Indígenas Munduruku denunciam entrada de empresas em aldeia e exigem suspensão de atividades exploratórias no Pará

Indígenas mantém dois funcionários da empresa São Manoel na aldeia até que uma reunião presencial seja marcada pela Funai e empresa

Por Daniel Vinagre, Tapajós de Fato

O Movimento Munduruku Ipereğ Ayũ denunciou, em carta divulgada no último sábado (24) , a entrada de funcionários de empresas no interior da Aldeia Kabarewun, localizada na Terra Indígena Munduruku e Kayabi, no baixo Rio Teles Pires, na divisa de entre Mato Grosso e o Pará . O documento aponta que a presença ocorreu sem consulta ou autorização prévia das comunidades e teria relação com atividades ligadas a hidrelétricas na região do Alto e Médio Tapajós.

Segundo a carta, no dia 22 de janeiro de 2026, dois homens identificados pelos indígenas como vinculados à empresa São Manoel foram encontrados dentro do território, próximos à aldeia.

As lideranças afirmam que situações semelhantes já haviam sido denunciadas anteriormente e que esse tipo de ação provoca medo, divisão interna e afeta a tranquilidade das comunidades.

O movimento informa que os dois homens permanecem na aldeia, em segurança, enquanto aguardam a presença da empresa e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas para uma reunião presencial. As lideranças afirmam que houve um início de diálogo com mediação do Ministério Público Federal, mas consideram “insuficiente” diante da ausência de informações claras sobre as atividades realizadas no território.

De acordo com o documento, os Munduruku denunciam práticas como a captura de peixes, abertura dos corpos para coleta de ovas e retirada de amostras, ações que, segundo o movimento, não foram autorizadas pela comunidade e causam impactos diretos ao rio e à alimentação tradicional.

As lideranças afirmam que, para o povo Munduruku, o peixe só deve ser morto para consumo e que essas práticas externas desequilibram o meio ambiente e a vida espiritual associada ao rio.

“Estão matando peixes, abrindo seus corpos e recolhendo ovas, sem nossa autorização. Para nós, o peixe só deve ser morto para alimentação. Essas práticas adoecem a axima xi, a mãe dos peixes, e desequilibram o rio. Nosso conhecimento vem da convivência e precisa ser respeitado”, diz um trecho da carta.

A carta também critica a atuação da Funai e aponta falta de transparência e de processos adequados de informação e diálogo com as comunidades.

“Denunciamos também a falta de informações claras, acessíveis e adequadas por parte dos órgãos responsáveis, em especial a Funai, bem como das próprias empresas envolvidas”

Segundo o movimento, não foram garantidas formações, orientações ou explicações técnicas e jurídicas sobre as pesquisas e atividades das empresas São Manoel, Dákila e Colider.

Reivindicações

Entre as exigências apresentadas, o movimento pede a suspensão imediata de todas as atividades das empresas no território Munduruku até que sejam esclarecidas as autorizações, licenças e responsabilidades legais envolvidas.

As lideranças destacam ainda que a ausência de informações compromete o direito à consulta livre, prévia e informada, previsto na Constituição Federal e na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho.

Ao final, o Movimento Munduruku Ipereğ Ayũ afirma que permanecerá mobilizado e vigilante, aguardando a presença da empresa e da Funai no território para dar continuidade ao diálogo, e responsabiliza os órgãos e empresas por qualquer violação de direitos que venha a ocorrer.

“Pedimos reconhecimento e reparação pela destruição dos ipi cekay piat, especialmente a aldeia dos Ajojoyu, onde estão nossos espíritos sagrados e no Karo Bixexe, onde a usina hidrelétrica do baixo Teles Pires está localizada. Esses lugares não podem ser mexidos. Nossos antepassados vivem no mesmo território que nós, e a destruição desses lugares rompe nossa proteção e nossa história.”

O movimento vem denunciando invasões desde o ano 2025, quando realizaram entre os dias 19 de setembro e 6 de outubro de 2025, uma Assembleia do Movimento Ipereg Ayũ, e realizaram uma ação na Terra Indígena Kayabi, território tradicional Munduruku, onde vivem parte dos indígenas e onde se encontram locais sagrados fundamentais à nossa existência coletiva.

Imagem: Foto: Movimento Munduruku Ipereg Ayu

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