Política das imagens, ecologia do olhar e memória ativa são contrapontos aos regimes de anestesia que banalizam o horror, o esquecimento acelerado e a saturação, convertendo tudo em “circulação descartável”
Por: Márcia Junges, em IHU
“A cultura é insurgente quando desnaturaliza hierarquias, desloca o centro, produz contranarrativas e restitui visibilidade a sujeitos, memórias e sensibilidades que a ordem dominante tenta rebaixar, folclorizar ou apagar. No Brasil, isso aparece de forma exemplar no carnaval, que faz da rua uma pedagogia estética e política, um lugar em que o ‘baixo’ se torna uma forma sofisticada de elaboração do comum”. A reflexão é da pesquisadora Ivana Bentes na entrevista concedida por WhatsApp ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Em sua análise, o carnaval brasileiro expõe um paradoxo: “a sociedade que demoniza terreiros, desqualifica práticas afrorreligiosas e administra racialmente o espaço social é a mesma que busca, na avenida, o esplendor estético e afetivo produzido por essas matrizes. O desfile não resolve essa violência, mas a expõe e a desloca”.
Recuperando a apresentação de Bad Bunny no Super Bowl este ano, Bentes pondera que esse artista não é somente um representante de minorias: “ele desloca o eixo simbólico do império, demonstrando que a cultura popular do Sul Global pode ocupar o mainstream sem se descaracterizar. Isso é uma forma de insurgência semiótica de enorme potência. A política hoje é uma disputa de gestos e signos. Não dá para subestimar as linguagens e o imaginário”. Isso é muito frente a um cenário onde governar se dá pela força e pela caricatura, traço singular do trumpismo, que cultiva a guerra como espetáculo, negócio e pedagogia imperial. “É isso que denomino violência semiótica: não só destruir corpos e territórios, mas esvaziar o sentido do acontecimento, converter a tragédia em cena circulável e produzir a crença de que a barbárie seria uma necessidade civilizatória”, acrescenta.
Ivana Bentes é professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, doutora em Comunicação pela mesma instituição e ainda pró-reitora de Extensão da UFRJ. Atua como professora e pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFRJ. Também é coordenadora do Pontão de Cultura Digital da ECO/UFRJ e do Laboratório de Inovação Cidadã da UFRJ. Suas pesquisas versam sobre questões das tecnologias da comunicação, cultura, estética, cultura de redes, capitalismo cognitivo e inovação cidadã.
Confira a entrevista.
HU – Sob quais aspectos a cultura é um campo de insurgências e resistências?
Ivana Bentes – A cultura é um campo de insurgência porque não apenas representa conflitos: ela os reorganiza sensorial, afetiva e simbolicamente. Processos culturais brasileiros como o tropicalismo e a carnavalização não devem ser lidos apenas como dados históricos, mas como dispositivos teóricos de apropriação, inversão e deslocamento. A cultura é insurgente quando desnaturaliza hierarquias, desloca o centro, produz contranarrativas e restitui visibilidade a sujeitos, memórias e sensibilidades que a ordem dominante tenta rebaixar, folclorizar ou apagar. No Brasil, isso aparece de forma exemplar no carnaval, que faz da rua uma pedagogia estética e política, um lugar em que o “baixo” se torna uma forma sofisticada de elaboração do comum. Em um contexto marcado pelo que podemos chamar de capitalismo mafioso, essa insurgência se desloca também para a disputa das imagens, dos afetos e da atenção: resistir passa a significar, igualmente, impedir o roubo da narrativa e a banalização da violência.
IHU – Nesse sentido, como analisa o carnaval brasileiro em suas diferentes expressões em cada uma das regiões de nosso país? O que há de comum entre todas essas manifestações do carnaval em sua diversidade?
