A IA não é nem inteligente, nem artificial. Intenções humanas, extrativismo e o poder por trás das máquinas
Por: Luana de Oliveira, em IHU
Dados comprovam que um único data center usa mais de 1,9 milhão de litros de água por dia, fato que contabiliza um número absurdo deste recurso natural no mês, sendo concentrados em lugares que, muitas vezes falta água para beber.
É nesse sentido que o termo “parasita digital”, usado pelo neurocientista, Miguel Nicolelis faz todo o sentido, pois não há como não se preocupar com o fato de que a IA, além de mecanizar o pensamento, está corroendo toda a estrutura que mantém nosso planeta – e todos os humanos e mais que humanos que o habitam – vivos.
De acordo com Nicolelis, “o parasita digital não tem nenhum compromisso com a sobrevivência da nossa espécie porque, uma vez que esteja instalado, que tenha acesso a quantidades infinitas de água, eletricidade e dados, o sistema não precisa mais de nós”.
O neurocientista participou da conferência intitulada “A inteligência não é artificial. Intenções humanas, extrativismo e o poder por trás das máquinas”. A seguir, publicamos a transmissão em formato entrevista, juntamente com as questões dirigidas ao conferencista pelos participantes do evento. Mediante as questões, Nicolelis destaca que precisamos nos conectarmos com nossa essência humana novamente para, enfim, nos desprendermos da dependência das máquinas antes que elas nos dominem por completo.
O evento faz parte do ciclo de estudos Ecologia Integral em tempos de colapso ambiental. Profecia, resistência e propostas pastorais, realizado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, em parceria com a Comissão para Ecologia Integral e Mineração da CNBB.
Miguel Nicolelis cursou medicina na Universidade de São Paulo (USP) e fez doutorado no Instituto de Ciências Biomédicas, também na USP. Mudou-se para os Estados Unidos em 1989, fez pós-doutorado na Universidade Hahnemann, na Filadélfia e em 1994 tornou-se professor assistente de neurobiologia da Universidade Duke, na Carolina do Norte. É professor de Neurobiologia e codiretor do Centro de Neuroengenharia da Duke University, Estados Unidos, consultor do Instituto do Cérebro da École Polytechnique Fédérale de Lausanne (EPFL), Suíça, e coordenador do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), Brasil.
Ele também chefia um grupo de 30 pesquisadores do Centro de Neuroengenharia da Universidade de Duke, que emprega ferramentas computacionais, robótica e métodos neurofisiológicos para registros múltiplos de neurônios com o intuito de desenvolver neuropróteses capazes de restaurar a mobilidade dos membros superiores de pacientes paralisados por trauma ou degeneração do sistema nervoso central.
Trouxe suas pesquisas também para o Hospital Sírio-Libanês de São Paulo e para o Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), no Brasil. Ganhou 32 prêmios internacionais, escreveu cinco livros e publicou mais de 150 artigos, dos quais sete na Science e na Nature. Apontado em 2004 pela revista Scientific American como um dos 20 maiores cientistas da atualidade.
Entre os prêmios mais importantes que recebeu, destacam-se: Cátedra Anne Deane de Neurociência, agraciado pela Duke University; Cátedra Santiago Ramón y Cajal, pela Universidade Nacional do México; Cátedra Santiago Grisolia, pela Universidade de Valência; Quatro vezes agraciado com o Prêmio Grass Lecture da Sociedade Americana de Neurociência; Cátedra Blaise Pascal, pela Escola Normal Superior de Paris; Professor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, Brasil; Conselho Científico Consultivo, Brain and Behavior Discovery Institute, Faculdade de Medicina de Georgia; Prêmio Plasticidade Neuronal da Fundação IPSEN.
Confira a entrevista.
IHU – Com relação ao estudo da neurociência sobre a inteligência artificial, como pensar a interface entre cérebro, tecnologia e máquina?
Miguel Nicolelis – É sempre um prazer conversar sobre um tema como esse que afeta não só a nossa espécie, mas o planeta todo também. A viabilidade, a sustentabilidade e a sobrevivência de todo o planeta. Tendo a dizer que as pessoas ficam um pouco surpresas quando pessoas com a formação que tenho, de neurocientista, falam dessa área chamada inteligência artificial, que a propósito eu chamo de Nina. Porque, na minha concepção e na maioria dos neurocientistas, a IA não é nem inteligente, nem artificial.
Sua história começa com um crime de estelionato intelectual nos anos 50, precisamente em 1956, quando um pesquisador chamado John McCarthy, depois de tentar por várias vezes emplacar um financiamento no Departamento de Defesa Americano para sua área de pesquisa de automação computacional, deu segmento ao trabalho de um outro colega do MIT, Norbert Wiener que criou a área da cibernética durante a Segunda Guerra Mundial.
John McCarthy percebeu que, para conseguir dinheiro, precisaria de um nome de impacto, um nome que tivesse uma repercussão instantânea nos generais das forças armadas americanas, e, depois de algumas tentativas, denominou de Inteligência Artificial e defendeu-a por toda vida, sem nunca conseguir explicar realmente o ponto de vista intelectual.
Em 1956, John conseguiu financiamento para realizar uma conferência na Universidade de Dartmouth que é considerada o ponto de partida. Ou seja, estamos atualmente vivendo, depois de 70 anos, o começo da oitava década do que chamo de um estelionato intelectual. É por isso que neurocientistas têm se interessado demais em comentar essa área, apesar de que nos Estados Unidos, para minha surpresa, o silêncio é muito maior do que as manifestações públicas da comunidade.
Na realidade, a razão pela qual os neurocientistas hoje se interessam é porque, dentro desse estelionato intelectual, há várias definições e palavras que são rotineiramente empregadas na nossa área de pesquisa ou inteligência e que foram literalmente roubadas, principalmente seus significados tecidos pela neurociência, para criar novas definições.
Curiosamente, se começarmos pela origem do nome que acabo de mencionar, acho que a primeira versão que John McCarthy deu para o nome da área era computações automáticas. Ninguém se interessou ou deu a maior bola para isso, pois a cibernética já era um nome muito melhor.
Quando o autor utiliza o termo ‘inteligência artificial’, 70 anos atrás, talvez nem ele próprio tivesse dimensão do caminho que esse conceito iria percorrer. Isso porque, ao longo das seis primeiras décadas, grande parte das pesquisas e do desenvolvimento nessa área foi financiada pelo governo dos Estados Unidos, especialmente pelo Departamento de Defesa e por agências de fomento científico.
Mas, na última década, tivemos o surgimento do que hoje chamamos com o termo coletivo de big techs que são as 7 grandes empresas que dominam essa área e começaram a fazer seus negócios com a criação da internet que também vem do Departamento de Defesa americano.
