Como frear a fúria destrutiva em 2026?

Professor provoca: grande sintoma da crise política do Brasil é a perda dos “afetos democráticos”, hoje sequestrados pelo ódio. Mas, quando a desconfiança impera na sociedade, a saída passa por políticas públicas concretas, como a taxação dos super-ricos

Renato Janine Ribeiro em entrevista a Thiago Gama, em Outras Palavras

Professor titular de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo (USP), o ex-ministro Renato Janine Ribeiro é uma das vozes mais lúcidas e sofisticadas do pensamento crítico brasileiro contemporâneo. Filósofo formado pela USP, com mestrado pela Université de Paris-I, Panthéon-Sorbonne, doutorado pela USP e pós-doutorado pela British Library, Janine Ribeiro construiu uma trajetória ímpar que articula o rigor acadêmico com a intervenção pública qualificada. Foi ministro de Estado da Educação entre abril e outubro de 2015, no governo da presidenta Dilma Rousseff, e diretor de Avaliação da Capes (2004-2008), onde dirigiu as avaliações trienais de mais de 2.500 cursos de pós-graduação no Brasil. Atualmente, preside a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) – mandato de julho de 2021 a julho de 2025 – e é pesquisador sênior do CNPq. Sua obra, vasta e multifacetada, transita da exegese dos clássicos da filosofia política – com destaque para seus estudos sobre Thomas Hobbes, que lhe renderam os livros A Marca do Leviatã e Ao Leitor Sem Medo – à análise aguda da realidade brasileira.

É autor de uma das mais instigantes teorias sobre a formação política nacional, que desenvolve a partir do conceito de “sociedade ocidental dissidente” e do papel central dos afetos na vida pública, tema que aprofunda em O Afeto Autoritário – televisão, ética, democracia. Venceu o Prêmio Jabuti de melhor ensaio em 2001 com A Sociedade contra o Social: o alto custo da vida pública no Brasil, obra seminal que investiga a inversão perversa entre vícios públicos e virtudes privadas no país. Publicou, entre outros títulos fundamentais, A Boa Política – ensaios sobre a democracia na era da Internet (2017) e A Pátria Educadora em Colapso – reflexões de um ex-ministro sobre a derrocada de Dilma Rousseff e o futuro da educação no Brasil (2018). Sua produção intelectual foi reconhecida com as mais altas distinções: é condecorado com a Ordem Nacional do Mérito Científico (1997), a Ordem de Rio Branco (2009), a Ordem do Mérito Naval (2015) e a Grande Medalha da Inconfidência (2018). É Professor Honorário do Instituto de Estudos Avançados da USP (2016), acadêmico emérito da Academia Paulista de Direito, membro da Academia Brasileira de Ciências, da Academia de Ciências do Estado de São Paulo e cidadão honorário do Estado do Piauí. No âmbito da cultura, integra o Conselho Consultivo de Inhotim e o Conselho Superior de Estudos Avançados da FIESP. Concebeu e apresentou duas séries de programas televisivos sobre ética para a TV Futura, posteriormente exibidos pela TV Globo. Colunista semanal do jornal Valor Econômico, Janine continua a exercer, com rara capacidade analítica, o papel do intelectual público que não se furta ao debate dos grandes temas nacionais.

Nesta entrevista exclusiva a Outras Palavras, Renato Janine Ribeiro enfrenta as questões mais prementes de nosso tempo: o sequestro do desejo democrático pelos algoritmos do ódio, o fetichismo burocrático que sabota a soberania científica, o papel do intelectual no descrédito da política, a reconstrução de referenciais comuns diante da fragmentação social, a potência do afeto como antídoto ao ressentimento neofascista, a defesa dos investimentos públicos em educação e saúde em tempos de austeridade e a urgência de uma temporalidade lenta, reflexiva, que nos permita escapar da tirania da rapidez.

Em sua obra “A Boa Política”, o senhor distingue o desejo democrático da exigência republicana. Como essa tensão se manifesta hoje, quando o desejo parece capturado por algoritmos de ódio?