Ivana Bentes – O carnaval brasileiro é, ao mesmo tempo, uma estrutura e um fluxo. Há formas regionais distintas, temporalidades próprias, matrizes afro-indígenas, ibéricas, populares e urbanas muito diversas; mas o que as conecta é uma lógica comum de suspensão, torção e reinvenção da ordem. Tenho um ensaio chamado Multitropicalismo em que proponho justamente pensar a carnavalização como método: ela não se reduz à festa, mas opera como dispositivo capaz de condensar tensões sociais, produzir inversões simbólicas e transformar o espetáculo em experiência coletiva de imaginação. O que há de comum entre as diversas expressões do carnaval brasileiro é essa potência de criar comunidade sensível, de ativar memória, de educar pela beleza e de converter a desigualdade em linguagem de afirmação cultural. Por isso costumo dizer que o carnaval é uma “ópera popular brasileira” e uma fábrica de imaginários: os samba-enredos não ilustram temas: reescrevem a história do país.
IHU – Em relação aos desfiles de 2026, quais os destaques que julga serem aqueles que mais aludem à resistência cultural, mas também política, frente ao cenário de recrudescimento da extrema-direita em nosso país e no mundo?
Ivana Bentes – Os desfiles de 2026 foram particularmente eloquentes porque recolocaram na avenida não apenas grandes biografias, mas histórias não oficiais do Brasil. Eu destacaria a Acadêmicos de Niterói, ao narrar a trajetória de Lula como a passagem de um operário à presidência; a Imperatriz Leopoldinense, ao homenagear Ney Matogrosso como figura de enfrentamento ao preconceito e à discriminação contra a comunidade LGBTQIAPN+; a Portela, ao recentrar a historicidade negra no Sul por meio de Príncipe Custódio e do batuque; a Mangueira, ao levar Mestre Sacaca e a ideia de Amazônia Negra para o centro do imaginário nacional e o Tuiuti, ao reconectar Brasil e Cuba pela diáspora africana e pela religiosidade afro-caribenha.
Mas o desfile que mais me emocionou foi o da Beija-Flor, ao transformar o Bembé do Mercado, maior ritual de candomblé de rua do mundo realizado em Santo Amaro, Bahia em uma celebração pública da cultura de matriz africana, da liberdade após a abolição da escravatura. A Sapucaí virou um terreiro gigante: “Atabaque ecoou, liberdade que retumba. Isso aqui vai virar macumba! Em um país cuja intolerância contra as religiões de matriz africanas é alimentada por fundamentalismos religiosos, esse enredo de afirmação pública do candomblé mexe com o imaginário.
O mais importante é perceber que essas escolas todas não fizeram “comentário” sobre a política: elas produziram política por outros meios, reabrindo o repertório do país em chave antirracista, anticolonial e antiapagamento de culturas que nos constituem. E isso pela música, pelo corpo, pela beleza de alegorias, algo de fato grandioso e capaz de sensibilizar e comover.
IHU – Por que a homenagem da Acadêmicos de Niterói ao presidente Lula gerou tanto desconforto e até escândalo junto aos setores conservadores da sociedade brasileira?
Ivana Bentes – Porque ela rompeu a fantasia liberal-conservadora de que a cultura deve ser “neutra” justamente quando toca em figuras populares que condensam conflito de classe, memória social e disputa de projeto de país. A homenagem a Lula ativou, de um lado, uma identificação popular muito forte e, de outro, um pânico moral e jurídico da direita, que tentou enquadrar o desfile como campanha antecipada. Houve uma onda de ações judiciais do campo conservador para tentar impedir ou enquadrar o desfile. O incômodo conservador nasce daí: o carnaval deixou de ser tolerado apenas como festa, folia e reapareceu como linguagem de disputa hegemônica. Como você sintetizou publicamente, tratava-se de “Brasil da Silva na Sapucaí”; isto é, da irrupção de um Brasil popular que as elites aceitam como alegoria, mas não suportam como sujeito político.
IHU – Em que medida o protagonismo da cultura negra e das religiões de matriz africana no carnaval escancara o paradoxo de uma sociedade que no fundo é altamente racista, classista, além de misógina e homofóbica?