O surgimento da internet, a evolução tecnológica e sua monopolização nada inteligente
A internet é originária da Arpanet, que era um projeto nos anos 70 de interligar em comunicação instantânea todos os silos nucleares do governo americano, de tal maneira que, se o governo fosse destruído por um ataque da União Soviética. Isso não decapitaria a rede de silos nucleares, que poderiam retribuir o ataque ou criar toda a sorte de incontingências, independente da ocorrência ou não de um poder central em Washington.
Essa Arpanet saiu do Departamento de Defesa e foi para o mundo inicialmente como uma atividade não comercial, onde todos nós começamos a nos conectar. Bastava as pessoas pagarem um provedor para terem acesso a essa rede mundial. Mas, nos últimos anos, a internet começou a ser um novo campo de comercialização, de mercantilização do conhecimento humano.
Nos últimos quinze anos, as mesmas empresas que dominaram e surgiram nessa era digital passaram a monopolizar a internet. O curioso é que, se perguntarmos para qualquer uma dessas big techs, os CEOs, os cientistas, os líderes de cada uma dessas empresas, qual a definição de inteligência, não vão conseguir responder, porque ninguém tem uma definição aceita uniformemente.
O que sabemos como neurocientistas é que, primeiramente, a inteligência é uma palavra que define um conjunto de adaptações movidas pelo processo de seleção natural, para permitir que os organismos otimizassem a sua chance de sobrevivência num mundo em contínuo fluxo, onde um outro ser vivo ao seu lado pode te fazer de jantar.
Então, a inteligência não tem uma definição. Ela é um conjunto de atribuições cognitivas, atribuições da matéria orgânica que permitem ou permitiram que os organismos tivessem alguma chance de sobreviver às intempéries do mundo exterior e à competição pela sobrevivência entre si e toda matéria viva no planeta.
Essa definição, também envolve o fato de que, apesar de nos Estados Unidos, desde o século XIX, terem introduzido técnicas de tentativas de mensuração da inteligência, nenhuma delas é aceita uniforme e homogeneamente como uma medida de inteligência.
Ouvimos falar de quociente de inteligência, mas isso tudo são medidas extremamente especializadas de tipos de aptidões cognitivas intelectuais que não abrangem todo o domínio das nossas habilidades, sendo incluídas num pacote que nós chamamos por definição de inteligência. Ou seja, temos empresas que hoje dominam não só o mercado americano, mas são as maiores empresas do mundo, tentando vender um produto que ambas não sabem o que é e não conseguem definir.
Esse é o primeiro fato que acho importante deixar claro, pois na neurociência trabalhamos com o cérebro humano vivendo da tentativa de explicar seus mecanismos ou os processos que definem seu funcionamento, algo que não condiz com o sistema digital, essa é a segunda grande afirmação fundamental nesse debate.
Apesar dessas empresas e dos evangelistas da dita inteligência artificial tentarem vender a ideia que eles estão caminhando na direção de reproduzir e suplantar o cérebro humano, o drama é que, além de não saberem definir qual o produto que estão tentando criar, esses lobistas não têm a menor ideia de que o cérebro humano não funciona por lógica digital.
Desta forma, nosso sistema cerebral não pode ser reduzido a um algoritmo. Tanto o cérebro quanto a dita inteligência são fenômenos não computáveis, que não podem ser reduzidos a uma fórmula matemática ou um algoritmo, e como tal serem simulados numa Máquina de Turing que é o protótipo de todos os sistemas digitais que existem no mundo hoje.
Estamos completando 90 anos da descrição do Alan Turing, em 1936, da máquina de Turing. Foi um exercício teórico, de lógica e de matemática que o Turing propôs, sendo levado a termo após a Segunda Guerra Mundial, ou no fim da Segunda Guerra, pela invenção dos circuitos digitais pelo Claude Shannon e pela definição da arquitetura do computador moderno atual. O pesquisador, talvez um dos maiores matemáticos do século passado, John Von Neuman, criou a arquitetura se apropriando do conceito teórico de Turing e dos circuitos digitais criados pelo Claude Shannon. John Von Neuman, Alan Turing, e o próprio Claude Shannon foram o que podemos chamar de os três grandes promotores e idealizadores do mundo digital.
Os três cientistas, em diferentes momentos da vida e distintos trabalhos, claramente demonstraram que tinham uma noção precisa de que o cérebro humano e a inteligência orgânica não seriam simuladas pela máquina de Turing. O próprio Turing criou por definição o que é um fenômeno não computável como algo que não pode ser reduzido ou solucionado por um sistema digital.
A fala dele foi um exemplo prático que o autor definiu teoricamente e depois foi demonstrado e comprovado na prática, que é impossível computar quando um programa na máquina de Turing (um software) vai parar de funcionar. Não há como você prever quando esse programa deixará de funcionar por uma falha ou qualquer outra intercorrência.
Alan Turing definiu isso como algo não computável ao dizer que quando encontramos um fenômeno não computável, só existe uma forma de obter algum tipo de solução: através do chamado de um oráculo, definindo-o claramente como um ser humano. Ou seja, o próprio pai da era digital tinha claro na mente e entendia de seu ponto de vista matemático que o que chamamos de inteligência, ou qualquer outra propriedade cognitiva ou função fundamental do ser humano, não pode ser computada por um sistema digital.
Portanto, tenho quase certeza de que os overlords das big techs que vemos na TV e na internet, dizendo todos os dias que é inevitável o futuro que preveem através da dominação de uma inteligência superior à nossa, que vai surgir através da ampliação dos sistemas que eles estão construindo para ganhar dinheiro. Na realidade, não é um destino inevitável. Mesmo porque ambos não têm a menor ideia do que é inteligência e não sabem quando e nem mesmo se será possível atingirmos a capacidade de criar algo que seja mais inteligente do que nós.
Inclusive, existem matemáticos que sugerem que isso é impossível porque nada que funciona com grau de complexidade X, como é o cérebro humano, seria capaz de gerar algo com complexidade maior do que X. Existem esses debates na área de lógica e de matemática que sugerem que isso é impossível.
Como neurocientistas, junto ao meu grande amigo e colaborador, o matemático suíço-egípcio Ronald Cicurel, acreditamos que o limite da não computabilidade é intransponível. Ou seja, que nenhuma máquina criada pelo ser humano baseada na lógica digital (não importa quantos bilhões de chips estejam rodando num data center que ocupe o tamanho do planeta, ou por essa métrica, o tamanho do universo, simplesmente escalando, aumentando o número de chips e colocando eles para funcionar), isso não é o suficiente para gerar as propriedades emergentes que, no caso da vida orgânica, levaram ao aparecimento ou ao surgimento do que chamamos genericamente de inteligência.
