Mulheres do Cerrado se reúnem no Oeste da Bahia e reafirmam: “Tudo é político quando você é mulher”

CPT

Entre os dias 20 e 22 de março, a Aldeia Kiriri, em Barreiras (BA), foi território de encontro, resistência e celebração. Mais de 120 mulheres de diferentes povos e comunidades participaram do 4º Encontro e Feira das Mulheres pelo Cerrado do Oeste da Bahia, realizado pela Articulação de Mulheres pelo Cerrado.

Vindas de diversos territórios, indígenas, geraizeiras, de fundo e fecho de pasto, ribeirinhas, agricultoras, quebradeiras de coco babaçu, quilombolas, artesãs, bordadeiras, artistas e militantes, as participantes construíram, ao longo de três dias, um espaço coletivo de troca de saberes, fortalecimento político e afirmação da vida no Cerrado.

A chegada, na sexta-feira (20), foi marcada pela acolhida das mulheres indígenas Kiriri, que receberam as mulheres com alegria, cantos, sabores e saberes. A noite foi de reencontros, partilhas e construção coletiva do acampamento, um verdadeiro levante de mulheres em conexão com seus territórios e suas histórias.

Mística, política e território

Na manhã de sábado (21), a programação teve início com uma mística de abertura profunda e simbólica. A artista Conchita Silva apresentou o processo de criação da arte do encontro, revelando as camadas de sentido que atravessam a arte e a luta das mulheres do Cerrado.

Em seguida, a primeira roda de conversa trouxe para o centro do debate o tema desta edição:

“Tudo é político quando você é mulher: dos territórios ao voto, mulheres em defesa da vida, das águas e da democracia.”

A atividade contou com a participação de Lucinha, Deputada Estadual Suplente pelo PT-BA, militante histórica, camponesa e uma das fundadoras do MST, que contribuiu com reflexões sobre a luta pela terra, a agricultura familiar e o papel das mulheres na construção da democracia. O debate foi marcado pela escuta atenta e pelas vozes firmes das mulheres presentes, que compartilharam suas vivências e desafios diante das ameaças aos seus territórios.

Educação que nasce do território

Um dos momentos mais marcantes do encontro foi o lançamento da brochura “Território que Ensina: Saberes do Cerrado na Escola”, fruto do trabalho coletivo da Associação dos Pequenos Criadores do Fecho de Pasto de Clemente de Correntina, em parceria com organizações que atuam na defesa do Cerrado, com apoio do ISPN.

O material propõe fortalecer a educação contextualizada, levando para o ambiente escolar os saberes, modos de vida e a resistência das comunidades tradicionais. Segundo Elizete Carvalho, integrante da associação, a iniciativa busca garantir que as novas gerações conheçam e valorizem o Cerrado a partir de quem vive e cuida dele.

Professoras presentes se emocionaram com o conteúdo, e muitas mulheres se reconheceram nas imagens e narrativas, reafirmando o sentimento de pertencimento e orgulho de suas histórias.

Arte, sementes e identidade

As oficinas também foram espaços de expressão e fortalecimento. Na produção de estandartes, as mulheres materializaram, em tecido, suas bandeiras de luta. Já na oficina de Biojoias, sementes do Cerrado se transformaram em arte, carregando consigo histórias, memórias e identidade. Cada participante confeccionou sua peça de lembrança do encontro.

Entre cantos e partilhas, mais de 120 mulheres deram forma às suas trajetórias, mostrando que a arte também é instrumento de resistência.

Feira, cultura e economia da sociobiodiversidade

No sábado à noite, a Praça das Corujas, em Barreiras, recebeu a Feira e Noite Cultural das Mulheres do Cerrado. O espaço reuniu sabores, saberes e expressões culturais, aproximando a população urbana da riqueza da sociobiodiversidade.

A programação contou com música, apresentações e a energia contagiante do Bloquinho “Cerrado: Coração das Águas”, impulsionado pela força musical de Bosco Fernandes, celebrando o bioma e seus encanto. A apresentação das Tribaianas, meninas mulheres que encantaram o público com carisma

A iniciativa reforça a importância de incentivar o consumo de produtos das comunidades tradicionais, gerando renda para as mulheres e contribuindo para a preservação do Cerrado.

Água, território e denúncia

O encerramento do encontro, no domingo (22), foi atravessado pelo Dia Mundial da Água e por um forte chamado coletivo: a água é um direito, não mercadoria.

As mulheres denunciaram a crescente escassez hídrica na região Oeste da Bahia e os impactos do avanço do agronegócio sobre os territórios tradicionais. Relatos apontam o medo real da perda das nascentes, dos rios e, consequentemente, das condições de vida no Cerrado.

A defesa do bioma apareceu, mais uma vez, como inseparável da defesa dos corpos, das comunidades e dos modos de vida que nele resistem.

Este encontro só foi possível porque há quem não solte nossas mãos nem recue na luta. A todas as parcerias que caminham conosco, nossa profunda gratidão e reconhecimento: à Aldeia Kiriri, que nos acolheu em seu território sagrado; ao ISPN, por meio do Fundo ECOS e seus financiadores; à Comissão Pastoral da Terra (CPT); à Cáritas; à Agência 10envolvimento; à Galeria Velvet Criativa; e às associações e movimentos de base.

São alianças que fortalecem nossas raízes e mantêm viva a esperança de um Cerrado em pé e de povos que seguem resistindo.

Mais do que um encontro, os dias vividos na Aldeia Kiriri reafirmaram uma certeza coletiva: a luta das mulheres do Cerrado é também a luta pela vida, pela democracia e pelo futuro.

Produção e fotografias por Amanda Alves – comunicadora popular e artista audiovisual

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