No filme, todos os militantes têm clareza de que a anistia era uma medida extrema de sobrevivência, ainda que implicasse o custo da impunidade dos torturadores da ditadura
Apesar de seu título, o documentário de Anita Leandro não é exatamente sobre anistia. No material de divulgação para imprensa, a própria diretora afirma isso textualmente: “Esse filme não é um filme temático sobre anistia. Não é isso. É um encontro com pessoas que participaram desse evento. E é a emoção dessas pessoas diante desse material.”
Claro, Anistia 79 presta um grande serviço às discussões sobre todo o processo de luta pela anistia, suas possibilidades, seus limites e seu resultado naquele momento. Com uma clareza da direção e dos entrevistados e entrevistadas, fica nítida a lucidez que os militantes, que se reuniram em Roma, tinham da derrota política da luta contra a ditadura e da fragilidade da esquerda naquele momento, exigindo uma reestruturação da estratégia política.
Diante da quase ausência de brechas oferecidas pela ditadura, a luta pela anistia não foi apenas uma tática para garantir a sobrevivência dos militantes e a volta dos exilados brasileiros ao país, facultando uma possibilidade, ainda que remota à época, de estabelecer novas margens para ação e disputa políticas. No plano regional, a luta pela anistia brasileira também identificava o papel central do Brasil na construção e consolidação de ditaduras na América do Sul, razão que, por sua força, convenceu as autoridades italianas a iniciarem o Tribunal Bertrand Russell II, em 1974.
Como fica claro nas palavras do senador italiano Lelio Basso, presidente do Tribunal Russell II, que se estendeu até 1976, logo na abertura do documentário: “A iniciativa deste Tribunal partiu dos exilados brasileiros, aos quais se somaram exilados chilenos e de outros países. Nos demos conta de que a América Latina constitui-se nesse momento o fenômeno mais grave do ponto de vista da violação, e até da supressão, dos direitos democráticos e da instauração de regimes ditatoriais. É um dos maiores perigos para as democracias, não só na América Latina, mas no mundo inteiro, porque o totalitarismo, como o fascismo, tende sempre a se propagar.”
Um ano antes da instalação desse tribunal, América do Sul assistiu à derrubada de dois presidentes eleitos e a instauração de duas ditaduras. Em 27 junho de 1973, o presidente Juan María Bordaberry conspirou com os militares para fechar o Senado e a Câmara dos Deputados, anunciando a criação de um Conselho de Estado que substituísse a função constitucional do Congresso e instalando a ditadura no Uruguai. Um mês e meio depois, foi a vez do Chile sucumbir ao golpe. Em 11 de setembro do mesmo ano, o presidente Salvador Allende foi derrubado pelas Forças Armadas, morrendo no bombardeio executado para sua retirada do governo do Chile. No início do último ano dos trabalhos do Tribunal Bertrand Russell II, foi a vez da ditadura ser implementada na Argentina, em 1976. Em cada um desses golpes, lá esteve presente a importante contribuição da ditadura brasileira.
Em termos de duração, as ditaduras argentina e uruguaia duraram respectivamente 7 e 10 anos, a primeira terminando em 1983 e a segunda em 1985. Se o Brasil foi fundamental na organização dos golpes, na implementação das ditaduras e da concomitantemente repressão nos países do Cone-Sul, a luta pela anistia brasileira também foi importante para debilitar esses mesmos regimes ditatoriais. Se o processo de anistia brasileira durou mais de 5 anos e o fim da ditadura mais 6, essa luta prestou grande contribuição em debilitar o grande centro irradiador de golpes e de implementação de ditaduras na América do Sul.
Deixando isso claro logo no início do documentário, Anita Leandro parte para contar a história que deseja, que não é sobre anistia. Isso fica escancarado também logo no início do filme, a partir de dois comentários seguidos, aparentemente gratuitos. Primeiro, Luiz Eduardo Greenhalg identifica e anuncia “Denise Crispim e a Eduarda, com a camisa do CBA, feita pelo Henfil. Ali tinha o Bode Orelana. ‘Já vejo no horizonte a anistia’.” Depois, Branca Moreira Alves continua falando sobre Eduarda, dizendo que ela: “Parece o pai dela… Tão novinha, né? Eu acho que foi à Eduarda que alguém perguntou: – Você sabe o que quer dizer anistia? E ela disse: – É ir para o Brasil.”
Cortando a modorrenta e repetitiva discussão etimológica de que anistia significa esquecimento, Anita parte para o significado concreto naquelas circunstâncias: anistia é uma garota, filha de um pai torturado, assassinado e desaparecido, e de uma mãe igualmente torturada grávida, poder voltar para seu país, que ainda não conhecia por causa da perseguição ditatorial.