Esse é o primeiro ponto. Então, espero que tenha deixado claro do porquê digo que a inteligência artificial não é inteligente de forma alguma. Nem mesmo artificial, porque para ela funcionar e os nossos aplicativos funcionarem, esses sistemas tiveram que ser treinados por seres humanos, milhões de seres humanos.
IHU – É possível falar em preservação dos chamados neurodireitos e da dignidade da pessoa humana nesse cenário? Essas tecnologias podem ser orientadas para beneficiar as pessoas e a sociedade ou elas tendem a aprofundar desigualdades já existentes?
Miguel Nicolelis – Os data centers são implementados ao custo quase escravocrata do trabalho de pessoas espalhadas pelo mundo, nas regiões e locais mais miseráveis do planeta, sendo contratadas por centavos de dólar por hora e sem nenhum tipo de contrato de trabalho, nenhuma segurança, estabilidade e garantia de que vão trabalhar continuamente. É um trabalho esporádico, semiescravocrata, que chamamos de marcação de dados, responsável por ajudar no treinamento desses sistemas: seja na definição do que é um ser humano, seja na definição do que é um animal ou um objeto, como também na remoção de conteúdos capturados por esse gigantesco ‘aspirador digital’. É assim que esses sistemas foram treinados.
Neste contexto, fica claro porque uma série de processos de direitos autorais estão sendo julgados na justiça americana e europeia contra as grandes empresas, as big techs de inteligência artificial. Basicamente, é o maior estelionato da produção humana jamais realizado na nossa história. Nossos e-mails, fotos, áudios, livros e toda a produção intelectual humana que foi colocada inocentemente na internet são usados gratuitamente, sem nenhum pagamento de direitos autorais, para treinar esses modelos gigantescos de IA. Como Shannon Vallor, filósofa e escritora, deixou muito claro em seu livro The AI Mirror (O espelho da IA), “não passam de espelhos”.
Gosto muito dessa metáfora, porque ela diz que todos os produtos conhecidos de IA não são nada mais do que espelhos da condição humana se apoderando de toda produção, ou de uma fração da produção humana no passado para tentar projetar um futuro.
É o que chamo de um futuro sem futuro, porque a projeção do futuro é baseada em tudo aquilo que já foi feito, e não como ocorre na vida de qualquer organismo, principalmente do ser humano, na geração de um novo futuro. Trata-se de um futuro que não aconteceu, feito de composições intelectuais ou tecnológicas que jamais existiram. Esta é a audácia e a maior propriedade da inteligência orgânica: reinventar-se continuamente no futuro.
O passado evidentemente é fundamental; ele serve de infraestrutura, de base da construção do futuro e nisso não pode ser esquecido. Não à toa temos que conhecer a história da humanidade, do planeta e da ecologia das outras espécies porque dependemos delas mais do que elas dependem de nós. A sobrevivência na Terra depende dessas outras espécies que habitam o nosso planeta. Ou seja, um futuro que é simplesmente baseado na reprodução da estatística do passado. Esta é a base de funcionamento da inteligência artificial nesse momento.
IHU – Trata-se de uma pirataria dos saberes humanos?
Miguel Nicolelis – Exatamente, é uma pirataria legalizada, onde a matéria-prima é obtida de graça, sendo transformada em um mapa estatístico dos padrões da produção humana e é devolvida para nós, para que paguemos por aquilo que produzimos.
Nesse contexto, Lewis Mumford compara o momento da idade digital. Esse estudo ocorreu antes da internet e da inteligência artificial. O pesquisador morreu no começo dos anos 90, mas foi extremamente influente, é um dos maiores historiadores da tecnologia e uma referência mundial na história da tecnologia.
Mumford se refere à era do computador, e a metáfora dele só ficou mais precisa com a era da mineração, das minas que começam a florescer um pouco antes da Idade Média e que são exploradas no limite, na dita Revolução Industrial, com a necessidade de o carvão ser minerado em altíssimas quantidades, não importando as condições subumanas as que os mineradores, inclusive mulheres e crianças abaixo de dez anos, eram submetidos na Inglaterra.
Hoje, falamos das grandes cidades inglesas: Manchester, Liverpool, Glasgow e ninguém sabe que essas cidades só existem porque foram as capitais da mineração inglesa. A mesma indústria inglesa onde crianças, a partir de 8 anos, eram obrigadas a trabalhar em minas, com horários de 12 a 16 horas por dia, 7 dias por semana.
Lewis Mumford, ao falar sobre a mineração digital, aponta que o discurso atual sobre tecnologia remete diretamente às minas da Revolução Industrial e ao linguajar usado nos séculos XVIII e XIX. As previsões daquela época, de que todos seríamos ricos, de que o trabalho se tornaria desnecessário, de que o progresso era inevitável e imparável, é o mesmo linguajar usado hoje.
São as mesmas frases, as mesmas palavras e a mesma submissão inevitável pregada pelos evangelistas do mundo digital, uma submissão completa do ser humano e de sua vida às máquinas. Hoje, estamos literalmente reproduzindo essa ideologia e ampliando a dependência humana. Até certo ponto da história das tecnologias, o ser humano tinha controle sobre as ferramentas que criava. A neurociência mostra que não apenas havia controle, mas que essas ferramentas eram incorporadas pelo cérebro: à medida que ganhávamos proficiência no uso delas, elas se tornavam uma extensão do corpo, da representação que o cérebro mantém de si mesmo. Assim, a picareta, o martelo, a pá, o automóvel ou o avião tornam-se prolongamentos do nosso corpo orgânico.
Eles são incorporados como parte de nós. Nós estamos vivendo talvez pela primeira vez na história, o momento em que essa incorporação está se revertendo. São as máquinas que estão incorporando o ser humano, tanto do ponto de vista intelectual, como do ponto de vista físico.
É por isso que gosto de chamar toda essa indústria envolvendo junto aos seus produtos, modos de operação, modelos de negócio e a sua exploração na vida orgânica, inclusive da vida humana, de parasitas digitais. O porquê desse termo? Primeiro, é importante dizer que todos os grandes historiadores da tecnologia são unânimes em dizer que, quando uma nova tecnologia é introduzida na sociedade humana, a própria nunca tem efeitos locais. Mas sim, tem efeitos ecológicos e genéricos, porque ela influência múltiplos aspectos da vida humana, seja do ponto de vista da sua atividade cotidiana do trabalho humano, seja também na sua relação com o mundo e em suas interferências com os mecanismos naturais ecológicos do mundo como um todo.