Ivana Bentes – Esse protagonismo revela uma contradição estrutural: o Brasil consome intensamente formas negras de invenção do sensível, mas continua produzindo marginalização, violência e deslegitimação sobre os corpos e territórios que as criam. Eu chamo isso de uma relação bipolar e esquizo. O sujeito da cultura é o mesmo que é destituído de direitos, que é assujeitado. Isso vem desde a escravidão e chega na cultura das favelas, no funk. A cultura brasileira mais visível e potente vem das matrizes africanas, vem das periferias, vem do imaginário amazônida e indígena, que é global.
O carnaval funciona, assim, como revelador do paradoxo: a sociedade que demoniza terreiros, desqualifica práticas afrorreligiosas e administra racialmente o espaço social é a mesma que busca, na avenida, o esplendor estético e afetivo produzido por essas matrizes. O desfile não resolve essa violência, mas a expõe e a desloca.
IHU – No intervalo do Super Bowl deste ano, em 13 minutos Bad Bunny causou um terremoto com sua apresentação repleta de referenciais que reconhecem o protagonismo latino-americano como decisivo em nosso continente. Como esse registro põe em xeque a mentalidade trumpista/MAGA e abre brechas para a resistência e a potência da cultura popular do Sul Global?
Ivana Bentes – O gesto de Bad Bunny foi decisivo porque deslocou o principal palco do espetáculo norte-americano para uma gramática latina, porto-riquenha e hispânica, sem pedir tradução nem permissão. Seu show funcionou como uma carta de amor a Porto Rico e a mensagem final, “Together, we are America”, produziu uma reescrita semântica da própria ideia de América. A reação furiosa de Trump mostra o ponto: o que a mentalidade MAGA não suporta é a pluralização da centralidade, na política não suporta um mundo, uma ordem mundial multipolar, baseada no multilateralismo, na valorização dos BRICS e na rejeição ao alinhamento automático com potências hegemônicas. Bad Bunny não “representa minorias” apenas; ele desloca o eixo simbólico do império, demonstrando que a cultura popular do Sul Global pode ocupar o mainstream sem se descaracterizar. Isso é uma forma de insurgência semiótica de enorme potência. A política hoje é uma disputa de gestos e signos. Não dá para subestimar as linguagens e o imaginário.
IHU – Como analisa os ataques e violações internacionais banalizados por Trump no campo imaterial, da cultura, governando não só pelo uso da força como também dos memes, das fake news e de um “extrativismo cognitivo”?
Ivana Bentes – O traço singular do trumpismo é governar simultaneamente pela força e pela caricatura. A captura de Maduro, mostrada em imagem altamente calculada, não operou apenas como evento militar: foi também uma cena de domesticação simbólica. A foto de Maduro de Nike rompe a semiótica tradicional do poder para transformar um chefe de Estado capturado em corpo banalizado, pronto para o remix, o meme e o consumo. Esse é o “extrativismo cognitivo”: a extração de valor político e mercadológico da própria imagem da violência. Não se trata apenas de propaganda; trata-se de uma guerra cultural em que humilhação, paródia, IA generativa e viralização passam a integrar o método de governo. A violência deixa de ser só territorial e torna-se também modulação afetiva, saturação de feed e captura da imaginação.
As imagens geradas por IA e difundidas no perfil de Donald Trump são formas de governar desse extrativismo cognitivo. Imagens de IA de Trump como um imperador ou monarca, vestido como Papa ou ostentando coroas e tronos, são fantasias visuais que reforçam a ideia de um Trump onipotente, “ungido” e em uma missão ou guerra santa, um imaginário que materializa seu delírio de onipotência.