Naquela década de 1970, não havia nenhuma garantia de que a anistia possibilitaria a chance de reconstrução da democracia brasileira. Como medida de emergência naquela conjuntura, a anistia foi construída para garantir a vida e o retorno de brasileiros e brasileiras que estavam sendo massacrados, pagando com a vida ou com a saúde – física, mental, emocional. No filme, todos os militantes e todas as militantes têm clareza que a anistia era uma medida extrema de sobrevivência, mesmo que sob o custo da impunidade dos torturadores da ditadura.
Era preciso fazer mais um sacrifício para poder vislumbrar alguma chance de futuro. Com todos os seus problemas e limitações, a anistia de 79 conseguiu prestar uma grande contribuição ao processo de abertura, que permitiu o retorno à democracia. E é essa ideia de retorno que Anita Leandro quer tematizar. No material promocional do filme, Anita Leandro deixa essa intenção textualmente registrada, ao afirmar que “queria ter aquela imagem da Denise Crispim com a camiseta do Henfil, com a filhinha Eduarda de mãos dadas, como uma espécie de ritornelo. Uma imagem que atravessasse todo o filme, como uma espécie de cristal de tempo da anistia. De um lado, uma mulher torturada na gravidez, uma sobrevivente que perdeu o irmão e o marido, que teve o pai e a mãe torturados… E ela própria, torturada no sétimo mês de gravidez. E, do lado dela, essa filha, uma outra sobrevivente, que nasceu dentro da prisão, sob custódia, num hospital militar…”
Em resumo, a anistia cumpriu com seu papel de garantir a sobrevivência de militantes que, sem ela, provavelmente seriam mais torturados, assassinados e desaparecidos. A sobrevivência da menina, figurada por Eduarda no filme, era o fundamental naquele momento.
Persistindo nesse objetivo, Anita Leandro busca não mais garantir a sobrevivência de gerações ameaçadas naquele tempo, mas também contribuir para a sua vivência, em uma espécie de aprofundamento da abertura, desta vez subjetiva.
No começo do filme, há o depoimento de Denise Crispim no Tribunal Bertrand Russell II: “Com a palavra, Denise Crispim. A testemunha não tem força para falar e preferiu que seu testemunho fosse lido por outra pessoa. – Eu leio… Nasci em 8 de agosto de 1949. Fui presa em 23 de junho de 1970, na casa da Rua Amélia, em São Paulo. Eu vivia clandestina nessa casa com meu companheiro, Eduardo Leite. Ele não estava quando fui presa. Levaram-me para a Operação Bandeirantes, na Rua Tutóia. Eu estava grávida de seis meses. Albernaz mandou me buscar para interrogar-me. Me deu muitos golpes. O único lugar onde não fui golpeada foi na barriga. Temiam que eu abortasse. Este era um problema sério porque os vizinhos tinham me visto. Eduardo foi preso mais ou menos entre os dias 20 e 22 de agosto. Saí 20 dias depois do parto com liberdade vigiada. Quando a imprensa anunciou que o haviam matado, fui com a família dele, a irmã, para a porta do DOPS e fiz um escândalo: queria seu corpo. Está provado que quem tirou Eduardo do DOPS, na noite em que a imprensa anunciou sua fuga, foi o Fleury. E foi ele quem o matou. O corpo foi encontrado no Cemitério Areia Branca, em Santos. Foram meses de torturas. Eu, que era sua companheira, que o conhecia melhor do que qualquer outra pessoa, não o reconheci. O corpo, o rosto… estava tudo desfigurado. Era assustador. Foi uma tortura científica. Torturar para destruir fisicamente, mas assegurando-se de que não morra totalmente… e que mantenha um resto de vida. Via-se feridas velhas, apodrecida, sangue coagulado e um olho estava perfurado. De um lado da cabeça, o osso estava afundado. Os dentes estavam todos quebrados. Tinha uma dentição perfeita antes de ser preso. O corpo tinha cinco buracos de balas. Tenho a impressão que não foi morto a tiros. No corpo, não havia um só lugar que não tivesse sido massacrado. Mas um olho estava intacto. Foi esse olho que me permitiu a identificação. Me ajudaram também a reconhecê-lo umas cicatrizes profundas na mão, decorrentes de um antigo acidente de carro.”
Durante toda a leitura do depoimento, o documentário mostra Denise Crispim em pé no tribunal, calada, olhando para baixo, completamente absorta, como se tentasse esconder-se em si mesma. Ao final do filme, revemos Denise assistindo à filmagem do Tribunal Bertrand Russell II e da Conferência de Roma, que tratou da questão da anistia em 1979. Bastante emocionada, Denise comenta as cenas dos registros fílmicos daqueles anos. Como uma mãe apresentando a família e os amigos à filha, Denise vai tecendo breves comentários sobre algumas pessoas.
