Gaza: Há luz no fim do túnel para o Ocidente?

Não haverá mais vida na Faixa – casas reconstruídas, escolas, hospitais –, porque Israel não pode tolerar a memória do que praticou. Igualmente brutais são a censura e o silêncio frente ao terror. Há redenção enquanto o sionismo existir?

Por Wolfgang Streeck*, em Outras Palavras

Livros utilizados pelo autor: Didier Fassin, Moral Abdication: How the World Failed to Stop the Destruction of Gaza, Londres, Verso, 2024, 128 pp. | Pankaj Mishra, The World After Gaza, Londres, Fern Press, 2025, 292 pp.

A destruição de Gaza, o extermínio da sua sociedade, terminará antes de ambos se completarem absolutamente? Não, se o governo de Israel, a maioria dos seus cidadãos e os Estados Unidos conseguirem o que querem. Israel nunca fará as pazes com o povo palestino, nem em Gaza, nem em Jerusalém, nem na Cisjordânia. Enquanto houver palestinos entre o rio e o mar, eles serão um obstáculo para Israel e a missão não estará cumprida. Na verdade, agora, após dois anos de massacres e extermínio, a paz, sejam quais forem os seus termos, não seria mais do que uma catástrofe nacional para Israel, uma derrota devastadora. A paz teria que pôr fim ao bloqueio de Gaza, que já dura quase duas décadas, subsidiado por quatro presidentes estadunidenses: Bush, Obama, Biden e Trump. Os habitantes da Faixa de Gaza teriam que ser libertados da sua prisão ao ar livre e deveria ser permitida a entrada de visitantes. Muitas mais imagens viriam a público do que as que têm surgido até agora de uma paisagem devastada, cujas casas, escolas, hospitais, igrejas e universidades foram irremediavelmente danificadas. Seriam contadas histórias de crianças sem pais, de pais sem filhos, de famílias sem mães ou pais, de seres definhados, famintos, aleijados no corpo e na alma. Seriam iniciadas investigações, e não apenas por parte da corrupta Autoridade Palestiniana paga por Israel: testemunhas seriam ouvidas, memórias registradas, acontecimentos reconstituídos, os comandantes israelenses responsáveis pelos piores crimes seriam identificados e o genocídio deixaria de ser uma abstração jurídica. O Estado de Israel acabaria finalmente por se tornar um Estado pária, como a Alemanha teria sido depois de 1945, não fosse porque os seus amigos estadunidenses precisavam de um aliado vassalo contra a União Soviética e que fosse também funcional para lançar a Guerra da Coreia. “Desfruta da guerra, a paz será terrível”, costumavam sussurrar os alemães entre si, quando a Segunda Guerra Mundial chegava ao fim.

Não se vislumbra um fim. O pesadelo continuará e será permitido que continue, enquanto houver palestinos que se recusem a ser governados por sujeitos como Netanyahu. No momento em que escrevo este artigo, Israel capturou mais de metade da Faixa de Gaza, declarando-a “zona de segurança” após a ter esvaziado dos seus habitantes, contando para isso com o acordo tácito do Conselho de Segurança da ONU, uma primeira entrega do sonho imobiliário da Organização Trump. O que restava da Faixa foi aparentemente dividido em duas metades pelo exército israelense, para a manter fragmentada até à chegada da Junta de Paz, dirigida por Trump, tendo neste caso a paz como objetivo de limpeza étnica executada por diferentes meios. Entretanto, o massacre na Cisjordânia continua com o apoio de uma grande maioria de cidadãos israelenses, deixando milhares de palestinos assassinados nos dois anos de guerra de Gaza pelo exército e pelos chamados colonos livres, desprovidos de quaisquer restrições no exercício da sua violência, muitos deles cidadãos estadunidenses, cheios de nostalgia por nascerem tarde demais para participar nas guerras contra o povo palestino.

Em qualquer caso, se algo correr mal, Israel é militarmente invencível, graças ao apoio inabalável dos Estados Unidos e da Alemanha, dado que conta com mais de trezentos aviões de guerra prontos para o combate (Hamas: nenhum), com aproximadamente cinquenta helicópteros de ataque (Hamas: nenhum), com o sistema de defesa aérea conhecido como Domo de Ferro (Hamas: nada parecido), com dois mil e duzentos tanques de combate (Hamas: nenhum) e pelo menos cento e setenta escavadoras Caterpillar D9 (Hamas: nenhuma), transformando o que erradamente se denomina guerra numa matança de alta tecnologia de um povo indefeso, que está sendo bombardeado até fazê-los regressar à idade da pedra. A isto acrescente a trindade completa da guerra nuclear convencional: mísseis terrestres, toda a panóplia de aviões de combate, bombardeiros e de vigilância e submarinos nucleares fornecidos pela Alemanha, tudo complementado com a bomba nuclear da propaganda que consiste na acusação de antissemitismo, realmente eficaz, como mostram Mishra e Fassin nos livros resenhados neste artigo, nas democracias do hemisfério norte, onde os partidários locais de Israel a utilizam liberalmente.