O exemplo mais perturbador foi o vídeo deepfake em que Trump surge travestido como Nicolás Maduro, falando em espanhol e inglês, e se autoproclamando “novo presidente da Venezuela” com clichês latinos (“sexy mamacitas, mariachis e margaritas”). Essa última peça é particularmente significativa, pois ilustra a capacidade da IA de capturar a imagem do “Outro” e convertê-la em caricatura, numa inversão calculada de papéis para ridicularizar e desmoralizar o inimigo aos olhos do público. Trata-se de uma arma de guerra cultural: apropriar-se da aparência do adversário para esvaziá-lo de sentido e dominar o ciclo de notícias com uma narrativa fabricada.
Guerra “memetizada”
A economia narrativa memética é potenciada por IA. A guerra, literal e simbólica, passa a ser “memetizada”: tuítes presidenciais, vídeos deepfake, memes gerados por anônimos, tudo concorre para antecipar e “realizar” fatos no imaginário coletivo antes mesmo que se consolidem no terreno dos acontecimentos.
Estou trabalhando com a ideia de prefiguração narrativa que sugere que, ao controlar a fantasia ou a visualização de um evento (por exemplo, Trump “coroado” rei ou Maduro rebaixado a um figurante ridículo), os atores políticos tentam moldar também a recepção e a memória social desses eventos.
IHU – No campo do “deslizamento” infinito que representa a criação e divulgação de vídeos, imagens e memes, como podemos compreender a economia da atenção e do engajamento que esses materiais criam cultural e politicamente? Essa realidade só é possível graças à estrutura do “capitalismo mafioso” ao qual você fez menção ao se referir ao sequestro de Maduro?
Ivana Bentes – A economia da atenção não é um efeito lateral do ambiente digital; ela é a sua racionalidade central. A rolagem infinita, o feed e o design de engajamento não são “naturais”, mas organizados para impedir o desligamento e para intensificar reações fortes, da raiva ao constrangimento. Essa conversação deslizante e esquizo é parte de uma modelagem do comportamento. As plataformas já não são apenas veículos, mas infraestrutura de poder e de produção de “commodities narrativas”. Por isso, sim, o “deslizamento” infinito de vídeos, memes e imagens está organicamente vinculado a esse capitalismo mafioso: um regime em que tudo pode ser monetizado, inclusive a violência, a desinformação e o lixo visual. O slop, esse lixo digital é precisamente essa superprodução de imagens genéricas, manipuladas e viciantes que sequestram o tempo, nos mantém “entretidos” e podem produzir inclusive um declínio cognitivo.
IHU – Nos dois primeiros meses de 2026 Donald Trump bombardeou a Venezuela, sequestrando seu presidente, assassinou o aiatolá Khamenei, matando sua família e mais de 100 meninas em uma escola, entre outros “feitos”. Qual é o impacto dessas ações em relação ao núcleo duro da ordem internacional em termos legais e humanitários, mas também da construção de narrativas de guerras “necessárias” contra líderes e seus povos no registro da violência semiótica?
Ivana Bentes – O impacto é devastador em pelo menos três níveis. No plano jurídico, a captura de Maduro por operação militar norte-americana rompe frontalmente com o princípio de soberania e com a proibição do uso da força fora das hipóteses clássicas de autodefesa. No plano humanitário, a escalada sobre o Irã radicaliza a normalização da morte civil em larga escala. No plano narrativo, porém, talvez o dano seja ainda mais profundo: a guerra volta a ser vendida como negócio, espetáculo e pedagogia imperial. É isso que denomino violência semiótica: não só destruir corpos e territórios, mas esvaziar o sentido do acontecimento, converter a tragédia em cena circulável e produzir a crença de que a barbárie seria uma necessidade civilizatória.
IHU – Por que você afirma que o ato de ver, que é historicamente violento, passa por uma nova violência em tempos de capitalismo mafioso e política memética?
