WikiFavelas: Quando o bloco costura o território

Dicionário conta a história de resistência do Se Benze que Dá, que sai às ruas da Maré, no Rio, há mais de 20 anos. Fundado por jovens como Marielle Franco, mostra que a travessia e o samba podem ser rebeldias políticas. O enredo deste ano: voto e risco de manipulação

Por Fábio Caffé e Flavia Candido, em Outras Palavras

Contar histórias lutas, produzir conhecimento coletivo e celebrar a alegria e a capacidade de se reinventar. Para além da violência, da falta de políticas públicas, das dificuldades. Esse é o carnaval, festa que mobiliza todo o país a partir das referências, ancestralidades e olhares das periferias. É quando jovens, mulheres e homens cotidianamente colocados em situação de subalternidade, passam a contar com criatividade e ritmo suas próprias histórias.

Esse também é o papel do Dicionário de Favelas Marielle Franco1: abrir alas e caminhos para que toda e qualquer pessoa possa escrever sobre os conhecimentos produzidos nas favelas e periferias, em prol dos direitos de cidadania: às cidades, à saúde e, por que não, à alegria. Em nossas páginas, há relatos do Carnaval Popular da Estrada Intendente Magalhães2, no subúrbio do Rio de Janeiro; de Santana do Parnaíba3, em São Paulo; de Olinda e Recife4, em Pernambuco; e muitos outros.

Carnaval é resistência, e essa é uma das marcas da Favela da Maré, conjunto de comunidades da Zona Norte do Rio de Janeiro, que transformou o mês de fevereiro para além do calendário festivo. Aqui, a festa símbolo da cidade significa tempo de rua, memória e tomada de posição, reinventada pelo Bloco Se Benze que Dá5. Pelo 21º ano, nossa travessia percorrerá no dia 21 de fevereiro as ruas da comunidade, firmando-se como cultura organizada com responsabilidade social e uma função prática: sustentar laços, proteger a circulação e afirmar que a favela produz projeto de cidade.

Para quem olha de fora, a favela da Maré emerge como um ponto no mapa no meio de importantes vias urbanas da cidade, dada sua localização entre a Avenida Brasil, a Linha Vermelha e a Linha Amarela. Esse desenho urbano, na prática, também pressiona a vida cotidiana, a permanência e a circulação dos moradores, suas demandas e afetos.

É um território que convive com remoções históricas, desigualdades e operações policiais recorrentes desde a década de 1940, atravessado por marcos internos e barreiras invisíveis que reorganizam trajetos, definem rotinas e fragmentam deslocamentos dentro da própria favela. Nesse cenário, o Se Benze que Dá cumpre um papel de ponto de virada desta história. Mais do que um bloco, é um método de existir e um jeito direto de disputar direitos no compasso do samba.

Antes do Se Benze: a base cultural que sustenta o presente

A década de 1960 marcou um ponto importante na formação social e cultural da Maré. Com o crescimento das ocupações e a chegada de moradores removidos de outras áreas do Rio, o samba passou a funcionar como instrumento de pertencimento e de organização. O carnaval, ali, nunca foi só calendário6. Ele vira rede, vira encontro e vira uma forma concreta de dizer que o território existe e permanece.

A Unidos da Nova Holanda (1960) integrou essa construção ao articular cultura e mobilização local. A experiência das escolas e blocos mostra que, na Maré, o desfile é só a ponta do processo. O que sustenta o carnaval é trabalho coletivo, ensaio, costura, arrecadação, cuidado com o outro e construção de memória.

Nesse fio histórico se consolidou o Gato de Bonsucesso, registrado em 1974 e formalizado como escola em 1999, atravessando décadas como referência do carnaval mareense. O nome “Bonsucesso”, bairro vizinho, também revela um detalhe do racismo territorial do Rio: por muito tempo, moradores recorreram a referências externas mais aceitas na cidade para driblar estigma, inclusive em situações de trabalho, antes de a Maré ser reconhecida oficialmente como bairro, em 1994.

