Povos Mura e Maraguá fortalecem a agroecologia e os sistemas agroflorestais com troca de saberes e cooperação no Amazonas

Oficina em Careiro da Várzea promove troca de saberes, recuperação de áreas degradadas e articulação entre aldeias

Por Mayara Mura, da Rede de Comunicadores Mura (Recim), e Ligia Apel, Ascom Cimi Norte 1, no Cimi

Nos dias 18, 19 e 20 de março, a aldeia Nova Galileia, do povo Mura, no município de Careiro da Várzea, recebeu a Oficina de Agroecologia e Sistemas Agroflorestais (SAFs), promovida por meio de parceria entre a Organização de Lideranças Indígenas Mura do Careiro da Várzea (OLIMCV) e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Norte 1. O encontro contou com a presença de representantes das aldeias Nova Galileia, Jabuti, Sissayma e Ponciano, além das terras indígenas Gavião, Sissaima e Ponciano, da região do rio Mutuca.

A atividade faz parte de um processo contínuo de aprendizagem e troca de experiências entre as aldeias de Careiro da Várzea. O encontro também reuniu representantes do povo Maraguá — das aldeias Tupanawa, Igarapé-Açu e Senhor da Paz, de Nova Olinda do Norte — com o objetivo de fortalecer os conhecimentos sobre agricultura tradicional, orgânica e sustentável, resgatando práticas ancestrais de cultivo e conhecendo novas técnicas por meio da agroecologia e dos sistemas agroflorestais.

“A atividade faz parte de um processo contínuo de aprendizagem e troca de experiências entre as aldeias de Careiro da Várzea”

A oficina, que já ocorreu em outras aldeias Mura com diferentes temas, teve como foco principal a troca de sementes e mudas, a técnica do círculo de bananeiras e o fortalecimento de práticas sustentáveis a partir dos conhecimentos tradicionais. A agroecologia é uma forma de produção agrícola que respeita o ecossistema e o solo, valorizando os saberes locais. Já a agrofloresta integra, em um mesmo espaço, diferentes espécies de árvores madeireiras e frutíferas, combinando cultivos agrícolas, plantas alimentícias e, em alguns casos, a criação de animais para a subsistência.

Dessa forma, promove-se a recuperação de solos degradados, a conservação dos solos preservados, o aumento da biodiversidade e o equilíbrio ambiental, tornando a produção mais resiliente. Ou seja, mais resistente e capaz de se adaptar aos impactos do desmatamento, das monoculturas e da pecuária. A explicação é do técnico em agroecologia Jonison Mura, da aldeia Terra Preta da Jozefa, em Autazes, um dos facilitadores dos debates sobre reflorestamento com sistemas agroflorestais.

“O sistema agroflorestal, na concepção agroecológica, é importante porque busca resgatar o que a natureza já foi no passado. Áreas degradadas pelo desmatamento podem ser recuperadas. Pensar agrofloresta é pensar na regeneração da natureza, com árvores nativas e espécies que servem de alimento, além de favorecer o retorno da fauna”, afirmou Jonison. Ele destacou ainda que os povos indígenas, antes da colonização, já viviam da preservação da floresta, utilizando-a de forma sustentável para cultivo e alimentação.

“O sistema agroflorestal, na concepção agroecológica, é importante porque busca resgatar o que a natureza já foi no passado”

As crianças são sementes

A reflexão sobre o reflorestamento das áreas degradadas evidenciou a importância de envolver crianças e escolas nesse processo, garantindo a continuidade dos conhecimentos sobre agroecologia e SAFs. Para isso, é fundamental que esses saberes não sejam substituídos por modelos de monocultura industrial e excludente.

Nesse contexto, as crianças são vistas como solo fértil para que a “semente da agroecologia e dos SAFs” germine e cresça de forma saudável e duradoura. Assim como as plantas, elas precisam de cuidado, atenção e proteção. É na escola que podem desenvolver práticas colaborativas e harmoniosas, como ocorre na agrofloresta, destacou Josué Maraguá, da aldeia Igarapé-Açu, na Terra Indígena Maraguá-Mawé.

“A escola é o lugar ideal para ‘plantar’ nas crianças a importância das práticas agroflorestais. É ali que os professores podem mostrar que isso é fundamental para recuperar a natureza”, afirmou. Ele também incentivou a realização de atividades de reflorestamento com estudantes. “Quando as crianças plantam, crescem com essa consciência. Caso contrário, passam a admirar referências distantes de suas realidades”, observou.