Com o respaldo inabalável dos Estados Unidos, o governo israelense pode sentir-se livre para continuar com o que a maioria dos seus cidadãos considera ser a sua tarefa legítima: limpar Gaza de seu próprio povo. Dois anos após o início da guerra, no final de novembro de 2025, segundo a Statista, foi notificada a morte de 69.185 gazenses (de acordo com a informação fornecida pelo governo do Hamas em Gaza, que não conta os inúmeros mortos sepultados sob os escombros das casas arrasadas pelos bombardeiros e escavadoras israelenses) e 170.698 feridos[1]. Durante o mesmo período, a informação fornecida pelo governo israelense constata que, “após o início das operações terrestres na Faixa de Gaza iniciadas a 27 de outubro de 2023, 471 soldados israelenses caíram em combate”, o que representa menos de vinte mortos por mês e uma proporção de baixas de 1:147 em relação às causadas à população palestina, um preço muito baixo que torna a continuação da guerra politicamente sustentável em Israel, embora o fim desta esteja longe. De acordo com diversas estimativas, o Hamas, a quem a imprensa alemã se refere estereotipadamente como “grupo terrorista”, ainda contava com um contingente entre 16.000 e 18.000 combatentes armados, quando foi revelado o plano de paz de Trump, face aos 20.000 ou 30.000 que se acredita ter quando a matança começou[2].

Com ou sem Trump, não há razão alguma para Israel aceitar qualquer acordo que não seja a conquista definitiva da Palestina “do rio ao mar”, tal como prevê há muito tempo o programa eleitoral do partido de Netanyahu. Ao contrário da antiga Jugoslávia, os Estados Unidos e os seus vassalos da Europa Ocidental não veem em Gaza qualquer “dever de proteger”, uma celebrada inovação estadunidense introduzida no direito internacional na década de 1990, para além do dever de proteger Israel de prestar contas pelos seus crimes. Se a situação se tornasse insustentável para Israel, a elite israelense sabe que, para continuar a matar, poderia contar com o mundo se sentindo aterrorizado pela sua “opção Sansão”, isto é, a utilização do seu arsenal nuclear para garantir que, se o Estado israelense tiver que cair, todos os outros Estados existentes à sua volta, em particular o Irã e o Líbano, e talvez também o Egito e a Síria, a “zona cinzenta” de Israel, terão que cair com ele. No improvável caso de os seus aliados o abandonarem, por exemplo, se continuar a guerra colocasse em perigo os interesses fundamentais da classe que financia as campanhas eleitorais estadunidenses, Israel poderia sentir-se como o governo alemão no final da Segunda Guerra Mundial, quando constatou que a sua única opção era esperar contra todas as esperanças um milagre: “Assumimos uma culpa tão enorme que só podemos continuar; não há volta atrás” (Heinrich Himmler, supostamente, a um diplomata norueguês em abril de 1945). A diferença, claro, é que enquanto a Alemanha naquele momento não tinha bombas nucleares, Israel as tem.

Assim, a destruição continuará, física, institucional, social e moralmente, num cenário já quase irreparável neste momento. Se alguma vez esta destruição chegar ao fim, ninguém saberá como remover os escombros deixados pelos bombardeios, nem como reconstruir as casas, os hospitais, as escolas e universidades, as mesquitas e igrejas, as ruas e os portos, os esgotos e os sistemas de água. (Poderia chegar-se aos campos de golfe e clubes de campo de Trump de helicóptero, enquanto a Junta de Paz, em colaboração com a Gaza Humanitarian Foundation, poderia levar água e comida a alguns poucos afortunados). Onde viveriam os habitantes de Gaza, entretanto? Que país, em nome da “comunidade internacional”, organizaria primeiro o êxodo e depois o regresso, sob o olhar atento das Forças de Defesa de Israel e dos seus irmãos de armas americanos? Quem pagaria os orfanatos, os lares para deficientes, os cuidados médicos para aqueles que enlouqueceram nos bunkers e enquanto procuravam comida para as suas famílias? Os alemães estarão ocupados durante anos financiando a sua outra guerra, na Ucrânia, enquanto os seus aliados israelenses, claro, os Estados Unidos, seguramente não contribuirão com um único centavo para todas estas tarefas de reparação consequência do genocídio.

Depois de Gaza, portanto, continuará a existir Gaza, pelo menos num futuro previsível. Tanto Fassin como Mishra esperam mais massacres em massa, mais despejos, mais fomes, talvez com interrupções ocasionais implementadas numa chave de relações públicas, salpicadas com breves aberturas das novas e mais rigorosas fronteiras impostas a Gaza para permitir a entrada de suprimentos suficientemente reduzidos para manter a população à beira da inanição: todo este jogo cruel, fingindo misericórdia, para depois voltar a apertar o cerco, acompanhado de assassinatos em série de agricultores e criadores de gado por parte de colonos homicidas compulsivos na Cisjordânia e da construção de habitações financiadas pelos Estados Unidos para os colonos israelenses em Jerusalém Oriental (para não falar dos reluzentes hotéis Trump construídos em lugares pitorescos e fortemente armados de Gaza, uma vez limpa dos seus grosseiros habitantes), tudo isto intercalado com ocasionais “pausas humanitárias” em benefício dos governos da Europa Ocidental, artífices dos lançamentos aéreos de alimentos a partir de aviões da Bundeswehr, para que os consumidores de notícias alemães tenham a certeza de que os habitantes de Gaza não terão que morrer com o estômago vazio.

