Eleições: ainda é possível salvar a Amazônia?

Com Lula, desmatamento recuou de modo sensível – mas ainda insuficiente. Pior: Congresso está a um passo de lançar blitzkrieg contra a floresta. Uma grande mobilização social pode impedi-la e livrar o Legislativo das bancadas da devastação

Por Luiz Marques*, em Outras Palavras

Um ponto de não retorno em uma floresta é o ponto em que sua resiliência é vencida pela combinação das pressões que se exercem sobre ela. No caso da Amazônia, essas pressões são a supressão, degradação e fragmentação do tecido florestal, os incêndios, a biodiversidade, o empobrecimento dos solos, as secas, as inundações, tudo isso agravado pelas mudanças climáticas. Uma vez vencida essa resiliência, a floresta transita rapidamente para a morte ou para outro estado de equilíbrio, muito adverso à sua permanência.

A resposta à pergunta que dá título a este artigo é clara: não é possível evitar um ponto de não retorno na floresta amazônica, mantida a atual composição do Congresso Nacional. A batalha pela Amazônia entrou em sua fase mais decisiva. Por isso, é imperativo se preparar para as eleições de outubro, unidos em torno da palavra de ordem: defender a Amazônia. Pois a Amazônia é, antes de mais nada, um valor intrínseco e um componente maior da biosfera. De sua permanência dependem, além disso, a sobrevivência da sociedade brasileira e, em grande medida, a conservação do que resta dos equilíbrios planetários. É preciso, portanto, mandar de volta para casa todos os deputados e senadores que votaram a favor do “PL da devastação” (Lei nº 15.300/2025), elegendo um Congresso comprometido com a Amazônia.

1. O estado atual da Amazônia

Para bem avaliar a extensão do que está em jogo nestas eleições, recapitulemos alguns dados sobre a Pan-Amazônia, a Amazônia Legal e as florestas brasileiras do bioma Amazônia:

(1) A Pan-Amazônia abrange 7,8 milhões de km2. Nela vivem 47 milhões de pessoas, 2,2 milhões delas pertecentes a povos autóctones; 400 grupos étnicos e a maior biodiversidade do planeta. A bacia amazônica recobre cerca de 5,8 milhões de km².[1] Em 2021, já cerca de 17% das florestas da Pan-Amazônia haviam sido suprimidos e outros 17% haviam sido degradados.[2] Segundo David Lapola e colegas, entre 2001 e 2018, 360 mil km2 das florestas da Pan-Amazônia “encontram-se sob alguma forma de degradação”. Contudo, “a inclusão de dados sobre secas extremas aumenta a estimativa da área degradada para 2,5 milhões de km², ou 38% da área das florestas remanescentes”.[3]

(2) A Amazônia Legal brasileira, com cerca de 5 milhões de km2, compreende o bioma Amazônia, mais 37% do Cerrado e mais 40% do Pantanal em território brasileiro.[4] A Figura 1 mostra os acumulados de desmatamento na Amazônia Legal até 2007 em milhares de km2.

Figura 1 – Acumulado das áreas desmatadas na Amazônia Legal até 1980, 1987, 1990, 2000 e 2007 em milhares de km2, segundo dados do Prodes/Inpe. Fonte: Presidência da república. Casa Civil. Plano Amazônia Sustentável (PAS): Diretrizes para o desenvolvimento sustentável da Amazônia Brasileira. Ministério do Meio Ambiente, 2008, p. 95.

(3) A Figura 2 mostra a área desmatada ano a ano na Amazônia Legal entre 1988 e 2025.

Figura 2 – Desmatamento da floresta primária na Amazônia Legal entre 1988 e 2025 em milhares de km2, com resolução mínima de 6,25 hectares e sem contabilizar perdas por incêndios. Os dados referem-se ao desmatamento entre 1 de agosto e 31 de julho de cada ano. Fonte: TerraBrasilis, INPE, 2025
<https://terrabrasilis.dpi.inpe.br/app/dashboard/deforestation/biomes/legal_amazon/rates>.

