uma cova rasa e se retiraram imediatamente, causando revolta nos indígenas.

Questionado pelos indígenas sobre as circunstância dos fatos que causaram a morte de um indígena e que deixou outro ferido, um militar do 1º Pelotão Especial de Fronteira (PEF) teria informado que Sandro e Domingos “estavam no meio do confronto”, mas ele negou que os tiros teriam sido disparados pelos soldados do batalhão.

Logo após as informações sobre o episódio do dia 8 de janeiro serem espalhadas, moradores de São Gabriel da Cachoeira, onde fica a terra indígena, passaram a divulgar informações pelas redes sociais sobre o ocorrido. Um deles foi o indígena Libardo Martinez, do povo Tukano, um comunicador que mora na cidade. A conta da Paróquia São Miguel Arcanjo, em Iauaretê, também informou a morte de Sandro Andrade. O caso foi repercutido por contas no instagram como a Mídia Indígena e a Mídia Ninja, e em uma matéria do site Sumaúma.

Lideranças querem investigação e respostas

Uma liderança indígena ouvida pela Amazônia Real disse que um grupo de pessoas esteve no último dia 16 no Distrito de Iauaretê para levantar as informações. Na ida até o local onde os de Sandro e Domingos foram alvejados, segundo essa liderança, foi possível  avistar raspas de tiros nas pedras. Os indígenas que estavam na inspeção também recolheram resíduos de balas, objetos que deverão ser enviados para a perícia. Essa liderança confirmou que não foi encontrada evidência de que embarcações passaram pelo local no dia do tiroteio.

“A gente visitou esse local onde teve esse confronto que os militares disseram que aconteceu. No nosso entendimento, os soldados pensaram que os parentes Hupd’äh eram traficantes que estavam com seus botes na beira do rio. Mas eles estavam pescando piaba com mosquiteiro. Os Hupd’äh estavam bem na beira. Foi mirado [os tiros] para eles, estavam bem próximos. Se fosse para a direção dos traficantes, teriam atirado no meio do rio”, disse a liderança.

Segundo a liderança, é preciso que se inicie uma investigação para saber o que aconteceu e o motivo. “Agora os Hupd’äh estão com medo, esses que sobreviveram. Eles sabem que o tiro não veio da direção da Colômbia”, afirmou.

Conforme a fonte da Amazônia Real, as famílias das vítimas também necessitam de apoio para seu sustento e auxílio. Segundo ela, Sandro e Domingos eram os responsáveis pelo acesso à fonte de alimentação das suas famílias.

O que dizem as autoridades

Amazônia Real procurou a Assessoria de Comunicação da Funai para saber sobre as providências que serão tomadas sobre o caso e se já foi solicitada a investigação da PF. A Funai não deu retorno até a publicação desta reportagem.

O Ministério da Saúde/Secretaria Especial de Saúde Indígena e a Secretaria Estadual de Saúde do Amazonas foram procurados para responder sobre o estado de saúde de Domingos Andrade, que procedimentos clínicos foram tomados e qual a causa de sua internação. A reportagem também perguntou se foi tomada medida de segurança para o indígena diante da gravidade do caso. Os órgãos não responderam até a publicação desta reportagem.

O CMA foi procurado para esclarecer as circunstâncias da ocorrência e se vai abrir investigação interna. Também foi indagado aos chefes do CMA se os soldados poderiam ter confundido os indígenas com os traficantes. Outra pergunta é se, após o suposto confronto, algum traficante foi detido ou atingido pelos tiros.

Em resposta, o CMA enviou uma nota na qual informa a sua missão institucional e fez um relato sobre o episódio do dia 8 de janeiro. Segundo a nota do CMA, o dia 8 de janeiro, “tropas do 1º Pelotão Especial de Fronteira (1º PEF) – Iauaretê foram alvo de disparos de arma de fogo, vindos de ocupantes de embarcações que navegavam na direção Colômbia-Brasil, no eixo do Rio Papuri, e reagiu em legítima defesa à injusta agressão. A embarcação agressora conseguiu evadir-se do local após o confronto. Após o ocorrido, os militares retornaram para as instalações do 1º PEF”.

