Como muitos(as), minha primeira reação foi de espanto diante da rapidez com que os acontecimentos de guerra no Oriente Médio provocado pelos EUA e Israel contra o Irã se precipitaram, embora, desde episódios anteriores da conjuntura internacional, como o ataque recente na Venezuela que culminou no sequestro de Maduro (que refleti em um pitaco anterior), já era considerado muito possível que o Irã pudesse se tornar um dos próximos alvos dos EUA no âmbito das disputas geopolíticas em curso. A guerra em curso está relacionada a múltiplos fatores estruturais da crise atual do capitalismo, entre eles os interesses estratégicos dos Estados Unidos em controlar rotas energéticas e limitar o abastecimento de petróleo à China, bem como as disputas de poder no Oriente Médio e no Golfo Pérsico. Soma-se a isso a própria lógica da hegemonia geopolítica regional no Oriente Médio, incluindo os projetos estratégicos dos sionistas de Israel e sua tentativa de ampliar sua posição de segurança e influência no entorno regional.
Historicamente, esse cenário também é configurado por conflitos históricos e disputas acumuladas ao longo de décadas, em especial das guerras regionais entre as décadas de 1970 a 2000 entre países da região e que essas memórias são acionadas para novas ofensivas militares. Diferente da chamada “guerra dos doze dias”, ocorrida no ano passado, a resposta iraniana desta vez ocorreu de forma considerada rápida (cerca de uma hora), trazendo evidências de que a guerra pode evoluir para uma guerra com duração de semanas ou até meses.
Admito que inicialmente fiquei reticente em escrever algo imediatamente sobre os acontecimentos dessa guerra, pois, mesmo com algum interesse e estudo sobre geopolítica, entendo que análises desse tipo exigem certo tempo de observação para que sejam baseadas em fatos e não em expectativas, especulações, “torcidas ideológicas” e nas notícias falsas que são comuns em cenário de guerra. Agora com uma semana desde o início da guerra, me sinto mais à vontade de trazer algumas reflexões para o debate, procurando analisar esse cenário de guerra a partir de um olhar, digamos, sociológico (que é de onde me sinto mais à vontade para trocar algumas ideias).
Ao mesmo tempo, considero importante registrar que acompanhar esse tipo de conflito exclusivamente pela imprensa hegemônica brasileira pode limitar a compreensão da guerra EUA-Israel X Irã, uma vez que grande parte da cobertura midiática nacional está fortemente influenciada por interesses econômicos, financeiros e geopolíticos alinhados ao eixo ocidental, o que se reflete tanto nos grandes jornais, quanto nos principais canais de televisão aberta e por assinatura, como GloboNews, CNN Brasil e outros. Por esse motivo, além de consultar jornais internacionais de diferentes regiões do mundo, incluindo veículos da Ásia, do Oriente Médio e da Índia, também tenho acompanhado, assistido e aprendido com as análises produzidas em canais independentes e especializados em geopolítica no youtube, entre eles os canais Arte da Guerra do Comandante Robson Farinazzo, o Vento Leste de Ali Ramos, GRU! Geopolítica em ação com o Coronel, Glenn Diesel em Português e bem como as análises do ex-analista de inteligência norte-americano Larry Johnson, cujas análises experientes e realistas auxiliam a ampliar o horizonte interpretativo sobre os acontecimentos dessa guerra e suas implicações na geopolítica global.
O que aprendi é que a atual conjuntura geopolítica não pode ser compreendida apenas como uma sequência de crises regionais, guerras localizadas ou disputas diplomáticas episódicas, pois o que se observa em um plano mais amplo é um processo de transformação estrutural do sistema internacional no qual a distribuição de poder, a organização da economia mundial e os mecanismos de regulação política global entram simultaneamente em tensão, produzindo um cenário que remete aos grandes momentos de transição histórica do capitalismo. Ou seja, a nova escalada militar no mundo com os bombardeios dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, iniciada na semana passada, não pode ser compreendida apenas como mais um episódio de tensão no Oriente Médio, mas deve ser analisada como parte de um processo histórico mais amplo de disputa pela reorganização de poder da ordem internacional em que os EUA tentam manter sua hegemonia econômica no mundo.
Desde o final da Segunda Guerra Mundial, com os Acordos de Breton Woods, a ordem internacional foi estruturada em torno de um conjunto relativamente estável de instituições, normas e hierarquias de poder que tinham como eixo central a liderança dos Estados Unidos, cuja superioridade econômica com o sistema dólar, capacidade industrial e projeção militar global permitiram a construção de uma arquitetura internacional que combinava mecanismos multilaterais de governança e uma rede de alianças estratégicas capazes de garantir uma estabilidade política relativa (bem relativa) em diferentes hemisférios e continentes do mundo (Arrighi, 1994; Wallerstein, 2004).
