Uma anatomia do novo ato bolsonarista

Menor em público, mas afiada na estratégia, mobilização da extrema direita escancara o projeto de dominar o Legislativo em 2026. E também impõe um desafio de comunicação e linguagem política que a esquerda ainda tem dificuldades para decifrar

Por Glauco Faria, em Outras Palavras

O bolsonarismo realizou atos em diversas cidades do país neste domingo (1º). O maior deles ocorreu na Avenida Paulista e serviu a três propósitos bastante evidentes: promover ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF), criticar o governo federal e marcar, de forma oficiosa, o lançamento da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República.

Segundo o Monitor do Debate Político no Meio Digital (USP), em parceria com a ONG More in Common, o evento reuniu 20,4 mil pessoas em São Paulo e 4,7 mil no Rio de Janeiro. O público é menor se comparado à manifestação bolsonarista de 7 de setembro do ano passado, que atraiu 42,2 mil pessoas pela mesma metodologia. Ainda assim, não é um contingente que possa ser desprezado.

Afinal, o objetivo desse tipo de mobilização vai muito além do engajamento presencial. A meta da extrema direita é produzir imagens de multidão para abastecer as redes sociais e manter o tom triunfalista de sua base. Hoje, esse grupo está aglutinado em torno de fins político-eleitorais muito bem delineados. O alvo principal não é apenas a eleição presidencial, mas a conquista da maioria no Senado Federal, uma peça considerada fundamental para o avanço do campo político de Jair Bolsonaro (PL).

No último ato público em que esteve presente, em junho de 2025, Bolsonaro foi direto ao dizer: “me deem 50% da Câmara e do Senado que eu mudo o destino do Brasil, nem preciso ser presidente”. Se eleger metade das cadeiras de deputados federais é algo praticamente impossível para qualquer grupo político, conseguir uma bancada que alcance metade dos senadores é um objetivo difícil, mas plausível. Segundo esta matéria do The Intercept Brasil, de março do ano passado, das 27 cadeiras disputadas em 2022, os extremistas de direita conseguiram obter 14, ou seja, metade mais uma. No cálculo do site, foram considerados os parlamentares eleitos pelo PL, PP, Republicanos e Novo, alinhados ao discurso e prática do ex-presidente hoje encarcerado.

Já em 2026, estarão em disputa 54 cadeiras. O bolsonarismo atua para conquistar as 16 vagas que ainda não tem, além de manter as 11 cadeiras que já ocupa, para obter a maioria absoluta de 41 parlamentares na chamada Câmara alta. Em uma entrevista ao jornal Valor Econômico, concedida em 2024, o presidente do PP e ex-ministro de Bolsonaro, senador Ciro Nogueira (PI), apontava que a eleição do Senado é “a coisa mais importante da vida do Bolsonaro”. “Onde ele puder colocar um bolsonarista ele vai botar. Onde ele não puder botar um bolsonarista que ganhe, que tenha risco de perder, ele vai colocar um aliado”, pontuou.

Naquela ocasião, Nogueira citava como exemplo o estado de Santa Catarina, onde o grupo do ex-presidente, àquela altura, prometia apoiar Espiridião Amin (PP). “O Amin é bolsonarista? Não é. Mas está eleito, com o apoio do Bolsonaro. Então, ele [Bolsonaro] vai eleger um bolsonarista e o Amin. Vamos avaliar isso estado por estado”, explicou Nogueira. “A prioridade deles é o PL, não vou negar, mas ele [Bolsonaro] tem que ter maioria no Senado e ele sabe que o PL não terá 41 senadores, então tem que se juntar com a gente.”

Contudo, diante de um contexto favorável no estado, com a deputada federal Caroline De Toni (PL) liderando as pesquisas junto com o filho do ex-presidente, o ex-vereador carioca Carlos Bolsonaro (PL), recém-mudado para Santa Catarina, a legenda dos Bolsonaro optou pela “chapa pura” para a disputa, uma decisão que inviabiliza um arco de alianças mais amplo para o governador e candidato à reeleição Jorginho Mello (PL). O final do imbróglio tem um recado duplo: onde houver oportunidade de se eleger um “bolsonarista raiz” para o Senado, ele terá preferência diante de um aparentemente “moderado” e mesmo uma candidatura ao governo do estado pode ser colocada em um plano secundário diante da prioridade de se eleger senadores.

