Mãesautistas: portais vivos entre o autismo e as exigências do mundo. Por Ângelo Oliveira

No Dia da Conscientização do Autismo, é comum que o debate se concentre — com razão — nas pessoas autistas: seus direitos, suas formas de existência, suas demandas por reconhecimento. Mas há uma presença constante, muitas vezes silenciada, que sustenta, no cotidiano, a possibilidade concreta desse reconhecimento: aquelas que aqui chamo de mãesautistas.

Não se trata de uma categoria clínica, mas de uma experiência existencial. São mulheres que vivem o autismo de dentro, atravessadas por ele em suas rotinas, escolhas, afetos e renúncias. Em muitos casos, enfrentam o abandono — não raro, inclusive, por parte dos próprios companheiros após o diagnóstico dos filhos —, além do isolamento social e da sobrecarga de um cuidado que não é apenas prático, mas também simbólico.

Esse abandono não pode ser lido como exceção ou falha individual. Ele revela uma lógica mais profunda de responsabilização feminina pelo cuidado: quando a diferença emerge e exige reorganização da vida, é sobre as mulheres que recai, quase automaticamente, a tarefa de sustentar o que antes era compartilhado. Aos homens, com frequência, ainda é socialmente permitido retirar-se — física ou afetivamente — sem que isso produza o mesmo grau de condenação moral ou exigência de permanência. Nesse cenário, muitas dessas mulheres passam a sustentar sozinhas não apenas o cotidiano dos filhos, mas também o trabalho invisível de mediação com o mundo.

A mãeautista é um portal. É passagem, mediação, presença que sustenta a comunicação onde, muitas vezes, a sociedade enxerga apenas ruído ou inadequação. É ela quem lê gestos, antecipa crises, constrói estratégias, tensiona instituições e, não raramente, educa o próprio entorno — escolas, profissionais, familiares — sobre aquilo que deveria ser responsabilidade coletiva.

No entanto, essa função de mediação tem um custo elevado. Há amor, sem dúvida, mas há também desgaste, invisibilidade e, por vezes, uma dissolução progressiva da própria individualidade. Quando a vida se organiza integralmente em torno da função de sustentar o outro, o risco não é apenas o cansaço — é o apagamento de si. E isso não pode ser romantizado como destino natural do cuidado.

Ser ponte entre universos exige uma flexibilidade imensa, uma capacidade contínua de deslocamento e reinvenção. Exige habitar o “entre” — esse espaço instável onde nenhuma das duas margens oferece pleno pertencimento. Muitas dessas mulheres já não são reconhecidas integralmente nem pelo mundo dito “típico”, nem encontram apoio suficiente nas estruturas que deveriam acolhê-las. Permanecem em trânsito, sustentando uma travessia que raramente é compartilhada.

É justamente nesse entre-lugar que o autismo se revela em sua dimensão mais concreta: não como conceito abstrato ou categoria diagnóstica isolada, mas como modo de existência que reconfigura relações, tempos, linguagens e formas de presença no mundo. As mãesautistas, ao viverem essa experiência, tornam-se também testemunhas privilegiadas das limitações de uma sociedade que ainda insiste em enquadrar a diferença como desvio.

Por isso, falar de autismo implica ir além da inclusão formal ou do acesso a serviços. Implica reconhecer que há múltiplas formas legítimas de perceber, sentir e interagir com o mundo — e que nenhuma delas deveria ser hierarquizada a partir de um padrão único de normalidade. O problema não está na diferença em si, mas nos dispositivos sociais que a transformam em inadequação.

As experiências dessas mães evidenciam algo maior: vivemos em uma estrutura social que não apenas organiza a vida econômica, mas também produz modos de ser. Trata-se de uma lógica que valoriza a eficiência, a produtividade contínua, a previsibilidade dos comportamentos — em suma, a adaptação a um modelo funcional ao lucro. Essa engrenagem não tolera bem aquilo que escapa, que desacelera, que exige outros ritmos ou outras formas de relação.

O resultado é a produção de subjetividades padronizadas, mecânicas, nas quais a singularidade aparece como obstáculo e não como potência. Tudo aquilo que resiste a essa lógica — como muitas experiências autistas — é frequentemente deslocado para a margem, seja pela exclusão direta, seja pela exigência constante de adaptação.

Nesse cenário, as mãesautistas ocupam uma posição paradoxal. Ao mesmo tempo em que sustentam, no cotidiano, a possibilidade de inserção de seus filhos nesse mundo, também vivenciam, de forma aguda, os limites e as violências dessa mesma estrutura. São elas que absorvem o impacto de instituições despreparadas, de políticas insuficientes e de uma cultura que ainda delega ao âmbito privado — e, mais especificamente, ao corpo feminino — aquilo que deveria ser responsabilidade coletiva.

Reconhecer o autismo como modo de existência, portanto, não é apenas uma mudança de discurso — é uma exigência de transformação social mais profunda. Significa questionar os critérios que definem quem pertence, quem produz, quem vale. Significa deslocar o eixo da adaptação: não mais exigir que o sujeito se molde ao mundo, mas que o mundo se torne capaz de acolher a diversidade de modos de ser.

Enquanto isso não acontece, a travessia continua sendo sustentada, em grande medida, por essas mulheres. Invisíveis para muitos, essenciais para tantos. Portais vivos entre mundos que ainda não aprenderam a coexistir sem hierarquias.

A pergunta que permanece — e que este insisto em não deixar esquecer — é simples e incômoda: até quando essa travessia continuará sendo sustentada quase exclusivamente por quem nunca deveria estar sozinha nela?

*Ângelo Oliveira, Doutor em Educação, Professor do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Ceará – IFCE, na área de Currículo e Estudos Aplicados ao Ensino e Aprendizagem

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