Fassin, embora considere que a esquerda israelense”[se encontra] esmagada e [é] inaudível” (pp. 89 e segs.), que os países ocidentais, presos do feitiço da propaganda antissemita dos seus lobbies israelenses, continuarão “apoiando incondicionalmente o governo israelense”, e que “o verdadeiramente popular líder Marwan Barghouti, considerado por muitos como um possível negociador e futuro presidente da Autoridade Palestina[…] e condenado a cinco prisões perpétuas [cumpridas nos campos de concentração israelenses] continuará preso, enquanto nenhum político israelense parece disposto a considerar a possibilidade de entabular conversações” (p. 90), Fassin, mesmo consciente de todo este sombrio panorama, termina o seu livro, apesar do seu admirável e sóbrio realismo, com um poema de um poeta palestino escrito “pouco antes de morrer, em 7 de dezembro de 2023, num bombardeio seletivo contra o apartamento onde tinha se refugiado com a sua irmã, que também morreu, tal como o seu irmão e quatro dos seus sobrinhos e sobrinhas” (p. 91)[3].

Claro, não só Gaza precisaria ter reparação depois de Gaza, mas também Israel deveria ser reparado e, consequentemente, teria que aprender a deixar de ser um Estado assassino, embora, ao contrário da Alemanha em 1945, ninguém saiba quem poderia ensiná-lo a deixar de o ser e como fazê-lo. Na verdade, tanto para Fassin como para Mishra, o genocídio de Israel, tanto em Gaza como nos Territórios Ocupados, é um desastre moral também para o “Ocidente” no seu conjunto, que deu à luz Israel, mas que não soube nem tem sabido educá-lo adequadamente. O pequeno livro de Fassin, brilhantemente escrito e admiravelmente conciso (128 páginas), documenta e diz tudo o que é necessário para que os leitores e as leitoras vejam para além do véu da dupla linguagem dos governos ocidentais e das suas classes políticas. Fassin concentra-se nesse discurso, isto é, em como essa linguagem tortuosa foi concebida para produzir consentimento perante o crime contra a humanidade por antonomásia da nossa época, e em como o referido discurso foi construído para que a opinião pública e as cidadanias ocidentais não percebam nem tenham consciência da matança em curso em Gaza, nem do grau nem da forma como este crime monstruoso as afeta.

O capítulo 1 recapitula o tratamento dado nos relatos ocidentais à tentativa do Hamas efetuada a 7 de outubro de 2023 de pôr fim a dezesseis anos de cativeiro coletivo; o capítulo 2 trata do uso estratégico do conceito de terrorismo; o capítulo 3 aborda a questão do genocídio (“As palavras importam, especialmente quando têm ressonância histórica, significado político e implicações legais”, p. 26), e o capítulo 4 analisa a forma como se “instrumentaliza” a memória do antissemitismo assassino alemão para tornar inominável a matança e a tortura indiscriminadas perpetradas por Israel. O capítulo 5 detalha o aumento da censura no que costumavam ser democracias liberais, o capítulo 6 descreve o silêncio das vozes públicas ocidentais sobre os efeitos da múltipla desumanização a que é submetido o povo de Gaza por um cativeiro que se prolonga há décadas, enquanto o capítulo 7 descreve o ofuscamento sistemático no discurso ocidental do propósito etno-colonialista da ocupação israelense de Gaza, Jerusalém Oriental e Cisjordânia, enquanto o capítulo 8 resume o que Fassin entende por “abdicação moral”: a corrupção sistemática das palavras para que se tornem inadequadas para distinguir entre o bem e o mal. Aqui Fassin cita (p. 88) Tucídides sobre a guerra do Peloponeso, que assinalou como, no curso de uma destruição cada vez mais absurda, “até o significado habitual das palavras em relação aos atos se modificou nas justificações de que estes eram objeto”. Na opinião de Fassin, eminente antropólogo social e sociólogo, são precisamente “estas falsificações” que “justificam [o imperativo] de que os cientistas sociais, com humildade, mas com determinação, façam ouvir a sua verdade, por frágil que seja”.

Quanto a Mishra, o seu livro também é realmente bem documentado; vejam-se em particular os longos capítulos sobre a Alemanha, “From Antisemitism to Philosemitism”, e sobre os Estados Unidos, “Americanizing the Holocaust”. Mas revela-se mais relevante o fato de Mishra se esforçar por explicar à opinião ocidental branca como os judeus, considerados durante muito tempo pelos brancos como profundamente não brancos para todos os efeitos práticos, chegaram a ser convidados a juntar-se aos seus torturadores quando, depois de 1945, transformaram a Palestina no seu Estado-nação, após terem tentado em vão esses exterminadores brancos emular a branquidade na Europa Ocidental tratando os seus irmãos do Leste Europeu como se fossem de cor. Mishra situa a cooptação dos judeus na Herrenrasse [raça dominante] branca e o apoio econômico e militar sem precedentes históricos concedido por esta última ao Estado de Israel, não num hipotético sentimento de culpa por parte dos supremacistas brancos pelo que lhes fizeram durante séculos aos judeus, mas na política de descolonização das décadas de 1950 e 1960. Então, quando a supremacia branca estava à beira do colapso, os brancos puderam utilizar um aliado para os ajudar a travar a maré anticolonial, especialmente no Oriente Próximo, um aliado que, ao contrário dos desacreditados colonos, podia reivindicar um direito histórico e moral, por muito frágil que fosse, a viver e dominar onde, como povo, lhes tinha sido permitido buscar refúgio depois de tanto sofrimento.