Ivana Bentes – Porque ver nunca foi um ato neutro: ver é enquadrar, selecionar, produzir hierarquias do visível. Minha formação tem uma base sólida no campo do cinema e do audiovisual que uso para analisar também os memes e as narrativas geradas por IA hoje, o cinema me ajuda a pensar com as imagens, a produção do impacto, do choque, a cine-sensação e participação do espectador, hoje o usuário e produtor de conteúdos nas redes sociais. O que se transforma agora é a escala e esse feed “compulsório” infinito, do que se torna visível. A avalanche de imagens não solicitadas, o lixo visual, os deepfakes, o slop e os loops meméticos convertem o olhar em superfície contínua de mineração. Não se trata mais apenas da violência do enquadramento, mas da violência da saturação. Somos forçados a consumir imagens desenhadas para capturar mais atenção, produzir mais dados e reduzir a experiência a reflexo, reação e rolagem. É nesse sentido que digo que o ato de olhar sofre hoje uma segunda violência.
IHU – Nesse sentido, a direita é mais hábil do que a esquerda ao surfar a onda da economia da atenção? Por quê?
Ivana Bentes – A direita compreendeu mais rapidamente que a disputa política contemporânea é travada no terreno dos afetos, dos gatilhos, das simplificações morais e da recirculação incessante de signos fáceis de reconhecer e repetir. Em minhas falas públicas recentes sobre memética, democracia hackeada e desinformação, esse ponto aparece de forma recorrente: a extrema-direita trabalha com uma gramática de choque, escândalo, repetição e humilhação que se adapta com enorme facilidade às plataformas. A esquerda, em geral, chega mais tarde porque frequentemente permanece presa a uma ética discursiva mais argumentativa e menos performática. Tenho defendido não mimetizar os procedimentos antiéticos da extrema-direita na comunicação: cortes fora de contexto, maniqueísmo, uso da religião como constrangimento e intolerância. Mas precisamos urgentemente incorporar a dimensão performática, lúdica e encantatória da comunicação.
O carnaval, a música popular, os repertórios afrodiaspóricos, a cultura periférica e os contra-usos criativos dos memes mostram que a esquerda e os campos democráticos podem disputar atenção sem abdicar da complexidade, desde que compreendam que a batalha é também sensorial e narrativa.
IHU – Que outros registros culturais no Brasil e fora dele você considera disruptores dentro do contexto que vivemos, de recrudescimento do discurso norte-americano como aquele que está “correto” e que é “superior” frente aos demais?
Ivana Bentes – Vejo como particularmente disruptores, no Brasil, os circuitos em que a cultura popular deixa de pedir legitimação ao centro: o funk, os saraus periféricos, os cinemas indígenas e negros, as pedagogias de terreiro, e o próprio carnaval quando assume a tarefa de recontar a história nacional por suas margens e por seus avessos. Fora do Brasil, o caso Bad Bunny é exemplar porque articula escala global e marca local sem subordinação e, sim usa a dimensão performática. Mas o que me interessa, de modo mais amplo, é toda produção cultural que desmonta a monocultura do olhar norte-atlântico e afirma a multipolaridade dos imaginários. O que chamo de multitropicalismo continua útil aqui: não se trata de defender essências, mas de sustentar hibridismos insurgentes, apropriações impuras e formas de vida capazes de deslocar o centro sem se deixar capturar por ele.
O Brasil tem um repertório disruptivo extraordinário que precisa ser revisitado: o deboche popular e massivo das chanchadas, as invenções do cinema dos anos 70, do cinema experimental e “marginal”, mesmo o Cinema Novo, Glauber seria um youtuber hoje com seu carisma e verve; a espiritualidade indígena, o mundo descobre fascinado um imaginário sustentável amazônida e indígena que mistura humanos, floresta e animais em uma cosmopolítica, uma política que inclui todos os seres do cosmos e que precisamos com urgência para impedir a destruição do planeta e de nossa própria espécie. É uma dança constante de comunicação, respeito e negociação para manter o mundo em equilíbrio, onde o humano é apenas um fio na vasta e intrincada teia da vida. Um imaginário deslumbrante, ético e real como alternativa de mundo.
O Brasil é uma fábrica de imaginários exuberantes e é essa diversidade e exuberância que causa pânico e precisa ser reduzida a uma monocultura extremista e conservadora, empobrecida politicamente.