A minha oposição entre democracia e república é que a Democracia é um clamor dos de baixo, dos pobres, enquanto a República é uma organização que visa a fazer funcionar o todo e, nesse sentido, ela acaba, querendo ou não, estando mais próxima da preservação do status quo. Então se torna muito importante na democracia um desejo às vezes revolucionário, rebelde, capaz até de derrubar o regime, enquanto a república está mais preocupada com a governabilidade. Defendi esta tese sobre ambas em dois livros que publiquei em 20001. Neste contexto, entendi que, no Brasil, o PT, o Partido dos Trabalhadores, era um partido de vertente democrática, enquanto o PSDB, preocupado sempre com a governabilidade, valorizava mais o tema da República.

O desejo é obviamente mais irracional do que a vontade. A vontade se compreende na expressão “força de vontade”, que nos cobra domesticar, domar o próprio desejo, não deixar que ele nos domine. A ideia republicana é que o desejo é perigoso para o corpo político, porque, para dar um paralelo que ilustra bem as coisas, ele vai nos fazer comer doce, comer gordura, comer açúcar; para vencer a obesidade, precisa-se de muita vontade, muita força de vontade. Agora, nesta minha tese, eu valorizo o desejo no seu lado positivo, como aquilo que vai além da mera necessidade, que realiza a pessoa na sua diversidade. Mas os afetos também podem ser negativos. As paixões positivas são as de afirmação, amor, amizade, a disposição a cooperar. Já as paixões negativas estão ligadas ao ódio, à raiva, à fúria, à destruição, à vontade de destruir. Ora, estamos num momento em que as paixões negativas estão sendo instigadas com muita força, e esse problema exige que o combate político seja travado não apenas de forma racional, mas também no plano do desejo.

O que isso quer dizer? Que precisamos constantemente verificar de que maneira a extrema direita, na sua fúria negacionista, está conseguindo conquistar as paixões e mentes, mais até as paixões do que as mentes das pessoas em geral, independentemente até do nível de educação, porque há pessoas com formação superior que são conquistadas por esse discurso do ódio. Precisamos ser capazes de travar a luta nesse ponto, que não é fácil para quem, como o mundo acadêmico, valoriza especialmente a razão.

O senhor criticou recentemente a “opção brasileira pela burocracia” como um entrave ético. De que forma esse fetiche administrativo sabota a soberania científica e o progresso social do Sul Global?

A opção brasileira pela democracia e pela burocracia não é apenas uma questão de meios que são difíceis, irritantes etc. É uma tendência que temos a resolver as questões no papel. Com muita frequência, quando temos um problema importante, pensamos de que maneira vamos legislar sobre ele e não como vamos tratá-lo. Aqui, talvez não haja apenas uma tradição portuguesa do cartório, da burocracia, da administração, mas algo francês: quando escreve o Antigo Regime e a Revolução, Tocqueville levanta a ideia de que os ingleses desenvolveram na prática as questões públicas e políticas, que toda a formação do Estado inglês é uma formação de longo prazo, ao longo dos séculos, na qual as pessoas vão aprendendo com muito ensaio e erro, e até mesmo com duas revoluções no século XVII, mas revoluções que não mudam tanto o mundo quanto a Revolução Francesa mudará um século depois da segunda revolução inglesa de 1688, a chamada Revolução Gloriosa. Então, Tocqueville entende que os revolucionários franceses deviam muito aos homens de letras, aos filósofos, que se dedicaram a conhecer os problemas, mas sem terem experiência prática com eles. Daí, no entender dele, uma insuficiência da Revolução Francesa, insuficiência por seus excessos, coisa de philosophes. Talvez nós, no Brasil, outorguemos muita importância aos textos. Penso sobretudo na importância dos advogados em nossa sociedade. Muitas vezes se espera que a solução venha de novas leis. Vou dar um exemplo: a CLT, Consolidação das Leis do Trabalho, já em 1943, proíbe pagar salários diferentes pela mesma função. No entanto, apesar de fazer quase um século que temos essa determinação tão importante ética e juridicamente, volta e meia surgem projetos de lei, que acabam sendo aprovados, para proibir pagar salários diferentes para homens e mulheres. Mas por que isso? Porque a lei não é aplicada. Parece que aqui muitas vezes basta a lei, mas ela não se aplica.