O livro de Mishra oferece aos leitores ocidentais uma ideia do que veem e sentem os observadores do Sul global, quando contemplam o absoluto desprezo com que os colonos sionistas trataram e continuam a tratar aqueles a quem arrancaram as suas terras e continuam a arrancá-las. Para Mishra, isto é indistinguível da forma como os colonos europeus na África mantiveram os africanos locais atrás da cerca do apartheid e de como se sentiram no direito, no continente norte-americano, de exterminar por completo aqueles que se interpunham no seu caminho e que acreditavam ser índios. Desta perspectiva, as eventuais diferenças que possam existir entre Gaza e o Holocausto são menos relevantes, se é que o são, do que o idêntico papel que desempenham na legitimação e defesa da supremacia branca. Nos últimos capítulos do seu livro, Mishra, seguindo os passos de Edward Said, apresenta um notável esboço da concepção do mundo do que se tem chamado “teoria pós-colonial”. No seu centro encontram-se a conquista e a destruição únicas das sociedades tradicionais não brancas em todo o mundo por parte do imperialismo branco, armado com uma tecnologia militar superior e apetrechado com as sabidas provas científicas da inferioridade “racial” dos seus semelhantes humanos de cor, a quem tinham convencido de que não eram humanos de todo. (Quem escreve teria gostado de encontrar algumas referências mais ao capitalismo, além do racismo, como força motriz da expansão ocidental). O modo como Mishra insiste na necessidade de romper com a estreiteza de visão da história mundial padrão branco-ocidental é impressionante pela sua erudição, em particular no que respeita à forma como a história e a pré-história do antissemitismo e a postura pró-israelense se enquadram na era moderna de globalização violenta e racista-imperialista. Não é necessário aceitar todas as ramificações e exageros polêmicos da teoria pós-colonial, embora este leitor, até agora vergonhosamente desinformado, não tenha encontrado muito que objetar na sua aplicação por parte de Mishra ao caso de Gaza, para reconhecer que a teoria social no mundo depois de Gaza terá que incorporar alguns dos seus temas e ideias centrais para ser crível não apenas moralmente, mas também academicamente.

A Alemanha, o segundo apoiador incondicional de Israel, poderá ser, ainda mais do que os Estados Unidos, um lugar mais do que adequado para investigar a conversão ocidental depois de 1945 do antissemitismo ao filossemitismo. Com a sua impassível equanimidade perante a crueldade desenfreada, a sua estudada ausência de emoção moral, o silêncio gélido da sua classe política e intelectual, de jornalistas a professores, de realizadores de cinema e artistas a escritores, e mesmo entre os estudantes na medida em que cresceram na Alemanha e querem fazer carreira lá, este país volta a surgir como um caso extremo de desequilíbrio político. Tanto Mishra como eu prestamos especial atenção à versão alemã da “israelmania” estatal[4]. No entanto, o que está acontecendon a Alemanha nestes dias ainda deve ser plenamente compreendido: a transição para um filossemitismo fanático identificado como antipalestino, que olha para o lado com a mesma indiferença moral de sempre, o mesmo silêncio oportunista, a mesma covardia impiedosa. A seguir, abordarei alguns dos fatores que creio estarem em jogo aqui, na esperança de que me seja perdoado por utilizar os excelentes livros de Mishra e Fassin como ocasião para especular sobre algumas das peculiaridades mais aterrorizadoras do meu país natal.

Notas sobre a Gaza da Alemanha[5]

A Alemanha não é o único lugar onde as fontes tradicionais de coesão social, identidade coletiva e lealdade política estão se esgotando na era do neoliberalismo globalizado, minando as instituições herdadas da política democrática do período pós-guerra. À incerteza sobre a identidade coletiva e a segurança econômica juntaram-se os altos níveis de imigração, em particular após a abertura das fronteiras alemãs em 2015, verdadeira data de nascimento da Alternative für Deutschland. Em resposta à imigração e ao descontentamento que gerou, desde a centro-direita ergueram-se cedo vozes que pediam uma insistência e uma aplicação mais enérgicas do que, na gíria dos consultores de imagem da época, se denominava Leitkultur alemã, isto é, a “cultura dominante” que definia a germanidade, que os imigrantes deviam respeitar, senão interiorizar, independentemente de quererem ser alemães ou preferirem não o ser. As listas provisórias de atitudes e práticas essencialmente alemãs mudavam, mas incluíam sempre elementos que se esperava fossem considerados não islâmicos por parte da comunidade muçulmana, desde que as crianças desfrutassem de carne de porco nos almoços escolares até que as mulheres andassem pelas ruas sem lenços na cabeça.

As definições cada vez mais autoritárias da Leitkultur alemã também incluíam a aceitação da existência de uma responsabilidade especial, de fato intergeracional, em relação ao Holocausto, que postulava um dever cívico dela derivado, que incluía o apoio ao “direito de existir” do Estado de Israel e isso independentemente das fronteiras que este decidisse estabelecer para si. Quando após 7 de outubro de 2023 os jovens imigrantes, em particular os estudantes, com raízes no Oriente Médio começaram a expressar publicamente a sua solidariedade com as vítimas da ocupação israelense de Gaza, o governo alemão, em consonância com o lobby nacional pró-israelense, deixou claro que a Leitkultur alemã era vinculativa não só para os alemães autóctones, mas também para os imigrantes, independentemente da sua proveniência, e que isso seria imposto, se necessário, com a ajuda da polícia e dos tribunais. Preventivamente, o antissemitismo, concebido de acordo com a “definição operativa” da The International Holocaust Remembrance Association (IHRA), foi declarado efetivamente inconstitucional mediante uma resolução do Bundestag, a qual não é formalmente legislação e, portanto, fica fora da jurisdição do Tribunal Constitucional[6].

