Em sociedades cada vez mais desiguais, maiorias vivem o inferno do trabalho massacrante e sem futuro, da pobreza e do impossível desfrute coletivo. Mas também os ricos, ainda que opulentos, debatem-se em competição por dinheiro e em vidas sem sentido
Por Ladislau Dowbor, em Outras Palavras
I look at all the lonely people…
Beatles, 1966
Algumas coisas vão muito além da América Latina, elas nos dizem respeito como seres humanos. Certamente precisamos de uma análise social geral, mas como nos sentimos nesta sociedade, como indivíduos, como famílias, como bairros ou comunidades, também é essencial para nosso bem-estar. Isso vai muito além da economia e das lutas de classes. Envolve pessoas sentadas em ônibus ou no metrô, longas horas para ir a escolas ou empregos, um cenário desanimado de pessoas grudadas em seus smartphones. Os beneficiados nem sempre estão melhor: filas de carros, cada um com um indivíduo impaciente e irritado com o trânsito. Quanta lentidão, considerando que muitos compraram o carro entusiasmados com números impressionantes de velocidade que ele pode alcançar em segundos. Em São Paulo, a perda média diária de tempo no transporte chega a 3 horas, e mais de 5 para pessoas mais pobres que vivem nas periferias. Você poderia estar estudando, fazendo algo útil, passando tempo com sua família. Bem, o PIB sobe, então temos mais carros e mais tempo desperdiçado. A velocidade média dos automóveis em São Paulo caiu para 14 quilômetros por hora, e mais carros estão chegando. Mais PIB. Uma cidade se paralisar por excesso de meios de transporte é até curioso. Shanghai e Beijing têm cada uma mais de mil quilômetros de linhas de metrô. São Paulo tem 104.
Isso, é claro, é apenas um aspecto da nossa reorganização social. Nascemos com cerca de 33 mil dias pela frente, é o nosso capital mais precioso, o tempo das nossas vidas. O que fazemos com ele? Correndo atrás de mais dinheiro? Pesquisas sobre como nossa qualidade de vida está correlacionada com nossa prosperidade financeira são interessantes: se você é muito pobre, cada quinhentos reais a mais por mês faz uma enorme diferença, alimentando melhor seus filhos, melhorando sua casa e assim por diante. O dinheiro na base – a base aqui é cerca de dois terços da população, com enormes diferenças entre países – é radicalmente mais útil e produtivo do que o dinheiro no topo. Quando você alcança o que Tom Malleson chama de “uma vida confortável e florescente”, a felicidade dependerá não de mais dinheiro, mas da vida familiar, amigos, ambiente cultural, a sensação de estar fazendo algo útil, o que podemos chamar de uma vida socialmente rica. O resto, passar a vida acumulando mais dinheiro, mais milhões, hoje em dia ainda mais bilhões, não tem a ver com uma vida rica, mas com ego. Muitas pessoas só conseguem sentir que estão subindo se conseguirem empurrar outras pessoas para baixo ou olhar para elas de cima. Na verdade, para onde estamos indo? Nosso capital do tempo está voando.
Moro em São Paulo, mas passei muitos anos em diferentes países africanos, Ásia, América Latina e Central, além de países ricos do que hoje chamamos de Norte Global. Na África, em particular, já morei em comunidades com casas de verdade, famílias grandes, muitas crianças correndo, avós, uma tia maluca, pouca privacidade, mas gritos e risadas. Isso deu lugar a um estilo de vida individualizado, apartamentos, TVs, smartphones, laptops, talvez uma esteira, um eventual companheiro. Os casamentos no Brasil hoje duram em média 14 anos, nem perto do “até que a morte nos separe”. O tecido social está se deteriorando? O que está acontecendo não é sempre negativo, sair da pobreza é um enorme progresso, e mulheres que estavam presas à identidade materna rígida e à gestão do lar estão encontrando novos espaços para florescer. Além da abordagem do bem e do mal, parece útil ter uma visão geral de como a sociabilidade está mudando. Tendências diversificadas, mas poderosas. Isso certamente nos diz respeito a todos na América Latina, mas vai muito além disso. Olhar para a vida cotidiana é essencial. Afinal, somos pessoas sociais.
A maldição da desigualdade
Uma questão fundamental da sociabilidade é a desigualdade. A Forbes nos traz um número básico: 3028 adultos, em 2024, possuem uma riqueza total de 16 trilhões de dólares, três vezes mais do que a metade mais pobre da humanidade. O UBS, no Relatório Global de Riqueza 2025, mostra que a riqueza dos 41% dos adultos mais pobres tem apenas $2,7 trilhões, 0,6% do total. Os 1,6% de adultos no topo da pirâmide da riqueza possuem US$226 trilhões. Esse é o tamanho do absurdo. Não se pode ter uma sociedade vivendo em paz e garantir que nossos recursos sejam direcionados para o que precisamos, quando a maximização do lucro no topo prevalece nesse grau. A maioria das pessoas tem dificuldade em visualizar números grandes, quanto mais trilhões. Mas não está fora do alcance da razão: a desigualdade atual é uma doença social estrutural, afetando profundamente o convívio social.
