Incra entrega titulação coletiva da Comunidade Quilombola de São José da Serra, em Valença (RJ)

No Incra

Com a presença de lideranças quilombolas de toda a região e diversas autoridades federais, estaduais e municipais, ocorre na manhã de 28/3/2026, a titulação coletiva pelo Incra da Comunidade Quilombola de São José da Serra – localizada no distrito de Santa Isabel do Rio Preto, município de Valença, a cerca de 180 km do centro da capital Rio de Janeiro.

Com uma área de 476,30 hectares, o local abriga matas preservadas, a cachoeira sagrada e o centenário Jequitibá, árvore que simboliza a permanência ancestral no território. O quilombo é formado por 31 famílias que mantêm práticas ancestrais de manejo do território. Suas formas tradicionais de uso da terra baseiam-se na solidariedade e subsistência, com o cultivo de milho, feijão, arroz, mandioca e hortaliças.

Na área de preservação conhecida com Mata Mariana, são coletadas ervas e raízes fundamentais para práticas de cura e aconselhamento espiritual. É usada a água das nascentes e do rio Indaiá, locais de forte apelo espiritual. Também é comum o artesanato, principalmente com a confecção de balaios de taquara / bambu para uso próprio e comercialização.

Luta de gerações
Para o presidente da Associação do Quilombo São José da Serra, Almir Fernandes, 28 de março de 2026 é um dia histórico. “Receber esse título é garantir segurança para o nosso povo, preservar nossa cultura e fortalecer o futuro das próximas gerações. É a certeza de que o Quilombo São José da Serra continuará vivo, resistente e respeitado. É o reconhecimento de uma luta que atravessa gerações”, disse.

Almir destacou a trajetória do pai – líder histórico quilombola Toninho Canecão, falecido em 2022. “Ele foi um dos que iniciaram essa luta, acreditando quando ainda parecia distante. Seu compromisso com a comunidade, sua força e sua persistência ajudaram a construir o caminho que hoje estamos colhendo. Como filho, sigo firme na missão de dar continuidade a essa luta”, afirmou emocionado.

Jongo e ancestralidade
Desde a chegada dos negros escravizados na fazenda, em 1850, a comunidade do Quilombo São José da Serra, o mais antigo do Rio de Janeiro, tem sua história marcada pelo combate ao preconceito racial e a intolerância religiosa e, após a Abolição, somaram-se a resistência e luta constante pelo direito à terra.

O Quilombo São José da Serra é nacionalmente conhecido pela Festa do Jongo, um evento tradicional que acontece anualmente no dia 13 de maio no terreiro do Quilombo e que reúne capoeira, roda de samba e o próprio jongo.

O jongo tem sido uma importante ferramenta na difusão e na afirmação da sua identidade afro-brasileira. A partir dela, os moradores têm feito palestras em escolas e recebido visitas no quilombo como forma de reforçar a luta da comunidade negra pelos seus direitos.

O jongo é uma dança e manifestação cultural afro-brasileira de origem bantu, ancestral do samba, criada por negros escravizados no Sudeste do Brasil como resistência e lazer. Dançado em roda ao som de tambores (candongueiro / cachambu), caracteriza-se por passos curtos, pés descalços, cantos cifrados (pontos) e o toque de “umbigada”.

Regularização do território
O processo de regularização teve início em outubro de 2005, quando a Associação a requereu junto ao Incra/RJ. Depois de vários procedimentos técnicos e administrativos, em 13 de dezembro de 2007 foi emitida Certidão de Autorreconhecimento pela Fundação Palmares, certificando que a Comunidade de São José da Serra é remanescente de quilombos.

Em 22/01/2009, foi publicada pelo Incra a Portaria nº 16 de reconhecimento do território quilombola e em 20 de novembro de 2009, foi decretada a sua desapropriação pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em 12/11/2011, a Associação da Comunidade Negra Remanescente de Quilombo São José da Serra conquistou o Contrato de Reconhecimento de Concessão de Direito de Uso Coletivo do território.

“Pela primeira vez o Incra/RJ titula áreas desapropriadas de particulares para uma comunidade quilombola: a Fazenda São José da Serra, com de 163,5 hectares e o Sírio Boa Vista, com 54 hectares. A titulação das áreas restantes que compõem o território ainda depende da conclusão dos trâmites judiciais. Destaco também o significado de ser uma região de história escravocrata, que teve enorme fluxo de escravizados na produção de café”, explicou o chefe da Divisão Quilombola do Incra/RJ, Renan Prestes.

Programação
O que: Solenidade de Titulação Coletiva da Associação do Quilombo São José da Serra
Data: 28/03/2026
Horários:
9h – Cerimônia religiosa
10h – Entrega de Títulos Coletivos
12h – Roda de Jongo

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