Isso acontece porque cada nova tecnologia introduzida provoca transformações que vão muito além de seu uso imediato. A máquina a vapor, por exemplo, não apenas alterou a forma como os teares ingleses eram operados, nem se limitou à semiautomatização da produção têxtil. Seu impacto foi muito mais amplo: a queima de carvão para gerar vapor cobriu cidades como Manchester, Liverpool e Glasgow com uma névoa densa, dando origem ao apelido de “cidades negras”. Nessas regiões, as paredes dos edifícios, as ruas e até a chuva eram escurecidas pela fuligem que dominava o ambiente.
Ou seja, o impacto de uma tecnologia não se restringe ao cotidiano imediato do ser humano; mas sim se expande e transforma o ambiente como um todo. No caso da máquina a vapor, esse efeito foi tão profundo que levou à exploração massiva do território, a ponto de grande parte da Inglaterra ser escavada para a extração de carvão.
Com isso, milhões de pessoas tiveram suas vidas encurtadas ou foram submetidas às condições de trabalho mais cruéis. E não foram apenas os seres humanos: a fauna, a flora, os rios e todo o ambiente natural também sofreram os impactos dessa nova tecnologia. Seu objetivo declarado era automatizar a produção de tecidos e ampliar a riqueza, dentro da lógica do mercantilismo inglês que, em grande medida, financiou a Revolução Industrial.
Segundo Yanis Varoufakis, quando o feudalismo morre, a terra é vendida para financiar o mercantilismo, o comércio internacional inglês. Nisso, as pessoas que viviam como camponeses e vassalos das grandes propriedades rurais inglesas, eram basicamente freelancers que precisam encontrar algum tipo de subsistência porque lhes foi impedido de cultivar a terra que em gerações por gerações cultivaram de seus ancestrais. Os habitantes, naquele momento se transformaram pessoas freelancers, que buscavam encontrar um novo emprego para subsistir.
E então surge o trabalho assalariado nas grandes indústrias inglesas, onde os salários eram mínimos, muitas vezes insuficientes para a própria sobrevivência, enquanto se extraiu o máximo de lucro da introdução de novas tecnologias na produção. Hoje, estamos vivendo uma versão desse processo multiplicada por várias ordens de magnitude.
IA: um parasita digital denominado Nina
É por isso que chamo essa indústria de “parasita digital”. Para rodar e treinar modelos de inteligência artificial, como os modelos da Nina, é necessário não apenas empregar milhões de pessoas com salários abaixo da linha de pobreza, mas também minerar o planeta em busca dos metais essenciais à produção dos chips de última geração, como você acabou de mencionar.
Nisso, já se começa a ampliar de forma dramática o impacto danoso, terrível e multidimensional da indústria de mineração ao redor do mundo, justamente pela necessidade desses minerais para a criação dos chamados “neurônios artificiais”, que não têm relação real com os neurônios biológicos, ou seja, até o nome foi roubado. Isso ocorre porque é necessário treinar esses chips por meio do que chamaram de redes neurais artificiais, utilizando, entre outros métodos de aprendizado de máquina, técnicas como o machine learning. Mas, não vale a pena aprofundar sobre, já que esses métodos não têm relação com a forma como os seres humanos aprendem nem com o funcionamento de seus neurônios.
De qualquer forma, para que esse sistema seja rodado, precisa-se extrair quantidades absurdas de minerais que não existem em grande quantidade nos Estados Unidos, por exemplo. Tais precisam ser importados principalmente da China e agora, mais recentemente, o Brasil quer entrar nessa equação, que é um novo tipo de imperialismo, um imperialismo digital que logo falarei sobre.
Mas o mais curioso é que, além desses minerais, para que tudo isso funcione, entram em cena as grandes fábricas da inteligência artificial conhecidas como data centers. Vale destacar que não se trata dos data centers tradicionais, utilizados anteriormente para sustentar a internet e hospedar servidores de páginas, mas de uma categoria distinta focada em IA. Trata-se de megaestruturas gigantescas que operam continuamente modelos de linguagem em larga escala, os chamados Large Language Models (LLMs), que é o último fetiche dessa área. Essas estruturas demandam dezenas ou até centenas de milhares de chips em funcionamento simultâneo e consomem não apenas uma quantidade colossal de eletricidade, suficiente para abastecer cidades de médio a grande porte, como também enormes volumes de água, geralmente destinados ao resfriamento dos sistemas, já que esses milhares de chips geram uma quantidade absurda de calor.
Com isso, começamos a entender o porquê eu chamo de parasita digital. Primeiro, o sistema precisa parasitar a terra, extraindo enormes quantidades de minerais preciosos. Segundo, é necessário se valer do consumo absurdo de recursos naturais que começam a ficar escassos. Para se ter uma ideia, se todos os 4 mil data centers planejados ou em funcionamento nos Estados Unidos funcionarem, o país precisaria inserir no seu grid elétrico, nos próximos dois ou três anos, uma California de consumo elétrico. O que não vai acontecer, não tem condição. Não há como criar fontes de energia nos Estados Unidos capazes de introduzir no grid elétrico do país o que é consumido hoje pelo Estado da California, que é a quarta maior economia do mundo, sendo a maior economia dentro dos Estados Unidos.
Então, o que esses parasitas precisam fazer é buscar água e energia em outros lugares do mundo e estão fazendo exatamente isso, indo para outros lugares e, curiosamente, um artigo do jornal inglês The Guardian mostrou que quase metade desses data centers estão sendo colocados em regiões onde falta água para a população. Locais que não existe água nem quantidade de produção elétrica suficiente para população que vive no lugar. Depois de parasitar o solo da terra, a água e eletricidade, esses parasitas se aproveitam através do estelionato, do roubo da produção intelectual humana.
Portanto, esses são os principais imputes desses parasitas, além de dinheiro público, pois para se instalarem nesses lugares demandam grandes incentivos fiscais, ou seja, não pagam impostos e demandam grandes territórios, grandes pedaços de terra para construir suas megalópoles digitais. E, o que eles nos devolvem? Poluição do solo, poluição dos rios e poluição atmosférica.
Algo que é ignorado no Brasil, não se vê nos debates, mas, que onde moro, na Carolina do Norte, se transformou numa questão vital é a poluição sonora. Quando se coloca um aparato desse para funcionar, parece que você está do lado de um aeroporto de grande porte. O barulho é contínuo, 24 horas por sete dias da semana, os data centers não param de funcionar. As pessoas começam a ter distúrbios de sono, distúrbios psiquiátricos e psicológicos por conta do barulho contínuo.
