Jesus cura “cego de nascença”: na hora da decisão, calar ou enfrentar? (Jo 9,1-41) Por Gilvander Moreira

No Evangelho do discípulo/a amado/a, comumente chamado de Evangelho de João, no capítulo 9,1-41, temos o sexto de sete sinais narrados por João, do capítulo 2 a 11. Para compreendermos de forma sensata e libertadora o evangelho de Jesus vale a pena prestar atenção no contexto religioso e sociopolítico da época do quarto Evangelho, décadas de 80 e 90 do primeiro século da era cristã.

Na década de 80, a Comunidade Judaica sobreviveu à guerra imposta pelo Império Romano, que levou seu exército a sitiar a cidade de Jerusalém por cerca de dois anos e, no ano70,  destruir Jerusalém e o templo.

É importante recordar que sobreviveram os judeus de linha dura, moralistas e fundamentalistas, os que abaixaram a cabeça e não resistiram à invasão romana. Este judaísmo de direita e extrema-direita tinha poder, na sinagoga, para interrogar, julgar e até expulsar seus membros (Jo 9,13.18.22.34). Os cristãos, que, até então, se organizavam de casa em casa, ainda estavam debaixo do grande guarda-chuva que era a sinagoga. Mas chegou o momento em que não dava mais para conciliar a brutal contradição entre ser pessoa discípula de Jesus e abaixar a cabeça diante das injustiças promovidas por um tipo dejudaísmo dogmático e fundamentalista.

Sinagoga é o equivalente grego da palavra hebraica Kahal, que significa “assembleia”, reunião de pessoas. Para haver uma assembleia legitimamente constituída, era necessária a presença de “dez Israelitas” (pela maioria dos escribas, interpretado como “dez homens”). As sinagogas mais antigas eram, sem dúvida, reuniões privadas em casas particulares. Do sentido original de “reunião”, com o tempo, o termo “sinagoga” passou a ser aplicado ao prédio onde estas reuniões eram realizadas.

A sinagoga tinha uma assistência social que ajudava os cegos, viúvas e órfãos, mas com a condição de que fossem judeus. Pela lei da pureza e da impureza, os sacerdotes e escribas da sinagoga definiam quem devia ser considerado justo e quem devia ser taxado como pecador.

Após a destruição de Jerusalém, no ano 70, pelo exército do escravocrata Império Romano, os judeus celebraram um acordo com os vencedores. O judeu que se filiasse a uma sinagoga e nela pagasse o imposto teria parte de seus direitos reconhecidos pelo Império. Mas quem não se adequasse… ficaria excluído. Este acordo implicava reconhecer os deuses do império. Isso os impedia de aceitar Jesus como salvador e libertador. Para o império, salvador (soter, em grego) era o imperador sediado em Roma. Com este acordo, os cristãos foram expulsos da sinagoga, o que implicava perder também o acesso à assistência social prestada pela sinagoga e perder igualmente um vínculo que justificaria pelo menos uma precária cidadania romana.

Em Jo 9,1-5 se diz que Jesus vai ao templo na Festa das Tendas, quando o templo e a cidade de Jerusalém deveriam estar iluminados com tochas. Neste contexto, ao sair do templo, Jesus vê um cego de nascença fora do templo e subverte o que estava sendo dito no templo ao dizer “Eu sou a luz do mundo” (Jo 2,5), ou seja, o templo e o sacerdócio arraigado a ritualismos, a rigorismo legal e a dogmatismos não estão sendo luz para o povo sedento de Deus, de pão e de beleza, mas a luz está no ensinamento e testemunho de Jesus, fora do templo.

O evangelho de Jo 9,1-41 é um texto cheio de perguntas. Ele contém um incisivo interrogatório. Por que e para quê? Em Jo 9,2 aparece a teologia/ideologia da retribuição e do domínio, na pergunta a Jesus: “Mestre, quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?”. Tentam espiritualizar causas reais de um problema fruto de relações humanas e sociais e arrumar bodes expiatórios e, pior, encobrir as causas reais da cegueira, que estavam na religião dogmática, fundamentalista e moralista. Entretanto, como tudo concorre para algum bem, para Jesus a cegueira dá oportunidade para a ação de Deus, luz na escuridão. Gente com cabeça na teologia da retribuição e do domínio considera o cego como vítima do pecado dos pais, o que inocenta os chefes da instituição religiosa.

Diz o evangelho que Jesus cuspiu na terra e, com a saliva, fez lama – com a qual tocou os olhos do cego e o enviou para se lavar na piscina de Siloé, que significa O Enviado. O cego foi, se lavou e voltou vendo (Jo 9,6-7). Trata-se de uma recriação na relação com a mãe terra. O evangelista está  de forma sutil evocando a criação, narrada no início do livro do Gênesis: do barro Deus fez o ser humano e infundiu nele espírito de vida. Eis as comunidades do/a discípulo/a amado/a recriando a vida, como novas comunidades originais. Esta cena ganha eloquência, ao recordarmos que o cego e a saliva eram considerados impuros e que quem tocasse em alguém ou algo impuro ficaria impuro também. Na sua rebeldia libertadora, com a saliva, algo impuro, Jesus toca no cego, alguém impuro, e resgata a sua capacidade de ver. O sinal, que é mais do que milagre, acontece fora do templo, para além do templo.

