Para o alto; e o que parecia corpóreo derreteu-se como um respiro no vento.
Como teria sido…”
Macbeth, Ato 1, Cena 3
Sopravento: termo náutico que designa o lado de onde sopra o vento. Mais do que uma posição, é uma orientação: agir a partir das forças em jogo – não apenas respondendo a elas, mas tentando conduzi-las.
Medir forças: quando, em uma comunidade política, a liberdade da forma se separa da liberdade do conteúdo, isso sinaliza ao Estado a necessidade de determinar. O Estado passa a agir como se estivesse em guerra – ainda que latente – contra si mesmo. No principado civil, a censura à “liberdade de conteúdo” é o indício dessa passagem. Junho de 2013 permanece como ponto de inflexão da crise política brasileira. O biênio 2013-2014 revelou simultaneamente a emergência do conflito social e o medo de suas consequências, em um processo marcado por sincronismo e massificação inéditos. Já em 2015-2016, esse conflito é contido e deslocado: o protagonismo das ruas passa a grupos de direita emergentes, culminando no impeachment de Dilma Rousseff – aceito sob a promessa de “esfriar as ruas”. O resultado foi um governo profundamente impopular, sustentado menos por consenso do que por exaustão.
A frágil mobilização pelo “Fora Temer” exemplificou essa passagem. A Reforma Trabalhista e o ajuste fiscal consolidaram o novo tom: austeridade e perda de direitos impostas no interior de um golpe rapidamente assimilado.
Em 2018, acumulam-se sinais de ruptura: o assassinato de Marielle Franco e a obscuridade de sua investigação; a prisão de Lula; o colapso de alternativas eleitorais moderadas; a facada que vitimou Jair Bolsonaro, abrindo espaço para a emergência de novos termos simbólicos na disputa e reconfigurando o lugar do próprio conflito político. É nesse cenário que emerge Bolsonaro, até então figura marginal, apoiado pela expectativa difusa do empresariado – seja para aprofundar o “esfriamento” iniciado por Temer, seja para viabilizar novos “choques de ordem”.
Seu governo desdobrou tendências anteriores de desestruturação neoliberal, mas introduziu marcas próprias: a militarização da segurança pública, as investidas sobre a Polícia Federal e a centralidade do discurso moral-religioso, que redefiniu a luta política em termos político-culturais. Ao mesmo tempo, o uso direto da máquina estatal para estruturar redes de comunicação e propaganda revelou ao mesmo tempo a urgência e o improviso de uma oligarquia política em ascensão.
No plano econômico, essa experiência também expôs um descompasso revelador. A agenda conduzida por Paulo Guedes apresentou-se como a mais explicitamente liberal desde os anos 1990, orientada pela promessa de redução do Estado, privatizações e disciplina fiscal. No entanto, sua realização foi irregular e frequentemente contraditória: reformas importantes conviveram com expansões significativas de gasto público, sobretudo em momentos de crise e pressão eleitoral. Mais do que a implementação de um programa neoliberal coerente, o que se observou foi a tentativa – apenas parcialmente bem-sucedida – de alinhar a ação estatal a uma lógica de mercado, continuamente tensionada pelas exigências políticas da própria governabilidade.
Em 2022, o confronto eleitoral reorganiza as forças abertas em 2013: Lula, candidato popular com apoio das elites; Bolsonaro, candidato das elites com apoio popular. A pandemia expôs os limites do bolsonarismo enquanto forma de governo, abrindo caminho para o retorno, em 2023, de um governo popular apoiado pelas elites. Por que essa combinação seria preferível? Maquiavel sugeriria: para manter a “chave da cidade” nas mãos do povo por mais tempo, aposta-se na mediação de lideranças com trajetórias populares, sindicais e democráticas.
É justamente aí, contudo, que a hegemonia lulista encontra seu principal impasse. Forjada na aliança entre sindicalismo e elites intelectuais no final do regime militar, e consolidada ao longo de mais de quatro décadas de atuação eleitoral e estatal, estruturada na articulação entre práticas sindicais e parlamentares, trata-se hoje de uma hegemonia envelhecida no poder. Não apenas no sentido biográfico – lideranças majoritariamente masculinas, brancas e acima dos 50 anos –, mas sobretudo no sentido político: uma forma de direção que já não se renova com a mesma capacidade de absorver e reorganizar o conflito social. E isso não é irrelevante.
Em termos gramscianos: quando uma corrente popular alcança o poder e não o transforma, ela se vê compelida a conter os efeitos de seu próprio impulso originário sobre aqueles que vêm depois.
