Sem justiça para os catadores, não há justiça ambiental

O paradoxo é evidente: enquanto governos e empresas promovem metas climáticas e políticas de economia circular, ignoram os trabalhadores que há décadas tornam essa economia possível

Severino Lima Junior, No Le Monde Diplomatique Brasil

No dia 1º de março de 1992, onze catadores foram assassinados em Barranquilla, na Colômbia, enquanto exerciam seu trabalho. A data se tornou um símbolo global de memória e resistência. Hoje, 34 anos depois, o Dia Internacional dos Catadores é também um alerta: trabalhadores essenciais para o futuro ambiental do planeta continuam enfrentando exclusão, insegurança e invisibilidade. 

Nós, da Aliança Internacional de Catadores de Materiais Recicláveis, representamos mais de 465 mil trabalhadores em 37 países. Somos responsáveis pela coleta, separação e reinserção de materiais que sustentam cadeias inteiras de reciclagem e evitam o colapso de sistemas de gestão de resíduos. 

Os números comprovam nosso impacto. Entre 2021 e 2024, catadores recuperaram 550 mil toneladas de materiais recicláveis em 14 países da América Latina, sendo 23% deste volume composto por plástico, um dos principais poluentes ambientais do planeta. Esse trabalho reduz emissões, preserva recursos naturais e fortalece a economia circular. 

No Brasil, a dimensão do trabalho dos catadores está longe de ser residual. Segundo o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), o país pode ter até 800 mil trabalhadores na atividade, já que grande parte atua de forma informal e fora dos registros oficiais. Ainda assim, são eles os responsáveis por cerca de 90% da reciclagem de resíduos sólidos urbanos, sustentando na prática a engrenagem da economia circular. Em 2013, a contribuição econômica desse trabalho foi estimada em até US$ 5,5 bilhões, valor que revela o peso financeiro de uma atividade historicamente invisibilizada nas políticas públicas. 

Ainda assim, continuamos sendo excluídos das políticas que moldam o setor. 

Em diversas regiões da África e da Ásia, o fechamento de lixões tem ocorrido sem qualquer plano de transição justa, eliminando milhares de meios de subsistência. Na Indonésia, centenas de lixões foram fechados sem negociação com os trabalhadores afetados. Na América Latina, a privatização crescente ameaça o acesso dos catadores a materiais e renda. Mesmo em países com sistemas formais de reciclagem, como nos da América do Norte e da Europa, catadores enfrentam estigma, baixa remuneração e falta de reconhecimento. 

O paradoxo é evidente: enquanto governos e empresas promovem metas climáticas e políticas de economia circular, ignoram os trabalhadores que há décadas tornam essa economia possível. 

Agora, novas ameaças emergem. A automação, a inteligência artificial e modelos de formalização excludentes podem deslocar centenas de milhares de catadores, aprofundando desigualdades em nome da modernização. 

Este 1º de março é uma oportunidade para reafirmar uma demanda urgente: a transição justa que reconheça os catadores como trabalhadores essenciais, garanta proteção social e assegure nossa participação nas decisões sobre o futuro da gestão de resíduos. 

Honrar os onze catadores assassinados em 1992, e os muitos outros que perderam suas vidas desde então, significa garantir que nenhum trabalhador seja deixado para trás. 

Sem os catadores, não há economia circular. E sem justiça para os catadores, não há justiça ambiental. 

*Severino Lima Junior é presidente da Aliança Internacional de Catadores. 

Deixe um comentário

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.

8 + quinze =