Semana dos Povos Indígenas 2026: Território e Moradia – Onde moram os teus irmãos?

Confira o material especial da Semana dos Povos Indígenas 2026, cujo tema é “Território e Moradia: Onde moram os teus irmãos?”

Cimi

Seguindo o tema da Campanha da Fraternidade deste ano, “Fraternidade e Moradia”, e o lema, “Ele veio morar entre nós”, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) propõe, nesta Quaresma, algumas perguntas incômodas que, para além das análises políticas, exigem vigilância e respostas pastorais. Antes de tudo, apropriamo-nos da pergunta “Onde mora teus irmãos?” e a transformamos para “Onde moram nossos irmãos?”.

Afinal, os povos indígenas são nossos irmãos? Como e onde moram esses irmãos? Será que nós, batizados ou não, cidadãos brasileiros ou apenas amigos e visitantes deste país, temos alguma responsabilidade sobre a moradia e a territorialidade daqueles que foram os primeiros habitantes do território brasileiro? A responsabilidade é a liberdade e o dever dos adultos. Fraternidade é responsabilidade solidária. 

O território próprio e legalmente reconhecido de cada povo indígena é o pressuposto de sua memória histórica, de suas práticas culturais e de seu futuro como povo. Por essa razão, a Semana dos Povos Indígenas tem, entre seus objetivos, o de chamar a atenção para a territorialidade indígena, condição essencial para sua vida. Paralelamente, queremos reafirmar nossa responsabilidade e nossa fraternidade solidária com as comunidades indígenas. Viver concretamente essa responsabilidade não é tarefa fácil.

A frase de Tom Jobim, “o Brasil não é para principiantes”, aplica-se também à complexidade da causa indígena, de suas culturas e configurações históricas, bem como às diversas formas pelas quais hoje vivenciam sua territorialidade: sejam aldeados, com ou sem territórios demarcados; povos em contexto urbano; ou povos isolados, “livres”, praticamente sem contato com a sociedade envolvente.

Quase metade dos povos indígenas vive hoje em contextos urbanos, nas periferias das cidades, em zonas marginais ou bairros precariamente urbanizados. A cidade alcançou esses povos, assim como muitos indígenas migraram para os centros urbanos em busca de vida digna; impelidos pela ausência de assistência dos poderes públicos nas aldeias ou expulsos de seus lugares tradicionais por conflitos territoriais. Além de terem seus direitos cotidianamente negados, enfrentam preconceito, racismo institucional, invisibilidade e dificuldades de acesso a políticas públicas, residindo, com frequência, em áreas de risco. 

Segundo o censo do IBGE de 2022, a população indígena nos centros urbanos aumentou. Diversos grupos organizam-se em movimentos na luta por moradia, saúde, educação e para combater a invisibilidade, reafirmando que o espaço urbano também é lugar de presença indígena.

Os povos em retomada protagonizam atos de resistência ao reocupar áreas tradicionais que lhes foram tomadas. Vítimas de esbulho possessório, ocupam territórios ancestrais como resposta à morosidade do Estado brasileiro no reconhecimento e na demarcação de suas terras.

Nos territórios já demarcados, a conquista fundiária não significa o fim dos problemas. No cotidiano, os povos vivenciam a vida comunitária em sua complexidade e desafios, buscam a reciprocidade como prática, o respeito, a troca de serviços e a partilha de alimentos. Dinâmicas atravessadas pelas referências individualistas e acumuladoras da sociedade envolvente, mas que expressam a insistência na lógica de que o que se tem hoje pode ser partilhado com o próximo, e assim sucessivamente. Enfrentam, porém, a falta de fiscalização dos territórios e a necessidade permanente de garantia de políticas sociais específicas e diferenciadas.

Além disso, de acordo com dados do Cimi de 2025, há cerca de 119 povos isolados no Brasil. O Cimi utiliza a expressão “Povos Livres” para enfatizar a autodeterminação, a autonomia e a escolha desses grupos por não estabelecerem contato, mantendo-se distantes do mundo não indígena. Muitos desses povos vivem em terras não demarcadas, mas todos se encontram em áreas de conflitos territoriais. 

Não dispomos de saberes especiais nem de soluções privilegiadas para intervir nessa lógica destrutiva do não reconhecimento, da acumulação e da aceleração. Temos, no entanto, razões para lutar pela redistribuição dos bens e pelo reconhecimento do Outro; razões que emergem da responsabilidade fundamentada na coerência e na relevância de nossa fé, a qual nos ensina que toda estrutura humana pode ser transformada pela solidariedade e pela organização coletiva. Nossas lutas por justiça são humanas e inconclusivas; nossa fé e nossas esperanças não operam por magia. É possível que os muros caiam: os muros dos quartéis, dos palácios de Justiça, dos templos e dos cemitérios. O que permanece é o CAMINHO, que nos convida a caminhar e a lutar no meio dos injustos, dos injustiçados e dos justos.

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