Marca “ideológica”

Isso pôde se confirmar ainda na declaração do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, homenageado na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) no fim de fevereiro. “Eu acho que nós sairíamos com uma vaga e provavelmente o Derrite com a outra. Essa é a minha opinião. Agora vai ter muita conversa pela frente. Acho que quem for o candidato do Bolsonaro ganha a eleição. Acho que ele vai pegar um camarada que tem a marca da direita. Mais ideológico, mais próximo dele, mais bolsonarista. Ele gosta disso”, afirmou, fazendo referência à escolha do parceiro de chapa do ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, deputado federal Guilherme Derrite (PP), pré-candidato em São Paulo.

Assim como em eleições recentes, parte decisiva do debate político ocorre no WhatsApp e no Telegram. Nessas bolhas de opinião, muitas vezes invisíveis aos radares dos partidos tradicionais, cresce um interesse silencioso pelas disputas ao Senado nos estados que ainda não reflete no debate público à luz do dia.

A sete meses do pleito, os dados de busca na internet já captam esse movimento. Um levantamento na plataforma Google Trends revela que o índice de interesse por candidaturas ao Senado foi 36 vezes maior (um salto de 3.500%) em janeiro de 2026, se comparado ao mesmo mês de 2022, ano da última eleição para a Casa. Essa explosão repentina nas buscas sugere um trabalho de base já em curso nos aplicativos de mensageria e em redes menos transparentes, o habitat natural da extrema direita brasileira.

O STF e o discurso da perseguição

No ato deste domingo, Flávio também abordou a questão da eleição para o Senado em seu discurso, associando-a aos ataques ao STF. Uma retórica antiga no segmento, mas que tomou outra feição com a conexão que tem sido trabalhada pelos extremistas como uma espécie de pauta unificadora para eleger futuros parlamentares.

“Continuam descumprindo a lei e eu quero deixar uma coisa aqui muito clara. Todos nós somos favoráveis ao impeachment de qualquer ministro do Supremo que descumpra a lei. E isso só não acontece hoje, porque ainda não temos maioria no Senado Federal”, disse Flávio. “Mas o povo brasileiro vai ter oportunidade esse ano de escolher candidatos que comprometam com o resgate da nossa democracia.”

Na fala do filho do ex-presidente, já se adianta a versão que vai nortear sua campanha. Primeiro, seguir com o mote da perseguição política e martirização de Jair Bolsonaro, algo que vem sendo posto em prática desde as primeiras revelações a respeito da trama golpista. Contudo, agora existe um reforço, já que boa parte da mídia corporativa elevou o tom de críticas relacionadas ao STF por conta da condução do ministro Dias Toffoli no caso do Banco Master. Aos extremistas de direita, é o que bastou para misturar em um mesmo balaio temas distintos em relação à Corte.

“Quando era com o Bolsonaro, fechavam os olhos, incentivavam, publicavam essa falsa narrativa de tentativa de golpe, porque era para atacar o Bolsonaro e para prender o Bolsonaro”, disse Flávio. “Nós sempre dissemos que o Supremo é fundamental para a democracia, mas estão destruindo a democracia a pretexto de defendê-la para atingir Bolsonaro. E agora a própria imprensa virou alvo e os mesmos métodos começam a ser questionados.”

Comparações, distorções e projetos

Para o embate presidencial, Flávio e o habitual patrocinador dos eventos bolsonaristas na Avenida Paulista, Silas Malafaia, deixaram evidente que o tema da corrupção será mais uma vez utilizado pelos extremistas, reforçando um estigma caro ao antipetismo e antiesquerdismo.