Posteriormente, a Israelkritik[a crítica a Israel], que durante algum tempo foi tolerada com relutância desde que se limitasse aos meios e não aos fins da guerra israelense, passou a ser redefinida de forma geral como antissemita[7]. Com efeito, isto converteu o antisslamismo e, em particular, o antipalestinismo numa expressão bem-vinda do antiantissemitismo, traçando uma linha divisória entre os bons alemães antiantissemitas e os maus antissemitas antialemães, tivessem ou não passaporte alemão. Isso não só estabeleceu uma versão da cultura cívica alemã quase canônica cortada pelo padrão da Staatsraison, cuja adesão à mesma pode ser e de fato é posta à prova mediante questionários aplicados a quem solicita cidadania alemã, mas também alimenta o sentimento antimuçulmano e anti-imigração entre os eleitores contrários à chegada de população migrante, já que promete tornar mais difícil ou menos atrativa a imigração dos muçulmanos, instrumentalizando de fato o Holocausto para reservar Deutschland den Deutschen (Alemanha para os alemães). Embora esta versão da cultura cívica alemã tenha sido idealizada para atrair eleitores da Alternative für Deutschland, na realidade ajudou este partido a substituir o antigo antissemitismo da direita alemã como aglutinante social de umaVolksgemeinschaftalemã por um novo antimuçulmanismo, o que permitiu que este partido, independentemente do seu discurso etnonacionalista, se apresentasse como um firme defensor de Israel e da cumplicidade do Estado alemão com o mesmo.

O alinhamento com um partido völkischecomo a Alternative für Deutschland não constitui o único problema para a economia moral alemã ao definir o apoio a Israel em Gaza como uma luta contra o antissemitismo. Aqui entram em jogo significados e ambiguidades mais profundos, que atormentam a consciência coletiva alemã na sua luta com as memórias de culpa e o seu desejo de redenção, a qual se lograria mediante a institucionalização das primeiras. No centro de tudo isto encontra-se o dogma da singularidade, da incomparabilidade, do Holocausto, que é a contribuição mais transcendental do filósofo Jürgen Habermas para a cultura política alemã. A ideia surgiu durante o denominado Historikerstreit (o “debate dos historiadores”), quando em 1986 Habermas, um ilustre antes da reunificação, atacou a afirmação, então levantada pelo historiador Ernst Nolte, considerado próximo da direita burguesa e do novo chanceler Helmut Kohl, de que o Rassenmord [assassinato racial] alemão dos judeus europeus havia sido de certo modo uma “reação causal” da burguesia alemã ao Klassenmord [assassinato de classe] dos bolcheviques durante e depois da Revolução de Outubro[8]. Na opinião de Habermas, ao apresentar o Holocausto como mais um massacre estatal do século XX, Nolte e quem se colocou do seu lado minimizavam e trivializavam o crime alemão com a intenção de diminuir a importância ou negar a persistente culpabilidade da Alemanha como país e isso a fim de abrir o caminho para uma política externa alemã mais nacionalista e segura de si mesma e de abandonar o seu compromisso com a integração europeia. Se o Holocausto não fosse considerado categoricamente diferente de outras políticas de extermínio, que diferentes países tinham praticado e continuavam a praticar, o persistente sentimento de culpa alemão, que presumivelmente serviu depois da Segunda Guerra Mundial para deslegitimar qualquer afirmação de um “interesse nacional” da Alemanha, por não falar da liderança alemã na Europa, poderia desvanecer-se e a “questão alemã”, que havia ocupado de forma tão destrutiva o continente durante a primeira metade do século XX, seria de novo uma realidade.

A proibição decretada por Habermas de fazer comparações cedo passou a fazer parte do conjunto de normas, informais e formais, que regulam o discurso político bienpensantna Alemanha[9]. Hoje em dia, não só negar o Holocausto, mas também “minusvalorizá-lo” (verharmlosen), é um delito na Alemanha, nos termos do Artigo 130 do Código Penal, que trata da Volksverhetzung (incitamento público ao ódio). A linguagem, modificada uma e outra vez ao longo dos anos, é tão complexa que se torna praticamente incompreensível para os não juristas e apenas inteligível para os próprios juristas. Basicamente, o Artigo 130 tipifica como delito (a) negar o Holocausto, (b) situá-lo na mesma categoria que outros delitos “normais”, que negam assim a sua singularidade, e (c) incitar ao ódio contra alguém acusando-o de cometer um ato similar ao Holocausto. Como resultado desta norma, qualquer comparação na retórica política ou na historiografia profissional com, por exemplo, o extermínio das duas cidades japonesas de Hiroxima e Nagasaki em 1945 (que foram duas para testar modelos concorrentes de bombas nucleares desenvolvidas pelos Estados Unidos para uso originalmente contra a Alemanha), com o prolongado bombardeamento com napalm dos camponeses vietnamitas, ou com o bombardeio de Hamburgo (“Operação Gomorra”) em julho de 1943 pela força aérea britânica sob o comando de “Bomber Harris”, não só é moralmente frívola na Alemanha, o que bem pode ser o caso, mas também punível pela lei, já que poderia reduzir o Holocausto a um crime contra a humanidade entre outros, o que é assim talvez porque se acredita que isso legitimaria de alguma maneira uma suposta persistente inclinação alemã pelo assassinato racista em massa[10]. Por último, mas não menos importante, esta comparação pode constituir legalmente uma difamação, sendo os difamados aqueles cujas ações se comparam com o Holocausto, caso sejam aliados da Alemanha, e pode constituir além disso uma difamação antissemita, se a parte comparada e, portanto, difamada, é o Estado de Israel[11].