Em um processo, as atitudes de Jesus recriam a vida. Acostumados com a desigualdade produzida pelas relações humanas e sociais promovidas pela instituição religiosa e os chefes da sinagoga, os vizinhos ficaram incomodados e iniciaram um processo inquisitorial sobre o cego que resgatou a visão. “Você não é o mendigo cego?”; “Quem te curou?”. Sob interrogatório, o cego, que tinha encontrado o caminho da vida fora do templo, não se calou, não se acovardou e teve a coragem de afirmar verdades que incomodam e fazem desmoronar as instituições ancoradas em lógicas discriminatórias. De cabeça erguida, o ex-cego disse: “Sou eu mesmo. Quem me curou foi Jesus, ao fazer lama e aplicar nos meus olhos e me enviar para banhar na piscina de Siloé. Fui, me lavei e voltei a ver. Não sei para onde foi Jesus” (Jo 9, 8-12).

A inquisição aumentou ao conduzirem o ex-cego aos fariseus. Estes, escandalizados diante do anúncio de um “milagre” no sábado, e cura operada com algo impuro: saliva, maldiziam Jesus: “Não é de Deus, pois não respeita a lei do sábado”. Ameaçado de forma mais incisiva, o ex-cego não se calou e de forma altaneira profetizou: “Jesus é um profeta”. Estava “cutucando a onça com vara curta”, ao legitimar Jesus como profeta, ou seja, enviado e porta-voz do Deus da vida no meio do povo.

Os pais do ex-cego foram trazidos para a sinagoga e submetidos a interrogatório. Afirmaram que ele era o filho deles, mas não tiveram coragem de afirmar que fora Jesus quem o curou, por medo da expulsão que sofreriam da sinagoga, pois “os judeus já tinham combinado entre eles que, se alguém reconhecesse Jesus como Cristo, seria expulso da sinagoga” (Jo 2,22). Eram, provavelmente, pais pobres, que dependiam da assistência social que a sinagoga oferecia. Muitas pessoas éticas e justas, que gostariam de dizer verdades, muitas vezes não podem se pronunciar, pois as retaliações que sofrem são insuportáveis. Entretanto, os pais afirmam a autonomia do ex-cego: “Interrogue ele, que já é adulto” (Jo 9,23).

Fariseus voltaram a interrogar o ex-cego, que, de forma altiva, reiterou tudo o que já havia afirmado. Odiando, parte dos fariseus disseram: “Você é discípulo dele (Jesus), nós somos discípulos de Moisés” (Jo 9,28). O irmão curado por Jesus não abaixou a cabeça; intrépido, desmascarou os chefes da sinagoga e, por isso, “foi expulso” (Jo 9,34). O cego expulso significa os cristãos sendo expulsos da sinagoga.

Uma vez expulso, o irmão reencontrou Jesus, que o acolheu em um diálogo permeado pela alteridade, fazendo com que o ex-cego reconhecesse que Jesus é “o Senhor”. O Evangelho conclui alertando que os verdadeiros cegos são os que estão apegados ao dogmatismo, ao legalismo e a posturas discriminadoras, que segregam e cegam muitas pessoas.

Jesus cura um cego de nascença, que, por ter sido curado, passa a ser interrogado pelos senhores da instituição religiosa dominante. E o cego, ao ser submetido à inquisição, fala a verdade: “Foi Jesus que me curou”. Fariseus e escribas ficam furiosos, pois como pode, em um sábado, quando é proibido trabalhar e curar, fora do templo, Jesus, em um processo de solidariedade, curar? Isto estremece as rígidas estruturas do templo/sinagoga, pois revela que o culto oficial estava cegando as pessoas, ao invés de resgatar a sua visão.

Em Mc 8,22-26, Jesus tem dificuldade para curar um cego. Em João 9,1-41, a cura se dá em um processo. O principal em Jo 9 não é que Jesus cura em um sábado, mas sim mostrar quem verdadeiramente é cego. Quem assume o caminho da fé e da vida, mesmo fora dos esquemas estabelecidos, ou quem prefere a comodidade das instituições e a garantia do poder? A narrativa de Jo 9 demonstra que, de fato, os “cegos de nascença” eram os judeus arraigados à instituição do templo, enquanto o cego fora do templo era o que via, falava e reconhecia Jesus como Cristo, o nosso salvador e libertador.

Óbvio que “dar luz”, em Jo 9, não significa fazer uma mágica e fazer um “cego de nascença”, com problema irreversível, adquirir a capacidade de boa visão, mas significa adquirir visão crítica e criativa e acolher o que expressava o reinado divino no nosso meio. Os milagres nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas e os sete sinais do quarto Evangelho não violam as leis da natureza. O filósofo e teólogo Tomás de Aquino já dizia: “a graça supõe a natureza.” É nas relações humanas e sociais que podem acontecer milagres e sinais, não fora.

Em suma, em Jo 9,1-41, o cego expulso representa a comunidade joanina, que é de periferia, sem poder, marginalizada e excluída. De resistência, perseguida e minoritária. Organizada sob a liderança do/a discípulo/a amado/a.     

Um cego que passa a enxergar faz tremer o status quo, subverte muita coisa. Ver é algo revolucionário. Quem passa a ver não precisa mais de esmolas e cria autonomia. O pior cego não é apenas o que não quer ver, mas aquele que impede os outros de verem, isto é, quem fura os olhos dos outros.

Atualmente, com outros rótulos, práticas e linguagens, pessoas humanas que seguem Jesus e buscam vivenciar os valores do reinado divino, muitas vezes, são perseguidas e expulsas de instituições religiosas dogmatizadas, fundamentalistas, clericalistas e moralistas. É hora de formar e cultivar comunidades que primam pelo amor, justiça, paz, respeito, cuidado, empatia, para além dos  templos e das instituições.

Obs.: Assista, abaixo, vídeo com o conteúdo acima:

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