‘Não há dignidade de nada’: Em Cuba, bloqueio dos EUA e apagões pioram vida de mulheres

Na ilha, mulheres passam fome e ficam anos sem acesso a absorventes; embargos aumentaram com governo Trump

Por Augusta Lunardi, Julia Sena | Edição: Bruno Fonseca, Agência Pública

Conheci Lala Valdés, 46 anos, e suas duas filhas, Naomi e Danischa Valdés, de 24 e 14, enquanto buscava ouvir mulheres sobre dignidade menstrual nas ruas de Havana, capital de Cuba, neste final de março. Quando mencionei o termo, Valdés franziu a testa. Nunca tinha ouvido essa expressão, nem parado para pensar que ela pudesse existir. Respondeu de imediato, com a firmeza de quem aprendeu a nomear a própria realidade: “Aqui não há dignidade de nada. De comida, de luz, de moradia. Não há dignidade de vida. Como vai ter dignidade menstrual?”

Aos poucos, fui entendendo que a falta de absorventes era apenas uma parte – e talvez nem a mais urgente – dos problemas enfrentados por Valdés e sua família. Ela vive no Dos Salidas, um dos muitos cortiços de Habana Vieja, ou Havana Velha. No bairro histórico da capital cubana, casarões coloniais restaurados e restaurantes voltados ao turismo convivem, lado a lado, com prédios em ruínas, moradias precárias e pobreza persistente.

O Dos Salidas é um exemplo do que muitos cubanos chamam de “ciudadelas” ou “solares” – formas de habitação coletiva marcadas pela superlotação e pela precariedade. Ali, segundo moradores, vivem centenas de famílias espremidas em pequenos cômodos, muitas vezes sem ventilação adequada, com infraestrutura deteriorada e acesso precário e escasso a serviços básicos. Por fora, o Dos Salidas parece só mais um edifício cubano de Havana Velha que carece de restauração. Por dentro, é outra história.

Nesse pedaço da cidade, os apagões são mais frequentes que na avenida logo ao lado, de frente para o mar. Nas áreas mais turísticas, a energia costuma falhar menos, e hotéis e restaurantes muitas vezes contam com geradores próprios. Dentro dos solares, porém, a falta de eletricidade se soma à escassez de água, alimentos, medicamentos e itens de higiene. É nesse contexto que falar de dignidade menstrual deixa de ser uma discussão isolada sobre absorventes e passa a revelar algo maior: a forma como a crise atinge o corpo das mulheres a partir daquilo que lhes falta todos os dias.

A escassez, que já vinha se agravando na ilha desde a pandemia, piorou dramaticamente com o novo bloqueio imposto pelos Estados Unidos em janeiro deste ano, sob o comando de Donald Trump. A medida passou a dificultar ainda mais a chegada de combustível, alimentos e outros tipos de abastecimento à ilha socialista. Há três meses, os cubanos deixaram de receber até mesmo os poucos alimentos básicos que ainda eram distribuídos pelo governo.

Por que isso importa?

  • Segundo dados do Observatório Cubano de Direitos Humanos (OCDH), 89% das famílias em Cuba vivem em pobreza extrema.
  • O presidente Trump ameaçou intervir na ilha, dizendo ‘Cuba é a próxima’, após invadir a Venezuela e iniciar a guerra no Irã.

‘Não sei qual foi a última vez que vi um pacote de absorvente. Deve fazer uns seis anos’

Valdés vive em um apartamento de, no máximo, 20 metros quadrados, onde divide o espaço com três filhos, o cunhado e um neto. Há apenas um quarto, construído em um mezanino improvisado. É ali onde as crianças dormem, no chão ou sobre espumas finas. Não há camas, mesas ou outros móveis. Tampouco há um banheiro. Os adultos dormem no chão da cozinha.

Quando falta luz, o calor se torna difícil de suportar. Nesses dias, a família inteira passa a noite no chão da minúscula sala de 4 metros quadrados, o único ponto da casa por onde ainda circula algum ar. Os apagões são diários — três, às vezes quatro vezes por dia — e, com eles, também falha o abastecimento de água.

Até dezembro do ano passado, ela trabalhava em uma feira de roupas e ganhava cerca de 3,5 mil mil pesos cubanos por mês (R$ 38). Com o novo bloqueio norte-americano, o aumento da inflação na ilha e a desvalorização do peso cubano em relação ao dólar, ela e outras colegas foram demitidas.

Hoje, a única renda da família é a de Naomi, 24 anos, sua filha mais velha, que trabalha como auxiliar de limpeza em um hospital. Ela recebe 2,8 mil mil pesos cubanos por mês (R$ 30) – uma quantia que não basta sequer para comprar comida para uma semana. Em Cuba, 1 quilo de arroz está custando 700 pesos cubanos (R$ 7,50), uma dúzia de ovos, 1,2 mil mil pesos (R$ 13), e um litro de óleo, 1,5 mil mil pesos (cerca de R$ 16). Um pacote de absorventes custa em torno de 500 pesos (R$ 6).

