O que explica moradores de periferia de SP viverem 24 anos menos do que os de bairros ricos? Por que a desigualdade de gênero é a maior do Brasil? Como o transporte rouba tempo de vida das maiorias? Uma análise da dominação através do espaço urbano
Por Erik Chiconelli Gomes, em Outras Palavras
São Paulo completa 472 anos carregando em sua paisagem urbana as marcas profundas de uma formação social desigual. A metrópole que se consolidou como principal polo econômico do país exibe, paradoxalmente, contrastes que desafiam qualquer noção simplificada de progresso ou desenvolvimento. Os dados apresentados pela reportagem do Valor Econômico, publicada em janeiro de 2026, revelam que a média salarial paulistana de R$ 4.587 supera em quase dois terços a média nacional de R$ 2.851. Contudo, este número abstrato esconde realidades radicalmente distintas vividas por trabalhadores e trabalhadoras que habitam territórios diferentes da mesma cidade. A capital ocupa apenas a 31ª posição no ranking de rendimentos do Brasil, demonstrando que a riqueza concentrada na metrópole não se traduz em bem-estar generalizado, mas antes consolida um padrão de acumulação excludente que marca historicamente a urbanização brasileira.
A segregação socioespacial paulistana não constitui um fenômeno natural nem acidental, mas resulta de processos históricos concretos de produção do espaço urbano. Como demonstra Flávio Villaça em seus estudos sobre a metrópole, o espaço urbano não é dado da natureza, mas produto do trabalho humano organizado segundo lógicas de dominação e acumulação. A concentração das camadas de alta renda no quadrante sudoeste da cidade, onde se localizam bairros como Itaim Bibi, Jardim Paulista e Alto de Pinheiros, expressa uma tripla segregação: residencial, de empregos do setor terciário avançado e de comércio e serviços destinados ao consumo das elites. Enquanto no Itaim Bibi a média salarial atinge R$ 8.275, no bairro do Pari este valor despenca para R$ 1.232, configurando uma variação de quase 600% entre territórios da mesma cidade.
O dado mais impactante produzido pelo Mapa da Desigualdade 2024 da Rede Nossa São Paulo refere-se à expectativa de vida. Moradores do Alto de Pinheiros vivem em média 82 anos, padrão comparável ao de países como Noruega e Japão. Na Cidade Tiradentes e no distrito de Anhanguera, por outro lado, a média não ultrapassa 57 a 58 anos, equivalente a países em grave crise humanitária. Esta diferença de 24 anos entre territórios da mesma cidade permanece praticamente inalterada desde 2006, evidenciando que duas décadas de políticas públicas não foram capazes de alterar a estrutura fundamental da desigualdade. Nascer em determinado bairro significa, literalmente, ter mais ou menos anos de vida, revelando como o espaço urbano se constitui em mecanismo de reprodução das desigualdades sociais e de limitação das possibilidades de existência das classes trabalhadoras.
A questão de gênero adiciona camadas suplementares a este quadro de desigualdades. Em São Paulo, homens ganham em média 35% mais que as mulheres, diferença significativamente maior que a média nacional de 24% a 27%. Esta disparidade agrava-se quando se considera a intersecção com raça: enquanto homens brancos recebem em média R$ 8.849, mulheres negras não chegam a metade deste valor, percebendo cerca de R$ 3.964. O setor financeiro e corporativo concentrado na capital, dominado por ocupantes masculinos em cargos de alta gestão, reproduz e amplifica padrões de discriminação que se manifestam nacionalmente. Levantamentos publicados na Revista Estudos Feministas demonstram como a segregação da mulher no mercado de trabalho reflete uma cultura sexista que se reproduz apesar dos avanços legislativos formais, perpetuando desigualdades com raízes profundas na formação histórica brasileira.
A mobilidade urbana funciona como outro marcador das desigualdades paulistanas. Os dados indicam que 62% dos trabalhadores levam mais de 30 minutos no trajeto casa-trabalho. Entretanto, para aqueles que recebem até um salário mínimo, este índice salta para 81%. O tempo de deslocamento não representa apenas desconforto, mas configura expropriação sistemática das horas de vida dos trabalhadores periféricos, que perdem cotidianamente tempo que poderia ser dedicado à família, ao lazer, à formação ou ao descanso. Esta dinâmica integra o que se pode caracterizar como dominação através do espaço urbano: a estrutura da cidade produz vantagens excepcionais para os mais ricos e ônus igualmente excepcionais para os mais pobres, reproduzindo e aprofundando desigualdades de classe no cotidiano das experiências vividas.