(4) No Brasil, o bioma Amazônia estende-se por uma área de quase 4,2 milhões de km².[5] Segundo Gilberto Câmara e colegas, “o desmatamento na Amazônia brasileira reduziu a cobertura florestal original de 402,7 milhões de hectares [4.027.000 km2) em 85,3 Mha [853 mil km2], de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais”.[6]

2. Lula e o empenho em frear o ecocídio

Como mostra a Figura 2, o desmatamento na Amazônia aumenta muito entre 1991 e 2004 e diminui em 83% entre 2004 e 2012. Com o novo Código florestal (2012), ele volta a crescer, acelerando-se a partir de 2019 na Pan-Amazônia e em especial no Brasil:[7]

“O desmatamento intensificou-se substancialmente desde 2019 na bacia [amazônica], embora a taxas diferentes em cada país. A maior parte do desmatamento concentrou-se no Brasil, que perdeu cerca de 457.237 km² de florestas entre 1988 e 2020. Na Amazônia brasileira, o desmatamento anual entre 2019 e 2020 foi superior a 10.000 km², um nível não atingido desde uma década antes (2008)”.

Entre Temer e Bolsonaro, isto é, entre agosto de 2018 e julho de 2022, a floresta primária amazônica brasileira perdeu 45.720 km2, uma área maior do que a do estado do Rio de Janeiro (43.750 km2)![8] A exemplo de seus dois primeiros mandatos, é grande mérito do terceiro mandato do governo Lula ter reduzido o desmatamento amazônico a partir de 2023, freando o ecocídio perpetrado por Bolsonaro. De agosto de 2022 a julho de 2023, o desmatamento ainda atingiu 9.064 km2. Mas de agosto de 2023 a julho de 2024, ele caiu para 6.288 km2, e de agosto de 2024 a julho de 2025 ele caiu pela segunda vez para 5.796 km². Uma enorme vitória! Mas ainda muito insuficiente, pois apenas nos últimos três anos – entre agosto de 2022 e julho de 2025 –, a Amazônia brasileira perdeu 21.121 km2, uma área quase equivalente à do estado de Sergipe (21.910 km2). Apenas entre agosto de 2024 e julho de 2025, a floresta amazônica brasileira perdeu mais 5.796 km², ou seja, quase quatro vezes a área total do município de São Paulo (1.521 km2)! É admissível perder um Sergipe de floresta amazônica a cada três anos e perder, a cada ano, uma área quase quatro vezes o município de São Paulo?

Como reportado acima, a área da cobertura florestal amazônica brasileira era, originalmente, de 4.027.000 km2. Dado que mais de 874 mil km2 (853 mil km2 + 21.121 km2) foram já suprimidos, então essa perda até julho de 2025 corresponde a 21,7% de sua área original. Isso posto, Luciana Gatti e colegas alertam que, até 2024, na porção nordeste da Amazônia a floresta já havia sido amputada em 38% e na região sudeste, em 34%.[9] Essa parte leste da floresta já está cada vez mais difícil de recuperar e essas perdas vulnerabilizam a floresta como um todo.

3. O agronegócio, vetor principal da destruição

Mais de 90% da destruição da floresta amazônica teve por objetivo a abertura de pastagens.[10] Nos seis anos dos governos Temer e Bolsonaro (2017-2022), essa abertura derrubou mais de 800 milhões de árvores, sendo que 17 mil km2 de florestas foram suprimidos perto de grandes frigoríficos atuantes na Amazônia:[11]

“Pesquisadores da consultoria AidEnvironment utilizaram imagens de satélite, registros de movimentação de gado e outros dados para calcular a perda florestal entre 2017 e 2022 em milhares de fazendas próximas a mais de 20 frigoríficos. Todas as unidades de processamento de carne pertenciam às três maiores exportadoras de carne bovina do Brasil: JBS, Marfrig e Minerva”.

Além disso, 38% dos solos da América Latina estão degradados pelo desmatamento, por pastagens e por monoculturas, um processo agravado pela emergência climática.[12] No Brasil, os solos degradados perderam 1,4 bilhão de toneladas de carbono ou 5,13 bilhões de toneladas de CO2 (C = 3,67 CO2) em relação à capacidade de conservação do carbono orgânico nos 30 cm superficiais do solo sob a vegetação nativa.[13]

4. Novas ameaças sobre a Amazônia

Em janeiro de 2026, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), vinculado ao Ministério da Justiça, suspendeu a moratória da soja na Amazônia, em vigor há 20 anos. Essa suspensão, muito comemorada pelo agronegócio, deixa vulneráveis ao desmatamento mais 130 mil km2 de floresta.[14] Se ocorrer (e alguém duvida disso?), o desmatamento amazônico superará, enfim, uma área de mais de um milhão de km2, ou mais de 25% da área original da nossa floresta. Além disso, em 2026 os deputados e senadores do agronegócio planejam acelerar sua Blitzkrieg contra a Amazônia e demais biomas brasileiros. Vejamos apenas três de seus projetos:[15]

(1) PL nº 4.554/2025, alterando a Lei de Crimes Ambientais de forma a proibir o embargo cautelar de áreas desmatadas ilegalmente.

