A corrida armamentista e o colapso da segurança pública no Rio de Janeiro

O poder público segue apegado à estética do confronto armado e à retórica vazia da supremacia material

Roberto Uchôa de Oliveira Santos, no Le Monde Diplomatique Brasil

A dinâmica da segurança pública no Estado do Rio de Janeiro consolidou-se, ao longo das últimas décadas, como um laboratório trágico de políticas alicerçadas na militarização e no uso ostensivo da força. A recente assinatura de um contrato, superior a R$ 70 milhões, para a aquisição de um helicóptero militar bimotor modelo Sikorsky UH-60 Black Hawk por parte do governo fluminense, destinado à Polícia Militar, materializa a persistência dessa doutrina. Sob o pretexto oficial de prover equipamentos blindados que garantam o transporte tático e a superioridade em áreas conflagradas, a administração estadual reitera um fetichismo tecnológico obsoleto. Em um cenário contemporâneo onde a guerra assimétrica urbana foi radicalmente reconfigurada pela apropriação de drones pelas organizações criminosas , a aquisição de maquinário bélico pesado da era da Guerra Fria não apenas evidencia um profundo anacronismo tático, mas escancara um modelo de gestão que produz letalidade e o esgotamento fiscal do Estado.

Para compreender a irracionalidade dessa corrida armamentista, é fundamental analisar a insustentabilidade financeira que alicerça o atual modelo fluminense. Segundo análises da Rede de Observatórios da Segurança, o Rio de Janeiro é o estado da federação que mais compromete seus recursos com o aparato repressivo, destinando proporcionalmente fatias exorbitantes ao setor. Em orçamentos recentes, a previsão de gastos diretos com segurança pública alcançou a marca de R$ 12,7 bilhões, o que representava 15,7% de todo o orçamento estadual. No entanto, a verdadeira hemorragia emerge na contabilização dos custos previdenciários: o impacto das aposentadorias e pensões, impulsionadas pelas baixas e invalidezes precoces de agentes superexpostos ao confronto contínuo, consome R$ 8,5 bilhões adicionais, elevando o peso da segurança para estratosféricos 26,3% do tesouro estadual.

A distorção de prioridades fica inegável ao se observar que os gastos com inativos da segurança correspondem a mais que o dobro do gasto previdenciário do setor de educação (R$ 4 bilhões), muito embora a educação possua um contingente de beneficiários 83% superior. Esse dreno orçamentário canaliza 82% das verbas apenas para o pagamento de salários e encargos. O resultado dessa equação bélica é o abandono da elucidação de crimes: órgãos como a Polícia Técnico-Científica e o Instituto de Segurança Pública (ISP), cérebros estatísticos e periciais da persecução criminal, operam com repasses ínfimos e estruturas precárias. O governo opta por investir R$ 70 milhões em um único helicóptero, mas negligencia ferramentas forenses, rastreamento de lavagem de capitais e tecnologias cibernéticas capazes de estrangular o fluxo financeiro e logístico que irriga os arsenais do tráfico.

No plano tático, a crença na superioridade do Black Hawk colide com a democratização e o barateamento da guerra aérea. A verticalização do conflito instaurou uma nova fase nas operações de segurança urbana. Inicialmente, veículos aéreos não tripulados (VANTs) de uso civil eram empregados como “mulas” para transpor muralhas de presídios com drogas e celulares. Logo depois, facções como o Comando Vermelho (CV) evoluíram para o uso de equipamentos de alta resolução para inteligência e contravigilância, monitorando tropas policiais e bases do Estado de modo a anular o fator surpresa. A inflexão definitiva rumo à “guerra open source“, contudo, deu-se com a adaptação de mecanismos de baixo custo que transformaram drones de filmagem em plataformas de bombardeio. O recrutamento de conhecimento especializado também demonstra a gravidade do cenário, como exemplificado pela prisão de um militar da ativa da Marinha do Brasil que desenvolvia garras de liberação de explosivos e instruía criminosos nestas novas táticas de ataque aéreo.