Ou o recente caso do cão Orelha, chacinado por jovens em Santa Catarina: a reação nas ruas foi pedir novas leis, quando as que existem já puniriam os responsáveis. Nesse ponto, vou lembrar uma ação boa de uma pessoa condenada por corrupção: Paulo Maluf. Quando ele se tornou prefeito de São Paulo, em 1993, foi quem impôs o respeito à exigência do cinto de segurança, já prevista em lei, mas até então não aplicada. Na época, dizia-se que cada dia isso salvava seis vidas: diariamente, havia seis pessoas que morriam no trânsito apenas em São Paulo, por não usarem o cinto de segurança. Depois de São Paulo adotar isso, todos os estados começaram a fiscalizar quem usa e quem não usa o cinto de segurança.

Como o senhor analisa o papel do intelectual público hoje, frente ao “descrédito da política” e à ascensão de lideranças que fazem da mediocridade um signo de autenticidade?

No meu entender, o intelectual já é intelectual público, porque entendo o intelectual como aquele que se diferencia do cientista em geral, da pessoa culta em geral, do acadêmico em geral, porque ele discute o valor das coisas. Enquanto estou estudando, digamos, Thomas Hobbes, ou alguém está estudando o meio ambiente, ou está estudando um filósofo qualquer, um ponto qualquer de biologia ou física, estamos fazendo ciência, mas de certa forma estamos confinados em nossa academia, sem dúvida discutindo com os nossos pares e fazendo avançar o conhecimento, a ciência, a filosofia. Mas no momento em que passamos a discutir o valor das coisas, tanto das coisas que estudamos quanto das coisas que vemos fora e para as quais usamos nosso instrumental teórico, analítico e de pesquisa, neste momento somos intelectuais. Então, o intelectual já é público por definição. Agora, qual é o problema que temos aí? Primeiro, posso dizer que ao longo da minha vida assisti praticamente a um avanço muito grande da figura dos intelectuais. Isso se deve muito à Folha de S. Paulo nos anos 1980, quando fez seu projeto Folha e se cercou de intelectuais, inclusive alguns que formavam sua famosa equipe de articulistas, da qual nunca fiz parte, mas nessa época, por uma ou duas décadas, eu escrevi bastante no jornal sobre assuntos muito diferentes, e muitas outras pessoas mais conhecidas, mais avançadas do que eu, mais seniores do que eu, também escreviam no jornal. Fora isso, também penso que teve muita importância a atividade de Adauto Novaes, da Funarte, quando realizou uma série de seminários, começando com “Os Sentidos da Paixão”, que teriam muito impacto de público. A destacar que tiveram, neste contexto, especial importância os filósofos. Dos seminários que Adauto Novaes organizou nos anos 80 e 90, pelo menos um terço dos participantes era da filosofia.

Curiosamente, nesse período final da ditadura, começo da democracia, a direita participava pouco tanto da cultura quanto da discussão pública com base intelectual. Ela era formada por políticos ou mesmo advogados, mas de formação mais limitada. O advento de intelectuais de direita no espectro da discussão pública é recente, deve ter 10 ou 15 anos, uns deles com qualidade, outros sem.

Agora, o que está se vendo é um descrédito de modo geral da esfera pública. Na sociedade brasileira, há um capitalismo primário, selvagem, que ocupa o espaço quase todo. Se o princípio do capitalismo é a busca do lucro, não há nada errado ou ilegítimo nisso, mas tem que ser feito dentro de limites muito claros. Se virmos o grande filósofo do capitalismo iniciante, que é John Locke, notaremos que ele coloca a questão da propriedade privada dentro de um contexto de uma organização definida por Deus. É dentro desse quadro que temos a busca do lucro.