Sobre o pai, José Maria Crispim:
“Olha o meu pai ali! Posso voltar? Sim… já passou. Ele está entre… aí! De óculos, entre esses dois. Esse de óculos, José Maria Crispim… Vai aparecer minha mãe, eu acho… Meu pai, ao lado do Apolonio…
Ele se exilou. Estava no Chile; de lá, refugiou-se na embaixada da Argentina e seguiu para a Argentina. Depois, saiu para a Europa e veio para a Itália. Ele chegou antes de mim…”
Sobre a mãe, Encarnación Lopes Perez:
“Olha a minha mãe aí! No meio. Encarnación… Ela está de óculos, mais atrás. Uma guerreira, minha mãe. Ela foi presa e torturada. E se jogou de um carro em movimento quando a levavam para um encontro que teria com o Bacuri…”
Sobre um amigo da militância:
“Esse é o Murilo? Filho da Carmela… Que pecado! Que tragédia na vida dela… Ele se salvou da ditadura e foi morrer de forma tão estúpida, né?”
Nesse percurso do documentário, Anita Leandro mobiliza Denise Crispim como esse fio condutor do processo de abertura subjetivo, que liga o início ao final do filme. No começo, absolutamente calada e traumatizada. No final, ainda visivelmente traumatizada, Denise consegue falar e apresentar seus familiares e amigos. Junto a Denise, praticamente todos aqueles e todas aquelas, que deram entrevistas, fizeram o mesmo gesto de apontamento, nomeação e relato das pessoas que estiveram na Conferência de Roma.
A despeito de parecer prosaico, esse movimento é uma das experiências mais importantes que descendentes de atingidos e atingidas pela violência de Estado da ditadura mais sentem falta. De modo geral, a experiência mais comum é o completo silenciamento sobre as violências sofridas, acabando por contribuir, tragicamente, com os propósitos da ditadura – o apagamento e o esquecimento.
No Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça, as novas pessoas que chegam para ingressar no coletivo costumam apresentar um desconhecimento profundo da história dos próprios familiares, quando não um desconhecimento total. Ao colocar Luiz Eduardo Greenhalg, Heloísa Greco, Hamilton Lopes dos Santos, Dirceu Greco Monteiro, Branca Moreira Alves, José Pedro da Silva, Marijane Lisboa, Jean Marc von der Weid, Denise Leal, Mariana Conceição Leal, além da própria Denise Crispim, Anita Leandro oferece uma experiência a muitos e muitas filhos, filhas, netos, netas, sobrinhos, sobrinhas etc., que jamais tiveram em suas famílias.
Em sua fascinação pelas imagens, Anita Leandro pôde proporcionar um pouco de reparação a esses familiares, gesto pouquíssimo praticado, quando praticado, pelo Estado brasileiro até os dias de hoje. A obsessão da diretora por essas imagens é similar à de filhos, filhas, netos, netas, sobrinhos, sobrinhas etc.
Expondo no material de divulgação para imprensa como encontrou essas imagens, a diretora relata que: “Esse filme parte de 90 minutos de um material de arquivo inédito, que eu encontrei meio escondido, inacessível, numa biblioteca de Nanterre, perto de Paris, especializada em questões políticas da América Latina. Esse material foi produzido por Hamilton Lopes dos Santos, um exilado brasileiro que morava em Paris. Quando ele ficou sabendo que ia acontecer, em Roma, em junho de 1979, a Conferência Internacional pela Anistia, com a cara e a coragem, juntou uma equipe de duas pessoas e uma mixaria de dinheiro que conseguiu e foi para Roma filmar esse evento, durante três dias. O material foi filmado em 16 milímetros, com uma qualidade de som maravilhosa, e ficou guardado num porão, em Paris, até o momento em que eu o descobri, em cassetes mini DV.”
Para muitos e muitas filhos, filhas, netos, netas, sobrinhos, sobrinhas etc., o único contato com seus familiares atingidos pela violência de Estado da ditadura é por meio dos arquivos. Frequentemente, são exigidas longas pesquisas em arquivos sem nenhuma garantia de que algum documento será encontrado, e, mesmo que o seja, que oferecerá alguma informação. Muitas vezes, é possível encontrar fotos e outros detalhes triviais, mas que valem ouro pela escassez de registros históricos, muito frequentemente, pouco guardados pelas famílias de atingidos pela violência da ditadura.