Não é inevitável, uma tendência natural. O PIB mundial, o que produzimos em bens e serviços durante 2025, é de cerca de 115 trilhões de dólares em valor nominal. Isso por si só significa que o que produzimos no mundo equivale a quase $5 mil por mês por família de quatro pessoas. Na verdade, esse é o valor nominal, mas um dólar americano compra muito mais em tantos países do que nos EUA. Em dólares de paridade de poder de compra (PPC), o que produzimos equivale a US$ 200 trilhões, equivalente a US$ 8 mil por mês por família de quatro pessoas, mais de 40 mil reais. Isso é amplamente suficiente para assegurar uma “vida confortável e florescente” para todos, nos termos de Tom Malleson. Nosso desafio não é econômico, no sentido de falta de recursos: é uma questão de organização social e política. Podemos chamar isso de desafio da governança. A América Latina é particularmente desigual, e as raízes desse absurdo estão no sistema global de governança.
Tomando o exemplo brasileiro, nosso PIB em paridade de poder de compra é de 4,7 trilhões de dólares, próximo à média mundial de 8 mil dólares por mês por família de quatro membros, estamos na média mundial. Muitos países estão em um nível muito mais baixo, mas o fato essencial é que, pela primeira vez na história humana, o que produzimos no mundo é mais do que suficiente para nossas necessidades. Claro que deveremos adaptar o que produzimos (mais produção adequada às necessidades básicas na base), para quem (redistribuição do poder de compra para os três quartos mais pobres da humanidade) e a que custo para o meio ambiente. É o triplo desafio: uma sociedade economicamente viável, mas também socialmente justa e ambientalmente sustentável.
Tudo que temos de fazer está devidamente descrito, com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), até detalhados em 169 metas. As corporações estão plenamente cientes e afirmam seguir os objetivos equivalentes ESG (Meio Ambiente, Social, Governança). Está acontecendo alguma coisa? Tivemos um confronto de interesses na COP-30 em Belém, em novembro de 2025. Nenhum avanço estrutural foi alcançado, continuamos discutindo, mesmo com os dramas da desigualdade e desastres ecológicos se acelerando. O que estamos vivendo foi adequadamente chamado de catástrofe em câmera lenta (slow-motion catastrophe) É precisamente isso que está acontecendo, enquanto temos todos os recursos financeiros necessários, as tecnologias, os detalhes do que fazer, além de todas as estatísticas sobre o drama que se desenrola. A questão central não está nos dramas, mas na nossa incapacidade de enfrentá-los. Governantes americanos sérios até querem aprofundá-los. Drill, baby, drill.
A desigualdade é a questão central para a América Latina. Isso gera algumas formas de sociabilidade rica em comunidades urbanas pobres, temos sambas, cumbias, e carnavais, mas a pobreza geral e a discriminação tornam a convivialidade difícil e as tensões permanentes. Criamos diferentes mundos econômicos, sociais e culturais dentro de nossos países e em nossas cidades, com conflitos permanentes e crescentes. A violência frequentemente toma conta. Os pobres não são mais apenas pobres, eles estão ansiosos e frustrados. Atualmente, são pessoas informadas que sabem que poderiam ter um bom suporte de saúde e escolas melhores para seus filhos. E frequentemente tendem a votar em quem traz discursos de ódio mais fortes, expressando suas frustrações. Os migrantes expulsos dos EUA geram novas pressões e também atingem muitas famílias que dependiam de transferências de dinheiro. No geral, a fratura social gerada pela desigualdade de riqueza e renda, tanto dentro quanto entre países, não é apenas injusta, é explosiva. Desigualdade econômica também significa fraturas sociais.
Atividades sociais: crescer
Na minha infância em São Paulo, Brasil, lembro que minha mãe ficava rouca para nos tirar da rua para almoçar. O mundo era nosso para explorar, e identificar atrás do que você tinha de correr, e do que tinha de fugir. Jonathan Haidt menciona em A geração ansiosa a fragilidade social das crianças superprotegidas se refugiando em seus smartphones, com pouca liberdade ou aprendizagem de interação social. Em regiões mais pobres, a exclusão digital leva a gangues e violência nas ruas. Mas não é um problema só para as crianças. A vida social foi empobrecida e profundamente transformada para todos. Não ter um smartphone hoje em dia leva à exclusão digital e a mais violência. No geral, para os jovens, mais tempo é passado diante das telas do que em aula. A educação é diretamente impactada.
Em partidas de futebol, vemos milhares de pessoas gritando, se empurrando, uma explosão de convivialidade, a felicidade encontrada ao berrar recomendações para a mãe do árbitro. Na TV, onde a partida é assistida por crianças que ouvem a torcida cantando músicas agressivas ou grosseiras, o comentarista de TV as parafraseia para garantir sua inocência. Bem, a explosão no estádio é libertadora, mas só algumas horas, distantes semanas. Quando criança, não assistíamos partidas, jogávamos. E gritávamos ou xingávamos de maneira saudável. Isso é só nostalgia do passado? Temos uma perda de convivialidade, e a convivialidade virtual simplesmente não é a mesma coisa.
Aqui também vemos como a desigualdade afeta a infância. A Zona Leste de São Paulo é chamada de periferia, mas com 4 milhões de habitantes, é maior que muitos países e carece de qualquer infraestrutura básica para convivialidade, apenas moradias lotadas e um pouco de futebol improvisado nas ruas. E gangues, claro. Vejam os estudos do Nossa São Paulo, ou os mapas de Aldaíza Sposati. No Brasil, a polícia matou em média 17 pessoas por dia em 2023. E não temos pena de morte. Milhões de crianças passam fome todos os dias, não poderíamos pelo menos assegurar a alimentação delas? Quão absurdo esse sistema pode ficar? Quanta luta foi necessária para assegurar o modesto Bolsa Família! Isso vai além das convicções políticas, trata-se da decência humana. A produção diária per capita de grãos brasileira equivale a mais quatro quilos, mas está nas mãos dos comerciantes globais de commodities. Vai para as exportações: a maximização do lucro corporativo é muito mais forte do que as necessidades básicas da população. Podemos ter bairros pacíficos, convivialidade?
