É possível encarar os oligopólios alimentares?

Não são ruralistas os que dominam sistemas alimentares, mas os gigantes industriais – da transgenia a máquinas e fertilizantes. Conectados com big techs e rentismo, conseguem bloquear inovações. Brasil está na vanguarda de uma alternativa: os bioinsumos

Por Ricardo Abramovay e Luis Barbieri*, em Outras Palavras

Gigantes corporativos são eficientes na difusão de inovações tecnológicas, mas relutantes e lentos em abrir caminho para aquilo que coloque em questão suas práticas dominantes. As maiores empresas possuem a força financeira que lhes permitiria fazer apostas em ideias potencialmente disruptivas. Mas elas tendem a colocar a segurança em primeiro lugar. Quando contratam talentos que fizeram descobertas surpreendentes, estes se tornam menos inventivos do que nos períodos em que criaram e desenvolveram suas start-ups. Sistemas centralizados têm vantagens em levar adiante o que se mostra viável, mas sistemas descentralizados possuem maior aptidão para ultrapassar as fronteiras tecnológicas existentes.

Esta é a tese central do livro de um dos mais importantes pesquisadores contemporâneos sobre a inovação tecnológica, Carl Benedict Frey, economista e historiador econômico, professor da Universidade de Oxford, “How Progress Ends. Technology, Innovation and the Fate of Nations” (Princeton University Press, 2025).

O livro de Frey funciona como um antídoto contra a ideia dominante entre os mais importantes líderes do Vale do Silício, como Peter Thiel em “Competition is for Losers”, de que a concentração econômica (e não a concorrência) é a base da eficiência. As plataformas digitais estão na raiz da maior concentração de riqueza e de poder político da história econômica moderna. Elas adquiriram (por oferecerem um produto “gratuito” e, portanto, supostamente benéfico aos consumidores) a capacidade de moldar não apenas o progresso técnico, mas a própria sociabilidade do mundo contemporâneo, por meio de milhares de engenheiros voltados explicitamente a aumentar o tempo de permanência das pessoas nas telas, transformando seu cotidiano em fonte de informação para aprofundar sua dependência com relação aos dispositivos digitais em que estão imersas.

Mesmo sem atingir o grau a que chegaram os gigantes digitais contemporâneos, o sistema agroalimentar é marcado por uma concentração que dá a seus protagonistas um poder extraordinário. E quem são estes protagonistas? Não são os fazendeiros, nem mesmo os grandes fazendeiros. O sistema agroalimentar, sua base tecnológica e sua infraestrutura de comercialização têm uma organização industrial marcada por uma concentração de natureza oligopolista. Transgenia, agrotóxicos, genética animal, fertilizantes sintéticos, máquinas, produtos farmacêuticos, comercialização, processamento, frigoríficos, varejo e distribuição, cada um desses segmentos é marcado por impressionante concentração onde se formam, segundo os critérios elementares da microeconomia contemporânea, verdadeiros oligopólios.

Está completando 70 anos a publicação pelo economista italiano Paolo Sylos Labini do livro que se tornou referência incontornável no estudo dos impactos da concentração industrial sobre a dinâmica da economia, “Oligopólio e Progresso Técnico”. Oligopólios, ensina Sylos Labini, existem quando quatro empresas controlam ao menos 40% do mercado de um determinado setor. Este controle se repercute não apenas na capacidade de impor preços, mas também de determinar rotas tecnológicas e o próprio processo de inovação.

É fundamental o trabalho desenvolvido há cinquenta anos pelo ETC Group, referência hoje incontornável no estudo da estrutura produtiva do sistema agroalimentar. Num relatório publicado em 2022 eles não hesitam em caracterizar como “Barões Alimentares” (Food Barons) as corporações que controlam a oferta de máquinas, insumos, a comercialização e agora, cada vez mais, o financiamento e as próprias informações das quais depende a produção agropecuária. A fusão entre o que em inglês hoje é batizado como Big Ag, Big Tech e Big Finance está na raiz não só de concentração econômica e extração de valor, mas molda os atuais padrões de progresso tecnológico e inibe o fortalecimento das alternativas capazes de enfrentar os desafios atuais do sistema agroalimentar.

Os números da concentração são impressionantes. Segundo relatório de 2025 do ETC Group, três empresas controlam a genética global de aves, a carne mais consumida no mundo. Quase dois terços das vendas globais de agrotóxicos beneficiam quatro empresas, das quais uma sozinha domina 25% e outra 15%. Nas sementes as quatro maiores têm 56% das vendas. Desde os anos 1990 sementes e agrotóxicos caminham de mãos dadas e entre as quatro empresas do setor de sementes que controlam 56% das vendas estão também as duas maiores da área de agrotóxicos. Cinco das sete maiores produtoras de herbicidas estão também entre as maiores produtoras de sementes e controlam 75% da pesquisa global sobre sementes e herbicidas.

Como mostra o livro de Jennifer Clapp, professora da Universidade de Waterloo, no Canadá, “Titans Of Industrial Agriculture” (MIT Press, 2025), a América Latina é o maior mercado global para os agroquímicos. Este grau de concentração nos atinge não só pela impressionante dependência de insumos importados que marca a agropecuária brasileira, mas, sobretudo, pelos bloqueios que estes gigantes corporativos opõem a inovações que coloquem em questão seus modelos de negócios.

É claro que a agropecuária também se apropria de parte do valor gerado por estes modelos. Mas, no Brasil, como mostram os estudos recentes do Instituto Escolhas e do Instituto Folio (shor turl.at/mzkJp), estes ganhos vêm sendo cada vez mais pressionados pela necessidade de ampliar o uso de agroquímicos, pelo empobrecimento do solo a que as práticas dominantes estão ligadas e pelos impactos da crise climática.

Daí decorre a importância do crescimento vertiginoso de um conjunto de tecnologias conhecidas como bioinsumos e das quais o Brasil ocupa hoje a vanguarda global, graças ao trabalho desenvolvido pela Embrapa, pelo Instituto Biológico de São Paulo e por um expressivo conjunto de start-ups que procuram alternativas à adição química que marca a agropecuária. É fundamental que o registro da propriedade intelectual destes avanços científicos evite seu controle anti-concorrencial pelos gigantes corporativos.

É para discutir os caminhos pelos quais as iniciativas descentralizadas voltadas à oferta de bioinsumos podem fazer avançar a transição em direção a um sistema agroalimentar saudável e sustentável que o INCT “Superar a Monotonia do Sistema Agroalimentar” e o Instituto Folio organizam o seminário “A regulação dos bioinsunos: um caminho para destravar a transição do sistema alimentar”, que terá lugar no IEA/USP, no dia 22 de abril a partir de 9 horas.

*Ricardo Abramovay é coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, Professor Sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP e coorganizador de “Caminhos para a transição do sistema agroalimentar. Desafios para o Brasil” (Senac). Luís Barbieri, executivo de grãos com 20 anos de experiência no setor, é sócio-fundador da Raiar Orgânicos e idealizador do Instituto Folio.

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