Ou veja “Amor e Morte” de David E. Kelley, na HBO. Essa série mostra um assassinato cometido por uma mulher, mas paradoxalmente, tanto a assassina quanto sua vítima, quanto todos na pequena cidade americana em que vivem, organizam sua sociabilidade dentro da igreja. Há um quadro dentro do qual as pessoas, mesmo a criminosa, estão colocadas: a vida social é organizada. Mas o que acontece no Brasil? Esse enquadramento aqui é fraco. Os indivíduos ficam muito soltos. Em meu livro A sociedade contra o social, tomei a célebre expressão de Bernard Mandeville: “vícios privados, benefícios públicos”. Os vícios privados têm como um dos seus principais exemplos a ganância. Acontece que a ganância é o próprio motor do capitalismo, só que precisa ser enquadrada. Ela tem que respeitar as leis; ao ser enquadrada, gerará benefícios públicos. Aqui a equação se inverte, vemos no público os vícios e no mundo privado as virtudes. Então, aqui a moral é socialmente improdutiva.

Aqui, a busca do lucro, sem estar baseada num respeito ao quadro social, ao público, ao corpo político, acaba gerando corrupção. Com isso, quando cada um busca simplesmente sua vantagem pessoal, ao se dissolver o quadro em que todos lidamos com os outros, a confiança se torna impossível. Vamos ver o que é confiança: confiança é praticamente o mesmo que fé, ou é o fundamento dos laços sociais. Eu, quando ando pelo centro da cidade ou em qualquer bairro, confio em que ninguém vai me atacar. A chance de alguém me atacar é mínima. Se estou num lugar ermo à noite, ou considerado perigoso, minha desconfiança aumenta. Quero dizer que a gente, para poder viver em sociedade, tem uma confiança implícita nos outros, e essa confiança é a base do laço social. Quando cada um procura sua vantagem, quando é cada um por si, some essa confiança e passamos a descrer de tudo. Então, teremos medo da criminalidade, real ou imaginária; medo dos governantes, que podem se corromper; medo dos candidatos, que alguns acham que são todos da mesma cepa ruim, e por aí vai. Ao descrédito, se soma o negacionismo.

Temos dois negacionismos, o científico, que se opõe à ciência; e o negacionismo dos fatos, que solapa o trabalho dos jornalistas decentes; com eles, perdemos as condições mínimas de convívio em sociedade, que se baseia na confiança um no outro e no acordo sobre certos princípios. Por exemplo, acreditamos todos que o sol vai nascer amanhã, ou pelo menos vai clarear o dia; acreditamos nos resultados da loteria; acreditamos no resultado das eleições; acreditamos nas vacinas. Ora, os dois últimos pontos foram extremamente contestados pela extrema direita nos últimos anos. Quando não acreditamos mais no resultado das eleições, a coisa fica muito perigosa. Passamos a achar que há uma fraude na base do próprio poder que nos governa, e ele se torna ilegítimo. E ao se tornar ilegítimo, depô-lo se torna legítimo, o que explica o 8 de janeiro de 2023, quando a extrema direita tentou derrubar o governo eleito do Brasil e cogitou inclusive assassinar o presidente, o vice-presidente e o ministro do Supremo Tribunal Federal. É muito grave o efeito da perda da confiança, e vai ser difícil restabelecer essa confiança inclusive nesses parâmetros básicos.

Vivemos um tempo em que o diálogo parece ter saído de cena. Como reconstruir um referencial comum de sociedade diante do avanço de particularismos que fragmentam o tecido democrático?

Da questão do fim do diálogo já tratei um pouco ao dizer que, para o diálogo, nós precisamos de alguns referenciais comuns. Eu diria que são de duas ordens: primeiro, os fatos. Precisamos ter um acordo sobre certos fatos, que podem ser elementares: o sol se levanta, estamos no hemisfério sul, o país em que vivemos é o Brasil, o presidente se chama tal, ganhamos várias Copas do Mundo. E o segundo são os valores. Precisamos ter certos valores, como a verdade é superior à mentira, ou o bem é melhor que o mal. No caso da política, eleições livres definem quem vai governar, eleições livres supondo que não haja jogo baixo, que não haja exclusão de candidato favorito por manobras golpistas, como aconteceu em 2018, quando o complô da Lava Jato tirou Lula, que era o favorito das pesquisas, e colocou Bolsonaro na presidência.