Tabela 1 – Contrastes socioespaciais em São Paulo
| Indicador | Bairros de elite (Zona Sudoeste) | Periferias (Zonas Leste/Norte/Sul) |
| Expectativa de vida | 80-82 anos (padrão europeu) | 57-59 anos |
| Renda média mensal | R$ 8.275 (Itaim Bibi) | R$ 1.232 (Pari) |
| Ideb – educação básica | 7,3 (Vila Mariana) | 4,8 (Pari) |
| Domicílios em favelas | 0% (dez distritos nobres) | 35% (Vila Andrade) |
| Tempo deslocamento > 30min | ~40% | 81% (renda até 1 SM) |
Economia política da segregação: contribuições conceituais
A análise econômica das desigualdades urbanas em São Paulo demanda superar abordagens que naturalizam a pobreza ou a tratam como resíduo do desenvolvimento. Os estudos de Eduardo Marques e Haroldo Torres sobre segregação e pobreza na metrópole paulistana demonstram que a concentração espacial da privação não resulta simplesmente de diferenciais de renda, mas de processos históricos complexos que articulam mercado imobiliário, políticas públicas e dinâmicas de classe. A periferização das décadas de 1970 e 1980 configurou espaços de moradia da força de trabalho caracterizados pela ausência do Estado e pela autoconstrução em loteamentos clandestinos, num processo que autores como Lúcio Kowarick caracterizaram como espoliação urbana, indicando que a exploração do trabalho se complementa com a precarização das condições de reprodução social dos trabalhadores.
O conceito de segregação socioespacial permite compreender como o espaço urbano não apenas reflete, mas produz e reproduz desigualdades sociais. Marcos Drumond Júnior e Marilisa Berti de Azevedo Barros, em estudo publicado na Revista Brasileira de Epidemiologia, demonstraram que os coeficientes de mortalidade do adulto em São Paulo apresentam distribuição profundamente desigual segundo as condições socioambientais das áreas de residência. As causas externas de morte, particularmente homicídios, mostram-se fortemente correlacionadas com indicadores de privação social, evidenciando que a violência não se distribui aleatoriamente pelo território, mas concentra-se nas áreas onde residem as populações mais vulneráveis. Estes achados corroboram a compreensão de que as condições de vida determinam, em grande medida, as condições de morte.
A persistência das desigualdades salariais de gênero, mesmo após décadas de avanços legislativos, revela os limites de abordagens puramente jurídicas ou econômicas para enfrentar estruturas sociais enraizadas. Conforme análise de Laís Abramo sobre desigualdades de gênero e raça no mercado de trabalho brasileiro, as mulheres negras ocupam sistematicamente posição de desvantagem em todos os indicadores sociais e de mercado de trabalho, resultado de uma dupla discriminação que não se reduz a diferenciais de capital humano ou produtividade. A taxa de desemprego das mulheres negras, que em 2024 alcançava 9,3% segundo a PNAD, era mais que o dobro da taxa dos homens brancos (4,4%), demonstrando como a estrutura do mercado de trabalho reproduz hierarquias raciais e de gênero historicamente constituídas.
A contribuição da análise econômica está também em desmistificar narrativas que atribuem o sucesso econômico de São Paulo a virtuosidades intrínsecas da cidade ou de suas elites. O Índice de Progresso Social 2025 posiciona São Paulo apenas em quarto lugar entre as capitais brasileiras, atrás de Curitiba, Campo Grande e Brasília, contrariando a imagem de metrópole modelo. O rendimento médio paulistano, embora segundo maior do país, é superado pelo Distrito Federal, e o IDH estadual (0,806) fica abaixo do DF (0,814). Estes indicadores sugerem que a concentração econômica em São Paulo não se traduz automaticamente em qualidade de vida superior para o conjunto de sua população, mas convive com padrões de desigualdade que comprometem os ganhos agregados.