A erosão da vida familiar
Outra transformação central é a estrutura familiar. Certamente varia conforme o país ou a comunidade, mas, no geral, esse elemento-chave da organização social mudou. Aqui na figura abaixo vemos o exemplo americano: entre 1960 e 2023, o que era o modelo de estilo de vida americano, um casal com filhos (se possível, com TV, carro, gramado e churrasco) foi reduzido de 44,2% das famílias para 17,9%. Políticos ainda continuam se referindo às famílias como o fundamento sagrado da sociedade, assim como os pastores da igreja, mas é melhor eles se informarem. Na verdade, as pessoas que moravam sozinhas representavam 13,1% dos domicílios em 1960, enquanto atualmente representam 29,0%. Isso é uma profunda fratura da sociedade. Se adicionarmos casais casados sem filhos, isso significa que “58,4% dos domicílios americanos agora são compostos por adultos casados ou solteiros sem filhos”, conforme comentado no gráfico. Também temos parceiros solteiros e pais solteiros. A questão central não é apenas a perda das ruas e da convivialidade comunitária, e a obsessão por smartphones, mas também a desagregação familiar.
Esse número mostra os EUA, mas na América Latina estamos vivendo a mesma tendência, e é útil ter essa referência. No Brasil, de acordo com o Censo de 2022, cerca de 13,6 milhões vivem sozinhos, representando 19% dos domicílios. A proporção está crescendo rapidamente, com o número de domicílios unipessoais saltando de 12,2% em 2012 para 18,6% em 2024. O envelhecimento e a taxa de separações desempenham um papel importante. Em 2022, 11 milhões de mulheres criam seus filhos sozinhas, o que já é chamado de monoparentalidade feminina, com quase metade das mães criando seus filhos sem o pai e enfrentando desafios financeiros e emocionais. De acordo com o censo de 2022, 5,6 milhões de pessoas com mais de 60 anos vivem sozinhas, e com o tempo de vida mais longo, isso causa situações preocupantes, pobreza, solidão e abandono.
A tendência é forte e diz respeito a muitos países diferentes, como visto no gráfico acima. Também é impressionante que países mais ricos tenham mais pessoas vivendo sozinhas. Estamos construindo elites mais ricas, em termos de dinheiro, mas não sociedades mais ricas, em termos de convivialidade e enriquecimento cultural. As novas gerações são particularmente vulneráveis a essa mudança na estrutura familiar. A figura abaixo apresenta dados até 2005, mas a tendência fica evidente. No Brasil, a porcentagem de crianças de 0 a 14 anos vivendo apenas com mães em áreas urbanas aumentou de 19,3% para 26,6% durante o período de 1995 a 2005. A tendência é forte em praticamente todos os países da América Latina.
Segundo The Economist, “pessoas em todo o mundo rico vivem e comem cada vez mais sozinhas. A parcela de domicílios com pessoas sozinhas (single households) no mundo deve aumentar de 28% em 2018 para 35% até 2050, segundo a ONU. Como resultado, mais pessoas agora comem e relaxam em frente às telas.”1
Se considerarmos o nível de urbanização (87% no Brasil), a divisão de espaço entre bairros ricos e pobres, a erosão da vida familiar, a ausência de infraestrutura básica de convivialidade nas partes mais pobres, a falta de recursos, tanto monetários quanto de serviços sociais, isso é simplesmente insustentável. Considerando a capacidade de produção global e o desperdício gerado em geral, isso é simplesmente absurdo. Incompetência sistêmica. Mão invisível? Qual é o limite da ignorância?
As fraturas intergeracionais
De outro ponto de vista, o vínculo colaborativo intergeracional foi em grande parte rompido. Nas famílias tradicionais, por milhares de anos, ter filhos significava que, quando os pais eram mais velhos e não estavam mais aptos para trabalhar, os filhos que se tornaram adultos cuidavam deles, enquanto geravam novos filhos. Assim, o equilíbrio entre a idade adulta produtiva e o tempo tanto dos filhos dependentes quanto dos idosos foi garantido em uma cadeia de solidariedade intergeracional. O que acontece quando temos a maioria adulta sem filhos que vimos acima?
Nos países nórdicos, por meio do apoio a políticas sociais públicas, casas de repouso decentes e assistência médica gratuita para a população idosa, o que as famílias costumavam oferecer agora é garantido em uma escala mais ampla. Nos pequenos apartamentos de famílias nucleares, não há espaço para avós, mas pelo menos há apoio público. Em países como os EUA, mas especialmente no Brasil, para os idosos, há uma diminuição do apoio familiar e pouca política social. E casas de repouso privadas são dramaticamente caras e mal administradas. A ansiedade sobre nosso futuro como pessoas mais velhas já é sentida na meia-idade da vida. Precisamos disso? Casas de repouso se tornaram uma indústria, um novo modo de exploração, como vimos com tantos escândalos. Eles fazem bons investimentos financeiros, mas colocar pessoas mais velhas em uma espécie de sala de espera, com algumas visitas periódicas da família, é, no mínimo, preocupante. Convivialidade? A convivialidade é essencial. O abandono dos idosos de poucos recursos é um escândalo. Políticas sociais são simplesmente necessárias. Austeridade para quem? Leiam Clara Mattei.