O fim de 2025 trouxe um golpe duro para a escola. Um incêndio atingiu a quadra do Gato de Bonsucesso em dezembro, com registro de uma morte e perdas materiais que afetaram diretamente o carnaval seguinte. O episódio expõe uma realidade frequente na favela: a cultura é construída com esforço coletivo e, mesmo assim, segue vulnerável a tragédias e ausência de estrutura. Ainda assim, o carnaval não se encerra. Ele se reorganiza, porque a favela aprende a reconstruir no meio do caminho.

O Boca da Ilha, surgido nos anos 1970 no Parque União, marcou gerações e reforçou o carnaval como espaço de encontro, festejo e cobrança implícita, mostrando que a favela é uma localidade que faz parte da cidade:

“Se veio pra cá pra brincar, tá no lugar certo.
Se veio pra cá pra curtir, tá no lugar certo.
Se veio pra cá pra extravasar a sua alegria,
tá no lugar certo” (samba de 1972).

O Bloco das Piranhas, nos anos 1980, se destacou por afirmar o carnaval como lugar de convivência e enfrentamento ao preconceito. A presença LGBTQIA+ não aparece como nota de rodapé. Ela se dá como experiência de luta e resistência. O bloco ajuda a quebrar preconceitos em um tempo anterior à popularização das paradas LGBTQIA+ e aos marcos recentes do debate público. A Maré já estava em movimento pela igualdade dentro da própria rua, com participação ativa dos moradores, tanto na defesa do direito de existir sem violência quanto na fantasia, na alegria e no direito de ocupar o carnaval como quem ocupa a vida.

O Corações Unidos da Baixa do Sapateiro, por sua vez, mobilizou moradores da Baixa e do Timbau nas décadas de 1980 e 1990 e chegou a desfilar na Intendente Magalhães com estrutura de escola, evidenciando capacidade organizativa local. Esse percurso ajuda a entender por que carnaval e mobilização social aparecem misturados na Maré.

Todo esse apanhado histórico ajuda a entender que o crescimento do pertencimento mareense, nos anos seguintes, não é só geográfico. Ele também é autoestima, afirmação pública e disputa de narrativa sobre a favela como lugar de vida, cultura e organização. Os blocos de rua ampliaram essa tradição e mantiveram acesa a lógica de que carnaval, na Maré, é prática coletiva e mobilização social. Não como exceção, mas como regra. E é exatamente dessa base que, em 2005, nasceu o Se Benze que Dá.

O histórico do Se Benze que Dá: travessia como método e samba como consciência

O Se Benze que Dá surgiu a partir de uma juventude que se recusava a aceitar a Maré fragmentada por barreiras invisíveis. Em um contexto em que circular dentro do próprio território não era um dado natural, a resposta da juventude fundadora foi direta e simbólica ao mesmo tempo: escolheu ocupar a rua e fazer da travessia um eixo político. Atravessar significa reafirmar o direito de ir e vir. Significa recusar a lógica de ilhas dentro da favela. Significa dizer, com o corpo e com a bateria, que a Maré existe inteira, apesar das tentativas de dividir.

Essa escolha também aparece na identidade do bloco, nas cores e no símbolo. O laranja remete aos tijolos das casas construídas pela própria população e afirma a autoconstrução como resistência urbana. O verde aponta esperança ativa, ligada à organização coletiva. O preto assume luto e luta permanentes diante das violências que atravessam o território. A arruda, usada como marca do grupo, sintetiza proteção e firmeza. Ela não entra como adereço folclórico, mas como linguagem de cuidado e força, um jeito de dizer que a rua é festa, mas também é defesa da vida.