O modelo centro-periferia, embora útil como primeira aproximação, revela-se insuficiente para captar a complexidade da segregação paulistana contemporânea. Estudos recentes demonstram que a periferia é heterogênea, contendo áreas de extrema privação e outras com melhores condições relativas. Da mesma forma, o surgimento de enclaves fortificados nas periferias, como condomínios fechados do tipo Alphaville, produz novas formas de segregação em que diferentes grupos sociais estão fisicamente próximos, mas socialmente separados por muros e tecnologias de segurança. Esta fragmentação do tecido urbano desafia análises simplificadas e exige compreensão historicizada das transformações urbanas, atentando para como diferentes momentos da acumulação capitalista produziram distintos padrões espaciais de desigualdade.
Considerações críticas: para além dos números
Os indicadores estatísticos, por mais contundentes que sejam, capturam apenas parcialmente as experiências vividas por aqueles que habitam as periferias paulistanas. Viver em Cidade Tiradentes ou Anhanguera significa não apenas ter menor expectativa de vida estatística, mas enfrentar cotidianamente a precariedade dos serviços públicos, a distância dos equipamentos culturais, a violência policial, o estigma territorial e a invisibilidade social. Estas dimensões da desigualdade dificilmente se traduzem em números, mas constituem o tecido das vidas concretas de milhões de trabalhadores e trabalhadoras que constroem diariamente a riqueza da metrópole sem participar de seus frutos.
A instrumentalização política dos dados sobre desigualdade merece atenção crítica. Mapas da desigualdade e rankings de desenvolvimento podem servir tanto para orientar políticas públicas redistributivas quanto para justificar intervenções autoritárias sobre territórios periféricos, tratados como problemas a serem gerenciados e não como espaços de vida de sujeitos históricos com capacidade de agência. A perspectiva que emerge das estatísticas oficiais reproduz frequentemente o olhar do centro sobre a periferia, naturalizando a posição dos bairros de elite como padrão a ser alcançado e reduzindo a experiência periférica à carência e à falta.
Contudo, a história das periferias paulistanas não se resume à vitimização. Os movimentos sociais urbanos, as associações de moradores, as organizações culturais de base comunitária e as lutas por moradia digna demonstram que os habitantes das periferias não são receptáculos passivos das determinações estruturais, mas agentes que disputam cotidianamente os termos de sua inserção na cidade. A música, a arte de rua, o rap, o funk e outras expressões culturais nascidas nas periferias constituem formas de resistência simbólica e de construção de identidades que desafiam os estigmas territoriais. Compreender as desigualdades paulistanas exige reconhecer esta dimensão ativa da experiência popular.
A persistência da diferença de 24 anos na expectativa de vida entre o Alto de Pinheiros e Anhanguera ao longo de quase duas décadas revela o fracasso das políticas públicas em alterar estruturas fundamentais da desigualdade. As intervenções focalizadas em territórios específicos, embora possam produzir melhorias localizadas, mostram-se incapazes de enfrentar as dinâmicas sistêmicas que reproduzem a segregação. Enquanto a estrutura fundiária, o mercado imobiliário e a distribuição dos investimentos públicos continuarem beneficiando desproporcionalmente as áreas de alta renda, as políticas compensatórias terão efeitos limitados sobre o padrão geral de desigualdade.
A desigualdade de gênero no mercado de trabalho paulistano, mais acentuada que a média nacional, expressa como a concentração de capital financeiro e corporativo na cidade reproduz em escala ampliada as estruturas patriarcais da sociedade brasileira. A presença majoritária de homens nos cargos de alta gestão não resulta de preferências individuais ou diferenciais de qualificação, mas de processos históricos de exclusão e discriminação que limitam o acesso das mulheres às posições de poder econômico. A intersecção com a questão racial agrava este quadro, colocando as mulheres negras na base da pirâmide salarial paulistana, onde recebem menos da metade do que ganham os homens brancos.
São Paulo aos 472 anos permanece como espelho das contradições brasileiras: riqueza extraordinária convivendo com pobreza extrema, modernidade tecnológica ao lado de precariedade habitacional, cosmopolitismo cultural junto à violência cotidiana. Superar esta condição exige mais do que políticas gerenciais ou ajustes incrementais. Demanda o reconhecimento de que a desigualdade não é defeito a ser corrigido, mas produto histórico de uma forma de organização social que beneficia sistematicamente alguns grupos em detrimento de outros. Enquanto esta estrutura não for confrontada em suas raízes, a cidade continuará dividida entre aqueles que podem viver longamente no conforto do quadrante sudoeste e aqueles cuja vida é encurtada pela precariedade das periferias distantes.
Referências
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