(2) PEC48, que muda a Constituição para implantar o absurdo marco temporal.

(3) PL 3.358/2025, que propõe desembargar propriedades com base apenas na inscrição no Cadastro Ambiental Rural.

Seja qual for a distância que separa a floresta amazônica de seu ponto de não retorno, essa distância será muito diminuída ou anulada se permitirmos que esses projetos prevaleçam. A vitória indígena no Tapajós, em fevereiro, pode e tem de ser o estopim de uma grande mobilização da sociedade brasileira em defesa das condições de habitabilidade de nosso país.

Notas


[1] Cf. Marielos Peña-Claros, Carlos Nobre (co-diretores) e mais 29 cientistas, eds., The Amazon Assessment Report 2025. Connectivity of the Amazon for a Living Planet. Science Panel for Amazon, 2025.

[2] Cf. Carlos Nobre, Andrea Encalada et al., Science Panel for the Amazon (SPA 2021), p. vii.

[3] Cf. David M. Lapola et al., “The drivers and impacts of Amazon forest degradation”. Science, 27 jan. 2023.

[4] Cf. Presidência da república. Casa Civil. Plano Amazônia Sustentável (PAS). Ministério do Meio Ambiente, 2008.

[5] Cf. Marcos Pivetta, “Múltiplos sistemas monitoram por satélite o desmatamento na Amazônia”. Revista Pesquisa Fapesp, 334, 4 dez. 2023.

[6] Cf. Gilberto Câmara et al., “Desafios do cumprimento da NDC brasileira no bioma Amazônia”. Revista CEBRI (Centro Brasileiro de Relações Internacionais), 1, 4, out-dez. 2022, baseado em dados do Incra, CAR/SFB, Funai, ICMBio e INPE.

[7] Cf. SPA 2021, (cit.) p. 22.

[8] Cf. Agosto de 2018 a julho de 2019 = 10.702,53 km2; agosto de 2019 a julho de 2020 = 10.354,19 km2; agosto de 2020 a julho de 2021 = 12.186,40 km2; agosto de 2021 a julho de 2022 = 12.477,52 km2. TerraBrasilis. Amazônia.

[9] L. Gatti e colegas, “Como o desmatamento acelera as mudanças climáticas, aumenta os eventos extremos e provoca mortes, adoecimento e prejuízos no Brasil”. Nota técnica em apoio à Ação Direta de Inconstitucionalidade da Lei no 15.190, dezembro 2025 (inédito), a partir de um estudo em vias de publicação.

[10] Cf. “Mais de 90% do desmatamento da Amazônia é para abertura de pastagem”. MapBiomas, 3 out. 2024.

[11] Cf. Andrew Wasley et al., “Over 800 million trees felled to feed appetite for Brazilian beef”, The Bureau of Investigative JournalismThe GuardianRepórter BrasilThe Forbidden Stories’ Bruno and Dom Project, 2 junho 2023.

[12] Cf. Raul Roberto Poppiel et al., “Soil health in Latin America and the Caribbean”. Communications Earth & Environment, 6, 141, 24 fev. 2025.

[13] Cf. João Villela et al., “Soil carbon debt from land use change in Brazil”. Nature Communications, 26 jan. 2026; Marcos Pivetta, “Avanço da agropecuária fez solos do Brasil liberarem 1,4 bilhão de toneladas de carbono”. Revista Pesquisa Fapesp, março 2026.

[14] Cf. Raoni Rajão et al., “Fim da Moratória da Soja coloca em risco 13 Mha na Amazônia”. UFMG, março 2026 <https://www.icv.org.br/wp-content/uploads/2026/03/moratoria-soja-final-pt.pdf>.

[15] Cf. “Propostas legislativas do agro pioram desmonte socioambiental, trabalhista e civilizatório”. ClimaInfo, 16 março 2026.

*Professor livre-docente aposentado e colaborador do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde foi cofundador do curso de pós-graduação em História da Arte.

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