“Não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos”.
(Immanuel Kant)
O consumo de eletricidade cresce em ritmo acelerado no mundo inteiro. Segundo a Agência Internacional de Energia, a demanda elétrica avança duas vezes mais rápido do que o consumo total de energia, impulsionada por carros elétricos, data centers, refrigeração e digitalização de serviços. No Brasil, o consumo total de energia elétrica foi 531.872 GigaWatts-hora (GWh), em 2023; 561.600 (GWh), em 2024 e 562.659 (GWh), em 2025. O crescimento vem da oferta, principalmente de energias renováveis, que, por sua vez, apresentam dificuldades crescentes e desafios urgentes em relação aos impactos técnicos e socioambientais causados por políticas públicas insustentáveis.
Na matriz elétrica o país se sobressai em relação a outros países pela grande participação das fontes renováveis de energia, que em 2024 correspondeu a 88,2% do total da matriz. Segundo dados oficiais a geração hidráulica atendeu 56,1% da energia elétrica consumida em 2024, enquanto as demais fontes energéticas 43,9%. A contribuição da energia nuclear foi pouco mais de 2%, e caso Angra 3 fosse concluída até 2033, chegaria próximo a 3,5%. O que é ainda um quantitativo irrisório para bravatear a conquista da independência energética do país com Angra 3.
Estas informações importam diante das últimas declarações de setores lobistas que defendem a insanidade de terminar a construção de Angra 3, cujo início das obras ocorreu em 1981. A pressão exercida sobre o governo federal é grande principalmente pelos representantes dos interesses econômicos e geopolíticos envolvidos com a nuclearização do país, com Angra 3, com a expansão da mineração de urânio e de novas usinas atômicas.
Vale mencionar inicialmente a declaração do presidente da Aben (Associação Brasileira de Energia Nuclear, Carlos Henrique Silva Seixas) que considera “inacreditável” que ainda não se decidiu pela construção de Angra 3. Considera que caso a obra não seja concluída, o país terá um grande desperdício de R$21 bilhões de reais que já foram gastos, “jogando no lixo 11.000 equipamentos já comprados”. Afirma que R$23 bilhões seriam os recursos necessários para finalizar a obra. E como bom brasileiro, patriota, demonstrou sua indignação em relação aos gastos anuais com a usina inacabada, da ordem de R$1 bilhão, sendo 800 milhões para pagar empréstimos contraídos com a Caixa Econômica Federal e com o BNDES. E outros 200 milhões gastos com o armazenamento, vigilância e manutenção dos equipamentos já adquiridos, desde o final dos anos 80 do século passado.
Ao citar estes valores, ele omite que o custo da energia elétrica nuclear é bem mais caro (segundo BNDES, R$ 778,86/MegaWattshora – R$ 817,27/MWh) que o das fontes renováveis, 4 a 6 vezes maior, o que levaria o repasse do custo extra nas tarifas, afetando todos: consumidores, cidadãos e a economia nacional. O presidente da Aben nada falou sobre a possibilidade de readequar/reaproveitar os equipamentos, para outros usos, mais nobres que o lixo. Também de redirecionar o pessoal, cuja excelente formação técnica e científica, facilitaria a adaptação e o envolvimento com outras atividades do setor energético.
Por sua vez a Eletronuclear, subsidiária da Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional (ENBPar) operadora das usinas nucleares de Angra 1 e 2, e responsável por Angra 3, enfrenta uma situação financeira crítica no início de 2026, como declarou o diretor-presidente interino Alexandre Caporal, pressionando o governo sobre o estado atual do “colapso operacional e financeiro” da estatal, com um caixa insuficiente para honrar seus compromissos financeiros e risco de falência. Chegou a comparar a estatal à situação de insolvência dos Correios.
No atual contexto, a situação de Angra 3 chegou a um momento crítico de descrédito e inoperância administrativa que somente uma decisão responsável e corajosa decretaria a interrupção deste sumidouro do dinheiro público, que se tornou esta obra. Não se pode mais “empurrar com a barriga” a decisão sobre Angra 3.
Não existe nenhum indício, ou indicação técnica-econômica que aponte a nucleoeletricidade como necessária e imprescindível ao país para garantir a segurança energética, a sustentabilidade da matriz elétrica diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas, e atingir a modicidade tarifária. Ao contrário, é uma fonte energética “suja”, cara e perigosa.
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“Em memória do prof. Célio Bermann: gratidão e lembranças”.
* Heitor Scalambrini Costa – Professor associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco, graduado em Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), mestrado em Ciências e Tecnologias Nucleares na Universidade Federal de Pernambuco (DEN/UFPE) e doutorado em Energética, na Universidade de Marselha/Aix – Centro de Estudos de Cadarache/Comissariado de Energia Atômica (CEA)-França.
** Zoraide Vilasboas – Ativista socioambiental, integrante da Articulação Antinuclear Brasileira.
