Mulheres Sem Terra ocupam terras e paralisam trem da Samarco contra os crimes da mineração

Em Jornada Nacional de Luta, camponesas do Espírito Santo e de Minas Gerais denunciam o modelo da mineração e cobram justiça pelos 10 anos do crime de Mariana, defendendo Reforma Agrária

Da Página do MST

Sem anistia aos crimes da mineração!

Na madrugada desta segunda-feira (09), cerca de 1000 famílias da região sudeste, principalmente mulheres, mobilizadas no estado do Espírito Santo e Minas Gerais amanheceram em luta: no Espírito Santo, 300 famílias ocuparam uma área da Samarco no município de Anchieta com a participação do MST do Rio de Janeiro. E em Minas Gerais, 700 pessoas realizaram o trancamento dos trilhos da Estrada de Ferro Vitória-Minas, no município de Tumiritinga.

As mulheres Sem Terra buscam denunciar o descaso e a impunidade, cobram da justiça brasileira que o crime cometido pela Samarco há 10 anos em Mariana seja julgado e que sua condenação signifique não só a reparação e os direitos garantidos de todas as pessoas e comunidades atingidas, mas também desenvolva ações de restauração ambiental e agroecológica da bacia do Rio Doce,

A ação faz parte da Jornada Nacional de Luta das mulheres Sem Terra, que acontece de 08 a 12 de março, Dia Internacional de Luta das Mulheres, em que as Sem Terra em todo o Brasil entoam: “Reforma Agrária Popular: Enfrentar as violências, ocupar, e organizar!.

Mulheres Sem Terra ocupam trilhos da Samarco em Minas Gerais

Cerca de 700 mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) fecharam os trilhos da Estrada de Ferro Vitória-Minas, no município de Tumiritinga, região leste de Minas Gerais. A ação, um “trancamento” simbólico e político, integra as ações da Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra 2026 e denuncia o que nenhuma sentença judicial foi capaz de fazer em dez anos: responsabilizar criminalmente a mineradora Samarco, pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, que completa uma década em novembro sem que um único réu tenha sido condenado, no Brasil.

Em novembro de 2015, a empresa Samarco (joint-venture da Vale e da BHP Billiton) causou o maior “desastre” socioambiental do Brasil, quando com o rompimento da barragem de Fundão, localizada em Mariana (MG), mais de 30 milhões de metros cúbicos de rejeitos foram despejados na bacia do Rio Doce. Foram mais de 600 km percorridos pela lama no estado de Minas Gerais e Espírito Santo, causando um conjunto de impactos e danos ao meio ambiente e às comunidades às margens do rio. Até hoje, 10 anos depois, nenhuma das empresas foi condenada e a região é fortemente afetada por uma crise hidrica.

Em oposição às ações criminosas das grandes empresas na região, o Movimento Sem Terra vem desenvolvendo ações de restauração ambiental, assistência técnica e projetos de educação e formação com centenas de famílias atingidas pelo rompimento da barragem, nos territórios de Reforma Agrária dos estados de Minas Gerais e do Espírito Santo através do Programa de Agroecologia da Bacia do Rio Doce que já desenvolveu ações de reparação ambiental em mais de 2000 ha em 6 anos do projeto.

Minas Gerais é o estado brasileiro com maior número de barragens do Brasil, são 319 barragens segundo relatórios da Agência Nacional de Mineração (ANM) de 2026. Os relatórios apontam ainda que existem cerca de 45 barragens em situação de risco, 26 em situação de alerta e emergência e, dessas, 2 em risco de rompimento iminente (nível e emergência 3, localizadas em Ouro Preto e Itatiaiuçu). Os riscos não são apenas numéricos, mas estratégicos, pois as barragens estão situadas sobre bacias hidrográficas que abastecem milhões de pessoas, com destaque crítico para o Quadrilátero Ferrífero-Aquífero (QFA), região central do estado.

O MST, junto com outras organizações do campo popular, não só denunciam esse projeto de morte que se alastra e se aprofunda em Minas Gerais com a conivência e investimento do governador do estado Romeu Zema, como defendem e estão construindo na prática, ações que reparam os danos causados pelos crimes, não somente no âmbito individual, mas coletivo, com projetos nos territórios da Reforma Agrária, que colocam as famílias atingidas como protagonistas do processo de reparação no âmbito econômico, social e ambiental.

A mobilização das mulheres em Minas Gerais exige que a Samarco pague pelo crime e são três as pautas diretas vinculadas aos atingidos dos territórios da Reforma Agrária:

1. Restauração florestal nos 52 assentamentos atingidos;
2. Indenização individual para 2 mil trabalhadores rurais Sem Terra atingidos pelo crime da Samarco que ainda não receberam a indenização.
3. Acesso a água potável às famílias atingidas.

As mulheres Sem Terra mais uma vez se colocam no front da luta contra o modelo de mineração predatório em Minas Gerais e convocam a sociedade para se somarem ao ato que coloca em debate e denuncia o modelo de mineração predatório que sangra o estado e mantém famílias inteiras reféns da impunidade.