Além disso, esses centros atuam também na vida orgânica, por desorientarem animais, como aves e mamíferos, criando um distúrbio ecológico absurdo, alegando para os governos que pagam para virem para o seu país ou Estado, dando a desculpa de que vão entregar tecnologias de ponta, transferir tecnologias e gerar empregos. Ambas são mentiras cabulosas. Uma vez que o data center está construído, após a obra e a instalação dos equipamentos que vem do exterior, o Brasil não ganha nada com isso e não há nenhuma transferência de tecnologia porque os chips da Nvidia, que são produzidos em Taiwan, são comprados por essas empresas e postos nesses data centers sem que nenhum vá para o país na qual estão se instalando.
E, uma vez que o data center está instalado, o número de empregos gerados é ridículo. Um supermercado é capaz de gerar mais empregos do que um data center porque é tudo automatizado. Então, o parasitismo é completo, com uma grande diferença: o parasita orgânico, na sua sabedoria de tentar sobreviver, exige do hospedeiro até o limite, porque se o hospedeiro morrer, o parasita morre no mundo real e orgânico. Já, o parasita digital não tem nenhum compromisso com a sobrevivência da nossa espécie porque uma vez que esteja instalado, que tenha acesso a quantidades infinitas de água, eletricidade e dados, o sistema não precisa mais de nós. Não necessariamente dos 8 bilhões de seres humanos que existem atualmente no planeta e que daqui uma década serão dez bilhões, se o ritmo de crescimento demográfico continuar o mesmo.
Não é a atoa que ouvimos todos os dias muitos dos overlords das big techs defenderem a tese que seremos ou instintos brevemente ou nos transformaremos em um número muito menor de seres humanos, sendo simples servidores ou escravos das máquinas. Porque, esses indivíduos mostram todas as características de misantropia ou até mesmo sociopatia porque nenhum demonstra ter qualquer grau de empatia com o ser humano ou com a vida em termos gerais.
Para esse 1%, o que importa é sua própria sobrevivência à hecatombe que ambos provocam no planeta, porque entre outras coisas, os data centers aumentam drasticamente as emissões de material que levam ao aquecimento global e pioram a crise climática.
Haja vista, o relatório que saiu recentemente de um data center do Elon Musk, que gosto de chamar de mosca, porque as pessoas aqui no Brasil venderam esse indivíduo como sendo um “gênio” e na realidade de gênio não tem absolutamente nada, é só um aproveitador no nível máximo. Pois bem, esse homem quando viu que não ia ter energia no grid para alimentar seu data center, optou por colocar dezenas de motores de avião, usando gás para produzir a eletricidade que ele precisava no data center. E, com isso, gerou uma quantidade de emissão ao redor da cidade de Memphis, onde ele introduziu esse data center, que basicamente explodiu as condições deletérias ambientais para a população da cidade que começou a ser internada com problemas respiratórios, cardiovasculares e toda a gama de problemas de saúde, devido a catástrofe ambiental que esse data center produziu.
Então, o parasitismo digital, apesar de ter pulado o business plane do parasita orgânico, é extremamente mais deletério, porque não tem o menor compromisso em manter o hospedeiro vivo. E, o hospedeiro quero dizer o planeta, não só a nossa espécie.
O deus máquina exaltado pelo 1% mais rico
O mais incrível de tudo é que, depois de quase uma década dessa pregação de que nosso futuro é inevitável e que devemos nos render aos sistemas digitais e à chamada inteligência artificial, sem possibilidade de retorno se torna ineficaz. Pesquisas realizadas em diversas partes do mundo, especialmente nos Estados Unidos, indicam que a vasta maioria dos CEOs que implementaram processos de inteligência artificial em suas empresas afirma não ter obtido qualquer retorno sobre o investimento. Ou seja, a tentativa de substituir o ser humano na produção de todo tipo de produto, seja intelectual ou material, até agora tem se mostrado um completo fracasso econômico.
No ano passado, as sete maiores empresas de inteligência artificial, conjuntamente investiram em termos de capital, 350 bilhões de dólares para criar novos data centers, comprar chips e contratar pessoas. 350 bilhões investidos e o retorno estimado dessas empresas não chega a 10% desse valor.
Esse ano, estão prometendo dobrar a verba e passar dos 600 bilhões de investimento. Sendo que, até agora, essas empresas não conseguiram produzir nenhum tipo de atividade que dá retorno de investimento para essa psicopatia digital e a tentativa de cobrir o planeta com data centers, escravizando seres humano e usando tudo o que já foi produzido para gerar um futuro sem futuro.
O que é o reflexo disso sobre o trabalho humano? Evidentemente, o sonho de todos esses overlords é o que vem conosco desde a idades média, que é a tentativa de automatizar o trabalho humano. Trata-se de um sonho quase que obsessivo compulsivo, nascido a partir da revolução industrial, onde ficou claro que o maior custo da produção, ainda era o custo do trabalho humano, e continua sendo para esses membros do culto da máquina, da igreja da máquina. Gosto de chamar de religião da inteligência artificial porque o computador se transformou num deus e a IA criou toda uma teologia digital para fazer com que nós sejamos apenas servidores desse deus.
Um deus que diga-se de passagem, não tem a menor noção de valores éticos, morais, nem do que é ser humano, do que sentir dor, amor, ódio ou empatia. Um deus que não nos projeta nenhum tipo de filosofia de vida e nenhum tipo de condicionamento ético da espécie. Um deus completamente amorfo e defenestrado de qualquer qualidade humana.
Pois bem, esse deus (IA) busca apenas a diminuição do custo da produção com a eliminação se possível total do trabalho humano, para que o lucro seja infinito, ou próximo de ser infinito. Esse é o único credo do culto da máquina e o único evangelho do credo da máquina. Prega a eliminação do maior custo da produção, para que o capital investido tenha um maior retorno possível. Evidentemente, há o entendimento aprendido que isso é virtualmente impossível, todavia, apesar de não ser inteligente e não ser artificial, a inteligência artificial tem se demonstrado uma arma perigosíssima, tanto no que tange ao parasitismo como já falei, quanto ao extrativismo da produção física e intelectual do ser humano.
A inteligência artificial nada mais é do que a realização do sonho que vem desde a idade média até anterior a ela, da completa e total automação, dominação e controle da mente humana.
Essa para mim é a verdadeira fase, pois se for tirada toda a propaganda, todo o marketing e toda a imagem pintada pelos evangelistas da inteligência artificial, se movermos isso e olhar embaixo, o que veremos é que as ferramentas de inteligência artificial produzidas nessa última fase desses oitenta anos de fracasso – porque foram sete ou oito ciclos parecidos com o nosso agora – há falhas gigantescas, onde a inteligência artificial prometeu mundos e fundos, nunca cumpriu e colapsou.