“O PT e seus puxadinhos impediram que mais de 40 ladrões que roubaram o povo aposentado fossem convocados. E eles dormiram no ponto. E o Lulinha vai ter que prestar contas dessa robalheira”, bradou Malafaia, confundindo de forma deliberada requerimentos de convocações, boa parte delas carecendo de sentido prático, com pretensos atestados de culpa. Afinal, como mostra a história política brasileira, uma CPI ou CPMI se presta justamente a esse tipo de discurso.

Se ao pastor coube, como sempre, a parte mais incisiva e agressiva do palanque montado, incluídos os ataques ao STF, a Flávio Bolsonaro couberam ataques ao governo, em evidente clima eleitoral, mas também trechos de sua fala que se afastaram um pouco do extremismo retórico do pai, buscando não só uma imagem de mais moderação como também falando a segmentos refratários ao sobrenome da família.

Para exaltar o governo anterior, o senador afirmou que “as mulheres eram verdadeiramente protegidas” naquele período, tentando um diálogo com um setor do eleitorado que tem maior rejeição ao extremismo de direita. “Foram mais de 40 leis sancionadas pelo presidente Bolsonaro em defesa das mulheres. A ministra Damares, na Operação Maria da Penha, mobilizou mais de 100 mil profissionais de segurança pública e prendeu mais de 26 mil agressores e assassinos de mulheres nesse Brasil”, disse.

Também mirou os jovens, argumentando que a gestão de seu pai teria trazido alívio financeiro aos estudantes, enquanto o atual governo falha em dar perspectivas à juventude. “A gente tem que lutar por essa geração que não tem mais expectativa, 80% dos nossos jovens, não tem mais expectativa de conseguir um emprego. Passados quase quatro anos desse governo horroroso do Lula, os jovens continuam sem nenhuma expectativa”, falou.

O pré-candidato do PL tem como alvo um grupo demográfico insatisfeito com o governo Lula e que aparece entre os mais insatisfeitos com o atual governo. Segundo a pesquisa Atlas/Intel divulgada em fevereiro, o índice de desaprovação à atual gestão alcança 58,6% entre eleitores de 16 a 24 anos e 63,4% no grupo daqueles que têm entre 25 e 34. Para se ter uma ideia da mudança de humor, estes dois segmentos eram os que mais davam vantagem a Lula sobre Bolsonaro na véspera do segundo turno de 2022, segundo a mesma Atlas/Intel. Entre 16 e 24 anos, o petista atingia 56,8%, alcança 54% no grupo dos 25 a 34. A pesquisa dava 53,2% de intenções de voto a Lula na ocasião.

Se é na comparação entre as duas gestões que o governo aposta para garantir uma vitória nas eleições presidenciais, Flávio mostrou que já trabalha com “vacinas”. “Na época do Bolsonaro, tinha gente ganhando 45, 50, 100 reais. O presidente Bolsonaro, no meio de uma pandemia, porque não roubava, tinha dinheiro para garantir que as pessoas mais vulneráveis tivessem o que comer e passou o Bolsa Família para um mínimo de 600 reais”, disse, fazendo uma confusão de datas e de programas, já que o Auxílio Brasil, que substituiu formalmente o Bolsa Família, foi elevado para 600 reais a três meses das eleições presidenciais de 2022, com garantia de ser pago apenas até o final do ano, evidenciando o caráter eleitoreiro.

O ato deixou a pista de que a extrema direita buscará vencer a corrida ao Planalto e garantir maioria no Senado com uma tática cristalina: usar distorções, fake news e discursos raivosos para inflar a rejeição do adversário.

Do outro lado, para o governo, a simples comparação de gestões já não deve bastar. Até pouco tempo atrás, essa estratégia seria suficiente para garantir um triunfo eleitoral. No entanto, em uma era de bolhas informacionais e barreiras de comunicação, é preciso ir além. O discurso e a prática terão que oferecer algo a mais para resgatar o engajamento e superar o desencanto daqueles que ainda podem ser convencidos.

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