Na vida intelectual normal, claro, a comparação é a única forma de estabelecer empiricamente a natureza de algo, incluindo a sua singularidade. O que está proibido comparar é assim atribuído a priori a uma categoria própria, com N=1, regida por leis e princípios próprios, particulares mais do que universais, metafísicos no sentido de que estão fora do alcance das causalidades e teorias “físicas” deste mundo, o que faz com que a sua aplicação seja um erro de categoria[12]. O tabu contra o que na gíria jurídica e política alemã atual se denomina “relativização”[13] do Holocausto, consistente em relacioná-lo com outra coisa para o compreender melhor — compreender no sentido de verstehende Soziologie[14] — também se aplica ao ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023, o que torna blasfêmia relacionar causalmente este ataque com uma pré-história que inclui, por exemplo, dezesseis anos de bloqueio e centenas de vítimas indefesas no decurso do que na gíria militar israelense se denomina “cortar a relva”[15], como descobriu Judith Butler quando, em resposta à sua Relativierung, foi declarada antissemita na Alemanha[16].

A proibição da “relativização” também pode ser utilizada para justificar a recusa em aplicar o direito internacional à guerra travada por Israel contra Gaza e contra a população palestina em geral, e de fato é amplamente utilizada na Alemanha para esse fim. Se o Holocausto é incomparável, a reivindicação israelo-likudista da totalidade da Palestina, que afinal é uma consequência do Holocausto, também deve ser incomparável. Daí se deduz que os meios utilizados por Israel para fazer valer essa reivindicação não podem ser genocidas, já que um Estado só pode ser acusado de genocídio se for um Estado como todos os outros, sujeito às mesmas normas que os demais. Israel, postulada como a redenção do Holocausto, não pode estar sujeita a tais normas e exigir que as cumpra equivaleria a antissemitismo. Por isso, um historiador israelense como Omer Bartov, que dedicou a sua vida a estudar o genocídio em todas as suas brutais mutações, se arriscaria na Alemanha a ser julgado por antissemitismo e a ir para a prisão, se declarasse publicamente que as suas investigações demonstraram, como ele próprio afirma com horror, que a guerra de Israel em Gaza é, efetivamente, um caso do que estudou, isto é, de genocídio.

Um exemplo de como, na mente alemã, o caráter único do Holocausto gera imunidade para o Estado de Israel não apenas face à desaprovação alemã, mas também face ao direito internacional, é a declaração pública emitida por Jürgen Habermas, juntamente com outras três pessoas, sob o título de “Princípios de solidariedade”, pouco mais de um mês após 7 de outubro de 2023, quando a destruição israelense de Gaza já estava muito avançada[17]. Nela Habermas fala de um “ataque do Hamas que não pode ser superado em crueldade” (“den an Grausamkeit nicht zu überbietenden Angriff der Hamas”; na sua própria tradução para inglês, a frase é vertida, supõe-se que por razões táticas, como “Hamas’ unparalleled atrocity”), comparando esta organização, embora de forma implícita, com o âmbito nazi, de modo que o que ele chama “a resposta de Israel” não pode ser tão “cruel” como o estímulo do Hamas. A seguir, Habermas declara que a “represália” está “justificada em princípio” sem mencionar nenhuma lei internacional que possa estabelecer limites a essa represália, para afirmar imediatamente de forma apodítica que “apesar de toda a preocupação com o destino da população palestina”, preocupação que não aparece em nenhum lugar nos seus “princípios de solidariedade”, “os critérios de juízo se desvanecem por completo, quando se atribuem intenções genocidas às ações de Israel”, já que estas “não justificam de modo algum as reações antissemitas, especialmente na Alemanha” (e menos em outros lugares?). Uma vez identificada a atribuição de intenções genocidas como antissemitas, a declaração conclui: “Todos aqueles no nosso país que cultivaram sentimentos e convicções antissemitas sob todo o tipo de pretextos e agora veem uma oportunidade bem-vinda para os expressar sem inibições devem acatar isto”.

Na verdade, em nenhum outro lugar se levaram a cabo debates sobre se o massacre de Gaza por parte de Israel cumpre alguma definição legal de genocídio com o mesmo sofisma impassível que na Alemanha, como se importasse muito se uma matança massiva, altamente tecnológica e profundamente assimétrica de uma população indefesa e a destruição sistemática das suas condições materiais de vida é tecnicamente um genocídio ou simplesmente algo que fica à porta de o ser. O simples raciocínio abdutivo — “se parece um pato, nada como um pato e grasna como um pato, então provavelmente é um pato” — não penetra nas fortificações do coração de pedra alemão, protegido das emoções por uma estranha combinação de Sachlichkeit [objetividade] e covardia. Especialmente quando o que está em jogo é a Staatsraison alemã, haverá sempre um advogado que emita um parecer pericial tranquilizador, por muito estranho que seja; na Alemanha sempre houve abundância de advogados serviçais. Um exemplo disso é uma destacada acadêmica especialista em direito internacional, codiretora de um instituto de investigação ainda mais prestigiado, especializado nesta disciplina. Juntamente com outros juristas, representou a Alemanha no Tribunal Internacional de Justiça, cuja sede o Estado alemão havia comparecido, sem necessidade alguma de o fazer, para argumentar, seguindo a linha de Habermas, que independentemente do que estivesse a ocorrer em Gaza, não era nem podia ser um genocídio. Uma das razões pelas quais isso tinha que ser assim foi argumentada mais tarde por esta acadêmica num artigo publicado no Frankfurter Allgemeine Zeitungco escrito com um colega israelense[18]. O artigo afirmava que, embora fosse certo que os principais ministros do governo israelense tinham expressado publicamente a sua firme intenção de exterminar a população de Gaza, bombardeando-a e matando-a à fome, havia que ter em conta que o exército israelense, que afinal insiste em ser “o exército mais ético do mundo”, era conhecido por rejeitar as ordens que infringiam o direito humanitário de guerra. Cito textualmente: “Na prática, as táticas bélicas e as operações específicas de Israel são determinadas quase exclusivamente pelo exército. Há indícios (!!) de que o exército leva muito a sério a sua obrigação de cumprir a lei dos conflitos armados. Além disso, as atividades do exército israelense não são determinadas apenas pelas ordens dos seus generais. Um elemento característico da cultura das Forças de Defesa de Israel (FDI) é a ampla discricionariedade que é concedida aos comandantes e soldados de menor patente. Um ataque contra a infraestrutura civil está sujeito a uma cadeia de aprovações, mas de fato a decisão final recai nos soldados no terreno”[19].

