As falácias de um deputado que desconhece a História de Mato Grosso do Sul

Por Paulo M. Esselin*

No dia 17 de fevereiro de 2026, o plenário da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul foi palco de uma discussão acerca da gestão do governador Eduardo Riedel e da relevância socioeconômica do agronegócio no estado. O debate evidenciou duas perspectivas aparentemente distintas sobre a distribuição de recursos e acerca da estrutura produtiva sul-mato-grossense: de um lado, o deputado Zé Teixeira, à época filiado ao PSDB; de outro, o deputado Zeca do PT.

Zé Teixeira iniciou a argumentação sustentando que o atual cenário econômico e político do estado é de estabilidade e crescimento. Em contrapartida, Zeca do PT interveio pontuando que a prosperidade mencionada se concentra, prioritariamente, no setor dos grandes latifundiários, isto é, na “fazenderada”. Segundo o parlamentar, este segmento tem sido beneficiado por um volume histórico de repasses e incentivos provenientes do governo federal sob a liderança do presidente Lula.

Em sua réplica,  o deputado Zé Teixeira defendeu o papel central dos grandes produtores rurais na composição do Produto Interno Bruto (PIB) nacional e estadual. O parlamentar argumentou que o agronegócio atua como um motor de externalidades positivas, haja vista que fomentaria a economia de serviços (exemplificada pelo setor de manutenção e logística) e impulsionaria a indústria de bens de capital, como a de máquinas e implementos agrícolas.

Além disso, ele destacou o setor ruralista como um expressivo gerador de empregos diretos e indiretos. No que tange à questão indígena, o deputado sustentou que a solvência e a assistência a essas comunidades dependem, indiretamente, da arrecadação tributária oriunda da produção rural, que atinge alíquotas de até 40%. Concluiu sua fala afirmando que, diante de uma suposta falência orçamentária da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), a ausência do dinamismo econômico proporcionado pelos produtores rurais agravaria a vulnerabilidade social dessas populações, ou seja, “o índio vai passar fome”, como afirmou.

A bem da verdade, o agronegócio não é o principal motor da economia brasileira e muito menos da economia sul-mato-grossense. Segundo recente matéria assinada pela jornalista Juliane Aguiar, do jornal Estado de Minas, em 2025 o setor representou 7,1% do PIB brasileiro, uma participação expressiva que não se pode negar (Aguiar, 2026). No entanto, o setor de serviços alcançou 69,5%. Este último setor é o mais importante da atual economia brasileira e o que menos recebe incentivos fiscais. Engloba atividades como comércio, transportes, serviços financeiros, educação, saúde e tecnologia. A indústria, por sua vez, com 23,4%, ocupa a segunda posição em relevância no PIB. Inclui as indústrias extrativas, a exemplo da mineração, de transformação, construção civil, e serviços industriais de utilidade pública (energia e água, por exemplo).

O setor de serviços é o maior empregador do Brasil, sendo responsável por aproximadamente 57% dos empregos formais, seguido pelo da indústria, com 25,5%, e por último pelo agronegócio, com 23,8%. No que tange aos serviços, a presença de universidades e faculdades públicas e privadas, apenas para citar um exemplo pontual, também incide sobre a movimentação da economia em diversos municípios: construção civil; prestação de serviços de educação, saúde e outros; locação de imóveis; movimentação do comércio local (hotéis, mercados, lojas, restaurantes).

Parece, todavia, que o deputado Zé Teixeira quis deixar na sua mensagem que o agronegócio carregaria a economia de Mato Grosso do Sul e do Brasil nas costas. Ledo engano. Esta postura não se sustenta diante dos números aqui apresentados e, portanto, não passa de mera simplificação do senso comum e uma leitura ideologizada da situação da economia do estado e do país. Na verdade, quem carrega o agronegócio nas costas é o povo brasileiro e não é de agora que isso acontece.

Basta rapidamente lembrar do Convênio de Taubaté, de 1906, que talvez seja o maior exemplo de benefício para a formação de uma elite ruralista no Brasil do século XX. Quando o preço do café caía no exterior, devido à superprodução, o governo central comprava o excedente nacional com dinheiro público para que os produtores não tivessem prejuízo: o lucro era privado e ficava apenas para uma minoria privilegiada, mas o risco era socializado com toda a população brasileira.

Nas décadas de 1960 e 1970, durante a ditadura militar (1964-1985), com a Modernização Conservadora da Agricultura e da Pecuária, abundaram os projetos especiais, e o governo federal criou o Crédito Agrícola Subsidiado. Foram despejados volumes massivos de recursos públicos com juros abaixo da inflação e isso foi feito para mecanizar as grandes fazendas, o que deu origem ao agronegócio moderno e aumentou a concentração de renda e de terras. Apenas para lembrar, durante o Programa de Desenvolvimento dos Cerrados – Polo Centro, que beneficiou produtores rurais de Mato Grosso do Sul, o governo central disponibilizou bilhões em crédito com juros subsidiados (Banco Central do Brasil, 1975). O Programa tinha prazo de 12 anos, com 6 de carência e juros anuais de 7%. Trata-se de taxas de juros reais negativas, com subsídios implícitos massivos, pois a inflação no período entre 1974 e 1978 era de aproximadamente 100%. Tudo isso foi pago com impostos de toda a sociedade brasileira. Atualmente, a renúncia fiscal do agronegócio no Brasil é estimada em cerca de R$ 158 bilhões por ano; em Mato Grosso do Sul o valor chega a R$ 11,950 bilhões. Dito de outra maneira, os governos federal e estadual adotam uma política de beneficiar o agronegócio para uma espécie de grilagem do orçamento público.