Mulheres Sem Terra ocupam terras da Samarco em Anchieta, no Espírito Santo 

Cerca de 300 familias Sem Terra, principalmente mulheres, ocuparam terras pertencentes a empresa Samarco, no município de Anchieta, no Espírito Santo. A ação faz parte da Jornada das Mulheres Sem Terra, com denúncia aos 10 anos do crime ambiental da Samarco em Mariana, que atingiu famílias em Minas Gerais, no Espírito Santo e afetou todo o Rio Doce, além de apresentar a pauta de assentar as 1500 familias acampadas no Espírito Santo.

A implantação do projeto Samarco e de outros grandes empreendimentos do capital reduziu significativamente a agricultura familiar, gerando dependência econômica e periferização das cidades. Municípios inteiros, como Anchieta, tiveram grandes extensões de terra destinadas a empresas que realizam compensações ambientais apenas por obrigação legal, enquanto tiram vantagem econômica do território. Estima-se que sejam cerca de cinco mil hectáre da Samarco apenas em Anchieta. Essa lógica de apropriação das terras e de destruição da produção local faz parte da expansão histórica dos grandes projetos do capital, iniciada ainda na ditadura empresarial-militar, e continua a marginalizar famílias que poderiam produzir alimentos saudáveis e garantir soberania alimentar.

A contradição entre a produção voltada para commodities de exportação e a distribuição entre essa riqueza para toda a população é evidente. Os impactos da mineração atingem diretamente as águas da Lagoa de Mãe-Bá e do Rio Benevente, causando a morte de peixes e comprometendo a saúde da população, especialmente em bairros próximos aos empreendimentos. Comunidades tradicionais, indígenas e pescadores também sofrem com conflitos fundiários, além da degradação ambiental que ameaça a subsistência de muitas famílias. A vida das mulheres, que frequentemente acumulam tarefas domésticas e trabalho produtivo, é particularmente afetada, aumentando sua vulnerabilidade social e econômica.

Em Anchieta, o setor da mineração é marcado por um volume expressivo de reclamações trabalhistas que apontam violações sistemáticas de direitos, incluindo o descumprimento de normas de intervalo intrajornada, o não pagamento de horas extras e do adicional de periculosidade, além de pedidos de reconhecimento de vínculo empregatício. Essas irregularidades se estendem às empresas parceiras e prestadoras de serviços, frequentemente alvo de processos, enquanto, na esfera coletiva, o sindicato da categoria move ações por dano moral coletivo e descumprimento de obrigações trabalhistas, registrando histórico de conflitos sindicais com uso recorrente de interditos proibitórios contra movimentos de greve.

A terceirização da mão de obra agrava ainda mais as condições de trabalho, especialmente para as mulheres, sujeitas à escala 6×1, falta de direitos e situações de precariedade e insegurança. Além disso, a chegada dessas empresas intensifica a violência de gênero, incluindo exploração sexual e laboral, violência doméstica, sexual contra crianças e adolescentes, discriminação contra mulheres e pessoas LGBT+ e restringe a autonomia delas, gerando sobrecarga e amplificando os impactos da destruição ambiental em suas comunidades, reforçando a necessidade de políticas públicas que garantam proteção e direitos.

No MST no Espírito Santo, são 3.500 famílias assentadas da Reforma Agrária mais 1500 famílias acampadas aguardando um pedaço de chão para ampliação dos projetos de agroecologia e produção de alimentos saudáveis. A ocupação das terras da Samarco pelas mulheres Sem Terra do Espírito Santo e do Rio de Janeiro neste dia 9 de março busca não apenas reparação pelos danos socioambientais, mas também fortalecer a organização das mulheres e comunidades tradicionais, garantindo participação ativa na reconstrução do território, restauração ambiental e soberania alimentar. A luta das mulheres Sem Terra evidencia que justiça ambiental e social andam juntas, e que para tanto, o MST reivindica essas áreas para o assentamento imediato de famílias Sem Terra.

Por que as mulheres Sem Terra lutam?

Nesse contexto de guerras e avanço da extrema direita e seu projeto de morte pelo mundo, a jornada de luta das mulheres denuncia como esse projeto se expressa no campo brasileiro, através da privatização e destruição da terra e dos bens da natureza. As Mulheres Sem Terra reafirmam a Reforma Agrária Popular como projeto para a sociedade brasileira de produção de comida saudável, através de relações humanas livres de violências e em equilíbrio com a natureza. A Reforma Agrária Popular é o caminho para a construção da soberania nacional.

Com a mobilização das mulheres, o MST se compromete a seguir lutando pela democratização das terras e em defesa da natureza, de enfrentar a violência contra a mulher que só aumenta em nosso país e a seguir lutando pela soberania dos povos de todo o mundo.

REFORMA AGRÁRIA POPULAR: Enfrentar as violências, ocupar e organizar!

Mulheres Sem Terra, 9 de março de 2026.

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