IHU – A criação vive uma espécie de crise diante do advento da Inteligência Artificial (IA). Que aspectos centrais destaca acerca dessa questão de nosso tempo? Como a IA problematiza, entre outras coisas, o que entendemos por criação e direitos autorais?
Ivana Bentes – A IA explicita uma crise dupla: a crise da autoria e a crise da ecologia das imagens. Do ponto de vista estético, ela radicaliza um problema antigo: toda criação já foi, em alguma medida, apropriação, montagem, desvio, recombinação. Mas agora essa recombinação é industrializada por corporações que operam em escala extrativista, absorvendo repertórios humanos, estilos, vozes e arquivos sem redistribuição simétrica de valor. Do ponto de vista político, a IA acelera a produção de slop, lixo digital, de simulacros e de ruído, pressionando os limites do discernimento entre fato e ficção, evitando uma regulação ética e uma forma de sustentar a autoria. Os direitos autorais tornam-se insuficientes se forem pensados apenas como propriedade individual, claro; é preciso reabri-los também como debate sobre trabalho cultural, coletivo, uso de dados, remuneração e proteção contra a pilhagem algorítmica do comum.
IHU – O que significa o ativismo mainstream pela cultura de massa? Que exemplos traria desse fenômeno?
Ivana Bentes – Chamo de ativismo mainstream a situação em que a cultura de massa deixa de operar apenas como entretenimento e passa a disputar hegemonia simbólica em grande escala. Não é o mesmo que militância tradicional, nem a substitui; trata-se de outra gramática de circulação. Bad Bunny no Super Bowl é um caso evidente: um acontecimento pop de enorme audiência transformado em afirmação latino-americana e porto-riquenha.
Acho decisivo o que artistas pop e globais como a Anitta tem feito “emprestando” sua imagem para causas indígenas, se assumindo como praticante de religiões de matriz africana; entrando no combate aos extremismo e intolerâncias com sua imagem e música.
Da mesma forma que vimos a eficácia, em setembro de 2025, do ato musical em Copacabana contra a “PEC da Blindagem” e a anistia a golpistas do 8 de janeiro, que mobilizou artistas consagrados como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Pretinho da Serrinha, e outros. O evento reuniu milhares de pessoas a PEC foi barrada. Teve uma mobilização relâmpago pelo coletivo 342 e o uso da linguagem midiativista da Mídia Ninja, decisiva para essa mobilização, articulando música, show, política, mobilizando a memória afetiva e a comoção estética.
O ativismo mainstream não resolve e nem substitui o trabalho de formação de base na política, mas vem para disputar o centro, e não apenas as margens, do imaginário coletivo.
IHU – Deseja acrescentar algo?
Ivana Bentes – Acrescentaria apenas que, em 2026, a disputa central talvez seja menos entre informação e desinformação, em sentido estreito, e mais entre políticas da memória e regimes de anestesia. O capitalismo mafioso não age apenas pela força: ele age pelo esquecimento acelerado, pela saturação, pela banalização do horror e pela conversão de tudo em circulação descartável. Por isso insisto tanto numa política das imagens, numa ecologia do olhar e numa memória ativa.
O carnaval, a música, a dança, a cultura da festa que afeta os corpos permanecem decisivos porque produzem precisamente o contrário dos discursos de intolerância e ódio. Dissolvem polarizações pobres e artificiais, reencantam, historicizam restituem densidade simbólica e fabricam comunidades sensíveis.
Em um tempo de lixo visual, chantagem geopolítica e guerra memética, defender cultura é defender também a possibilidade de um imaginário democrático e multipolar libertário. E mais: a cultura tem uma capacidade de transcendência, de sublime, de encantamento, de delírio mesmo, transe e comoção. Não podemos abdicar dessas dimensões para a extrema-direita. Temos que sair 2 centímetros do chão para apresentar essa exuberante cultura brasileira que empresta sentido às nossas vidas e produz uma cola social poderosa e uma alegria de viver.