“Faz dois dias que não comemos. Nossa última refeição foi anteontem: um pacote de macarrão com corante para toda a família”, disse Valdés. A filha Naomi completou: “Se eu, como mãe, mal consigo comprar comida pro meu filho, como vou comprar absorvente? Tenho que escolher: ou o absorvente, ou a comida.”

Eu havia trazido do Brasil alguns pacotes de absorvente, porque já tinha sido alertada sobre a escassez de medicamentos, alimentos e produtos de higiene no país. Pretendia entregá-los às mulheres ao final da entrevista, como um gesto de agradecimento por terem aberto suas portas e aceitado contar suas histórias. Mas, desta vez, decidi entregar os pacotes no início da conversa – um para cada uma delas.

“Não sei qual foi a última vez que vi um pacote de absorvente. Deve fazer uns seis anos. Estou tocando nele agora e nem consigo acreditar. Parece uma miragem. Vou mandar emoldurar, porque isso aqui é uma raridade”, comentou Valdés, num tom tragicômico.

Segundo o relato dela e de outras mulheres cubanas com quem conversei, o governo distribuía mensalmente um ou dois pacotes de absorventes por mulher até 2016 – ano da morte de Fidel Castro. Depois disso, a entrega passou a ocorrer de forma cada vez mais esporádica, até cessar completamente.

“Quando o governo começou a reduzir a distribuição de absorventes, anos atrás, me lembro de usar o mesmo por mais de 24 horas, para economizar”, contou Naomi. Na falta de absorventes, ela consegue alguns pacotes de algodão no hospital onde trabalha. A filha e a mãe pegam um pano velho e o enrolam em volta do algodão.

“Todo mês, quando desce a minha menstruação, tenho que rasgar um pedaço de lençol – como se tivéssemos muitos – e usar como absorvente. Tento ferver o pano e reutilizá-lo até onde consigo. Sei que não é higiênico, mas é a única opção para nós, mulheres, que não podemos nos dar ao luxo de gastar 500 pesos em um pacote de absorventes”, explicou a filha mais velha.

Naomi deu à luz a uma menina há um mês, mas o bebê teve complicações pulmonares e morreu dois dias após o nascimento. “Tive sangramentos muito intensos depois do parto, e tudo o que me deram no hospital foi um pouco de algodão para conter.” Danischa, a filha mais nova, ainda não chegou à puberdade, mas já antecipa a preocupação: “Na minha escola, as meninas que têm dinheiro compram absorventes. As que não têm, usam um pedaço de pano.”

Bloqueio norte americano e vácuo de Fidel agravam situação na ilha

Desde a década de 1960, Cuba vive sob um bloqueio econômico e comercial imposto pelos Estados Unidos, uma política que remonta à Revolução Cubana, liderada por Fidel Castro e concluída em 1959.

Após assumir o poder, o novo governo passou a nacionalizar empresas pertencentes a cidadãos e companhias americanas, sem compensação considerada adequada por Washington. Ao mesmo tempo, a ilha se aproximava da União Soviética, principal rival dos EUA durante a Guerra Fria, um movimento que aprofundou a ruptura entre os dois países.

Esse conjunto de fatores levou à imposição do embargo pelo governo dos EUA, uma política que seria ampliada e endurecida ao longo das décadas. Na prática, o bloqueio não apenas impede que empresas dos Estados Unidos negociem livremente com Cuba, como também cria barreiras para que companhias de outros países façam negócios com a ilha, especialmente quando mantêm vínculos com o mercado americano.

Desde a gestão de Donald Trump, quase 300 novas medidas foram adotadas para endurecer o bloqueio imposto a Cuba. A captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, por forças dos Estados Unidos em janeiro de 2026 agravou a crise energética na ilha, já que o país perdeu um de seus principais aliados no fornecimento de petróleo.

Aline Pandolfi, professora de Serviço Social e do Programa de Pós-Graduação em Política Social da UFES, explica que essa combinação de fatores ajuda a entender por que a situação em Cuba piorou nos últimos meses. “Ao que parece, a aposta de Trump é apertar o estrangulamento econômico para intensificar o mal-estar social e provocar um possível desmoronamento do regime”, afirma a pesquisadora.

O que a família Valdés relata, ecoa um sentimento repetido com frequência em Cuba: tudo piorou após a morte de Fidel Castro. Nos anos seguintes, a ilha sofreu um duro golpe econômico com a pandemia. Foi nesse período que a escassez se aprofundou e os turistas – uma das principais fontes de renda do país – desapareceram. Desde então, o abastecimento de produtos básicos da ilha socialista nunca mais foi o mesmo.

Segundo Pandolfi, uma combinação de fatores tem comprometido a capacidade do país de importar insumos. “No pós-pandemia, houve queda na produção agrícola local; e, com o aumento das medidas de bloqueio e a retração drástica do turismo, há também redução na entrada de divisas – como dólar e euro -, o que afeta diretamente a capacidade do país de importar os bens de que necessita”, analisa.