Contudo, desde a década de 1970 do século passado, e agora nas primeiras décadas do século XXI, essa ordem começou a apresentar sinais crescentes de crise e desorganização dos acordos e do direito internacional. Polanyi, por sua vez, ao analisar a crise do liberalismo do século XIX, mostrou que as ordens econômicas baseadas na liberalização generalizada dos mercados tendem a produzir processos de desorganização social quando os mecanismos institucionais de regulação deixam de acompanhar a expansão das forças econômicas, produzindo tensões políticas profundas que frequentemente resultam em reorganizações radicais e conflituosas da economia em diferentes sociedades (Polanyi, 2000).
Sob essa perspectiva, Gramsci observou que as ordens históricas entram em crise quando a capacidade de liderança de um bloco dominante começa a se desgastar, produzindo aquilo que ele denominou de crise orgânica, situação na qual as instituições internacionais existentes, nesse caso como a ONU, deixam de garantir consenso social e político enquanto novas formas de organização ainda não se consolidaram plenamente, gerando um período prolongado de instabilidade, conflito e disputa pela reorganização da hegemonia (Gramsci, 2007). Como ele próprio sintetiza em um dos seus fragmentos mais citados, no caderno 3, do Cadernos do Cárcere “A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece” (Gramsci, 2007, p.184).
A crise cíclica e atual da ordem (neo)liberal internacional pode ser interpretada como um processo histórico com algumas semelhanças e diferenciações em relação a outras crises do capitalismo, no qual a sua expansão global e a transformação das cadeias produtivas internacionais produziram uma redistribuição significativa de capacidades econômicas e tecnológicas, deslocando progressivamente o centro da produção industrial para regiões que durante grande parte do século XX ocupavam posições periféricas ou semiperiféricas no sistema mundial. Nessa escala de análise, essa crise orgânica pode ser observada quando as instituições e normas que estruturavam a ordem global passaram a ser contestadas por diferentes nações, atores e movimentos sociais em diferentes escalas, revelando a perda de capacidade de liderança do centro hegemônico e a emergência de novos polos de poder que buscam redefinir os termos da governança global por meio de uma proposta de multilateralismo. Esses ciclos de hegemonia de uma potência mundial, a exemplo dos EUA, não são permanentes ao longo da história mundial, pois a própria expansão do sistema mundial tende a estimular e influenciar o crescimento de novas regiões de acumulação econômica e novos centros de poder que progressivamente desafiam a posição dominante do núcleo hegemônico, como a China, Rússia, Índia etc.
Esse processo pode ser observado como uma transição do capitalismo, na qual a crescente centralidade econômica da Ásia, especialmente da China, altera profundamente a geografia da produção mundial e reduz a exclusividade econômica dos EUA que durante décadas exerceu sua hegemonia ocidental (Arrighi, 1994; Arrighi e Silver, 2008). E essa crise da hegemonia não se manifesta apenas na livre concorrência de mercado e ativos financeiros, pois ela também aparece na esfera da geopolítica e da organização do poder militar.
A tradição do realismo geopolítico oferece uma chave analítica em que me situo para compreender essa dimensão do problema, uma vez que autores como Hans Morgenthau e John Mearsheimer sempre insistiram que o sistema internacional permanece estruturalmente anárquico, o que significa que não existe uma autoridade central capaz de impor regras universais de forma estável e permanente ao longo da história (Morgenthau, 2003; Mearsheimer, 2001). No imperialismo, a estabilidade depende frequentemente da existência de uma potência dominante capaz de organizar as relações entre os Estados e garantir determinados equilíbrios de poder, situação que tende a se modificar quando novas potências emergem e quando a capacidade material do país dominante começa a se desgastar (Mearsheimer, 2001).
Por exemplo, no esteio das mudanças do direito internacional o “modelo Trumpista” nos EUA tem representado uma disrupção baseada no transacionalismo puro e no poder bruto. Este modelo ignora tanto a Carta da ONU quanto a coesão do ocidente político, tratando aliados como passivos se não entregarem algo de valor imediatamente. É a política do “sou maior, faço o que quero”. A transição do globalismo liberal para a política de força bruta sinaliza a obsolescência do aparato diplomático tradicional. O diálogo é substituído pela imposição, direcionando o teatro na América do Sul e Oriente Médio para um estado de atrito permanente.