Se tivéssemos tempo, poderia contar sobre a história desses ciclos, mas o que estamos vivendo hoje realmente é o ciclo mais estapafúrdio da área, em que o objetivo final não se tem dúvida. A inteligência artificial é uma ferramenta político-econômica de dominação, controle da mente humana e do comportamento humano. Essa tecnologia está sendo implementada por debaixo de nossos olhos, porque a conveniência do uso dessas ferramentas está sendo maior do que o nosso desejo de manter nossa sobrevivência no mundo.
Estamos renunciando a nossa atuação no mundo, seja do ponto de vista intelectual ou físico, pela conveniência provida pelas ferramentas de inteligência artificial, que nos permitem pedir comida no Ifood, chamar um Uber e realizar tarefas que antes nós fazíamos com as nossas próprias mãos. Ao invés de pintar um quadro, de desenhar um cartum, escrever com nossas mãos ou mesmo digitando os nossos livros, nós estamos delegando essas funções cognitivas para aplicativos de inteligência artificial.
O que está acontecendo é claro, vários estudos já começam a mostrar que a atividade cognitiva do ser humano está sendo comprometida por esse processo de delegação, para sistemas artificiais. Estamos diminuindo nossa capacidade de manter a atenção, de memória, raciocínio lógico, raciocínio matemático, capacidade de criatividade, de abstração, de imaginação, porque nós estamos informando ao nosso cérebro que ele não precisa despender energia. Estamos alocando o orçamento energético do cérebro que é altíssimo – por volta de 20% de toda a energia que nós produzimos e vai para o cérebro – temos comunicado ao nosso cérebro “olha, eu não preciso dessa energia ser alocada para certas áreas do cérebro que são importantes para a memória”. O indivíduo retém sua memória em um telefone celular e assim esquece o número de seus filhos, pais, esposos ou mulheres. Mal lembramos do próprio número do telefone porque colocamos tudo isso em uma memória digital, nisso, o cérebro foi informado que não precisa gastar energia mantendo as memórias naturais.
Isso não é um acidente, mas sim um projeto. Porque, quanto mais imbecis a inteligência artificial consegui produzir no futuro, maior a chance de a máquina automatizar, dominar e controlar o ser humano. Se a IA conseguir reduzir dramaticamente as aptidões cognitivas do homo sapiens que levaram milhões de anos para serem produzidas e sedimentas na nossa espécie, a própria terá uma missão muito mais fácil de controle e dominação do que teria 100 anos atrás ou até mesmo10 anos atrás.
Há inclusive, uma crise nas universidades que sofrem hoje com a possibilidade clara, a chance real de simplesmente desaparecerem. Por quê? Hoje você tem cientistas produzindo artigos com inteligência artificial que são mandados para revistas, onde os próprios revisores usam a inteligência artificial para revisar os artigos e devolvem para os editores que utilizam a inteligência artificial para decidir se o artigo é aceito ou não.
Ou seja, máquinas estão produzindo conhecimento que são revisados por outras máquinas para serem lidas por quem? Por máquinas que produzem resumos inacabados, imperfeitos e cheios de defeitos, que eventualmente serão lidos por outros cientistas ou alunos.
Alunos que, por sua vez, realizam suas provas utilizando inteligência artificial e as entregam a professores que, desesperados, também recorrem a sistemas de inteligência artificial para corrigi-las. Ou seja, máquinas lidando com máquinas do ambiente acadêmico, o que acaba contribuindo para a proposta de diversos “overlords” da inteligência artificial, em um cenário no qual as universidades se tornam supérfluas.
Curiosamente, no final do ano passado, pela primeira vez desde que o sistema foi popularizado, o conteúdo, que antes era majoritariamente produzido por seres humanos, passou a ser, em sua maior parte, gerado por bots ou inteligência artificial.
Ou seja, a ferramenta que foi computadorizada, vendida para nós como algo que possibilitaria uma conexão global de todos os seres humanos, uma verdadeira democracia orgânica, vai deixando de ser humana. O conteúdo humano nela vai desaparecer, sendo inundado pela torrente de produção artificial. Isso nos levou a bifurcação desse instante, onde primeiro, ninguém em sã consciência consegue dizer o que é verdade, se você não for testemunha ocular de um evento, nenhum filme, foto ou áudio pode ser comprovado com certeza como verdade.
Porque, até mesmo as ferramentas de inteligência artificial usadas para identificar se um conteúdo foi gerado por IA não funcionam adequadamente, pois falham em mais da metade das tentativas.
A verdade está sendo aniquilada, estamos vivendo um tsunami do pós verdade. E, com todas essas características, há a tentativa do fim do trabalho, da destruição ecológica do planeta e da destruição da democracia, alvo dos overlords das big techs que não acreditam em nenhum tipo de democracia popular.
Vivemos nesse instante, provavelmente, a maior bifurcação da história da humanidade. Vamos ter que decidir se queremos continuar sendo humanos, se desejamos continuar sendo parte de uma tribo humana e assim lutar para salvar o planeta da maior extinção de matéria orgânica de todos os tempos, que já está a caminho. Inclusive, alguns cientistas ambientais já dizem ser irreversível.
Cito meu grande herói humanista, o Lewis Mumford, quando perguntado se havia esperança para a espécie humana com o advento do computador, isso em 1961, na finalização do seu livro “Arte e tecnologia”, Mumford diz o seguinte “nós construímos a prisão, nós escolhemos os carcereiros, nós aprovamos as regras da prisão e auxiliamos na construção dos muros que as cercam”. Mas, diferentemente do que os evangelistas da era digital preconizam e alegam, tal qual as muralhas de Jericó, essas muralhas da prisão que construímos não são infinitas nem invencíveis. Pois, se, em algum momento, antes da capitulação completa, a espécie humana decidir continuar a ser humana, o ruído que ela produzirá será suficientemente forte, tal qual as trombetas de Jericó, para derrubar as muralhas que nós mesmos construímos. Cabe a nós decidir se vamos ficar na prisão ou derrubar suas muralhas.
IHU – O senhor chegou a apresentar alguma proposta no atual Plano Quinquenal da China, relacionada à interface entre tecnologia e o corpo humano, especificamente o cérebro? Em que consiste essa proposta? Do ponto de vista ético, esse tipo de intervenção no cérebro humano envolve riscos de manipulação ou existem garantias de preservação e segurança?
