Misoginia digital: o ataque às mulheres como tática política

Por Thais Klein, no blog da Boitempo

Estamos em ano de eleição, abrimos as redes sociais e somos invadidas por inúmeras notícias de feminicídios e outras violências generificadas – isto é, violências cuja motivação atravessa a questão de gênero. Não é mera coincidência: o discurso de ódio, sobretudo contra mulheres (cis e trans), caminha lado a lado com formas contemporâneas de autoritarismo e com a própria lógica de funcionamento da internet. A internet, tal como a vivemos hoje, é um espaço-tempo visceral: o tempo se condensa em um “tempo real” contínuo, e o espaço perde atrito – de um afeto ao outro, o deslocamento é imediato. A parada se dá quando uma imagem é eleita como um alvo sobre o qual pode-se descarregar.  

Há, contudo, uma história mais longa que atravessa essa cena. O ódio de gênero que hoje circula com velocidade inédita nas redes não nasce nelas. Ele guarda continuidade com uma divisão binária moderna que organizou o mundo a partir de uma oposição rígida entre masculino e feminino – atribuindo ao primeiro a razão, a força, a autonomia e, ao segundo a vulnerabilidade, as emoções, a dependência e a fragilidade. A violência não é um acidente desta estrutura: ela é seu pilar. 

Não se trata de estabelecer uma relação direta entre o deslocamento dessa divisão e o aumento da violência. O que se intensifica, sobretudo, é a imposição de um ideal de autonomia e performance que atravessa o discurso neoliberal e encontra, nos modos de funcionamento da internet, uma espécie de mimetização: sem corpo, sem atrito, atravessando o mundo na promessa de uma potência imediata. Sob a exigência de sujeitos autossuficientes, sempre à altura, a experiência da impotência – estrutural, compartilhada – se expande e se torna cada vez menos suportável. É nesse terreno que se abrem respostas reativas que tentam, pela via conservadora, restabelecer uma ordem perdida.  

Diante dessa impossibilidade, uma saída recorrente tem sido a recuperação defensiva de ideais de masculinidade que só se sustentam na lógica binária que os constitui. Não se trata apenas de uma divisão entre masculino e feminino, mas de uma hierarquização: a experiência de potência, nesses termos, depende da produção de um contraponto considerado inferior. Nesse movimento, a impotência não pode ser reconhecida como condição comum e é expulsa para fora de si. E essa expulsão encontra, com frequência, um alvo privilegiado: as mulheres. Não por acaso, a violência misógina se intensifica em momentos de crise e de disputa, funcionando como tentativa de restaurar uma ordem abalada. O bode expiatório, aqui, não é apenas uma figura retórica – ele é um operador político.  

Em ano eleitoral, isso ganha contornos ainda mais evidentes. O histórico recente do país mostra como falas misóginas, que já circulavam de forma difusa, foram progressivamente legitimadas e convertidas em bandeiras políticas – especialmente após o impeachment da única mulher que ocupou a presidência da República. Desde então, a desqualificação do feminino passou a operar não apenas como opinião, mas como estratégia de mobilização. 

Vale lembrar que as mulheres são maioria do eleitorado. Isso significa que o ataque às mulheres não é apenas expressão de ódio, mas também tentativa de incidir sobre um campo político concreto, de desestabilizar, intimidar, silenciar. A violência de gênero, nesse contexto, não é exterior à democracia – ela a atravessa e a ameaça.  

Nas redes, onde os afetos circulam sem atrito e parecem não encontrar limites, esquecemos facilmente que eles sempre acabam por atingir corpos – corpos singulares, situados, marcados por histórias e por posições sociais. A violência que ali se propaga não se dissipa no virtual: ela encontra alvos concretos e produz efeitos reais. O sofrimento não é abstrato. Ele incide sobre mulheres que, muitas vezes, ocupam espaços conquistados com enorme esforço – como as universidades públicas – e que, sob ataque, são levadas a duvidar de si, de sua legitimidade, de seu direito de estar ali. A promessa de uma circulação ilimitada de afetos encobre, assim, a realidade de que seus impactos são desigualmente distribuídos. 

Se os efeitos dessa violência são concretos e incidem sobre a própria sobrevivência das mulheres, tanto em sua dimensão mais imediata quanto na possibilidade de sustentar um lugar de sujeito no mundo e nas instituições, seu enfrentamento não pode senão ocupar lugar central no debate público. Iniciativas como o Projeto de Lei 896/2023, em tramitação no Senado, que propõe criminalizar a misoginia ao incluí-la na Lei do Racismo, são passos importantes ao reconhecer a gravidade dessa forma de violência, especialmente no ambiente digital. Mas a questão não se esgota na tipificação penal.  

Estamos diante de uma reconfiguração das formas de violência, impulsionada por infraestruturas tecnológicas e atravessada por disputas políticas centrais: o combate à misoginia precisa ocupar lugar estratégico na formulação de políticas públicas para os próximos anos. Não apenas como proteção a um grupo específico, mas como condição para a própria sustentação de uma vida democrática. 

Porque, em um espaço onde os afetos deslizam sem atrito e são conduzidos por infraestruturas digitais, as eleições passam a incidir diretamente sobre as vidas das mulheres. 

*Psicanalista, doutora em Saúde Coletiva (IMS-UERJ) e doutora em Teoria Psicanalítica (PPGTP-UFRJ). Professora adjunta da Universidade Federal Fluminense (UFF-CURO) e professora do programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica (UFRJ). Coordenadora do NEPECC (UFRJ-IPUB).

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