De Fernando Henrique a Fernando Haddad, país trocou a ideia de um projeto nacional pelo atendimento aos dogmas do mercado – em especial os “ajustes fiscais”. Resultados são pobreza, atraso, fragilidade militar, desindustrialização. A página tarda a ser virada
Por Manoel Casado*, em Outras Palavras
Demos para nos gabar de nossas profundas vulnerabilidades. Pressionados por um mundo cada vez mais ávido por nossas riquezas, mercado doméstico e localização estratégica, batemos no peito: não mexam conosco, ninguém é mais humilde que o Brasil. Essa parece ser a tônica adotada pelo presidente Lula e por parte de seus ministros, notadamente Fernando Haddad. Sair do Mapa da Fome, reiterar que não nos preparamos para guerra alguma e apostar sobretudo nas vantagens naturais do país são apresentados como grandes trunfos nacionais. Seria cômico, não fosse trágico.
O avanço permanente de capacidades produtivas está na base do desenvolvimento. É dele que derivam prosperidade e poder — inclusive poder de dissuasão. Lamentavelmente, o desenvolvimento do Brasil anda há muito tempo sem pai nem mãe. Poucos o reivindicam; quase ninguém mais o disputa. Da esquerda à direita, a moda agora é “entregar a rapadura”. Mas já foi diferente.
Durante décadas — sobretudo entre 1930 e 1980 — o tema mobilizou os melhores espíritos do país. Conquistou corações e mentes, elegeu e derrubou presidentes e ocupou o centro de gravidade dos grandes debates nacionais. Chegou mesmo a ser inscrito na Constituição de 1988 como objetivo a ser perseguido pela República.
Naquele período consolidou-se a compreensão de que o desenvolvimento brasileiro exigiria uma transformação estrutural da economia. Seria preciso deixar de depender apenas de produtos da terra, de nossas vantagens comparativas naturais. A diversificação necessária era produtiva e tecnológica — não apenas a diversificação de compradores. Caso contrário, continuaríamos dependentes de café, minério de ferro, soja e outros produtos primários. O desafio era transformar a pauta exportadora brasileira, e não apenas multiplicar os destinos das mesmas mercadorias.
Essa lógica foi profundamente alterada nos anos 1990. O governo Fernando Henrique Cardoso tinha a fixação de acabar com a Era Vargas. Não conseguiu exatamente o que queria, mas teve enorme sucesso em reconfigurar a estrutura macroeconômica do país. Desde então, a política econômica brasileira passou a ser marcada por austeridade fiscal, desregulamentação, privatização e liberalização comercial — ainda que com intensidades variáveis ao longo do tempo.
Em textos recentes, tive a honra de discutir aspectos desse processo com Paulo Nogueira Batista Jr. Nosso foco era mais específico: tirar o véu do acordo Mercosul-União Europeia, para expor a natureza danosa de seus prováveis efeitos sobre o desenvolvimento do Brasil. Argumentamos que o acordo não é um episódio isolado, mas parte de uma nova estratégia comercial do país — estratégia tendente a inviabilizar a realização do potencial brasileiro, ideia tão cara ao saudoso embaixador Samuel Pinheiro Guimarães.
O atual governo Lula, apesar da eloquência em favor da neoindustrialização, conduz simultaneamente um amplo processo de liberalização da economia. E não se trata apenas de ardente impulso por novos acordos de livre comércio. A forma como lidamos com a dívida pública e com o investimento estrangeiro também escancara que abdicamos de um projeto nacional de desenvolvimento.
Tomemos o caso da dívida pública. Historicamente, e ainda hoje, muitos países desenvolvidos convivem com níveis elevados de dívida, frequentemente superiores a 100% do PIB. Nenhuma nação se desenvolve sem forte investimento público em setores e serviços estratégicos. A questão central, portanto, não é o tamanho da dívida, mas o seu propósito. Ela pode servir a fins estéreis — como sustentar juros excessivamente elevados — ou pode funcionar como instrumento para elevar a produtividade, fortalecer a capacidade tecnológica e melhorar a distribuição de renda. Desenvolvimento e teto de gastos são incompatíveis.
A maneira como a dívida pública é administrada condiciona diversos aspectos da vida nacional. A obsessão fiscal, ao estigmatizar o investimento público, abre espaço crescente para o capital estrangeiro. Desde os anos 1990, quando o Brasil liberalizou sua conta de capitais e eliminou a distinção entre empresa brasileira e empresa brasileira de capital nacional, temos assistido a um intenso processo de desnacionalização da economia. Esse movimento foi acompanhado pela privatização de empresas estatais estratégicas e pela multiplicação de concessões à iniciativa privada, ao amparo de iniciativas como o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), cujo recorde de projetos foi alcançado no atual governo.
Segundo dados recentes, o Brasil liderou em 2025 o ranking latino‑americano de fusões e aquisições. Em outras palavras, fomos o país da região que mais renunciou ao controle de sua economia. Ao mesmo tempo, enquanto diversos países criam mecanismos de triagem de investimentos estrangeiros em setores estratégicos, o Brasil optou por criar o “Portal Único de Investimentos”, com o objetivo declarado de facilitar a entrada de capital externo. Nas palavras do vice‑presidente Geraldo Alckmin, trata‑se de “facilitar a vida do investidor, reduzir custos e desburocratizar”.
Ora, não pode o presidente Lula dizer que o Brasil não vai fazer com minerais críticos o que se fez com o minério de ferro sem apontar até onde está disposto a ir para pôr em prática esse comando. Não se fala em estatal para o setor, em restrição ou direcionamento de investimentos estrangeiros ou em imposto de exportação, muito menos na combinação desses fatores. O que se vê, na verdade, é o oposto. Recentemente, foi registrada a maior alta de fusões e aquisições no setor mineral em 20 anos.
Num mundo em chamas e marcado pelo desmoronamento da ordem internacional, o Brasil não poderia estar mais despreparado. Não somos minimamente autônomos sequer no agronegócio — pedra angular da economia nacional. Nossa dependência da importação de fertilizantes, por exemplo, supera 80%. As consequências da guerra contra o Irã podem nos deixar em situação dramática. Ao mesmo tempo, o capital estrangeiro controla parcelas crescentes de setores estratégicos, drenando riqueza e limitando severamente a capacidade do país de definir seu próprio destino.
O resultado não poderia ser outro: pobreza, fragilidade militar e desindustrialização persistente. Precisamos buscar novos motivos de orgulho.
*Mestre em Desenvolvimento. Dedica-se à análise das relações econômicas internacionais do Brasil, com ênfase em comércio exterior.




