Avanço da longevidade e feminização da demografia apontam para novos desafios ao SUS. É preciso combater desigualdades – para isso, o Estado precisa fortalecer assistência domiciliar, redes de cuidadores, instituições de permanência e cuidados paliativos
Por Carol Ito, Outra Saúde
O avanço da longevidade é uma tendência global que ganha intensidade no Brasil e pressiona o sistema público de saúde. Para a professora titular do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Goiás, Marta Rovery, doutora em demografia, o país ainda trata o tema sem a prioridade necessária. “A questão do envelhecimento populacional no Brasil padece de investimentos e de uma discussão mais consistente e séria”, afirma.
Há mais de 20 anos, especialistas já alertavam para a necessidade de aproveitar a chamada janela demográfica e preparar o Estado para o crescimento acelerado da população idosa. O aumento da expectativa de vida representa um avanço social, mas impõe a reestruturação das políticas de assistência, das redes de apoio e dos serviços de saúde.
As mudanças na configuração das famílias tornam o cenário mais desafiador. Atualmente, a taxa média é de 1,6 filho por mulher, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Em décadas anteriores, núcleos familiares mais numerosos propiciavam que filhos assumissem papel central no amparo aos pais na velhice. Com a redução da fecundidade e o crescimento do número de pessoas que envelhecem sem descendentes, surge uma questão decisiva: quem assumirá essa responsabilidade?
Idosas em foco
Entre as características mais relevantes desse processo está o que Rovery define como feminização do envelhecimento. A tendência indica um contingente expressivo de mulheres na terceira idade, muitas delas vivendo sozinhas, resultado da combinação entre sobremortalidade masculina precoce e novas formas de organização doméstica.
Levantamentos do IBGE apontam que, entre 2000 e 2022, a proporção de lares chefiados por mulheres aumentou de 22,2% para 48,8%. No mesmo intervalo, casais sem filhos passaram de 13% para 24,1%, tornando-se o arranjo que mais cresceu. Para a pesquisadora, essa transformação tem impactos diretos na saúde pública.
“O maior desafio no Brasil é a feminização do envelhecimento. Teremos um grupo importante de mulheres idosas e sozinhas, sobretudo pelo movimento das famílias sem filhos. Esse cuidado não pode ser pensado exclusivamente como responsabilidade familiar. Essa dimensão da nossa cultura precisa ser revista”, ressalta.
A trajetória feminina como principal responsável pelo cuidado também influencia as condições na velhice. Ao longo da vida, muitas assumem tarefas domésticas e assistência a filhos, companheiros e parentes, acumulando desgaste físico e emocional. Problemas como artrose, dores na coluna e quadros depressivos aparecem com maior frequência nesse grupo, muitas vezes associados ao trabalho contínuo de assistência. “Se estamos aqui, é porque alguém cuidou da gente. O grosso desse cuidado foram as mulheres que fizeram, seja mãe, avó ou tia”, observa.
A diferença na longevidade entre os sexos reforça esse quadro. Dados recentes do IBGE indicam que elas vivem, em média, 79,9 anos, enquanto eles chegam a 73,3 anos, uma diferença de 6,6 anos. A explicação não se limita a fatores biológicos. Segundo Rovery, a sobremortalidade masculina na juventude tem peso decisivo. “Os homens estão morrendo mais cedo por conta da violência, acidentes de transporte e homicídios, que atingem principalmente homens entre 20 e 30 anos. Ao morrerem antes, eles não chegam às faixas etárias mais avançadas, o que altera a composição da pirâmide etária e amplia a presença feminina entre os idosos”, explica.
O resultado é um país que envelhece com predominância feminina, marcado por elevado número de viúvas e moradoras sozinhas. Para o sistema público de saúde, esse contexto exige organização, qualificação da assistência e estratégias que levem em conta não apenas o crescimento da população idosa, mas também as desigualdades de gênero.
Impactos no SUS
No âmbito das políticas públicas, Rovery defende maior investimento em atenção domiciliar através de equipes multiprofissionais, identificação de possíveis cuidadores no território e fortalecimento das instituições de longa permanência, que ainda enfrentam resistência cultural: “As instituições de longa permanência precisam sair da conotação de abandono. Elas são fundamentais em diferentes necessidades dos idosos. Também é necessário investir em hospitais de internação e cuidado domiciliar, dependendo do estágio e das condições”, pontua. “Ou seja, precisamos construir um cardápio que seja adequado às condições para cada idoso ao longo de sua trajetória.”
Outro ponto central é o fortalecimento dos cuidados paliativos, ainda pouco difundidos no país e muitas vezes confundidos com desistência terapêutica. “Cuidado paliativo vem na perspectiva de conforto, de respeito à autonomia da pessoa. Nem todo idoso precisa ser hospitalizado. Muitas doenças crônicas avançam e não têm reversão. O cuidado paliativo é uma estratégia fundamental, inclusive para a assistência domiciliar”, afirma.
Rovery também destaca que o planejamento deve considerar marcadores sociais de gênero, raça e renda e, no que diz respeito às mulheres, menciona experiências internacionais baseadas em moradias coletivas para idosas. “Em alguns lugares da Espanha, visitei condomínios horizontais só de mulheres. É uma forma de viver compartilhada, baseada em afeto e generosidade. Esse tipo de rede será cada vez mais necessária”, relata.
O avanço da longevidade no Brasil é, portanto, um fenômeno complexo e muito desigual, que envolve dimensões sociais, culturais e sanitárias, que só poderão ser enfrentadas considerando a diversidade de realidades. Exige planejamento governamental, ampliação de serviços especializados, fortalecimento da assistência domiciliar, qualificação das instituições de longa permanência e inovação nos modelos de convivência. Sem essa abordagem integrada, alerta a pesquisadora, o país continuará tratando a velhice como questão secundária: “Ainda temos muito preconceito com o envelhecimento, como se fosse um não-lugar. Na covid, ficou demonstrado que, muitas vezes, o idoso era o único provedor de renda e muitas famílias ficaram desassistidas.”
A questão do envelhecimento, sobretudo em relação às mulheres, vai além de um indicador estatístico. Representa um chamado à revisão de valores, estratégias públicas e práticas de cuidado, para que a ampliação da vida seja acompanhada de dignidade, autonomia e bem-estar.