Além disso, a argumentação de Zé Teixeira sobre a dependência dos povos originários em relação aos produtores rurais é considerada, sob a minha perspectiva acadêmica e histórica, uma simplificação retórica de um processo complexo de perda de autonomia econômica das comunidades indígenas. Ele não reconhece que todo o território sul-mato-grossense já era habitado por distintos povos originários desde antes dos europeus colocarem os pés nesta parte da América do Sul.

O mencionado deputado desconhece, ainda, que historicamente, no início da invasão e colonização do antigo Mato Grosso, eram os europeus que dependiam dos indígenas para a sobrevivência nos territórios tradicionalmente ocupados. Quem deu comida a esse “bando de paus-rodados”, como se ouve costumeiramente por aí, que aqui chegou na condição de colonos e grileiros, foram os próprios indígenas e não o contrário. Foi assim que aconteceu em todo o espaço atualmente compreendido por Mato Grosso do Sul, desde fins do século XVII e meados do XVIII até, pelo menos, os anos de 1940 e 1950. Mais recentemente, na primeira metade do século XX, a mesma situação aconteceu e foi registrada em diversas partes do estado. No começo, os paus-rodados (mineiros, gaúchos, paulistas etc), todos eles pessoas brancas, eram pequenos e mantinham relações menos assimétricas com os indígenas. Bastou crescerem um pouco, graças ao apoio recebido dos governos federal e estadual, para retribuírem com violência ao apoio recebido dos povos indígenas, inclusive para sua própria subsistência.

Caso tivesse a curiosidade de pesquisar sobre o assunto, o deputado saberia que os representantes das frentes econômicas de ocupação e colonização buscavam proximidade com as aldeias para a obtenção de mão de obra indígena escravizada. Os próprios indígenas escravizados eram chamados no período colonial de “negros da terra”. Além disso, buscavam nas comunidades indígenas alimentos e guias para conhecer e explorar diversas regiões. O pecuarista Renato Alves Ribeiro, por exemplo, presta esclarecimento substancioso sobre o assunto. Segundo ele, na década de 40 do século XX, quando o antigo Mato Grosso ainda se encontrava bastante despovoado de população branca, “[…] oitenta por cento da peonada [que trabalhava na sua propriedade] era de índios, sendo os serviços de casa sempre exercidos por moças índias […] muitos fazendeiros aprendiam falar a sua língua”, para melhor comunicação com eles (Ribeiro, 1984).

Em troca da boa recepção, como de costume entre os paus-rodados, sobretudo após a Grande Guerra entre o Paraguai e a Tríplice Aliança (1864-1870), milhares de indígenas foram removidos de forma violenta das terras tradicionalmente ocupadas. A partir das décadas de 1910 e 1920, diversas populações foram confinadas em reservas diminutas, onde as atividades de caça, pesca, coleta e, sobretudo, agricultura foram drasticamente comprometidas. Outras tantas ficaram a viver em outras áreas a sua própria sorte.

Com isso houve o comprometimento da autonomia econômica das comunidades indígenas, e milhares de pessoas foram empurradas para o mercado de trabalho precário nas fazendas, onde a exploração da mão de obra se dava de forma análoga à escravidão por meio do conhecido sistema do barracão: os trabalhadores indígenas labutavam arduamente nas propriedades rurais e contraíam dívidas nos barracões das fazendas, não recebendo salário algum em espécie e mantendo um constante e impagável endividamento pela compra de gêneros alimentícios, tecidos, ferramentas etc. Cândido Mariano da Silva Rondon, posteriormente conhecido como Marechal Rondon, observou com seus próprios olhos esta situação em grande parte do antigo Mato Grosso e se empenhou na criação de áreas destinadas ao estabelecimento de algumas comunidades indígenas no estado.

Por outro lado, grande parte do agronegócio sul-mato-grossense se organiza atualmente tal como fazia no período colonial: quase que exclusivamente produz para atender ao mercado externo e ainda atribui a fome existente no Brasil apenas à falência do órgão federal (FUNAI). Ao fazer isso, os ruralistas paus-rodados retiram o foco da questão central: a demarcação de terras indígenas, que permitiria o retorno às práticas de subsistência tradicionais. Por fim, até agora o que esses senhores deram aos povos indígenas, em retribuição ao apoio recebido inicialmente, quando aqui chegaram, foi a violência armada e a usurpação ilícita de vastos territórios. Disso não há qualquer dúvida.

Por isso e muito mais é que Mato Grosso e Mato Grosso do Sul se tornaram republiquetas dos paus-rodados que vivem às custas do erário público e posam de salvadores da pátria. Conversa para boi dormir, como se diz no Centro-Oeste.

*Professor titular aposentado da UFMS

Referências

AGUIAR, Juliane. 2026. O que puxa o PIB do Brasil? Conheça os 3 setores mais fortes. Estado de Minas, Belo Horizonte, 5 mar. 2026. Disponível em: https://www.em.com.br/trends/2026/03/7368823-o-que-puxa-o-pib-do-brasil-conheca-os-3-setores-mais-fortes.html#google_vignette. Acesso em: 30 mar. 2026.

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Circular Nº 259, de 19 de junho de 1975. Regulamento do “PROGRAMA DE DESENVOLVIMENTO DOS CERRADOS” (POLOCENTRO), instituído pelo Decreto nº 75.320, de 29.01.75. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/pre/normativos/circ/1975/pdf/circ_0259_v1_O.pdf. Acesso em: 30 mar. 2026.

RIBEIRO, Renato A. 1984. Taboco 150 anos: Balaio de Recordações. Campo Grande: s/ed.

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