A guerra de Israel contra o povo de Gaza (para Habermas, simplesmente uma “população”) deixou e continua a deixar ruínas por toda a parte, sem dúvida na própria Gaza, onde se estima que só remover os escombros levará uma década ou mais, mas também em Israel, cujos cidadãos já começaram a abandonar o seu país em massa. O mesmo acontece com os países que continuam a ajudar Israel a levar a cabo e a legitimar o seu genocídio em Gaza, países nos quais seria urgente restaurar o sentido da integridade pública e da moralidade política, enquanto isso ainda for possível; e com as instituições do direito internacional, que serão tão necessárias agora que o mundo luta por uma nova ordem multipolar[20]. Serão escritos e devem escrever-se muitos mais livros sobre o “mundo depois de Gaza”. Mas seja qual for esse mundo, quando talvez se materialize, Gaza fará sempre parte dele, como as colônias e a economia escravista da era do Iluminismo, como Auschwitz e Varsóvia, como Hiroshima e Nagasaki, como o Vietnã e todos esses outros lugares de assassinatos em massa em grande escala, que tantas vezes nos fazem desesperar de nós mesmos.

Notas

[1] O 25 de novembro de 2025, a Max Planck Society, a principal rede institucional não universitária dedicada à investigação básica da Alemanha, informou no seu site sobre um estudo elaborado pelo seu Institute for Demographic Research (“Gaza: um estudo revela uma perda de vidas e uma queda da esperança de vida sem precedentes”). Utilizando sofisticadas técnicas de estimação, a equipe de investigação descobriu que “o número atual de vítimas mortais violentas [da guerra de Gaza] provavelmente supera as 100.000”, com estimativas que oscilam entre 100.000 e 112.000 (Gómez-Ugarte et al., 2025). O estudo e o fato de a Max Planck Society obviamente não poder evitar a publicação deste relatório são ainda mais relevantes, se se tiver em conta que esta instituição despediu em outubro de 2023 um professor visitante australiano por expressar em privado a sua satisfação pela fuga da prisão ao ar livre dirigida pelo Hamas em Gaza.

[2] Parece justificado concluir, a partir da sua notável resiliência, que o Hamas continua a gozar de um amplo apoio entre a população de Gaza. A 30 de outubro de 2025, o Frankfurter Allgemeine Zeitung informou sobre uma sondagem realizada entre os habitantes de Gaza, com uma sofisticação metodológica impressionante, segundo a qual o apoio popular ao Hamas aumentou durante os dois anos da campanha genocida israelita (“Die Hamas bleibt unter Palästinensern stärkste Kraft”, p. 5). Por exemplo, o estudo descobriu que 69 por cento da população palestiniana de Gaza e da Cisjordânia era contra o desarmamento do Hamas (87 por cento na Cisjordânia e 55 por cento na Faixa de Gaza); apenas 29 por cento no total era a favor do desarmamento.

[3] Barghouti não se encontrava incluído entre os dois mil palestinianos libertados a 13 de outubro de 2015 da “detenção administrativa” imposta por Israel, isto é, da situação de encarceramento ilimitado e sem julgamento, contemplada na primeira fase do “Plano de Paz” de Trump. Claro, o Plano não prevê nenhum papel para o inimigo, salvo que entregue as armas e, portanto, permita que as Forças de Defesa de Israel o matem.

[4] Sobre o mesmo tema, ver Andersen et al. (2024), della Porta (2024; 2025a, 2025b), Friese (2024), Gysi (2016), Kundnani (2025) e Tübner-Hansen (2024a e 2025b).

[5] Como constatei depois de terminar este manuscrito, grande parte do que digo aqui coincide com o recente ensaio de Omer Bartov, “Wir haben nichts gewusst”, Berlin Review, 10 de outubro de 2025.

[6] Uma mera resolução do Bundestag não é, tecnicamente, mais do que uma declaração, o que significa que não é legalmente vinculativa para ninguém. No entanto, tal e como funciona a política alemã, em particular através do dispositivo da obediência antecipada, na prática funciona como se se tratasse de legislação formal, a qual não está sujeita a revisão judicial. Sobre a “fabricação de consentimento” (Chomsky) burocrática de corte alemão, ver o meu artigo sobre a Bundesamt für Verfassungsschutz [Serviço Federal Alemão de Proteção da Constituição] publicado na London Review of Books (2024).

[7] Se a definição da IHRA confirma este extremo, é discutível, mas irrelevante: as instituições públicas e as organizações privadas alemãs interpretam-no assim e obrigam os cidadãos a fazer o mesmo.