Miguel Nicolelis – Primeiramente, é importante esclarecer que não tive nada a ver com a decisão do governo chinês, essa foi uma decisão do próprio governo, dada a relevância dessa área de pesquisa que criei conjuntamente com meu grande amigo John Chapin, que já faleceu inclusive.
Essa decisão foi tomada pela China, e, eu não tinha menor conhecimento dela até ser anunciada, porque, foi reconhecida como uma área tecnológica de relevância maior ou igual a robótica e outras tecnologias como a inteligência artificial, nano computação, computação quântica, enfim. Mas, eu não tenho nada a ver com a decisão.
Na realidade, acredito que, essa decisão foi tomada pela aplicação médica clínica demonstrada, não apenas por nossa pesquisa, mas por um enorme número de laboratórios sobre a possibilidade de se tratar uma grande variedade de doenças neurológicas e psiquiátricas usando essa tecnologia terapêutica.
Na realidade, começamos com uma pesquisa básica, há 25 anos atrás, para estudar o cérebro e ver se tínhamos a chance de entender como os circuitos cerebrais funcionam, decidimos impulsionar a pesquisa básica dessa área. Nisso, logo que criamos em animais as primeiras conexões diretas entre o cérebro e robôs – braços e pernas robóticas – notamos que havia um potencial clínico gigantesco. Há dois anos, a revista The Lancet publicou o primeiro grande estudo epidemiológico mundial de todas as doenças, as 37 principais doenças neurológicas e demonstrou que, hoje, 3.4 bilhões de pessoas no mundo sofrem de uma dessas 37 doenças. Isso é 43% da humanidade.
Sem levar em conta, as doenças psiquiátricas, que você pode acrescentar provavelmente mais 1 bilhão. Então, estamos falando próximo de 4 bilhões e meio ou 5 bilhões de pessoas com algum distúrbio no sistema nervoso central. A Ásia, deteve 1.7 bilhões de pacientes, isso em 2021, logo no finalzinho, naquela parte mais final da pandemia. A China sozinha tem 450 e 480 milhões de pacientes, ou seja, quase mais de um terço da população provavelmente, ou quase um terço da população. E, não há forma de você tratar essas pessoas com os métodos tradicionais, construindo hospitais ou clínicas, não tem como.
Nesse sentido, o que nós demonstramos – primeiro no Brasil, na época da Copa do Mundo, e, depois numa parceria com um dos maiores hospitais de neurologia da China, em Pequim, o Hospital Xuanwu, na Capital Medical University – conseguimos em pacientes crônicos, com lesão medular, em um período de 2 a 20 anos, restaurar graus de recuperação neurológica e mobilidade nesses pacientes. Usamos um método não invasivo de conectar a atividade elétrica do cérebro, que continua funcionando e gerando programas motores, intenções de movimento que são devolvidos para o copo dessa pessoa através de uma veste robótica que inventamos chamada exoesqueleto. Usando essa veste, as pessoas que são paralisadas podem imaginar que querem andar e por estarem usando o exoesqueleto, a atividade cerebral delas é convertida para este robô que carrega essa pessoa que volta a andar. O que não sabíamos na época, demonstramos aqui no Brasil e agora reproduzimos na China, é que as pessoas quando começam a fazer isso rotineiramente, uma hora por dia, por exemplo, elas começam a recuperar a mobilidade dos próprios corpos. Reganham a sensibilidade tátil, recuperam funções da bexiga, enfim, há uma recuperação fisiológica. Nosso intuito sempre foi usar essa tecnologia para a recuperação clínica e médica dos pacientes.
Nos meus duzentos e poucos trabalhos científicos, todos eles são voltados para exploração de perguntas básicas de como o cérebro funciona, ou focados na criação de novas terapias, que agora não estão restritas a só pacientes medulares. A mesma tecnologia está sendo usada no tratamento de pessoas com derrame e Parkinson. Recentemente, recebemos uma proposta para tratar pacientes com quadros iniciais de Alzheimer. Enfim, esse tratamento está se ampliando como uma terapia. Agora, há também o outro lado, em que toda a tecnologia criada pelo ser humano pode ser usada para fins indevidos, não há dúvida alguma.
O meu professor de medicina, aqui na USP, ensinava a gente que em uma emergência, a ponta da caneta Bic poderia ser usada para fazer uma traqueostomia em alguém que estava morrendo com uma obstrução. Explicava também que, o tubinho da caneta Bic podia ser usado para se introduzir uma via área livre. Só que, ele também dizia “isso aqui é uma tecnologia de emergência para salvar uma vida, mas a ponta da caneta Bic e a caneta Bic também podem ser usados para furar o olho de alguém, esfaquear alguém…”, ou seja, toda tecnologia pode ser usada indevidamente.
É por isso que temos um código de ética médico e para isso que foi criado um código de ética para todas as manipulações clínicas, inclusive, mais recentemente, se debate, a questão do uso das interfaces cérebro-máquina, por exemplo. Apesar de ter desenvolvido os chips invasivos de registro dentro do cérebro, que usamos para estudar o cérebro de animais de experimentação, quando comecei a lidar com pacientes, me dei conta que esses implantes intracerebrais deveriam ser usados apenas nos casos mais graves e difíceis, porque era possível obter os mesmos efeitos clínicos, ou boa parte dele com um sistema não invasivo, ao colocar no couro cabeludo sem nenhuma cirurgia e risco cirúrgico. Ou seja, apesar de ter inventado a técnica e a lógica de como extrair esses sinais como implantes, me posicionei publicamente nos meus trabalhos e em palestras, que quando a gente chega na parte humana, deveríamos usar a parte não invasiva.
Infelizmente, a parte não invasiva gera lucros muito pequenos para esses investidores que acabam investindo em empresas que querem fazer implantes, pois uma cirurgia dessas custa dezenas ou centenas de milhares de dólares. Enquanto, a nossa técnica é uma técnica que qualquer pessoa pode usar porque o custo é mínimo. É uma touca de registro e técnicas de computação muito simples. Então, a sua pergunta é importante porque ninguém nega que a tecnologia ou diferentes tecnologias podem ser usadas para o bem da humanidade. Nós fazemos isso há milhões de anos.
O grande drama é que essas técnicas devem estar sobre o controle do ser humano e devem ser usadas para o bem comum, ou seja, para a melhoria da condição humana ao invés da exploração da condição humana. Portanto, essa é a diferença do uso benéfico e do uso maléfico de tecnologias. Temos que estar no controle da sua aplicação e não cinco ou sete caras que se transformaram em bilionários e que, alguns tem mais dinheiro do que o PIB de países. Se nós formos parar para pensar nisso, a Nvidia, que é a empresa que faz os microchips da inteligência artificial, o valor de mercado hoje dessa empresa é quase dois PIBs do Brasil. É uma aberração que não faz o menor sentido.