Ambiente de trabalho
Há mais tendências de erosão dos vínculos sociais. O espaço de trabalho era uma área essencial de convivialidade. Todos nós já vimos os tradicionais campos de arroz na Ásia, com filas de mulheres cantando enquanto transplantam juntas os brotos. No ambiente industrial, grandes grupos de trabalhadores sentiam que tinham desafios comuns, se organizavam em sindicatos, se sentiam presos a lutas semelhantes e tinham muitos contatos. No ambiente atual dominado pela tecnologia e algoritmos, o espírito de solidariedade da classe trabalhadora perdeu grande parte de sua força; é frequentemente cada um por si. É diferente em muitos ambientes de trabalho, claro, mas, no geral, a sensação de que você está colaborando para algo útil, construindo um futuro para si mesmo, mas também contribuindo para uma tarefa colaborativa comum, perdeu muita força. A fragmentação social do espaço de trabalho, especialmente com o trabalho isolado em computadores, está se aprofundando. O ambiente de trabalho baseado na competição em tantas corporações que adotaram o sistema doentio de Jack Welch é característico.2
Os tempos do Uber não são socialmente enriquecedores. A iFood não é melhor, seja para os motoboys ou para quem espera uma pizza ser entregue em vez de sair para comer com amigos. Com o sentimento crescente de solidão ou isolamento em diferentes lares, cidades ou ambientes de trabalho, muitas pessoas buscam refúgio nas múltiplas igrejas locais onde — ao contrário da tradicional concentração espiritual católica silenciosa em grandes edificações — podem dançar, cantar, gritar, ser instruídas em como devem levar suas vidas, como se tornarão ricas se Deus as ajudar, E, enquanto isso, contribuem financeiramente para a vida de tantos pastores. Em vez de uma questão de divindade, trata-se do calor humano. Elas podem sentir que pertencem a um grupo social, que afinal há algum significado. Mas certamente estamos longe de um sentimento de solidariedade comunitária de construir nosso futuro juntos, e sim um ajeitamento temporário. Pode ajudar tão bem com o estresse geral que atualmente temos pastores bilionários. Deus pode realmente ser generoso.
Convivialidade urbana
Um fator importante é que a organização urbana é muito mais centrada na regulação do trânsito do que na geração de espaços de convivialidade. Uma cidade como Toronto oferece muitos espaços públicos verdes, com jogos de boliche para idosos e piscinas escolares abertas para toda a comunidade. Já vi pegadas de crianças pintadas nas calçadas de cidades italianas, espaços protegidos para crianças caminharem com segurança, sentindo que é a cidade delas, e também se sentem em casa nos espaços públicos. Em Lausanne, a prefeitura treinou estudantes para cuidarem dos idosos de seu bairro ou do seu prédio, com um salário pequeno e no tempo livre, em vez de depender de mais asilos. Contribui para a solidariedade local e amizades entre gerações.
No Brasil, Celio Turino organizou uma rede de pontos de cultura, com apoio público para jovens que desejam desenvolver atividades artísticas. Milhares surgiram, e a interação online ajudou a estimular a criatividade em vez de depender das redes sociais globais e passivas. Em uma experiência no bairro de São Paulo chamado Casa Verde (com 86.000 moradores), criamos uma plataforma colaborativa local que estimula interações online dentro da comunidade, pequenos negócios e atividades culturais. Em vez de manipulação global, podemos controlar as novas tecnologias na base. As cooperativas de plataforma estão crescendo em muitos países. Os exemplos são abundantes, as pessoas estão descobrindo que, em vez de lutar por “curtidas” nas redes sociais globais, você pode criar redes colaborativas locais que reforçam a interação comunitária. Organizações comunitárias têm um enorme espaço para florescer, por exemplo com plataformas cooperativas.3
As situações nesse ambiente fragmentado são extremamente diversificadas; por exemplo, condomínios fechados estão se multiplicando, espaços isolados de luxo com regras rígidas e sentimentos absurdos de pertencimento às elites. Em distritos pobres, as situações são radicalmente diferentes, e a desigualdade tornou-se uma causa essencial da divisão econômica e cultural, marcada por tensões e violência. Estudos sobre Rio de Janeiro e São Paulo, de Bruno Manso — A Fé e o Fuzil — mostram como, na ausência de uma convivialidade saudável e das infraestruturas necessárias, um ambiente destrutivo surgiu, juntando-se a milícias ilegais, a polícia, gangues de tráfico de drogas, igrejas neopentecostais e política populista, formando um ambiente social opressor.4 Os fanatismos políticos navegam com conforto nestes ambientes. Trump, Milei e tantos outros…
A indústria de atenção
A erosão da vida familiar tradicional tem impactos óbvios na nova geração: crianças solitárias, com pais ausentes no trabalho, nunca ter espaço livre e seguro para circular, escolhas individualizadas, ser constantemente orientado sobre o que fazer e como se comportar, seja na escola ou nos diferentes suplementos em aulas especializadas, ou
analistas iniciais. No tempo livre restante, ficam grudadas no smartphone, tentando conseguir o máximo de “curtidas” possível, ansiosas com respostas negativas ou críticas. E recebem toda a pornografia que quiserem: o smartphone não é um bairro, uma rua com amigos. Haidt, como visto, escreve extensivamente sobre como isso criou a Geração Ansiosa. Para as crianças, não é mais o colo do vovô e o questionamento curioso sobre o passado.5