Quase treze anos após junho de 2013, o que se observa é uma elevada permeabilidade do governo petista às elites econômicas, intelectuais e culturais – nacionais e internacionais – combinada a grandes esforços, e resultados limitados, na administração de alianças com grupos políticos fisiológicos e frequentemente corruptos.
Essa forma de governar encontra seus limites mais evidentes justamente nos pontos em que a transformação exigiria confrontar diretamente estruturas históricas de propriedade e de poder: a questão agrária, os direitos territoriais indígenas e a vida nas periferias urbanas.
Nesses terrenos, a lógica da conciliação revela sua rigidez: torna-se pouco permeável à crítica de políticas implementadas sob racionalidade de mercado, mesmo quando voltadas à inclusão. Somado a isso, os cortes e contingenciamentos na educação e na saúde públicas, a transferência de recursos para o grande capital e a expansão de formas precarizadas de trabalho – como a uberização – indicam não a ausência de ação estatal, mas a dificuldade em romper com os parâmetros que organizam essa ação.
Como lembram, por caminhos distintos, Ailton Krenak e Nego Bispo, há dimensões da vida social – ligadas à terra, ao território e às formas de existência – que não se deixam traduzir integralmente na linguagem da governabilidade sem que percam aquilo que lhes é constitutivo. Até que ponto uma estratégia fundada na conciliação consegue incorporar conflitos que, por sua própria natureza, colocam em xeque os próprios termos dessa conciliação?
A questão não é moral, mas estratégica: uma força popular que chega ao poder deve decidir o que conservar e o que transformar. Não pode mudar tudo – mas tampouco pode deixar tudo como está, sob pena de não caber na posição que ocupa. Deve ampliar e deve envolver. A linguagem que garantiu a vitória de 2022 mostrou-se eficaz, mas era estreita. As jornadas de 2013 foram também berço de grupos de extrema-direita e funcionaram como antessala do bolsonarismo, derrotado eleitoralmente em 2022. Os atos de 8 de janeiro de 2023 foram contidos e punidos democraticamente. Mas o que se segue a isso?
A questão remete à reflexão de Gramsci sobre a hegemonia antes e depois da tomada do poder. O “dia seguinte” à vitória eleitoral – sobre o neoliberalismo, ou mesmo sobre formas neofascistas – coloca problemas próprios. A punição aos atos golpistas foi necessária, mas acabou também funcionando como um álibi para o endurecimento da forma de governar, inclusive no interior da própria coalizão, e essa questão foi suprimida do horizonte.
O problema estratégico da forma petista de governar – e que a esquerda, em larga medida, aprendeu não apenas a reconhecer, mas também a naturalizar – reside no fato de que ela se orienta por uma dupla soberania. Trata-se de uma forma de exercício do poder que busca simultaneamente responder às expectativas de sua base social e às exigências de reprodução da ordem institucional e econômica vigente. De certo modo, esse desdobramento remete ao diagnóstico das “duas almas do socialismo” formulado por Hal Draper para análise do socialismo democrático nos Estados Unidos nos anos 1960 e mobilizado por Gildo Marçal Brandão nos anos 1990 para pensar a trajetória do Partido Comunista Brasileiro desde os anos 1920, marcada por uma oscilação estrutural entre dois princípios de legitimação: de um lado, a fidelidade a um projeto de transformação social ancorado nas classes trabalhadoras; de outro, a necessidade de reconhecimento e inserção no sistema político existente. O caminho é longo.
Não se trata, em ambos os casos, de uma contradição conjuntural ou de um simples “desvio de linha”, mas de trajetórias específicas de constituição política prática que acompanham, informam e integram o Estado brasileiro. Nelas, o arco histórico é desenhado pela tendência da mediação independente converter-se em mediação dependente do Estado, e a estratégia de transformação em administração de equilíbrios instáveis do sistema político. Os ritmos assumidos por essa duplicidade – entre participação e governabilidade, entre conflito e acomodação no Estado – definem tanto os limites quanto alcance das experiências.
A questão, portanto, não é apenas reconhecer que todo partido popular possui essa duplicidade, mas orientar suas proporções. O poder não se reduz à alternância entre polos (e homens) fixos: ele se desloca, se recompõe e redefine seus próprios termos. A questão decisiva é quem guia esse movimento – e a partir de quais forças. Soprar a favor do vento não basta; é preciso, novamente, saber de onde ele vem.
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Daniela Mussi é professora do Departamento de Ciência Política da UFRJ e membro permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Unicamp.
Nota editorial
Durante março-abril de 2026, o blog esteve sob responsabilidade de Camila Góes (edição interina).




