Líder indígena fala sobre crise climática, universidade e limites do modelo econômico baseado na exploração da natureza
Fabiana Reinhol, Brasil de Fato
O líder indígena e escritor Ailton Krenak, membro da Academia Brasileira de Letras, participou nesta segunda-feira (9) de uma coletiva de imprensa antes de ministrar a Aula Magna inaugural de 2026 da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Intitulada “Ampliando alianças através da arte indígena”, a aula abriu oficialmente o ano acadêmico da universidade e reuniu estudantes, professores e público em geral, que lotaram o salão de atos da Ufrgs.
Durante a conversa com jornalistas, antes do evento, Krenak refletiu sobre a trajetória do movimento indígena no Brasil, a crise ambiental, o papel das universidades e os limites do modelo econômico baseado na exploração da natureza.
Krenak relembrou o início de sua atuação na comunicação, quando criou, em 1985, um programa na rádio da Universidade de São Paulo (USP). “Eu inaugurei um programa na Rádio Universidade de São Paulo no ano de 1985. Esse programa se chamava Programa de Índio. Quando a gente inaugurou o programa na rádio da universidade, eu precisava de um locutor, alguém para fazer a cabeça do programa, a chamada.”
Ele contou que convidou um estudante de jornalismo que passava pelo corredor para gravar a chamada do programa. “Estava passando um rapaz no corredor que estava fazendo o curso de jornalismo. Eu falei: ‘moço, vem cá’. O moço era o nosso grande personagem, o William Bonner. Eu falei: ‘vem cá, faz a chamada, faz esse texto aqui pra mim’. Ele, com uma gentileza típica dele, sentou e fez a chamada.”
Segundo Krenak, a gravação permaneceu no ar durante todo o período em que o programa existiu, entre 1985 e 1990, fase que ele considera fundamental para dar visibilidade à luta indígena. “Foi o período mais importante para anunciar que existia um movimento indígena no nosso país.”
Na avaliação do escritor, naquele período predominava no Brasil uma visão caricata sobre pessoas e povos indígenas. “Aquela ideia de que os índios vivem no Xingu, como se fosse um lugar imaginário, e não transitavam na vida brasileira, no meio das pessoas da cidade.”
Ele afirmou que, quando indígenas circulavam em grandes centros urbanos, isso muitas vezes reforçava preconceitos históricos.“Quando alguma pessoa indígena tinha trânsito nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo ou Brasília, só alimentava esse preconceito de que o lugar dos índios é na aldeia.”
Juventude indígena e acesso à universidade
Para Krenak, o cenário vem mudando nas últimas décadas, especialmente com a presença crescente de estudantes indígenas nas universidades. “Hoje nós temos 55 mil pessoas indígenas no ensino superior no nosso país. Alguns fazendo mestrado, doutorado, alguns fazendo especialização no exterior.”
Em sua avaliação, a transformação tem alterado profundamente a percepção da sociedade sobre a diversidade indígena. “Ao longo de 30 anos, a transição de uma geração para outra mudou muito o perfil histórico desse imaginário sobre os povos indígenas.”
Krenak também destacou o avanço das escolas dentro dos próprios territórios indígenas. “Nós avançamos muito com o programa das escolas dentro dos territórios indígenas, que foi uma conquista também da década de 90 para cá.” Segundo ele, essas mudanças impactaram a própria configuração social do país. “Em pouco tempo, as mais de 300 etnias mudaram muito a paisagem étnico-social do nosso país.”
“Adiar o fim do mundo”
Ao comentar as reflexões presentes no livro dele, Ideias para Adiar o Fim do Mundo, Krenak afirmou que não se trata de salvar o mundo atual, mas de imaginar outras formas de existência. “Quando eu menciono iniciativas ou escolhas que nós, comunidades humanas, podemos assumir para adiar o fim de algum mundo, eu não estou pensando exatamente nesse mundo gasto que a gente está disputando.”
Para ele, o desafio é imaginar outras formas de viver. “Eu penso em outros mundos, em mundos onde a nossa ideia sobre humanidade possa ser corrigida.”
