Articulação interinstitucional criada em Feijó reúne lideranças indígenas e órgãos públicos para enfrentar fome, desassistência e barreiras no acesso a direitos
Por Carlos Almeida e Francisca Suellem Mafra, do Cimi Regional Amazônia Ocidental – Equipe Feijó
Em meio ao cenário de abandono e violação de direitos que atinge os povos indígenas no Acre, o município de Feijó sediou a criação da Rede Intersetorial de Bem Viver Indígena junto ao povo Madija.
Entre os objetivos está a estruturação de ações integradas para ampliar o atendimento ao povo Madija, além da efetivação desse instrumento de articulação interinstitucional, que coloca no centro o protagonismo indígena e a urgência de políticas públicas efetivas para esse povo considerado de recente contato, em situação de vulnerabilidade social e sanitária.
Articulada pelo Ministério Público Federal (MPF) e por organizações parceiras, a formalização da rede ocorreu durante seminário realizado entre os dias 16 e 20 de março de 2026. O evento reuniu lideranças indígenas e representantes de instituições como a Funai, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), o Ministério da Justiça e Segurança Pública, a Universidade Federal do Acre (Ufac), além de secretarias estaduais e municipais de Saúde, Assistência Social e Educação, e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Regional Amazônia Ocidental.
Mais do que um encontro técnico, o seminário foi um espaço de escuta, no qual as lideranças Madija puderam, pela primeira vez, pautar as condições de seu próprio atendimento nas diversas esferas do Estado.
“Foi um espaço para ouvir os Madija sobre como querem ser atendidos, sobre as dificuldades de comunicação, quando não conseguem compreender o que lhes é dito e expressar o que precisam. Também reforçou a importância de que esse processo de escuta ocorra no território, nas aldeias, em nossa casa”, destacaram as lideranças presentes.
Um retrato do flagelo
Feijó é o segundo maior município do Acre em extensão territorial e concentra a maior população indígena do estado, com cerca de 4.400 pessoas, conforme o Censo 2022 do IBGE. O município abriga sete terras indígenas demarcadas.
Entre elas, três são ocupadas pelo povo Madija: Terra Indígena (TI) Jaminawá/Envira, TI Kulina do Rio Envira e TI Kulina Igarapé do Pau, onde vivem cerca de 1.050 indígenas, segundo dados do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Juruá.
A realidade dessas comunidades expõe múltiplas faces da vulnerabilidade. Quando se deslocam para Feijó, os Madija enfrentam viagens de até dez dias em canoas lotadas, com famílias inteiras.
“Foi um espaço para ouvir os Madija sobre como querem ser atendidos, sobre as dificuldades de comunicação”
Acampados às margens do rio Envira, aguardam atendimentos como saque de benefícios, emissão de documentos e acesso ao Cadastro Único. Enquanto isso, os alimentos trazidos de suas roças — banana e macaxeira — se esgotam, levando muitos a mendigar no comércio local e até a revirar o lixão municipal em busca de comida.
A violação, no entanto, não se resume à fome. A prática criminosa da apropriação ilegal de cartões de benefícios, comum em diversas cidades brasileiras, agrava ainda mais a situação. Os indígenas denunciam que seus cartões ficam em poder de terceiros e que empréstimos são realizados sem seu consentimento.
A ausência de intérpretes nos órgãos públicos intensifica a exclusão, já que a dificuldade com o português se torna uma barreira quase intransponível para o acesso a direitos fundamentais.
“A vulnerabilidade da fome e da violência associada ao uso de bebidas alcoólicas compõe um cenário de desassistência que o poder público insiste em naturalizar”, apontam os relatos colhidos durante o seminário.
Saúde, educação e a luta por autonomia
O quadro de abandono também se reflete nos indicadores de saúde. Casos de tuberculose, pneumonia, desnutrição, anemia e diarreia têm levado dezenas de indígenas, especialmente Madija, a buscar atendimento médico na sede do município, onde o sistema de saúde se mostra despreparado para acolher demandas específicas.
Na educação, a realidade não é menos grave. Nas aldeias Madija, menos de 20% dos professores são do próprio povo, falantes da língua Arawá. Cerca de 60% dos docentes são não indígenas e outros 20% pertencem a outras etnias.
A infraestrutura escolar, construída, em sua maioria, pelos próprios indígenas, evidencia a omissão do Estado na garantia de uma educação escolar indígena diferenciada, bilíngue e de qualidade.
“A vulnerabilidade da fome e da violência associada ao uso de bebidas alcoólicas compõe um cenário de desassistência que o poder público insiste em naturalizar”
A força da articulação
Diante desse diagnóstico, construído a partir de reuniões, audiências e assembleias promovidas pelo Cimi Amazônia Ocidental ao longo dos anos com o povo Madija, o MPF e as organizações parceiras compreenderam que a superação dessas violações exige mais do que ações isoladas — demanda uma articulação permanente.
Com a participação de lideranças das três terras indígenas Madija do Alto Envira e da Organização dos Povos Indígenas da Calha do Juruá (OPIJU), que atua diretamente na região sul do Amazonas, o seminário consolidou um espaço de escuta qualificada.
A antropóloga Andreia, que já atuou no DSEI Alto Rio Juruá, contribuiu para o entendimento sobre os costumes e a cultura Madija, reforçando a importância de conhecer esses povos para que as políticas públicas sejam, de fato, adequadas.
“Mais do que um encaminhamento técnico, o encontro reafirma uma luta histórica: a defesa da vida, dos territórios e da autonomia dos povos indígenas frente às persistentes ameaças e omissões do Estado brasileiro”, avaliam os participantes.
“Mais do que um encaminhamento técnico, o encontro reafirma uma luta histórica”
Ao final dos trabalhos, foi instituída a Rede Bem Viver Madija, com a assinatura dos pontos focais das instituições envolvidas.
A rede nasce com o compromisso de garantir que os próprios indígenas sejam sujeitos centrais na formulação, implementação e monitoramento das políticas que impactam suas vidas e territórios.
A construção da Rede Madija emerge, nesse contexto, como um instrumento político fundamental de articulação interinstitucional e fortalecimento do protagonismo indígena, reafirmando a necessidade de que os próprios povos sejam protagonistas na defesa de seus direitos.
O evento se caracterizou por reflexões aprofundadas, troca de vivências e elaboração conjunta de caminhos, reforçando a urgência de ações coordenadas e permanentes diante das adversidades que atingem os povos originários da região.
Agora, o desafio é transformar o documento assinado em política concreta. Para os Madija, que seguem resistindo no Alto Envira e nas margens do rio Envira, em Feijó, a criação da rede representa um passo — ainda que inicial — na direção do bem viver.




