Confronto na madrugada do dia 7 de março deixou um morto, um ferido e novas casas incendiadas, ampliando o clima de medo e desespero
É com profunda indignação e preocupação que assistimos à grave escalada de violência na Terra Indígena Ventarra, onde famílias do povo Kaingang vivem, há meses, sob um cenário de conflito armado, medo e profunda insegurança.
Desde novembro de 2025, dois grupos internos passaram a disputar o controle político da comunidade e o acesso à terra, em especial em torno de interesses relacionados ao arrendamento de áreas para não indígenas. Essa disputa tem sido agravada pela interferência de agentes externos, que, conforme denúncias das próprias lideranças indígenas, vêm estimulando e alimentando o conflito, chegando inclusive a fornecer armas, o que aprofunda ainda mais a violência dentro do território.
O resultado dessa situação é devastador. Nos últimos meses, a comunidade já contabiliza três mortes, diversos feridos e dezenas de casas e veículos incendiados, deixando famílias inteiras em situação de vulnerabilidade extrema. Mulheres, crianças e idosos vivem sob permanente ameaça, muitos tendo que abandonar suas casas para proteger a própria vida.
“Mulheres, crianças e idosos vivem sob permanente ameaça, muitos tendo que abandonar suas casas para proteger a própria vida”
O conflito ocorre em uma área de 772 hectares, atualmente coordenada pela Cacica Toguila Braga, cuja liderança vem sendo contestada por outro grupo da comunidade que reconhecia como cacique Sidnei da Silva.
Na madrugada deste 07 de março de 2026, a violência atingiu um novo e trágico patamar. Um confronto dentro da Terra Indígena resultou na morte de Sidnei da Silva, deixou outra pessoa ferida e provocou novos incêndios de residências, aprofundando o clima de medo e desespero que se instalou entre as famílias.
No momento do confronto, havia apenas sete agentes da Força Nacional no território, que tentaram intervir, mas eram manifestamente insuficientes diante da dimensão da situação. Posteriormente chegaram equipes da Brigada Militar, do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), ambulâncias do município e o Corpo de Bombeiros Militar, que prestaram socorro às vítimas.
É importante destacar que essa tragédia vinha sendo anunciada. O Cimi Regional Sul denunciou reiteradamente essa situação desde novembro de 2025, alertando autoridades sobre o agravamento do conflito e o risco iminente de novas mortes. Apesar disso, as respostas do Estado têm sido tardias, frágeis e claramente insuficientes para proteger a comunidade e impedir a escalada da violência.
“O Cimi Regional Sul denunciou reiteradamente essa situação, alertando autoridades sobre o agravamento do conflito e o risco iminente de novas mortes”
O que causa ainda mais apreensão são os indícios de que outros conflitos estão sendo anunciados em outras terras – Nonoai, Ligeiro, Cacique Doble – que passam pelo mesmo processo de disputas internas em decorrência dos arrendamentos das terras.
Diante da gravidade dos fatos, o Cimi Regional Sul cobrou das autoridades federais – especialmente do Ministério da Justiça, do Ministério dos Povos Indígenas, da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e da Polícia Federal – a adoção imediata de medidas concretas e eficazes que incluíam:
1- A ampliação urgente da presença institucional no território, garantindo a proteção das famílias Kaingang;
2- A investigação rigorosa da atuação de agentes externos que estariam incentivando, financiando ou armando o conflito;
3- A adoção de mecanismos institucionais de mediação e pacificação, com participação das próprias lideranças indígenas;
4- A implementação de ações estruturais que enfrentam as causas profundas do conflito e garantam a integridade da Terra Indígena.
É inaceitável que comunidades indígenas sejam abandonadas à própria sorte, vivendo sob a lógica da violência, enquanto interesses externos disputam e se beneficiam de seus territórios.
A omissão do Estado brasileiro diante dessa realidade não apenas agrava o conflito, como também coloca em risco a vida de dezenas de famílias Kaingang.
A situação exige ação imediata, firme e responsável das autoridades públicas. Cada dia de inércia pode significar mais violência, mais destruição e mais vidas perdidas.
Porto Alegre (RS), 08 de março de 2026.
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Ocorrência segue em atendimento na terra indígena. Foto: Lucas Ximell / QQ Deu Notícias