Max Fisher, em The Chaos Machine6, explica como não existe livre circulação na internet; é baseada em algoritmos que maximizam a atenção. Na TV, pulando pelos canais de filmes, praticamente todos me alertam sobre conteúdo: sexo, drogas, violência. Isso chama mais atenção, então é isso que Hollywood nos alimenta, com sexo, brigas e carros acelerados. É a indústria da atenção, seus custos estão na maximização de visualização e nos preços que pagamos ao fazer compras. Mais de 10% do que pagamos nas lojas vai para o ramo de marketing: pagamos para atrapalhar nosso tempo livre, e eles repetem que estão “nos oferecendo” o programa. Os bilhões que as redes sociais estão lucrando são extraídos por meio da publicidade, mais de 70% para o Google, 98% para o Facebook. Como os lucros obtidos com a publicidade dependem do “engajamento”, tempo de atenção por parte de milhões de usuários ativos diários (mDAUs), busca-se maximizar a atenção, seja por violência, discursos de ódio, sexo ou pornografia pura. Também nos fazem comprar besteiras, mas é essencial entender que se apropriam do tempo consciente da nossa vida, da nossa atenção, do tempo das nossas vidas. Antigamente um vendedor tocava a campainha das casas. Hoje invade nossa atenção em permanência. Para os algoritmos que mandam mensagens aos bilhões, a nossa vida é “spam”.
Isso é para o mundo online. Mas o fato é que a divisão digital se tornou um fator importante de exclusão, assim como o analfabetismo foi há algum tempo (e frequentemente ainda é). O resultado é que comunidades mais pobres ou se sentem excluídas ou têm acesso muito reduzido à inclusão digital plena. O roubo de celulares tornou-se uma indústria, aumentando o medo e a insegurança. Mas a questão principal é o conteúdo, a invasão de tanto lixo, assim como o isolamento de bilhões de pessoas grudadas em suas telas. As pinturas de Edward Hopper seriam apenas um prefácio do que realmente está acontecendo. Também tivemos A solidão do corredor de longa distância, um belo filme de 1962, espiando o futuro. Bem, tenho 85 anos, não é apenas saudade do passado, é uma visão de longo prazo sobre as mudanças estruturais que enfrentamos: nasci antes da TV, quando o mundo estava ocupado em destruição global.
Espaço urbano e reorganização comunitária
Não se trata apenas de se as tendências são boas ou ruins, mas sim de entender a profundidade da mudança estrutural e aproveitar novas oportunidades. Estamos conectados pela internet, e essa nova conectividade abre capacidades criativas de colaboração. Para as mulheres, em particular, as oportunidades cresceram muito além da maternidade, e a mudança na estrutura familiar vista acima certamente está ligada à tecnologia contraceptiva, mas também à mudança geral na estrutura social. A sociabilidade pode ser reconstruída de novas maneiras, por meio de políticas urbanas, redução da jornada de trabalho e expansão das atividades culturais, inclusão digital, entre outros. Também significa que reorientamos a lógica geral de nossas economias, desde a maximização de renda para o topo da pirâmide social até iniciativas colaborativas centradas em residências, comunidades, uso inteligente da conectividade online, bem como uma vida cultural mais rica. Não se trata apenas do crescimento do PIB, mas da qualidade de vida e do bem-estar social.
A urbanização é uma questão central. É impressionante que estejamos muito mais próximos uns dos outros, frequentemente encavalados, mas muito mais isolados. A figura acima mostra a América Latina e o Caribe com 77,4% de população urbana, e uma projeção de 84,3% para 2030. O documento completo apresenta também os desafios do crescimento das populações envelhecidas nos bairros.7
Com o que produzimos hoje e as tecnologias que temos, não se trata de não ter os meios, mas sim de reorganização social e política. Repetir que The business of business is business, portanto absolver interesses econômicos das consequências sociais e ambientais, ou a recusa machista da assistência social como um “Estado babá”, nanny state — tudo isso é simplesmente estúpido. Ter uma vida digna pode ser assegurado a todos, não é guerra por vantagens, é solidariedade humana e inteligência elementar.
Aumentar o prazer de viver para todos, é disso que se trata. O Relatório Mundial da Felicidade de 2017 comenta: “O paradoxo central da economia americana moderna, conforme identificado por Richard Easterlin (2016), é este: a renda per pessoa aumentou cerca de três vezes desde 1960, mas a felicidade medida não aumentou. A situação piorou nos últimos anos: o PIB per capita continua subindo, mas a felicidade agora está realmente caindo.”8 (181)
A Revolução Digital: do controle global à livre colaboração
A revolução digital que enfrentamos está redesenhando a sociabilidade, e temos isso em comum com a humanidade em geral. Inicialmente vista como uma imensa oportunidade para comunicação livre e inteligente, ela foi apropriada por gigantes da alta tecnologia com conteúdo invasivo baseado na apropriação de informações privadas e marketing comportamental. Tornou-se um sistema em escala mundial, levando ao que Shoshana Zuboff chamou de A Era do Capitalismo da Vigilância.9 Como vemos na figura abaixo, seu valor ultrapassa US$15 trilhões, sete vezes o PIB do Brasil, e se acelera em um ritmo impressionante. Mas, mais importante ainda, o alcance deles é global, com restrições, por exemplo, na China, mas na América Latina e em outras partes do mundo precisamos usá-las. Isso se chama monopólio de demanda, para comunicar eu preciso usar o que os outros estão usando. O império está no nosso bolso.