A nota diz que durante um novo patrulhamento no dia seguinte, um cidadão indígena ferido por arma de fogo recebeu os primeiros socorros por militares e Hospital de Guarnição de São Gabriel da Cachoeira. Segundo a nota do CMA, “outro cidadão foi encontrado sem vida, por moradores da comunidade próxima a Iauaretê, na margem brasileira do Rio Papuri, próximo à sua Foz, no Rio Uaupés. Os militares do 1º PEF prestaram o apoio aos moradores e diante da constatação, foram adotadas as medidas cabíveis para o acionamento da perícia, em coordenação com o Pólo do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) de Iauaretê, para a remoção do corpo e realização dos procedimentos médico-legais.”

A nota enviada à reportagem também não aponta conexão entre a morte de Sandro e a ação dos militares no confronto com os possíveis traficantes. Limita-se a informar que Domingos foi encontrado ferido no dia seguinte, durante o patrulhamento. O CMA não comentou a respeito das suspeitas dos indígenas de que os Hupd’äh teriam sido confundidos com traficantes e de terem sido alvejados pelos próprios militares. (leia a nota na íntegra).

Quem são os Hupd’äh

O antropólogo Renato Athias, do Departamento de Antropologia e Museologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), desenvolve estudos com os Hupd’äh há anos. Para ele, a morte do indígena Sandro demonstra de forma contundente a fragilidade dos povos da floresta diante da violência imposta por forças externas e pelo avanço do crime organizado. Athias destaca que o clamor por justiça reverbera pelas redes sociais, enquanto a comunidade de Iauaretê, marcada por décadas de exploração e dor, mantém viva a esperança de que, desta vez, a verdade venha à tona e o ciclo de sofrimento secular que paira sobre as águas do Rio Uaupés, na confluência com o Rio do Papuri.

“O caso, cercado por versões conflitantes, evidencia as camadas históricas de violência e conflito que marcam a região de fronteira entre Brasil e Colômbia, reacendendo debates sobre violações de direitos indígenas e segurança no Alto Rio Negro”, afirma o antropólogo.

Os Hupd’äh, um dos 23 povos do Alto Rio Negro, é um povo que parte do sistema hierárquico que caracteriza a organização social dos indígenas do Alto Rio Negro. Nos últimos, anos essa subalternidade tem se alterado, com a emancipação dos Hupd’äh em muitos cenários e tomadas de decisão. O episódio violento do dia 8 de janeiro e que ainda vai ser investigado, chamou atenção de Renato Athias.

“O que mais chama atenção das lideranças e pesquisadores envolvidos no caso é a intensa mobilização coletiva diante do crime. Em uma ruptura marcante da hierarquia social tradicional — que normalmente silenciaria o luto por um membro Hupd’äh — os Tariano e outros povos da região se uniram aos Hupd’äh para cobrar justiça de forma contundente. A comunidade de Iauaretê está exigindo esclarecimentos sobre a morte de Sandro e os tiros em Domingos. A mobilização dos Tariano em prol de um jovem Hupd’äh revela uma nova e significativa força política e humanitária emergindo na região.”

Segundo Athias, de acordo com a tradição oral, o distrito de Iauaretê é reconhecido como território ancestral do povo Tariano, mas tem presença Hupd’äh. Embora tradicionalmente eles ocupem uma posição inferior na escala social regional, a relação entre os dois povos tem superado conflitos e disputas.

Conforme seus estudos, a mobilidade é um traço marcante na organização social dos Hupd’äh. Por isso, não é incomum que um grupo local se desloque e se estabeleça em outro ponto da floresta em poucas horas de caminhada, seja em busca de novas áreas de caça, para escapar de surtos de doenças ou devido a conflitos internos de liderança. Essa capacidade de adaptação garante a sobrevivência e a coesão do povo Hupd’äh em meio aos desafios da floresta amazônica.

Vista aérea do 1º Pelotão de Fronteira, em Iauaretê, na região do Alto Rio Negro (Foto: Ministério da Defesa).

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