A eleição de 2018 não se explica por variáveis macroeconômicas, mas pelo esgotamento de um ciclo político e pela sequência de abalos que viraram o país do avesso entre 2013 e 2018
1.
A mais longínqua referência aos horrores do nazismo enseja o mesmo questionamento de sempre: como pôde o berço de mentes tão superiores se curvar diante de um dos mais perversos capítulos da história da humanidade? Como foi possível uma das sociedades contemporâneas mais civilizadas naturalizar o horror?
Absolvido pela Lei de Godwin, me atrevo a cotejar contextos, de fato, específicos. E com a devida consciência de que comparações históricas não são mais do que um exercício abstrato; transposição de experiência social só funciona em modelo teórico de economia neoclássica. Mas já correram rios de tinta com o objetivo de explicar a ascensão da extrema direita no século XXI. Fenômeno mundial, a ainda inexplicada consagração de discursos e políticos outrora rechaçados tem na eleição brasileira de 2018 particularidades pedagógicas.
Em condições normais de temperatura e pressão, a regra de bolso universal até poderia explicar o ocorrido por aqui, mas a sequência de meteoros que atingiu o país desde 2013 inutilizaram o termômetro: protestos massivos e orgânicos, uma megaoperação político-jurídica de natureza legítima (e finalidade criminosa), a maior recessão estatisticamente documentada da história do país, um impeachment para lá de controverso e um mandato tampão disposto a arruinar o que restava da credibilidade da Presidência da República.
Era impossível, naquele contexto, predizer o resultado do pleito levando-se em consideração apenas as variáveis macroeconômicas. O Brasil estava virado do avesso.
Às vésperas do fim do ciclo político conhecido como Nova República (1985-2018), a realidade eleitoral que vigorou no país entre 1990 e 2014 já não existia mais: coligações partidárias, tempo de televisão, marqueteiros profissionais, debates em rede e horário nobres etc. Todos os elementos que costumavam selar o destino de uma eleição haviam evaporado.
A própria centralidade de temas econômicos foi atropelada por pautas (i)morais, as quais passaram a dominar corações e mentes país afora; afinal, o medo é uma ferramenta muito mais poderosa que a esperança. Tudo isso deu lugar a uma nova forma de se fazer política, na qual a natureza, os objetivos e a velocidade da comunicação virtual impõem desafios, por vezes insuperáveis, a candidatos analógicos.
2.
E como todo fenômeno social tectônico, diversos foram os condicionantes do esgotamento daquele modelo.
(i) Operação Lava Jato: A luta contra a corrupção – necessária, urgente e imanente – deve ser implacável, desde que republicana e institucionalizada. Em nenhum lugar civilizado um juiz oligofrênico seria alçado à condição de herói nacional.
A destruição da classe política pode trazer algum regozijo de curto prazo, mas sempre antecede a ascensão de um líder antissistema ainda mais deletério. Uma boa solução para o problema? Fortalecer os órgãos de controle e, sobretudo, incentivar o voto consciente e em políticos decentes.
(ii) Neopentecostalismo: Instrumentalizados por líderes que viram no candidato-absurdo a melhor possibilidade de ocupar lócus de poder até então interditados, esse grupo demográfico – composto por cidadãos de boa índole em sua maioria e cada vez mais relevante do ponto de vista social – mostrou-se decisivo para o resultado da eleição.
Uma boa solução para o problema? Levar políticas públicas eficazes aos guetos recônditos desde sempre esquecidos, nos quais, na ausência de Estado, resta apenas rogar a Ele.
(iii) Reação ao identitarismo: A consolidação de uma justa agenda de reparação histórica, mas que por vezes extrapola o razoável, fez com que setores desde sempre favorecidos reagissem à perda de “privilégios”. Inobstante a importância de se avançar casas na evolução civilizacional – com foco em coortes específicos mais atrasados, como o do homem branco heterossexual de classe média –, não se pode perder de vista a perspectiva classista da luta política.
Uma boa solução para o problema? Trocar o banheiro unissex por ar-condicionado e refeição de qualidade em todas as escolas públicas do país.
(iv) Reagrupamento de classes: Diante das conquistas, simbólicas e materiais, que as camadas historicamente subalternizadas obtiveram a partir dos anos 2000, setores da classe média, receosos de sua desclassificação, buscaram aliança reacionária com as elites, dirigindo seu mal-estar contra grupos sociais mais vulneráveis e aderindo a projetos políticos que prometiam restaurar uma ordem hierárquica percebida como ameaçada.
Uma boa solução para o problema? Emponderar silenciosamente mulheres, negros e todos os outros grupos populacionais historicamente marginalizados até que se normalize o óbvio.
Desde o início de 2018, sabia-se que se tratava de uma eleição de mudança. Mas há mudanças e mudanças, até porque as opções eram tantas quanto possíveis; do crente ao ímpio, do frugal ao nababesco. Havia o católico fervoroso, a evangélica diligente, o concubino da Lava Jato, o banqueiro transnacionalizado, o banqueiro nacionalizado, o democrata cristão e o servo de Deus. Todos economicamente liberais. E todos, sem exceção, mais conservadores que a Nossa Senhora de Guadalupe.
Diante de uma miríade de possibilidades, como pôde a população brasileira sufragar justamente o mais iliberal, anti-conservador e antirreligioso dos candidatos? E no segundo turno, um duelo de rejeições, a tal “escolha muito difícil” se dava entre a barbárie e um professor universitário preparado, lhano, honesto e verdadeiramente conservador. (Além de fiscalista, é casado com a mesma mulher com quem se relaciona desde a adolescência.)
O que explicaria, afinal, esse deslocamento sociopolítico tão drástico? O ultraje. Nenhum outro candidato poderia ser tão acintoso, indecente, desumano. Isso diz muito sobre a sociedade brasileira.
*Ivan Colangelo Salomão é professor do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (FEA/USP).