Chamada de Caranguejada, a bateria do bloco carrega também essa memória territorial porque seu nome faz referência aos mangues que existiam na Maré antes da ocupação por moradia, lembrando que a história do bairro tem a imagem das palafitas, da ocupação do Morro do Timbau, representado através da boneca que desfila no bloco, feita em homenagem à primeira moradora, Dona Orosina, mostrando para todos que a Maré é um local de residência.

O primeiro samba, em 2005, apresentou esse espírito de resistência, de convocação e pertencimento:

Se benze que dá
Pra passar oi…
Com esse samba
Pra passar oi…
Com esse samba
Essa é a galera da maré meu amor
Só tem gente bamba (2x)

Diante dessa integração entre memória, símbolo e som, é importante lembrar que uma das pessoas que fez parte da juventude fundadora do Se Benze que Dá foi Marielle Franco. O bloco, desde a origem, já era um espaço de militância, travessia e afirmação política da favela. A força coletiva dessa juventude, sua recusa em aceitar barreiras e seu compromisso com o território foram parte do terreno que também inspirou e formou trajetórias políticas como a dela. A memória de Mari no bloco não é uma homenagem externa; é o reconhecimento de que sua luta nasceu desse mesmo chão de organização popular, e que o samba, na Maré, sempre foi instrumento de defesa da vida e disputa por direitos.

Em 2019, o Se Benze trouxe para a rua um samba que homenageou vítimas da violência de Estado. O enredo “Dandara, Cláudia, Amarildo e Marielle” reafirmou que a luta não é abstrata. Ela é nomeada, é corpo, é memória de quem foi tirado da vida pela violência institucional. Os versos traduzem essa responsabilidade:

“Não por acaso preta é a cor da pele
Meus heróis não (só) morreram de overdose
O seu mito fake news estratégia de hipnose”

O refrão mantinha a marca do bloco, conectando amor, luta e ocupação da rua:

“O amor impera, no samba
Marielle é luta, de bamba
É carnaval, chegou a hora
Se benze que dá, vambora!”

E depois, reafirmando o território:

“O amor impera, no samba
Maré é luta, de bamba
É carnaval, chegou a hora”

Assim como Marielle se tornou semente e inspiração, o próprio Se Benze que Dá se transforma em referência e ponto de partida para novas gerações. Essa continuidade se materializa na Bateria Baforada, coletivo que está no seu segundo ano de desfile. Formada por uma juventude que se reúne na tabacaria Dreadlock, a Baforada assume o tambor como ferramenta de manifestação por direitos e afirmação cultural, construindo sua identidade com instrumentos próprios, mas também com parte dos instrumentos da bateria “Caranguejada” numa espécie de herança prática que circula junto com a ideia de travessia. O gesto é simples e cheio de significado, inspirando não apenas no discurso, mostrando na prática que o projeto não se encerra em si mesmo, é multiplicador, cria raízes e segue formando juventude mareense no compasso do samba.

Dando continuidade às multiplicações, o bloco que já nasceu para costurar o território chega ao seu 21º ano reafirmando uma característica que atravessa sua história: festa e consciência caminham juntas, sem neutralidade e sem perder a alegria. Em um ano marcado por eleições, o Se Benze que Dá coloca a política no centro do enredo para dialogar com a Maré sobre voto, responsabilidade pública e o risco de manipulação pela desinformação. O samba alerta:

“Ano de eleição, o voto é direção,
Não vai na onda fácil, nem na falsidade.
Fake news é armadilha, confunde a visão,
Olho aberto, povo esperto: é nossa dignidade.”

O refrão mantém o chamado histórico e a identidade do bloco, nas cores e na arruda, como linguagem de rua e de proteção coletiva:

“Se Benze que Dá! Se Benze que Dá!
É na Maré que o bloco vai passar!
Laranja, verde e preto pode reparar,
Com arruda na orelha ninguém vai nos parar!”