Ao tratar dos arquivos no material de divulgação para imprensa, Anita Leandro explica que a Conferência de Roma: “É o maior encontro da diáspora brasileira no exílio depois que começou a ditadura militar. E é o único encontro filmado. Aliás, foi realmente uma sorte que tenha sido filmado. As imagens de arquivo da história aparecem assim, por infração. Essas imagens poderiam nem existir se esse cara [Hamilton Lopes dos Santos], um dia, não tivesse dito para si mesmo: ‘preciso deixar um registro disso aqui para os meus filhos’. E ele teve essa lucidez de registrar esse encontro.”
Apesar da rara lucidez de Hamilton, seus registros fílmicos padeceram do mesmo mal de muitos documentos da ditadura. Durante quase 50 anos, esse material ficou guardado em um porão. Diante dessa descoberta, Anita Leonardo colocou-se a tarefa de transmitir o máximo possível desse registro da Conferência de Roma. Novamente, como explica no material de divulgação para imprensa: “A gente cortou apenas os excessos no material de arquivo. No essencial, tudo está ali. E foi muito gratificante quando mostramos o primeiro corte para o Hamilton. Ele veio à nossa mesa de montagem, viu o primeiro corte e falou: ‘Eu, finalmente, vi a conferência’. Porque, nos dias da filmagem, em Roma, ele não tinha tempo para ver nada, porque estava dirigindo a coisa. Eu disse, então, a ele que a ideia era essa mesmo: restituir alguma coisa dessa conferência, o mais próximo possível do material bruto, para todos os brasileiros.”
Para quem é filho, filha, neto, neta, sobrinho, sobrinha, bisneto, bisneta etc., não há excessos no filme, pois a experiência realmente excessiva é a da violência do Estado, pelos crimes cometidos e pela impunidade, do silenciamento e do esquecimento.
Mesmo as pessoas mais conhecidas que aparecem no filme – Apolonio de Carvalho, Gregório Bezerra, Manuel da Conceição, Helena Greco, Márcio Moreira Alves, Modesto da Silveira -, hoje não passam de ilustres desconhecidas. Para muitos e muitas, ver essas pessoas na tela será um primeiro contato, uma verdadeira descoberta, que emociona não apenas pelo afeto compartilhado pelos participantes na Conferência de Roma, mas também pela história apagada dessas pessoas.
A partir dessa percepção, Anistia 79 foi montado. Como já mencionado na abertura deste artigo, o documentário “não é um filme temático sobre anistia. Não é isso. É um encontro com pessoas que participaram desse evento. E é a emoção dessas pessoas diante desse material.”
A preocupação de Anita Leandro encontra-se justamente nessa vontade de resgatar o passado e oferecê-lo ao presente e ao futuro, numa tentativa de reparação e de luta contra os efeitos dessa violência praticada sistematicamente pelo Estado brasileiro durante a ditadura, e que continuou mesmo depois do fim do regime ditatorial. Com esse objetivo, a diretora quer mobilizar arquivo e memória para reconstituir aqueles dias tão incertos e sombrios, e mostrar como é possível lutar mesmo diante de condições tão desfavoráveis.
Novamente, como bem explicitado no material de divulgação à imprensa: “A fala tem um certo frescor, que surpreende a própria pessoa que fala. A testemunha se surpreende com aquilo que diz. E isso solicita a memória por outros caminhos, de uma outra forma. Talvez uma memória muito mais recalcada do que a memória dos fatos: a memória do corpo, a memória do tom da voz. Há outras camadas de memória em jogo, que essa confrontação com o material de arquivo traz à tona. Não é tanto aquela memória pré-elaborada do fato histórico, mas uma memória mais subterrânea, mais…profunda.
Então, isso já orienta a montagem. A montagem tem diante de si uma conversa, um olhar sobre os arquivos, uma análise desses arquivos. O que não era análise dos arquivos não interessava para nós. E eles estão sempre analisando aquele momento histórico. Essa valorização do arquivo foi dada primeiramente no momento da filmagem e, depois, no trabalho de associação da montagem.”
Ao abrir o arquivo físico-fílmico do material registrado por Hamilton Lopes dos Santos, guardado em um porão por quase 50 anos, Anita Leandro pôde abrir o arquivo físico-emocional, físico-mental, físico-corpóreo de alguns de seus principais participantes. Ao fazer isso, a diretora não apenas descerra as portas do mundo, onde a canção foi decepada, como também permite a abertura do nosso porão interno, fechado a sete chaves.
O sucesso da ditadura não se deve exclusivamente apenas aos crimes praticados nos seus porões à época, mas também em transformar a própria vida psíquica de seus sobreviventes e seus descendentes em um porão. Com Anistia 79, Anita Leandro nos oferece uma chave de saída.
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Felipe Lott é doutor e mestre em História pela UFF, bacharel em Ciências Sociais pela UFF e membro do coletivo Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça e do Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça e Reparação.