Com a atual revolução da IA, a computação em nuvem e os data-centers nas mãos deste mundo corporativo global, o próprio conceito de soberania está sendo substituído. São sete gigantes planetários. Podemos adicionar Palantir como um elo importante entre o mundo da informação e os sistemas de segurança e militares americanos. A decisão do governo Trump em 2025 de reinstalar a Doutrina Monroe, permitindo intervenção direta na América Latina, mostra a dimensão dos desafios. No âmbito nacional brasileiro, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (2025), projetado para que a IA sirva ao bem comum, busca criar “um ecossistema de IA que seja responsável, inclusivo e sustentável, colocando o bem-estar humano e o desenvolvimento nacional no centro de suas prioridades – servindo de exemplo para o mundo.”10 (46)
O presidente Lula ressaltou a necessidade de desenvolver e adotar uma tecnologia que melhore a vida dos cidadãos brasileiros, baseada em princípios éticos e não discriminatórios, servindo de exemplo para o mundo. Em suas palavras, “uma inteligência artificial para ajudar na saúde, para ajudar a cuidar dos pobres, para melhorar a descarbonização do planeta Terra, e não uma inteligência artificial para contar notícias falsas todos os dias aos ouvidos e olhos de bilhões e bilhões de seres humanos.” (13) Isso envolve “desenvolver novos modelos regulatórios e organizacionais, e estabelecer parcerias internacionais estratégicas.” (20) O objetivo geral é garantir que a função social da revolução digital seja resgatada. Entre as oportunidades, o desenvolvimento de soluções de IA para problemas locais: a capacidade de criar soluções adaptadas às necessidades específicas do Brasil pode gerar inovações relevantes para outros países em desenvolvimento. Na verdade, a mesma tecnologia que tem sido amplamente usada para manipulação pode promover inclusão social, reduzir desigualdades e garantir conexões mais profundas entre comunidades. A IA, levando em consideração as populações originais, também está sendo construída e pode ser libertadora.
Sociabilidade é muito mais do que romper o isolamento social e a fragmentação gerados pela indústria da atenção que vimos acima, trata-se de reconstruir o tecido social, unir pessoas, como eram os primeiros sonhos de conectividade e livre circulação de informações. Isso não é apenas sobre Brasil e América Latina, é sobre todo o mundo em desenvolvimento, e os Brics certamente terão um papel importante a desempenhar. A revolução digital exige novas formas de organização e apresenta enormes oportunidades.11 As plataformas colaborativas locais constituem um imenso potencial subutilizado.
Sociedade do conhecimento: meios de produção ao nosso alcance
Mustafa Suleyman, em seu livro A próxima onda, (2023), resume claramente as imensas oportunidades que surgem com o acesso ao conhecimento em suas diversas dimensões: “A soma de milhares de anos de erudição e investigação humana está disponível com o toque de um botão.”12 (152) No capitalismo industrial, os humanos controlavam as máquinas. Com a revolução digital, os humanos controlam os sistemas que controlam as máquinas. A ciência tornou-se o principal fator de produção. É imaterial, e uma vez que cobrimos os custos da inovação, ela pode ser socializada em todo o mundo sem custo adicional, no que Jeremy Rifkin chamou de Sociedade de Custo Marginal Zero.13 (2015). Por exemplo, podemos garantir acesso online a tantas tecnologias para centenas de milhões de unidades de agricultura familiar ao redor do mundo.14 Mais máquinas significam custos altos, conhecimento é um bem comum.
Mas conter o acesso ao conhecimento tornou-se uma ferramenta importante de apropriação de valor. “A onda que vem vai cair em um ambiente inflamável, incompetente e exagerado. Isso torna o desafio da contenção – de controlar e direcionar tecnologias para que sejam benéficas para a humanidade – ainda mais assustador… Catalisador chave de instabilidade e ressentimento social, a desigualdade aumentou em nações ocidentais nas últimas décadas, e em nenhum lugar mais do que nos Estados Unidos. Entre 1980 e 2021, a parcela da renda nacional obtida pelo 1% mais rico quase dobrou e agora está pouco abaixo de 50%. A riqueza está cada vez mais concentrada em um pequeno grupo.” (Suleyman, p.153)
Podemos entender a propriedade privada de meios de produção como máquinas, mas restringir o acesso ao conhecimento e à ciência em geral é absurdo. A competição foi a principal base organizacional do capitalismo industrial, mas a produtividade na sociedade do conhecimento é maximizada por meio da colaboração. Elinor Ostrom e Charlotte Hess estavam certas, chamaram isso Understanding Knowledge as a Commons, entender o conhecimento como bem comum.15 (2007) A colaboração gera um tipo diferente de sociabilidade, não a guerra de todos contra todos que enfrentamos. O controle do acesso ao conhecimento, por meio dessa selva de patentes, direitos autorais e royalties, não estimula a inovação, mas gera rentismo improdutivo. O comportamento da Big Pharma é só um exemplo. A colaboração em vez da ganância durante a pandemia de Covid poderia ter salvado milhões de vidas. Repetindo: na era do conhecimento, a colaboração é muito mais produtiva do que a competição.