Para a pesquisadora, a morte de Fidel representou não apenas a perda de um líder político, mas de uma referência histórica com forte legitimidade junto à população – um fator que pesa especialmente em momentos de crise. Sem essa liderança, a capacidade do governo de mobilizar apoio e confiança tende a ser mais limitada, o que se torna ainda mais sensível diante do agravamento das condições de vida. “Miguel Díaz-Canel é o atual presidente do país, mas não dispõe das qualidades e da legitimidade histórica que dispunha Fidel Castro”, defende Aline.

Além da crise econômica, Cuba vem enfrentando, nos últimos anos, uma combinação de desastres naturais e o agravamento da crise energética – consequência da falta de investimentos e da deterioração da infraestrutura do sistema de produção de energia do país.

Em outubro de 2025, o furacão Melissa atingiu a costa leste da ilha e provocou a evacuação de mais de 735 mil pessoas. Ao longo de 2025, Cuba registrou pelo menos cinco apagões nacionais. Nos três primeiros meses de 2026, o país já enfrentou outros dois grandes colapsos no sistema elétrico e segue convivendo com interrupções frequentes no fornecimento de energia, sobretudo em regiões menos turísticas, onde os cortes podem ultrapassar 20 horas por dia.

Em fevereiro, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas alertou para o risco de um “colapso humanitário” em Cuba, caso o país não consiga importar petróleo suficiente para atender às suas necessidades básicas. Recentemente, a ONU propôs um plano emergencial de ajuda ao país, que inclui o envio de combustível para conter a crise energética. A iniciativa, no entanto, está em fase de negociação com os EUA e ainda não foi implementada.

Ajuda humanitária: ‘ninguém compra absorvente lá’

Em março deste ano, uma comitiva de brasileiros que integra a coalizão Nuestra América viajou a Cuba levando 20 toneladas de alimentos e medicamentos como forma de ajuda humanitária, além de painéis solares e bicicletas à ilha. A ação reuniu mais de 600 pessoas de 30 países.

A vereadora de Belo Horizonte Iza Lourença (PSOL), que aborda com frequência o tema da dignidade menstrual no Brasil, levou 46 quilos de doações de absorventes e medicamentos para mulheres cubanas. Segundo ela, os itens eram de dois tipos: absorventes descartáveis, comuns no Brasil, e também modelos ecológicos e reutilizáveis, feitos de pano.

Foi durante a distribuição que a vereadora descobriu que a maioria das mulheres cubanas quase nunca utiliza os descartáveis – não apenas pela escassez, mas também pelo custo elevado quando esses produtos chegam ao país. “Ninguém compra absorvente lá. Por mais que eu tenha levado uma mala, quando acabar, acabou”, afirmou Lourença.

A vereadora explicou que, mesmo sendo a única alternativa possível para as mulheres da ilha, o absorvente de pano ainda é utilizado em condições precárias. “Uma das mulheres para quem entreguei o absorvente ecológico me disse que está usando o mesmo há mais de dez anos. Isso demonstra pra gente como a falta de dignidade menstrual é um problema mundial e de muito tempo.”

Além do comboio internacional promovido por movimentos sociais e ativistas de todo o mundo, países da América Latina têm prestado solidariedade ao vizinho caribenho. O Chile doará um milhão de dólares a Cuba por meio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), enquanto o governo mexicano já enviou mais de 3 mil toneladas de alimentos e itens de higiene pessoal.

No Brasil, o governo anunciou o envio de mais de 20 mil toneladas de alimentos e remédios, com apoio logístico do WFP, Programa Mundial de Alimentos da ONU, mas não informou a data prevista para a chegada dos recursos.

‘‘Faz meses que não sei o que é ser mulher’’

Além da falta de dignidade menstrual, Valdés e Naomi falam sobre algo mais difícil de nomear: a perda do que entendem por “ser mulher”. “Faz anos que não sei o que é me arrumar, passar um esmalte, um batom, arrumar meu cabelo. Faz meses que lavamos o cabelo com o mesmo sabão que usamos para lavar roupa”, diz Naomi.

A filha mais velha carrega a mesma tatuagem no pescoço que a mãe: a palavra Hope, esperança, em inglês. Pergunto por que escolheram essa palavra. Naomi responde sem hesitar: “Porque é só o que nos resta.”

Ao final da entrevista, peço autorização para fotografá-las. Lembro, de imediato, da cena em Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, em que um fotógrafo pede, sem nenhum tato, à família Paiva que não sorria para o retrato – um gesto que transforma a dor em encenação. Tento não repetir esse erro. Digo que podem posar como quiserem: sorrindo ou sérias. Elas permanecem sérias.

Depois de alguns cliques, arrisco: digo que podem sorrir, se quiserem, pois havia prometido enviar as fotos depois pelo WhatsApp. Valdés responde, sem alterar a expressão: “Neste momento, não há motivos para sorrir.”

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