Claro que podemos discutir os valores. Por exemplo, eu entendo que o valor bíblico, e mais do que bíblico, universal, “não matarás”, não abrange apenas a situação em que uma pessoa é exterminada com faca, com uma arma branca, arma de fogo ou veneno, mas também situações em que, por descaso, desatenção, egoísmo ou negligência, se deixa uma pessoa morrer. Portanto, “não matarás”, no meu entender, tem também uma extensão para políticas sociais: deixar uma pessoa morrer de fome é violar esse mandamento bíblico, e mais que bíblico, de praticamente todas as sociedades que existem. Agora, nesse ponto pode haver divergência, pode haver pessoas que entendem “não matarás” num sentido mais estrito. Esse é um ponto que pode estar em disputa, mas o princípio de não matar eu penso que é universal. Não mentir é outro princípio importante. Mas Benjamin Constant, o filósofo franco-suíço, critica Kant porque este obrigaria uma pessoa a dizer a um assassino onde estava a vítima que este busca, e Kant acabou concordando que sim, devia dizer a verdade mesmo a um assassino em busca de seu assassinando, por assim dizer. Isso de Kant me parece bastante errado. Mas é um caso em discussão.

Sem uma comunidade de respeito a certos fatos e certos valores, é difícil a convivência e o diálogo. O diálogo é crucial para desenvolver, a partir de fatos e valores comuns, proposições importantes. No conflito direita-esquerda, em que a esquerda defende políticas sociais mais generosas, eu diria mais justas e mais igualitárias, é preciso que os dois tenham base nos fatos e em valores, quer dizer, que haja um acordo geral sobre a igualdade de todo ser humano, sobre a liberdade de todo ser humano, talvez até sobre, para completar o tríptico da Revolução Francesa, talvez até sobre a fraternidade que devemos aos nossos semelhantes. Mas, a partir disso, podemos discutir uma política adequada. Por exemplo, o PSDB no governo adotou políticas sociais, o PT adotou políticas sociais mais amplas, mais profundas, mas é inteiramente normal que, dentro de uma democracia, haja um partido de mais à direita que adota políticas sociais mais limitadas, porque acredita que a economia de mercado poderá proporcionar inclusão grande e, por isso, se abstém de incentivos diretamente do governo; e, por outro lado, o partido de esquerda quer que as políticas sociais sejam essencialmente políticas públicas. Isso tudo é normal.

O problema que temos hoje, e não apenas no Brasil, é haver um negacionismo muito grande. O negacionismo afeta basicamente duas profissões: um que ataca a ciência e teve como grande exemplo a sabotagem não apenas das vacinas contra a Covid, mas, antes mesmo disso, a ação contra a medida de distanciamento físico. Outro é o ataque aos jornalistas, que não hesita em usar fake news — lembrando que este é apenas um eufemismo para a produção de mentira em escala industrial. Ora, como vou dialogar com uma pessoa que, se você disser a ela “pesquisas científicas mostram tais ou quais coisas”, dirá que não acredita nas pesquisas científicas? E se você começar um diálogo com base em fatos, ela disser que tem direito a ter uma opinião? Opinião é uma forma de conhecimento inferior à da ciência, porque não tem prova, é apenas a doxa, como se diz em grego. Essa perda do diálogo afeta não só a democracia como regime político, mas também o próprio convívio das pessoas: famílias racharam em função do negacionismo.

Em sua análise das “sociedades dissidentes”, o afeto ocupa lugar central na vida pública. Como evitar que essa potência afetiva seja convertida em combustível para o ressentimento neofascista?

Sim, é uma tese com a qual trabalho há muito tempo, ou seja, a de que o Brasil é uma sociedade ocidental dissidente. Eu já pensei que a América Latina como um todo fosse, mas hoje tenho certeza de que o Brasil é. E isso quer dizer o quê? Quer dizer que temos valores comuns com o Ocidente, mas também somos diferentes dele. Localizo essa diferença não na nossa miscigenação étnica, mas na importância grande dada ao afeto em nossa cultura. E esse ponto para mim ficou muito saliente, por exemplo, com o uso do coração em campanhas políticas, inclusive de direita. Paulo Maluf em São Paulo: “Eu amo São Paulo” com o coração; Antônio Carlos Magalhães na Bahia fazendo escrever “Salvador” com o coração no lugar do “ó”. Há aqui o que chamei de “afeto autoritário”2.

