Ecodomínio Cerrado: muito além de uma savana, um ‘hotspot’ em colapso. Entrevista especial com Cássio Cardoso Pereira

Com​ mais 55% da vegetação nativa da região convertida, o professor é contundente: “o desmatamento é cumulativo: o que foi perdido não volta”. Também explica por​ que o conceito de bioma é insuficiente para proteger o mosaico de ecossistemas que sustenta as águas do Brasil

IHU

O Cerrado vai muito além da imagem de uma savana tropical uniforme. Este Ecodomínio funciona como um intrincado mosaico de 14 diferentes ecossistemas. Um hotspot de biodiversidade com vasta riqueza e espécies exclusivas que, simultaneamente, enfrenta a degradação acelerada pela ação humana. É dessa diversidade, onde cada ecossistema tem dinâmicas distintas e fragilidades próprias, que surge a “floresta invertida”.

A floresta invertida são as extensas raízes das árvores e arbustos que, além de dar suporte à vegetação, cumprem um importante papel para o controle de emissões: são sumidouros de carbono. É no subsolo que se encontra a “maior parte da biomassa, com raízes que podem ultrapassar 15 metros de profundidade e sustentam a vegetação durante a seca e a recarga de aquíferos”, explica o professor e pesquisador Cássio Cardoso Pereira. “Esse sistema subterrâneo também concentra o principal estoque de carbono do Ecodomínio, estabilizado nas camadas profundas do solo […]. Isso mostra que seu papel como sumidouro de carbono é majoritariamente invisível e altamente vulnerável a distúrbios que degradam o solo e as raízes”, complementa.

Pereira é o principal autor do artigo The Cerrado crisis review: highlighting threats and providing future pathways to save Brazil’s biodiversity hotspot, publicado na revista Nature Conservation em janeiro de 2026. Uma das principais conclusões da pesquisa é sobre o avanço acelerado da degradação para mais da metade da região. “A dimensão da crise ecológica no Ecodomínio do Cerrado é ampla e estrutural, marcada por desmatamento acelerado, fragmentação de habitats e perda de funções ecológicas essenciais”, adverte. “Estima-se que mais de 55% da vegetação nativa original já tenha sido convertida”, salienta.

A despeito da relevância do Cerrado como o segundo maior Ecodomínio da América do Sul, a região frequentemente permanece à sombra da Amazônia. Cobrindo 24% da área do Brasil e atuando como “berço das águas” das principais bacias hidrográficas do país, este Ecodomínio tem sido historicamente negligenciado nas políticas de preservação ambiental, que não alcançam nem a 10% da área. “Proteger apenas cerca de 8% do território, com menos de 3% sob proteção integral, é incompatível com sua importância ecológica e hidrológica”, assevera o pesquisador.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Pereira aponta porque o estudo propõe o uso do conceito de Ecodomínio no lugar do termo bioma para designar a região do Cerrado. “O conceito de Ecodomínio que propusemos corresponde a grandes unidades ecológicas com relativa uniformidade climática, geomorfológica e biológica, que englobam múltiplas ecorregiões, biomas e ecossistemas em sua extensão original”, esclarece. “Nesse sentido, aquilo que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE denomina de ‘bioma’ se aproximaria mais de um ecodomínio”, indica.

Cássio Cardoso Pereira é cientista especializado em ecologia comunitária e conservação da biodiversidade. É doutor em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestre em Ecologia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e graduado em Ciências Biológicas (Ênfase em Conservação da Biodiversidade) pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). É docente colaborador e orientador do Programa de Pós-graduação em Ecologia (PGE) da UFSJ. Atua como editor de área das revistas científicas BioScience (IF = 8.4), Biotropica (IF = 1.7) e Nature Conservation (IF = 1.7).

Confira a entrevista.

IHU – Pode explicar do que se trata o conceito de Ecodomínio proposto em artigo publicado na Nature Conservation, assinado com outros colegas? Quais suas especificidades e a diferença em relação ao conceito de bioma?

Cássio Cardoso Pereira – No Brasil, o termo “bioma” é usado oficialmente de forma geopolítica e, do ponto de vista ecológico, é inadequado e até enganoso, pois agrupa sob uma mesma categoria diferentes biomas, ecorregiões e ecossistemas. Em ecologia, bioma refere-se a grandes unidades transcontinentais definidas sobretudo pelas formas de vida dominantes, estrutura da vegetação e condições ambientais semelhantes.