A materialização dessa doutrina insurgente ocorreu de forma trágica em 28 de outubro de 2025, durante a Operação Contenção, nos complexos da Penha e do Alemão. Na ocasião, um efetivo de aproximadamente 2.500 policiais civis e militares enfrentou granadas lançadas por drones controlados por traficantes. Este evento selou a perda empírica da supremacia do espaço aéreo pelo Estado. Diante de pequenos aparelhos que custam parcos milhares de reais e são pilotados de dentro de construções civis por operados indetectáveis, a blindagem e os 200 km/h de velocidade máxima de um helicóptero de R$ 70 milhões oferecem pouca vantagem real em um ambiente de vielas e morros densamente povoados.

O colapso da viabilidade dos helicópteros em zonas de negação assimétrica do espaço aéreo não é um pressuposto teórico, mas uma realidade comprovada internacionalmente. A invasão russa à Ucrânia evidenciou como nações em desvantagem material podem anular blindados terrestres e aeronaves multimilionárias mediante o emprego massivo de drones kamikazes do tipo FPV (First-Person View). Mais próximo à realidade fluminense, o cenário na Colômbia emite um alerta irrefutável. Em 21 de agosto de 2025, no município de Amalfi, departamento de Antioquia, um helicóptero Black Hawk idêntico ao comprado pelo Rio de Janeiro, pertencente à Polícia Nacional Colombiana, foi completamente destruído em pleno ar por um drone FPV carregado com explosivos. O ataque, reivindicado por dissidências das FARC e que matou 12 policiais, forçou a Colômbia a alterar imediatamente seus protocolos de voo. Se narcotraficantes sul-americanos já possuem meios para abater aeronaves militares blindadas em áreas rurais abertas, a vulnerabilidade de um Black Hawk pairando a baixa altitude sobre os obstáculos naturais e lajes do Rio de Janeiro atinge um limiar crítico e inaceitável.

No entanto, a externalidade mais sombria da insistência nesse paradigma de guerra encontra-se no custo humano imposto às populações periféricas e na deliberada corrosão da transparência democrática. A letalidade torna-se um projeto institucional. A mesma Operação Contenção de outubro de 2025 consolidou-se como a mais letal da história do estado, registrando 121 mortes sob profundo escrutínio do Supremo Tribunal Federal. As contradições no relatório enviado ao STF pelo governador expuseram a leniência sistêmica com os abusos: embora a justificativa para a megaoperação tenha sido o cumprimento de mandados, a contagem de prisões, armas apreendidas e as alegações institucionais mostraram graves divergências. O mais estarrecedor revelou-se na fraude do uso de câmeras corporais (bodycams). O governo admitiu posteriormente que a Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE) mobilizou 128 agentes, mas apenas 60 estavam equipados com o dispositivo; dentre estes, metade apresentou supostas “falhas técnicas” em suas estações de recarga, garantindo o anonimato audiovisual dos disparos em meio à chacina centenária.

Os danos colaterais são mensuráveis e devastadores para a estrutura civil. Segundo o relatório de 2025 do Instituto Fogo Cruzado, o Rio de Janeiro acumulou 2.532 tiroteios ao longo do ano civil de 2024, sendo que a maior proporção histórica, 36% dos confrontos, foi originada direta e proativamente pelas forças de segurança do Estado. A rotina militarizada resultou na paralisação de 1.968 unidades de ensino e interrompeu os serviços de 1.136 unidades de saúde, além de cravar o recorde inaceitável de 26 crianças de até 11 anos baleadas. A corrida armamentista não garante paz; ela suspende os direitos fundamentais constitucionais nos territórios marginalizados.

A aquisição do helicóptero Black Hawk representa, portanto, a quintessência de uma política de segurança baseada no populismo punitivo e na irracionalidade administrativa. Em lugar de destinar montantes milionários à compra de superestruturas vulneráveis e à manutenção de uma máquina de pensões e mortes, a pacificação dos territórios fluminenses demanda uma ruptura dogmática. A desidratação do crime organizado ocorrerá apenas pela inteligência financeira, pela retomada permanente de territórios controlados e pelo combate à corrupção que afeta as instituições do Estado.

A paz social no Rio de Janeiro não descenderá dos rotores de um helicóptero estrangeiro projetado para combates convencionais. Enquanto o poder público se apegar à estética do confronto armado e à retórica vazia da supremacia material, continuará financiando uma guerra assimétrica perdida, cobrando o seu déficit insustentável em dinheiro público e, sobretudo, em sangue dos moradores das periferias controladas pelo crime organizado.

Roberto Uchôa de Oliveira Santos é doutorando no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, é policial federal licenciado no Brasil e integra o Conselho do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

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