A mesma pedagogia popular que aparece no samba também surge no jeito de explicar o mundo sem empolar a linguagem, trazendo o papel das instituições para o chão da favela, como conversa pública em forma de refrão:

“Presta atenção, Maré: Congresso é pra legislar,
Pra criar direito pro povo, não pra retirar.”

Como extensão dessa memória construída na rua, a própria imagem vira ferramenta de disputa. No dia do desfile, uma exposição fotográfica vai apresentar o acervo do bloco, reforçando que o Se Benze não passa e desaparece. Ele passa e deixa rastro, registro e reconhecimento. As fotografias prolongam o desfile e acionam afetos do percurso, a distribuição da arruda, os sorrisos, os olhares curiosos, o samba no pé, o encantamento com a alegria e a reflexão que acompanha as mensagens de luta por direitos. Em um cenário de criminalização constante e de estigmas sobre moradores de favela, a exposição fortalece o direito à memória e ao reconhecimento do território, afirmando que a Maré também é arquivo vivo, presença e direito à cidade. Essas imagens, como confluências no sentido de Nego Bispo, nascem dos encontros e das vivências, com participação decisiva de quem é fotografado, porque o bloco é coletivo até no modo de produzir memória.

Este ano, o desfile do Se Benze que Dá acontece no dia 21/02. A concentração será às 11h, no Bar da Barraca Azul, na Rua Manoel Falcão – bloco 161 apto 208, em frente ao BDG – Conjunto Esperança (o Palace) – na mesma rua da Escola Teotônio Villela, a cinco minutinhos da Avenida Brasil, sentido Campo Grande.

Todos estão convidados a estarem presentes e fortalecerem um bloco que é símbolo de resistência, travessia e consciência em movimento.

Referências

G1. Incêndio em quadra de escola de samba na Maré deixa um morto. g1 Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 24 dez. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/12/24/imovel-pega-fogo-na-mare.ghtml. Acesso em: 13 fev. 2026.

RIOONWATCH. “Se Benze Que Dá” fecha o Carnaval 2024 da Maré. RioOnWatch, Rio de Janeiro, 2024. Disponível em: https://rioonwatch.org/?p=77376. Acesso em: 13 fev. 2026.

SE BENZE QUE DÁ. Página oficial no Facebook. Facebook, [s. d.]. Disponível em: https://www.facebook.com/. Acesso em: 13 fev. 2026. (Substituir pelo link exato da página do bloco.)

SE BENZE QUE DÁ. Perfil oficial no Instagram. Instagram, [s. d.]. Disponível em: https://www.instagram.com/. Acesso em: 13 fev. 2026. (Substituir pelo link exato do perfil do bloco.)

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (UERJ). Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BDTD). O Bloco Se Benze que Dá e o seu papel na sociabilidade da Favela da Maré. 2021. Disponível em: https://www.bdtd.uerj.br:8443/handle/1/17208. Acesso em: 13 fev. 2026.

UOL. Se Benze que Dá: Bloco de Marielle Franco derruba fronteiras invisíveis. UOL Notícias, São Paulo, 24 fev. 2019. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/carnaval/2019/noticias/redacao/2019/02/24/se-benze-que-da-bloco-de-marielle-franco-derruba-fronteiras-invisiveis.htm. Acesso em: 13 fev. 2026.

Notas:

1 https://wikifavelas.com.br/index.php/Dicion%C3%A1rio_de_Favelas_Marielle_Franco

2 https://wikifavelas.com.br/index.php/Carnaval_Popular_da_Estrada_Intendente_Magalh%C3%A3es

3 https://wikifavelas.com.br/index.php/Carnaval_Popular_de_Santana_de_Parna%C3%ADba_(SP)

4 https://wikifavelas.com.br/index.php/Cultura_popular_do_carnaval_de_Pernambuco

5 https://wikifavelas.com.br/index.php/Bloco_Se_Benze_que_Da

6 https://wikifavelas.com.br/index.php/Carnaval_de_rua_na_Mar%C3%A9

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