Já o conceito de Ecodomínio que propusemos corresponde a grandes unidades ecológicas com relativa uniformidade climática, geomorfológica e biológica, que englobam múltiplas ecorregiões, biomas e ecossistemas em sua extensão original. Nesse sentido, aquilo que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE denomina de “bioma” se aproximaria mais de um ecodomínio, mas essa simplificação é problemática ao uniformizar sistemas altamente heterogêneos, o que pode gerar distorções na formulação de políticas públicas, conservação e planejamento ambiental.

IHU – O que é e como funciona a floresta invertida? Porque essa característica torna o Cerrado um bioma único?

Cássio Cardoso Pereira – A “floresta invertida” do Cerrado refere-se ao fato de que a maior parte da sua biomassa está no subsolo, com raízes que podem ultrapassar 15 metros de profundidade e sustentam a vegetação durante a seca e a recarga de aquíferos. Esse sistema subterrâneo também concentra o principal estoque de carbono do Ecodomínio, estabilizado nas camadas profundas do solo. Em média, o Cerrado armazena cerca de 158 toneladas de carbono por hectare, sendo aproximadamente 87% abaixo do solo e apenas 13% na parte aérea. Isso mostra que seu papel como sumidouro de carbono é majoritariamente invisível e altamente vulnerável a distúrbios que degradam o solo e as raízes.

IHU – Por que não podemos tratar o Cerrado como um sistema homogêneo? Que tipo de ecossistemas encontramos na região e como eles funcionam de forma interdependente?

Cássio Cardoso Pereira – Não podemos tratar o Cerrado como um sistema homogêneo porque ele é formado por um mosaico complexo de cerca de 14 ecossistemas diferentes, organizados em três grandes tipos de biomas: campos, savanas e florestas tropicais. Esses ecossistemas ocorrem em mosaicos espaciais e, em um raio de cerca de 1 km, é comum encontrar vários deles coexistindo na paisagem, como, por exemplo, Campos Rupestres [1], Cerrado sensu stricto [2] e Matas de Galeria [3] ao longo de uma serra. Apesar das diferenças estruturais e ecológicas, funcionam de forma interdependente por meio de fluxos de água, carbono, nutrientes e biodiversidade. Assim, a degradação de um único componente pode afetar o equilíbrio ecológico de todos os outros.

IHU – Quais as principais conclusões da pesquisa The Cerrado crisis review: highlighting threats and providing future pathways to save Brazil’s biodiversity hotspot?

Cássio Cardoso Pereira – A revisão conclui que o Ecodomínio do Cerrado enfrenta uma crise ecológica acelerada, impulsionada sobretudo pela expansão agropecuária, desmatamento, fragmentação e perda de vegetação nativa em larga escala. O estudo evidencia que, apesar de sua altíssima biodiversidade e importância hidrológica e climática, o Ecodomínio permanece subprotegido e sujeito a intensas pressões antrópicas. Também mostra que a conversão dos ecossistemas compromete estoques de carbono subterrâneo, serviços ecossistêmicos e a estabilidade hídrica regional. Por fim, o artigo destaca a urgência de políticas integradas de conservação, restauração ecológica e planejamento territorial que considerem a complexidade e a heterogeneidade do Ecodomínio do Cerrado.

IHU – Qual a dimensão da crise ecológica que vive o Cerrado? Qual estimativa da perda de vegetação? Qual o impacto do agronegócio?

Cássio Cardoso Pereira – A dimensão da crise ecológica no Ecodomínio do Cerrado é ampla e estrutural, marcada por desmatamento acelerado, fragmentação de habitats e perda de funções ecológicas essenciais. Estima-se que mais de 55% da vegetação nativa original já tenha sido convertida, sobretudo nas últimas décadas, comprometendo a biodiversidade, os estoques subterrâneos de carbono e a estabilidade hídrica regional.

O agronegócio é o principal motor desse processo, com a expansão de monoculturas e pastagens sobre campos, savanas e florestas tropicais, favorecida por um arcabouço legal que exige a preservação de apenas 20% da vegetação nativa no Cerrado (35% nas áreas adjacentes à Amazônia Legal, contra 80% na Amazônia), percentuais que muitas vezes nem são plenamente cumpridos.