Com esse tipo de transformação estrutural das relações no atual estágio do capitalismo, coloca o Oriente Médio com um dos principais laboratórios dessa transformação, não apenas em função de sua centralidade energética, mas também porque os conflitos na região colocam em evidência a emergência de outra lógica estratégica baseada na economia da guerra assimétrica. Nesse tipo de conflito, a questão central deixa de ser apenas a superioridade tecnológica e passa a ser a sustentabilidade econômica do combate, pois quando o custo de interceptar um ataque se torna dezenas ou centenas de vezes superior ao custo de realizá-lo, a lógica estratégica desloca-se inevitavelmente para o terreno da economia política da guerra. Essa assimetria ajuda a explicar por que muitos conflitos contemporâneos assumem a forma de guerras prolongadas de desgaste, nas quais o objetivo estratégico não é necessariamente derrotar militarmente o adversário em um confronto direto, mas tornar o custo da guerra (inclusive o humano) progressivamente insustentável para ele, como foram os casos do Afeganistão e Vietnã.
Considerando essa série de aspectos (e muitos outros que não trouxe aqui), alguns fatos devem ser considerados especificamente nessa guerra até o momento e que diferem de muitas análises produzidas pela mídia ocidental tradicional e hegemônica:
* O ataque americano e israelense realizado no primeiro dia de guerra contra uma escola onde estavam cerca de 160 meninas, que acabou resultando na morte de várias delas, somado à decapitação do líder supremo do Irã, Aiatolá Ali Khamenei, durante os ataques aéreos conjuntos conduzidos por Estados Unidos e Israel contra alvos estratégicos em Teerã produziu um efeito político e social significativo dentro do Irã. Em vez de enfraquecer imediatamente o regime como os EUA e Israel esperavam, essas ações geraram um forte sentimento de mobilização e comoção nacional. Entre os xiitas, que compõem a base religiosa e política que sustenta o atual governo iraniano, esse contexto deflagrou a “jihad”, ou seja, convocar um empenho, luta ou esforço no caminho de Deus, com sentidos que variam da busca interior pela perfeição moral (jihad maior) até a defesa armada ou luta física contra adversários (jihad menor) criando um sentimento de guerra santa e lutar até a morte em parte considerável da sociedade iraniana. Como consequência, a estratégia de enfraquecer ou derrubar o governo iraniano perdeu apoio até mesmo entre setores dissidentes ou oposicionistas no Irã e em alguns países da região que tem população xiita, uma vez que ataques dessa natureza tendem a produzir uma comoção nacional em defesa do país.
*A resposta militar iraniana revela uma mudança de sua doutrina: da “demonstração de capacidade” para o “atrito de alta intensidade”. A eficácia das tecnologias assimétricas, como os drones Shahed (que custam US 30-50 mil) e mísseis hipersônicos, mudou o paradigma da supremacia aérea em que os EUA se firmam. Enquanto interceptadores como o *Patriot* custam cerca de US 4 milhões por disparo, o Irã satura defesas com vetores de baixo custo. O uso estratégico do “mosaico de informações eletrônicas” fornecido pela China e Rússia (mimetizando o suporte dos EUA e OTAN à Ucrânia) neutralizou a vantagem tecnológica dos EUA e Israel, permitindo ataques precisos contra radares de alerta antecipado contra ataques no Golfo em bases militares americanas.
* A manutenção da hegemonia global dos EUA depende diretamente da segurança das rotas marítimas e energéticas, especialmente no Golfo Pérsico. Um eventual bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 21% do petróleo mundial, afetaria imediatamente os fluxos financeiros de seus aliados na região. Além disso, o fechamento de bases no Golfo, depois dos ataques iranianos, obrigou as forças norte-americanas a operar a partir de locais mais distantes, como a Ilha de Diego Garcia, aumentando significativamente os custos logísticos e operacionais americanos. No plano militar, navios de guerra possuem capacidade limitada de interceptação e podem esgotar rapidamente suas munições diante de ataques de saturação, o que os torna vulneráveis em conflitos prolongados. Ao mesmo tempo, a capacidade industrial ocidental de reposição de interceptores é muito menor do que os estoques de mísseis de adversários como o Irã, o que favorece uma guerra de atrito. Esse cenário também tem impactos econômicos mais amplos, como o aumento do preço do gás na Europa e o risco de retorno da dependência energética do gás russo, evidenciando como a geoeconomia do conflito pode tornar a proteção militar dos países aliados mais custosa do que os benefícios supostamente estratégicos que ela deveria garantir no cálculo americano.