Plataformas de colaboração: restauração da sociabilidade produtiva
Os desafios são enormes, mas as oportunidades também. Em todo o mundo, novas formas de organização social e colaboração estão surgindo. Trebor Scholtz, em Own This: how platform cooperatives help workers building a democratic internet,16 nos traz uma visão geral de como a conectividade é reconstruída por meio das plataformas cooperativas, com um grande número de exemplos.
A força do livro de Scholtz é apresentar como o “sinal” desse universo tecnológico pode ser invertido, do negativo para o positivo, precisamente por meio de sua apropriação na base da sociedade. Muitas cidades estão gerando sistemas colaborativos de gestão em rede, apropriando-se dos mecanismos de gestão da informação (soberania de dados) e colocando o sistema a serviço da comunidade. Isso gera o que o autor chama de cidades inteligentes, baseadas em princípios cooperativos digitais. (168) Devemos repensar de forma mais ampla o processo de tomada de decisão que nos governa. “O Estado-nação individual é grande demais para garantir um envolvimento significativo, mas pequeno demais para lidar com questões globais. Nesse sentido, a Aliança das Cidades Rebeldes emergiu como um movimento progressista de cidades e municípios, incluindo Kerala na Índia, Emilia-Romania na Itália, a região basca autônoma e Catalunha na Espanha, Nova York e Califórnia.” (169)
Essa aliança, segundo o autor, “visa expandir e fortalecer o movimento, fomentando redes entre seus membros. Essas redes facilitam a troca de dados, kits de ferramentas e modelos financeiros que podem ser usados entre as cidades. Eles também permitem que os municípios comuniquem sucessos políticos entre fronteiras, colaborem em avanços tecnológicos e aproveitem o imenso potencial de seus esforços coletivos. Essas colaborações resultaram na implementação de políticas que dão preferência às empresas de propriedade dos trabalhadores na licitação por meio de mandatos de compras.” (169) Trata-se, na verdade, de “aproveitar as oportunidades e desafios únicos da era digital.” (7)
Na verdade, tudo isso é sobre recuperar o imenso potencial das novas tecnologias, que certamente provaram o quão perigosas elas podem ser – A próxima onda, de Mustafa Suleyman, é abundante em exemplos – mas podem ser úteis para reconstruir nosso tecido social. Não é a tecnologia que é ruim, é a falta de inteligência natural que nos ameaça. Você não pode regular a IA e a conectividade global dependendo de “mercados livres” e “a mão invisível”: precisamos de novos arranjos institucionais. Já foi recomendado a Elon Musk que sim, que vá para Marte, e fique.
Restauração da sociabilidade no desenvolvimento local: uma plataforma colaborativa
Um exemplo rico do poder das plataformas de colaboração foi construído em três bairros de São Paulo, envolvendo cerca de 300 mil habitantes. O Taqui, como é chamado, é mais do que um mercado: é uma infraestrutura social digital que complementa a infraestrutura física do futuro novo Polo, projetado como ponto de encontro para treinamento, cultura, esporte e atividades de lazer. A plataforma digital, projetada para fortalecer a rede e o capital social, transforma a tecnologia em uma ferramenta ativa para a coesão social e o desenvolvimento local sustentável.17
Ao digitalizar o comércio e os serviços por meio de uma plataforma local, a Taqui constrói um ecossistema econômico mais robusto e interconectado, fortalecendo a sociabilidade econômica dentro do território. Além disso, a plataforma será aprimorada com Inteligência Artificial Generativa e um sistema local de busca de emprego, que visa encontrar vagas próximas às residências dos moradores, enfrentando o problema crônico dos longos deslocamentos na periferia de São Paulo. Reduzir o tempo gasto em transporte significa aumentar o tempo disponível para a vida comunitária, família e lazer, consolidando a sociabilidade além do trabalho.
A sustentabilidade econômica em territórios vulneráveis, como as periferias da Zona Norte de São Paulo (Casa Verde, Limão e Cachoeirinha), depende não apenas da injeção de capital, mas fundamentalmente da reconstituição e fortalecimento do tecido social e da sinergia entre os atores locais. Esse foco na coesão social e sociabilidade é o catalisador que transforma investimentos em impacto duradouro. O projeto Instituto Wizion demonstra como a inovação tecnológica, incorporada pela plataforma colaborativa Taqui pode ser a chave para restaurar essa sociabilidade, fomentar o empreendedorismo e melhorar a qualidade de vida.
O ponto de partida para restaurar a sociabilidade foi a organização e a comunicação. Desde 2019, o Nosso Núcleo trabalha para conectar líderes locais e organizações que antes atuavam isoladamente, buscando construir uma visão compartilhada para o desenvolvimento sustentável. Quando a pandemia de COVID-19 surgiu em 2020, a mobilização comunitária enfrentou um desafio sem precedentes de isolamento. Foi nesse momento crítico que a Taqui, uma startup parceira da universidade USP, desempenhou um papel essencial. Ao construir rapidamente uma sala virtual com salas de grupo, um recurso indisponível em outras plataformas comerciais na época, a Taqui garantiu que os líderes pudessem continuar se reunindo e trabalhando juntos remotamente e com segurança, mantendo a mobilização comunitária viva. A primeira entrega tecnológica ao território foi, portanto, um instrumento para preservar a sociabilidade organizacional.