[8] Para uma compilação em inglês dos textos centrais do “debate dos historiadores”, ver Knowlton e Cates (1993).

[9] Para uma interessante visão de “Habermas como pensador étnico por excelência”, ver Irfan Ahmad (2025). Também numa perspectiva “pós-colonial”, ver Saffari e Shabani (2025).

[10] Mencionar outras vítimas da maquinaria de extermínio nazi-alemã ao mesmo tempo que o Holocausto é permitido pela lei, mas não se faz num ambiente social educado. A Erinnerungskultur alemã, até hoje, simplesmente não tem em conta os 2,8 milhões de civis polacos não judeus, que foram assassinados sob a ocupação alemã, além dos 3 milhões de judeus polacos. (Esta é uma das razões pelas quais as relações entre a Alemanha e a Polônia são tão más até hoje, apesar de ambos os países serem membros da União Europeia). A situação é ainda pior no que respeita aos 13-15 milhões de cidadãos não combatentes da União Soviética (dos quais 2,7 milhões são considerados judeus), que foram assassinados pela Wehrmacht e pelas SS atrás da linha da frente, e aos aproximadamente 4 milhões de soldados do Exército Vermelho que morreram em campos de prisioneiros de guerra alemães (mais de metade da totalidade dos prisioneiros de guerra soviéticos) e como trabalhadores escravos empregados nas fábricas alemãs. Quando a Alemanha recorda o genocídio nazi, fazendo várias vezes ao ano, exclusivamente recorda o Holocausto, que é o que vem à mente da cidadania, circunstância que de uma maneira francamente estranha diminui afinal a dimensão única e horripilante da indiscriminada matança nazi-alemã.

[11] Não há dados sobre a frequência com que o Artigo 130 é invocado nos processos penais, mas para cumprir o seu propósito, pode ser suficiente que este simplesmente exista.

[12] Na verdade, um sacrilégio. As conotações religiosas são evidentes. Quando Moisés perguntou a Deus pelo seu nome, a resposta foi “Eu sou o que sou”, ou seja, Deus é único no seu gênero. Daí se deriva a proibição de fazer uma “imitação” de Deus, isto é, algo que pretenda ser “como” ele, embora nada possa sê-lo. O incumprimento deste mandato é um delito de lesa-majestade: “Porque eu, o Senhor teu Deus, sou um Deus ciumento”. O pensamento alemão bienpensant insiste que o Holocausto é e continuará a ser o crime humano definitivo por excelência, que não pode conhecer concorrência alguma.

[13] Relativierung, como em: “den Holocaust relativieren”: relativizar em contraposição a absolutizar no sentido de separar do contexto ou singularizar, que é o que se exige.

[14] Comumente conhecida como sociologia interpretativa.

[15] Termo técnico utilizado pelo exército israelita para se referir ao assassinato sistemático de pessoas de Gaza suspeitas de serem ou de estarem a tornar-se líderes de um futuro levantamento, utilizando para isso mísseis de precisão, drones ou bombardeamentos seletivos.

[16] No entanto, não é um delito punível situar a fuga da prisão do Hamas de 7 de outubro de 2023 na mesma categoria que o Holocausto, algo que fazem constantemente os políticos e jornalistas israelitas e alemães, quando descrevem estereotipicamente o 7 de outubro como “o maior assassinato em massa de judeus desde o Holocausto”, tornando-o num assassinato de judeus de corte nazi pelo simples fato de serem judeus.

[17] “Principles of Solidarity”, Frankfurter Allgemeine Zeitung, 13 de novembro de 2023.

[18] “Angriff auf Israel: Was heißt hier Genozid?”, Frankfurter Allgemeine Zeitung, 30 de janeiro de 2024.

[19] Tradução própria. Compare-se com os numerosos relatos da imprensa internacional sobre as atrocidades cometidas pelas Forças de Defesa de Israel, incluindo a tortura sistemática de prisioneiros, alguns dos quais Fassin cita, cap. 4, pp. 37-45. Cada dia aparecem mais, incluindo vídeos gravados por soldados dos seus massacres e mostrados com orgulho no TikTok. Neste contexto, é de destacar o artigo publicado no The New Yorker a 25 de abril de 2025 sobre os advogados militares americanos, que colaboram com o departamento jurídico das FDI para aprender a reduzir os padrões atuais do direito internacional humanitário. Ver Colin Jones, “What’s Legally Allowed in War. How U.S. military lawyers see Israel’s invasion of Gaza – and the public’s reaction to it – as a dress rehearsal for a potential conflict with a foreign power like China”. Aparentemente a intenção dos americanos é aprender com as FDI como argumentar “que as leis da guerra são muito mais permissivas do que muitos [advogados] e a opinião pública parecem apreciar”. Segundo o artigo, “Gaza não só parece um ensaio geral do tipo de combate que os soldados americanos podem enfrentar”, cuja execução satisfatória exigiria padrões legais menos rigorosos, mas pode servir como “um teste da tolerância da opinião pública americana dos níveis de morte e destruição, que acarretam este tipo de guerras”. O que vem à mente aqui não é tanto a China como um país como a Venezuela, objeto de uma invasão americana lançada para erradicar os “narcoterroristas”.

[20] No entanto, a aprovação pela ONU do “Plano de paz” de Trump para a Palestina é um precedente terrível.

*Diretor do Instituto Max Planck para Pesquisa Social em Colônia e professor de sociologia na Universidade de Colônia. Entre seus livros estão “Buying Time: The Delayed Crisis of Democratic Capitalism”.

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