Krenak argumenta que a própria ideia de humanidade difundida globalmente ignora as profundas desigualdades existentes. “Aquilo que nós imaginamos que é a humanidade, globalmente, é um equívoco, porque as desigualdades são tão absurdas que seria impossível pôr no mesmo plano esses humanos todos.”
Segundo ele, as populações que vivem nas margens do sistema são as primeiras a sofrer os impactos das crises climáticas. “Essa sub-humanidade está nas bordas do planeta. Ela é afetada por todos os eventos climáticos e por todas as situações dramáticas que o complexo dos humanos vive.”
Crise climática e limites da linguagem
Questionado sobre as tragédias ambientais recentes, como as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, Krenak afirmou que a humanidade atravessa um momento crítico. “Quando as palavras não forem mais capazes de mudar o mundo, é porque nós encerramos totalmente a nossa potência, a nossa capacidade de humanidade.”
Ele alertou para o risco de que a violência passe a ser vista como único instrumento de transformação. “Quando as palavras não tiverem mais poder de mudar nada, aí realmente nós estamos assimilados por uma distopia, por um mundo em que o que vai promover as mudanças é a violência.”
Durante a coletiva, Krenak citou o pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos (Nego Bispo) como referência para pensar novos modos de relação com a natureza. “O Nego Bispo dizia: ‘a terra dá e a terra quer’, no sentido de que ela também tem demanda para nós.” Segundo ele, o modelo econômico atual ignora essa reciprocidade. “Se a gente só extrai da terra, tem uma hora que os rios e as paisagens vão se revoltar contra esse organismo estranho que é o humano.”
Krenak criticou a visão antropocêntrica que coloca a humanidade no centro da vida. “Nós queremos a exclusividade de ser a espécie que mexe no mundo. A gente desaparece com as outras espécies sem nenhum cuidado.”
O papel das universidades
Para o líder indígena, as universidades têm responsabilidade na construção de novos imaginários sobre o mundo. De acordo com ele, algumas instituições de ensino superior ainda estão disputando as narrativas sobre o mundo e reforçando perspectivas de que “é preciso devolver à terra parte daquilo que a gente tirou”.
Krenak também questionou o modelo urbano dominante. “Se as cidades são inviáveis, por que arquitetos e engenheiros não pensam assentamentos humanos mais adequados, não só para os humanos, mas também para a vida em geral?”
Segundo ele, quando os rios não são respeitados, acabam reagindo. “Se os rios não são respeitados na sua integridade, é claro que eles vão reclamar um dia. E eles reclamam numa linguagem que a gente não gosta de escutar.”
“Não podemos ser uma máquina de fazer coisas”
Ao final da coletiva, Krenak voltou a criticar a lógica produtivista da sociedade contemporânea. “A lista de erros que nós temos feito começou lá na Revolução Industrial.” Em sua avaliação o modelo econômico dominante encara a Terra apenas como um espaço de exploração. “O entendimento que as comunidades humanas tiveram desde o final do século XIX é que a terra é uma plataforma e que a gente pode explorar essa plataforma.”
Krenak questionou a expansão de atividades extrativistas em regiões ambientalmente sensíveis. “Até quando nós vamos justificar ocupar uma região que tem floresta, abundância de vida, e correr o risco de contaminar rios e territórios com mineração ou extração de petróleo?”
Para ele, enquanto essa lógica persistir, a humanidade continuará destruindo as bases da própria vida. “Se a gente não consegue pôr isso na equação, nós vamos continuar comendo a terra.”
Citando o pensador yanomami Davi Kopenawa, Krenak resumiu: “Os humanos comem floresta, comem rios, comem pedra, comem tudo que encontram pela frente.” Segundo ele, essa descrição reflete o funcionamento da economia atual. “A ideia de uma economia voraz, que pode consumir tudo, é o motor do tipo de vida que nós estamos levando.”
Editado por: Marcelo Ferreira