É importante reconhecer que existe o agro que cumpre a lei e investe em produção responsável, mas também há um segmento que se beneficia de cadeias associadas ao desmatamento, uso de laranjas e ocupação inicial de terras com gado para posterior venda a grandes empresários do setor. Esse modelo predatório aprofunda a crise ecológica e compromete o futuro ambiental e climático do país.

Paradoxalmente, essa degradação também prejudica o próprio setor agropecuário, ao reduzir polinizadores, comprometer a disponibilidade de água, intensificar mudanças climáticas regionais e aumentar a vulnerabilidade produtiva a secas e eventos extremos.

IHU – Como funciona o equilíbrio entre captação e infiltração de água no Cerrado? Como a crise ambiental desse bioma conhecido como “berço das águas” afeta a segurança hídrica de todo o Brasil?

Cássio Cardoso Pereira – O equilíbrio hídrico no Ecodomínio do Cerrado depende da alta capacidade de infiltração de água em seus solos profundos e altamente porosos, associada à vegetação com raízes extensas que favorecem a recarga de aquíferos. Em vez de escoar superficialmente, grande parte da água das chuvas infiltra-se no solo e alimenta nascentes, veredas e grandes bacias hidrográficas do país. Por isso, o Cerrado é conhecido como “berço das águas”, abastecendo importantes rios que sustentam o abastecimento humano, a geração de energia e a produção agrícola no Brasil.

A conversão da vegetação nativa e a compactação do solo reduzem a infiltração, aumentam o escoamento superficial e diminuem a recarga hídrica, comprometendo a segurança hídrica nacional e ampliando os riscos de escassez e instabilidade no regime de chuvas.

IHU – Quais são as lacunas na conservação do Cerrado? Como elas afetam a biodiversidade?

Cássio Cardoso Pereira – As principais lacunas na conservação do Ecodomínio do Cerrado são a baixa cobertura de áreas protegidas, a proteção desigual entre ecossistemas e a aplicação insuficiente da legislação ambiental. Campos e savanas, apesar de altamente biodiversos, são especialmente negligenciados. A fragmentação e a perda de conectividade aceleram a extinção de espécies e enfraquecem processos ecológicos essenciais. Com isso, compromete-se a resiliência e o funcionamento de todo o sistema.

IHU – O estudo catalogou 706 Unidades de Conservação, equivalente a apenas 8% do Ecodomínio, com menos de 3% sob proteção integral. Além disso, o artigo mostra a existência de cerca de 40 centrais hidroelétricas em rios do Cerrado. O que esses números revelam sobre a falta de políticas ambientais para a proteção da região?

Cássio Cardoso Pereira – Esses números evidenciam a grande insuficiência das políticas ambientais para o Ecodomínio do Cerrado. Proteger apenas cerca de 8% do território, com menos de 3% sob proteção integral, é incompatível com sua importância ecológica e hidrológica. A presença de dezenas de hidrelétricas em seus rios reforça a pressão sobre sistemas aquáticos estratégicos. No conjunto, os dados mostram uma priorização histórica do uso econômico em detrimento da conservação.

IHU – Quais são as estratégias de restauração mais adequadas para a recuperação desse Ecodomínio?

Cássio Cardoso Pereira – A restauração no Ecodomínio do Cerrado é um processo caro, demorado e tecnicamente complexo, por isso a prioridade deve ser conservar o que ainda existe de vegetação nativa, pois é mais eficiente manter sistemas funcionais do que reconstruí-los após a degradação.

A restauração é necessária nas áreas já convertidas ou degradadas e deve se basear no conceito de ecossistemas de referência, utilizando áreas nativas bem conservadas como modelo para recuperar a composição, a estrutura e os processos ecológicos originais. Isso é especialmente importante em um sistema com cerca de 14 ecossistemas distintos, entre campos, savanas e florestas tropicais, exigindo abordagens específicas para cada contexto. Nesse sentido, deve-se evitar o plantio de árvores em áreas naturalmente abertas e campestres, que pode descaracterizar o funcionamento ecológico desses ambientes.