Organização e empoderamento de comunidades
Por toda a América Latina temos desafios comuns, como profunda desigualdade, desafios ambientais, a pressão do Norte Global para nos manter dependentes da economia de commodities, corporações de alta tecnologia controlando tantas áreas, o poder da gestão de ativos e finanças, crescentes pressões militares, a erosão da soberania. A crescente desigualdade e o caos político nos Estados Unidos são uma ameaça direta às nossas próprias democracias.18 Organizar-se, ou seja, enraizar nossas democracias mais firmemente na organização social em nível comunitário, tornou-se essencial.
Sociabilidade certamente é sobre como vivemos como indivíduos, como nos relacionamos com a família, com os vizinhos, mas também sobre como organizamos os lugares onde trabalhamos, como gerenciamos o dinheiro (bancos de desenvolvimento comunitário), como organizamos o espaço urbano. O que tento trazer aqui é que nossa riqueza atual, em vez de servir aos rentistas, pode ser usada para o que precisamos, e que as novas tecnologias, em vez de apenas nos manipular, podem abrir um espaço imenso para que nos organizemos nas diferentes dimensões da vida social. E não se preocupem tanto com a perda de empregos para robôs: com maior produtividade, podemos reduzir o tempo de trabalho, trabalhando menos para que todos trabalhemos, como dizem – e implementam – os franceses.
Na verdade, reduzir o tempo de trabalho pode ser um elemento essencial. Uma pessoa que mora em Cidade Tiradentes, na periferia de São Paulo, começa o dia às 5 da manhã, para estar no trabalho em Pinheiros às 8, com horas passadas no trânsito, e volta para casa às 21h, assistindo bobagens na TV e adormecendo no sofá. Daqui a pouco já são 5 horas novamente. Vida familiar? Em 2026, o Brasil está lutando para garantir pelo menos o fim de semana completo de dois dias, para garantir mais tempo pessoal e alguma convivialidade no bairro. Ou até lendo, ou brincando com crianças. Na verdade, as novas tecnologias estão trazendo crescimento suficiente da produtividade para nos permitir reconstruir o tecido social ao resgatar mais controle sobre os momentos de nossas vidas. Reduzir a desigualdade, novamente, é essencial; a pobreza leva muitas pessoas a aceitarem uma vida centrada apenas na sobrevivência. Os ricos falam de liberdade, mas não deixam escolha para as pessoas.
É uma sociabilidade que precisa ser reconstruída, e isso pode ser feito. Esperar bilionários resolverem nossos problemas não vai funcionar. Na verdade, eles são o problema. Organizar-se de baixo para cima, em diferentes espaços, usando a riqueza que alcançamos, as tecnologias que temos e o acesso geral ao conhecimento online, o creative commons, é mais do que uma possibilidade, é o que precisamos construir. A soberania digital é essencial aqui, e não apenas na América Latina. Os desafios são globais.
1The Economist, 15 de janeiro de 2026
2 David Gelles – O Homem que Quebrou o Capitalismo: como Jack Welch destruiu o coração do país e esmagou a alma da América corporativa – Simon&Schuster, 2022 –
3 Trebor Scholtz – Own This: how platform cooperatives help workers build a democratic internet – Verso, 2023 – https://dowbor.org/2025/11/own-this-how-platform-cooperatives-help-workers-build-a-democratic-internet.html
4 Bruno Paes Manso – A Fé e o Fuzil – Todavia, São Paulo, 202310
5 Jonathan Haidt – A geração ansiosa – Companhia das Letras, 2024 –
6 Max Fisher – A Máquina do Caos: a história interna de como as redes sociais reprogramaram nossas mentes e nosso mundo – Editora Todavia, 2023
7 Handler, Sophie – Um manual alternativo amigável para a idade – Universidade de Manchester, 2014 –
8 Jeffrey Sachs et al. – Relatório Mundial da Felicidade 2017 –
9 Shoshana Zuboff – A Era do Capitalismo de Vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder – PublicAffairs, Nova York, 2019
10 CGEE/CCT – IA para o bem de todos: plano brasileiro de inteligência artificial – Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, 2025
11 Ladislau Dowbor – Os desafios da revolução digital – Ed. Elefante, São Paulo, 2024
12 Mustafa Suleyman – A próxima onda – Coroa, Nova York, 2023 –
13 Jeremy Rifkin – A Sociedade de Custo Marginal Zero – Palgrave MacMillan, Nova York, 2015 –
14 Ladislau Dowbor – Os desafios da revolução digital – Ed. Elefante, São Paulo, 2024
15Elinor Ostrom and Charlotte Hess – Understanding Knowledge as a Commons – MITPress, Cambridge, 2007 –
16Trebor Scholtz – Own this: how platform cooperatives help workers build a democratic internet. Assuma Isto: como cooperativas de plataforma ajudam os trabalhadores a construir uma internet democrática) – Verso, Nova York, Londres, 2023 https://dowbor.org/2025/11/own-this-how-platform-cooperatives-help-workers-build-a-democratic-internet.html
17 Fernando Camilher – Nosso núcleo Casa Verde, Limão e Cachoeirinha – 2021 – www.nossonucleo.org.br
18Luiz Marques – “Estados Unidos de Trump: modelo de distopia contemporânea” – IHU, 2025 –