“A escola é o lugar ideal para ‘plantar’ nas crianças a importância das práticas agroflorestais”

Círculo de bananeiras

Uma das técnicas abordadas foi o plantio de bananeiras em círculo, prática de fácil adaptação em sistemas agroflorestais. A bananeira é uma planta herbácea de grande porte, com “pseudocaule” formado por folhas e fibras, responsável pela produção de um dos frutos mais consumidos no Brasil.

Além de fornecer alimento, a planta cria um microclima úmido e rico em matéria orgânica, favorecendo a recuperação do solo e o desenvolvimento de outras espécies. A partir dessa característica, a agroecologia desenvolveu a técnica do “círculo de bananeiras”.

Esse foi o tema do primeiro dia da oficina, quando Jonison compartilhou orientações sobre a importância da técnica e seu manejo, destacando que a bananeira contribui para a regeneração do solo ao longo do tempo.

“É uma técnica eficiente porque não depende de produtos químicos”

Ele também explicou práticas de plantio, como o espaçamento adequado e formas de controle de insetos e larvas, além de enfatizar a importância da diversidade de espécies. “Quando se planta variedade, dificulta-se a propagação de pragas, protegendo o cultivo”, explicou. Segundo ele, o sistema exige apenas matéria orgânica e umidade, concentradas no centro do círculo.

“É uma técnica eficiente porque não depende de produtos químicos. Utiliza matéria orgânica disponível no local e favorece o crescimento das plantas, sem custo adicional”, destacou.

Ao final da atividade, os participantes concluíram que a combinação entre práticas tradicionais e técnicas agroecológicas fortalece o aprendizado coletivo.

“Quando se planta variedade, dificulta-se a propagação de pragas, protegendo o cultivo”

Plantas medicinais

No segundo dia, o tema foi “plantas medicinais e a sabedoria ancestral”, com a participação do ancião Luciano Mura, da aldeia Jabuti, na Terra Indígena Gavião. Ele compartilhou conhecimentos tradicionais e alertou para o abandono do uso de remédios naturais, cada vez mais substituídos por medicamentos industrializados.

Luciano também destacou a importância de manter hortas com plantas medicinais nas casas e alertou para os limites da medicina convencional diante de conhecimentos específicos das culturas indígenas.

“Se uma pessoa chega ao médico com um problema que ele não conhece, ele pode tratar apenas o sintoma, sem resolver a causa”, afirmou, demonstrando preocupação com a continuidade desses saberes.

Como proposta, sugeriu a elaboração de uma cartilha coletiva com apoio do Cimi. “Cada aldeia pode reunir seus conhecimentos sobre plantas medicinais e contribuir para um material único, fortalecendo a tradição e o saber ancestral”, disse.

“Cada aldeia pode reunir seus conhecimentos sobre plantas medicinais e contribuir para um material único, fortalecendo a tradição e o saber ancestral”

Reflorestar e renovar

O reflorestamento foi apontado como uma necessidade urgente nas áreas degradadas. A aldeia Nova Galileia, anfitriã do encontro, propôs a criação de um projeto específico, já que cerca de metade de seu território está degradada.

No contexto da demarcação territorial, a Terra Indígena Nova Galileia encontra-se declarada, mas ainda aguarda a demarcação física pela Funai, enfrentando também a presença de um posseiro. Para os indígenas, o reflorestamento pode contribuir para a proteção do território, dar visibilidade à luta e fortalecer a reivindicação pela demarcação.

“Dessa maneira, o cuidado com a terra se tornará parte do nosso futuro”, afirmaram.

“Já pensávamos no reflorestamento há muito tempo, mas não sabíamos onde conseguir sementes. Quando compartilhamos esse sonho, o povo Maraguá se manifestou”

Sensibilizados, representantes do povo Maraguá se solidarizaram e ofereceram doação de sementes e mudas para apoiar o reflorestamento. Também foram planejadas visitas às aldeias Maraguá, em Nova Olinda do Norte, para coleta de insumos e organização de um cronograma de ajuri (mutirão) ao longo do ano, fortalecendo os laços comunitários e o cuidado com a natureza.

Durante a avaliação da oficina, Edson Mura, da aldeia Nova Galileia, destacou a importância da iniciativa:

“Já pensávamos no reflorestamento há muito tempo, mas não sabíamos onde conseguir sementes. Quando compartilhamos esse sonho, o povo Maraguá se manifestou. Foi como uma boia para quem estava se afogando”, relatou.

Com a troca de saberes e a solidariedade entre os povos, a oficina foi encerrada, deixando como legado o compromisso coletivo e a continuidade das práticas nas aldeias.

Ao final, entre agradecimentos, os participantes renovaram a esperança no futuro da terra.

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