Além disso, a restauração no Cerrado é um enorme desafio devido à escassez e à degradação do banco de sementes no solo, frequentemente dominado por espécies invasoras e com baixa capacidade de regeneração natural da flora nativa. A limitada diversidade de sementes disponíveis em viveiros, especialmente de espécies campestres e herbáceas, dificulta a reconstrução fiel dos ecossistemas. Por isso, a restauração eficaz exige cadeias de sementes nativas, uso de bancos de sementes in situ e ex situ, técnicas como transposição de biomassa e planejamento de longo prazo baseado na diversidade, funcionalidade e contexto ecológico local.

IHU – Por que reconhecer o Cerrado como um hotspot de biodiversidade é fundamental para a proteção ambiental?

Cássio Cardoso Pereira – Um hotspot de biodiversidade é uma região com altíssima riqueza de espécies e elevado grau de endemismo que, ao mesmo tempo, sofre intensa perda de habitat e forte pressão antrópica. O Ecodomínio do Cerrado já é reconhecido como hotspot desde 2000, devido à sua enorme biodiversidade e ao avanço acelerado da conversão da vegetação nativa. No entanto, esse reconhecimento precisa sair do papel e se traduzir em ações concretas de conservação. Isso inclui ampliar áreas protegidas, zerar o desmatamento e investir em restauração ecológica baseada na diversidade e em ecossistemas de referência.

IHU – É possível prevenir o colapso desse ecossistema? Como?

Cássio Cardoso Pereira – Do jeito que caminhamos, prevenir o colapso do Ecodomínio do Cerrado exigirá esforço conjunto de governo, setor produtivo, ciência e sociedade civil. É preciso zerar o desmatamento, ampliar áreas protegidas, restaurar ecossistemas degradados, revisar o Código Florestal para aumentar a proteção de vegetação nativa e regular o uso da água, inclusive frente às hidrelétricas.

Essas ações, aliadas à conservação in situ e ex situ da fauna e flora, garantem a manutenção de interações ecológicas essenciais, como polinização e dispersão de sementes, protegem os sumidouros de carbono subterrâneos que são fundamentais para mitigar o aquecimento global e promovem produção e desenvolvimento sustentáveis, preservando biodiversidade, recursos hídricos e estabilidade ambiental.

IHU – Deseja acrescentar algo?

Cássio Cardoso Pereira – Preciso acrescentar que ainda existe uma visão equivocada sobre o desmatamento do Cerrado. Muitas pessoas o tratam como se fosse o dólar, que sobe e desce, mas o desmatamento é cumulativo: o que foi perdido não volta. Reduzir o desmatamento é importante, mas precisamos sempre lembrar que a área original do Cerrado é finita e, ano após ano, fica cada vez menor. Mesmo que consigamos diminuir a taxa de desmatamento, chegará um ponto em que não sobrará mais vegetação nativa suficiente para manter os processos ecológicos essenciais, a biodiversidade e os serviços ambientais, como a proteção de rios e sumidouros de carbono. Por isso, a única estratégia segura é zerar o desmatamento e investir fortemente na restauração das áreas já degradadas, garantindo a conservação do que resta e a recuperação do que foi perdido.

Notas

[1] Campo Rupestre: Ecossistema de vegetação campestre com menos de 5% de cobertura arbórea, caracterizado por comunidades vegetais adaptadas a solos rasos, ácidos e pedregosos, tipicamente encontradas em afloramentos rochosos acima de 900 metros de altitude. (Nota publicada no artigo do entrevistado.)

[2] Cerrado sensu stricto: Complexo de ecossistemas de vegetação savana do Ecodomínio Cerrado, que inclui o Cerrado Ralo, o Cerrado Rupestre, o Cerrado Típico e o Cerrado Denso. Esses ecossistemas representam cerca de 70% do Ecodomínio Cerrado e são predominantemente compostos por gramíneas e arbustos, com árvores espaçadas adaptadas a solos pobres e forte sazonalidade climática. (Nota publicada no artigo do entrevistado.)

[3] Mata de Galeria: Ecossistema de vegetação florestal que acompanha pequenos rios e ribeiros, formando túneis florestais com as copas das árvores a tocar o solo acima do curso de água, com cobertura arbórea entre 70% e 95%. Trata-se de uma floresta perene, com vegetação que permanece verde durante todo o ano. Estas áreas ocorrem tipicamente em solos profundos, ácidos e frequentemente encharcados. (Nota publicada no artigo do entrevistado.)

 

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