*A indústria de defesa ocidental opera sob um modelo próximo ao just-in-time, eficiente em tempos de paz, mas problemático em guerras de atrito, pois a reposição de armamentos é lenta diante do ritmo de consumo em combate. A produção anual de interceptores como o THAAD é limitada e poderia ser esgotada rapidamente em um conflito intenso, obrigando os EUA a deslocar sistemas defensivos entre diferentes regiões, como no caso da Coréia do Sul. Além disso, a destruição de equipamentos estratégicos, como radares bilionários que levam anos para serem fabricados, evidencia uma assimetria central: adversários podem destruir em minutos sistemas que exigiram décadas de desenvolvimento, tornando a capacidade de reposição industrial mais um fator no conflito.
* Os “investidores de Wall Street” também são árbitros deste conflito, não nos enganemos. O capital está em fuga de ativos que dependem de uma vitória rápida que não se materializou. As ações das empresas RTX, Lockheed Martin e Palantir que desenvolvem sistemas de defesa registram volatilidade negativa, refletindo o medo de que a guerra que “rape o tacho” da OTAN, deixando a frente europeia desguarnecida diante da Rússia.
* O blackout imposto em plataformas como o TikTok (controlado por interesses ocidentais) tenta esconder a extensão dos danos nas bases navais no Bahrein e nas cidades israelenses, mas os dados de fluxo de caixa e o aumento no preço do seguro marítimo trazem à tona o que em breve será divulgado ao mundo quanto as baixas e prejuízos econômicos e humanos do ocidente nessa guerra devido a defesa iraniana.
* O Fator Político (Trump/Vance): Com uma desaprovação de 56% e o trauma de “caixões voltando para casa”, a administração Trump enfrenta um teto político. A retórica de austeridade e o discurso anti-guerra de JD Vance tornam a continuação das operações um risco de capital político para o governo trumpista.
* O Landstuhl Regional Medical Center (LRMC), localizado próximo à Base Aérea de Ramstein, na Alemanha, é o maior hospital militar dos Estados Unidos fora do território americano e atua como principal centro de atendimento a traumas para militares deslocados na Europa, no Oriente Médio e na África. Em 06 de março, a unidade suspendeu temporariamente os serviços de parto e maternidade para priorizar o atendimento a militares americanos e de aliados de guerra feridos, em meio à intensificação da guerra contra o Irã. Ou seja, ao que tudo indica o número de mortos e feridos provavelmente estão acima do que vem sendo divulgado.
* O porta-aviões nuclear USS George HW Bush está seguindo rumo ao Mediterrâneo Oriental para ocupar a posição deixada vaga pelo USS Gerald R Ford, que agora está no Mar Vermelho. Junto com o USS Abraham Lincoln, que opera no Mar Arábico, a Marinha dos EUA divulga que o motivo da ida de mais um porta aviões ao oriente médio é para cobrir todas as frentes ativas na guerra contra o Irã. Já, no entanto, o Irã afirmou nesta quinta-feira (5) que drones militares atingiram fortemente um porta‑aviões americano. Nos próximos dias será possível ter mais evidências sobre a realidade dessas informações.
E o Brasil?
Nesse cenário, a questão fundamental não é apenas quem vencerá as disputas geopolíticas atuais, mas qual tipo de ordem internacional será capaz de emergir desse processo de transformação estrutural do sistema mundial.
Para países situados fora do núcleo tradicional de poder global, como o Brasil, esse processo apresenta desafios particularmente complexos, pois a intensificação da competição geopolítica tende a aumentar a disputa por recursos naturais estratégicos, infraestrutura energética e tecnologias críticas. Nesse contexto, a ausência de projetos nacionais de desenvolvimento capazes de articular soberania econômica, capacidade industrial e autonomia estratégica pode transformar países periféricos no atual sistema capitalista em territórios de disputa entre grandes potências, reproduzindo padrões históricos de dependência estrutural que caracterizam a inserção periférica no sistema mundial (Fiori, 2009).
Para países do Sul Global, e particularmente para o Brasil, essa conjuntura traz uma questão estratégica fundamental que ultrapassa o campo da diplomacia e alcança o terreno da economia política do desenvolvimento, pois em um mundo marcado pela intensificação da competição entre grandes potências a autonomia nacional dependerá cada vez mais da capacidade de articular soberania sobre recursos estratégicos, capacidade industrial própria e políticas de Estado orientadas para o desenvolvimento de longo prazo.
Mas, fica mais uma pergunta: Temos um projeto soberano de nação? Como está sendo a reação do Brasil diante disso tudo?
Continuarei essa reflexão mais centrada na situação do Brasil diante desse cenário internacional e dos acontecimentos da guerra EUA-Israel X Irã em um próximo artigo.
Aproveitando o ensejo, indico também o Substack do Ali Ramos e do GRU! Geopolítica em Ação. Além de ótimos artigos sobre geopolítica, eles trazem fontes e infográficos em que tenho aprendido e baseado algumas das reflexões aqui sobre geopolítica.