Em contraposição a ele, minha tese é que o PT apostou no afeto democrático, do qual é exemplo a famosa metáfora de Lula comparando o ato de governar com o de cuidar de uma jabuticabeira — sendo que a gente quer que a jabuticabeira dê frutos rapidamente, mas ela demora de 7 a 10 anos. Temos que cuidar dela e ter esperança, como ele disse várias vezes, mas assumindo ele o compromisso de que, mesmo que demorasse, iria realizar o que prometeu. Esse discurso dele contrastava com o de seu antecessor na presidência, Fernando Henrique Cardoso, muito mais focado na razão, mas uma razão de senso comum. Aliás, quem me disse isso foi o próprio Fernando Henrique, sem se gabar de forma alguma, não dizendo que sua racionalidade fosse superior à emocionalidade de Lula, porque me disse: “minha razão pública, razão quando eu falo à sociedade, é do nível do senso comum”. Assim, em vez da metáfora da jabuticabeira, Fernando Henrique usava a aula de Max Weber, sobre as duas éticas etc3.

Em suma, temos um afeto autoritário que foi fartamente utilizado pela direita, uma racionalidade de senso comum que foi uma marca dos oito anos do PSDB na presidência da República, e um afeto democrático que é o eixo do PT. O problema que você coloca é: estará o afeto sequestrado pelo ódio? Terá esse afeto democrático completado o seu ciclo de vigência e teria sido substituído pelo ódio? Bom, volto à eleição de 1989, retrocedamos. Nela vi uma contraposição entre um discurso épico de esquerda, de Lula, e um discurso épico de direita, de Fernando Collor de Mello, que acabou sendo eleito. Uma epopeia era prometida ao Brasil pelos dois principais candidatos, os dois finalistas do segundo turno, passando por pontos diferentes, mas eram discursos épicos, que queriam a constituição de um país forte, uma utopia nos dois casos: uma utopia de esquerda, uma utopia baseada na solidariedade, em políticas públicas, o inverso, uma utopia de direita, uma utopia baseada no liberalismo e no enriquecimento dos indivíduos.

E nessa eleição de 1989 num segundo plano ficou justamente o PSDB, que depois chegaria ao governo, mas que propôs, nele, um discurso prosaico. Fernando Henrique é um mestre da prosa e fez não só uso da prosa como fez um governo algo prosaico. Um jornalista, Elio Gaspari, criticava com frequência o que parecia a ele uma espécie de farol baixo da presidência da República.

O problema é que, se houve num momento uma epopeia de direita, Bolsonaro, contra o PT, não reciclou uma epopeia de direita, adotou um discurso do ódio, da destruição. O discurso de Collor, embora tenha utilizado na reta final da campanha eleitoral o golpe baixo de chamar a ex-namorada de Lula para a TV para desqualificar a imagem de seu rival, era um discurso que prometia vinho e mel, prometia muita felicidade. Já Bolsonaro diria, poucos meses depois da sua posse, no almoço na embaixada brasileira em Washington, que sua intenção era primeiro destruir para depois construir. Mas jamais disse o que queria construir. Tanto é que os próprios ministérios foram desfalcados: ao deixar o governo, a máquina pública estava bastante avariada. E esse é um problema sério: precisamos ter uma máquina pública que funcione, da mesma forma que precisamos que as metas fixadas pela Constituição, entre elas acabar com a pobreza no Brasil, sejam realizadas. Não importa tanto se por uma via liberal, como o PSDB tentou, ou por uma via progressista, como o PT se empenhou em fazer. Mas o que não se pode é ir contra. O problema desses quatro anos de Bolsonaro e do legado que ele deixou, e que ainda ameaça nossa eleição deste final de ano de 2026, o problema é que continua forte, continua popular junto a muitas pessoas, a ideia de que o que deve nos unir é o ódio, o que deve formar a política brasileira é a situação de ódio de uns aos outros. Isso é assustador. E nesse sentido, o propósito afetivo, talvez afetuoso, que o PT encarnou, está em sérias dificuldades.

Diante da atual instabilidade geopolítica global, qual deve ser a estratégia brasileira para preservar os investimentos em educação e saúde pública contra as pressões de austeridade?

Esse contexto está grave. Vê-se isso sobretudo na Europa. Na Europa, as injunções da guerra da Ucrânia têm levado a maior parte dos países a reduzir os investimentos sociais e a transferir esse dinheiro para despesas bélicas. Isso pode ser até se entender, mas é assustador, porque com isso apenas se agravam crises que já existem. Por quê? Porque a educação e a saúde são historicamente subfinanciadas, embora no Brasil esse déficit seja bem maior. O custo da saúde aumenta mais que a inflação, e da mesma forma, o custo de uma boa educação. Mas, quando não só não se coloca mais dinheiro, porque não se quer taxar os ricos, mas se tira dinheiro disso para desviar para despesas bélicas, a coisa fica assustadora. No caso do Brasil, não são despesas bélicas, mas é a ameaça da dívida. Temos um déficit fiscal que se amplia o tempo todo devido à política de juros do Banco Central. Essa política de juros visa justamente aumentar o déficit do Estado brasileiro e, com isso, permitir à direita reclamar do déficit, clamando pelo corte em investimentos sociais. Há essa coisa assustadora pela qual a direita procura inviabilizar os investimentos públicos, as políticas sociais no Brasil e no resto do mundo. Isso é muito evidente nos Estados Unidos com Trump 2, foi visível no Brasil com Bolsonaro e está acontecendo na Europa a pretexto da guerra. Então, neste contexto, o que temos que fazer? Temos que lutar para reverter isso. Uma pauta importante na Europa é combater esse desvio de dinheiro para a guerra, procurar a paz. Essa paz não vai ser boa, não vai ser justa, a Ucrânia provavelmente vai perder território, mas é melhor uma paz ruim do que uma guerra péssima e sem fim. No Brasil, o que devemos fazer é exigir uma taxação dos mais ricos, que pode passar por quatro impostos: no âmbito federal, o imposto de renda da pessoa física, que deve ter uma progressividade maior. É muito correto isentar até 5.000 BRL de renda mensal, mas é preciso fazer com que as pessoas que recebem 10, 15 mil não estejam sujeitas à mesma alíquota de quem recebe 100, 200 mil, 1 milhão por mês. No âmbito estadual, temos dois impostos que é importante fazer crescer: um imposto sobre transmissão de bens, conhecido como imposto de herança, hoje muito baixo, enquanto nos Estados Unidos pode chegar a mais de 40%. Outro imposto estadual que pode também ter progressividade é o IPVA, imposto sobre propriedade de veículos automotores, que deveria ser progressivo, porque não faz sentido que um carro de 50.000 BRL pague o mesmo percentual de um carro de 5 milhões, uma Lamborghini. Finalmente, no âmbito municipal, o imposto predial e territorial urbano também deveria ser progressivo, de modo que as pessoas mais ricas o paguem mais. Então, em síntese, trata-se de taxar a renda e o patrimônio. Esta luta é fundamental. Temos a necessidade de mostrar à sociedade que os mais ricos podem e devem contribuir mais do que os mais pobres para o bem comum.

O jornalismo de profundidade busca a “longa duração” do pensamento. Qual a importância dessa temporalidade lenta para a emancipação da consciência crítica brasileira?

Temporalidade lenta da imprensa? Estamos num tempo da rapidez. Alternamos as imagens num celular de um instante para outro. As redes sociais multiplicam seus estímulos, o que cria uma impaciência bastante grande. Perdemos a dimensão da paciência, do foco, da concentração. Isso é complicado para quem lida com o conhecimento, porque ele exige paciência, não se faz a jato. Isso tudo cria uma situação muito difícil para nós todos, e temos que prestigiar a imprensa que faz análises. Como os fatos chegam muito rapidamente, seja pela imprensa, seja pelas redes sociais, o que falta é análise e discussão. Infelizmente, a imprensa parece preferir colunistas de opinião a analistas com base sólida.

1: Folha explica democracia & Folha explica república, ambos pela Publifolha.

2: O afeto autoritário – televisão, ética, democracia. Cotia: Ateliê Editorial, 2005.

3: A respeito, ver meu A pátria educadora em colapso, São Paulo: Três Estrelas, 2017.

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