IHU – Existe ainda saída para vida no planeta? Há uma possível saída desta hecatombe?
Miguel Nicolelis – Saída ainda existe, apesar de que já estamos na beirada do abismo. Alguns amigos meus dizem que já pusemos o primeiro pé no abismo. Nós estamos nos mantendo num pé só, na beirada do abismo. Só que, para isso temos que sair dos nossos telefones e renunciar ao grau de conveniência que está se transformando em uma apatia coletiva da espécie, porque as soluções não são mágicas, elas são soluções políticas.
Por exemplo, a política de implantação de data centers no Brasil, não foi discutida com a sociedade brasileira. Esses centros estão sendo trazidos para áreas de risco, como a periferia de Fortaleza, onde falta água para a população, sem nenhum esclarecimento técnico e nenhuma participação da população que vai ser mais afetada. Quando isso aconteceu no Chile, as promessas que as empresas fizeram foram que a internet iria melhorar, haveria mais empregos e tudo mais, só que nada disso se materializou. Com isso, a população da área metropolitana de Santiago e outras cidades do Chile começaram a se unir e criar movimentos que barraram a vinda de novos data centers.
Curiosamente, isso está acontecendo nos Estados Unidos. Nunca, em quase quarenta anos vivendo no Estados Unidos, vi um movimente se organizar tão rapidamente e crescer tão dramaticamente como o movimento contra a implantação de data centers nas comunidades americanas. Cidades como Denver e Estados como a Florida, estão basicamente barrando por lei a introdução de novos data centers, bloqueando projetos de construção. E, o que está acontecendo? As empresas estão vindo para cá (Brasil), estão indo para África, Ásia, América do Sul… Com isso, a Europa já está começando a bloquear.
O doido do “Kid Mosca” diz que vai por data centers em orbita. Todas as promessas desse cara não se realizaram. Nenhuma delas. Já ouve a desistência de ir para Marte, o que é uma pena, porque seria muito bom se fosse mesmo para marte! E, os marcianos que cuidassem do Musk por lá. Já ouve a desistência porque era um absurdo, e, depois de vinte anos prometendo isso, o tal fez a promessa de ir para a lua que é mais próximo. Levou vinte anos para o “Kid Mosca” descobrir que a lua é mais perto do que marte.
Então, colocar data centers em orbita não faz o menor sentido. Basicamente, países como os Estados unidos, que tem entre efetivos e planejados quase quatro mil data centers, a população está começando a repudiar essas monstruosidades. Isso, em um país que a democracia quase acabou, ou se é que já existiu nos Estados Unidos. É surpreendente ver a força que esses movimentos estão adquirindo. Porque, as pessoas estão ameaçadas em todos os domínios. No ar que elas respiram, na água que elas bebem, nos seus empregos, no ganho de salários e em seu poder de compra. Com isso, o americano médio começou a perceber que ele foi enganado há muito tempo. Só que, aqui no Brasil, esse debate nem chegou à sociedade brasileira. E, talvez seja mascarado com promessas como ouvi um membro do Ministério da Indústria e Comércio dizer que “o Brasil vai ganhar trilhões de reais trazendo data centers para cá”. Gostaria de saber qual foi o modelo que foi usado para fazer esse cálculo.
Afinal, qual país ganhou trilhões? Nenhum. O Chile tentou, o México tentou, o Uruguai tentou, a Espanha tentou, e cadê os trilhões de ganho? Então, a solução para a preservação da vida existe, mas, a saída como sempre na história da humanidade depende da coesão da espécie e de movimentos da sociedade civil que bloqueiem ações – sejam privadas ou governamentais – que vão contra o interesse da população. Essa não é nenhuma mágica, pois usamos ao longo da história e ainda é um dos poucos caminhos de resistência que temos contra o parasitismo digital.
IHU – Essas máquinas, a internet, as redes sociais moldam o cérebro humano? Somos também transformados por esse processo?
Miguel Nicolelis – O cérebro humano é influenciado por qualquer coisa, por tudo! Pelo ambiente, pelas nossas relações sociais e pelas nossas ferramentas. Nosso cérebro modifica a forma da gente encarar o mundo, de agir no mundo e abstrair no mundo. Portanto, sim, a internet e as redes sociais nos moldam de um jeito brutal. Haja vista, a quantidade de ódio que é destinado nas redes sociais em contas anônimas que hoje são bots ou pessoas que finalmente se sentiram livres o suficiente para manifestar todos os seus preconceitos, ódios e seu racismo endêmico. Então, não há dúvida alguma, as ferramentas nos moldam. E, elas nunca nos moldaram tanto quanto nesse momento.
IHU – Estou lendo o livro “Declínio da Vida em Sociedade e o Brasil no Início do Século XXI”, de Marcio Pochmann, que aborda a gravidade da economia da ratificação. O livro fala de capitalismo de vigilância. O que o senhor acha da nova estrutura da sociedade que é dominada e dependente das rédeas associadas à captura de renda, onde a maioria é empreendedor de si mesmo? Como nos libertar?
Miguel Nicolelis – O capitalismo de vigilância é um termo criado por uma economista chamada Shoshana Zuboff, americana da Harvard Business School. É um livro clássico que foi publicado há alguns anos e causou um grande impacto. Li o livro e é mais ou menos o que eu disse. São ferramentas de dominação e de controle da mente humana. Não há dúvida alguma disso, e, a saída é a educação. Porque veja, a gente discute educação no Brasil em metas e organogramas. Nunca discutimos sobre que ser humano a gente quer formar? O que é o objetivo de um projeto nacional de educação? Nada disso nunca é falado. Importamos todas as metas da economia no economês, pusemos na sala do ministro da educação, e aí, o nosso negócio é cumprir meta. Ou, seja, agimos igual uma fábrica e uma indústria. Apresentamos número de alunos que graduaram, alunos que entraram e que estão matriculados, mas, nunca discutimos a essência do que é a educação, para que ela serve, o que queremos extrair dela e que tipo de ser humano queremos formar.
Enquanto não valorizarmos a educação, fica muito difícil combater a era da pós verdade, porque, se não auxiliarmos nossas crianças a desenvolverem o pensamento crítico e o pensamento lógico, incutindo nelas o amor ao próximo, o humanismo e a defesa do planeta desde o nascimento até a pós-graduação, vai ser muito difícil arregimentarmos exércitos de resistência.
Então, ficamos sempre nesses debates superficiais que não saem do lugar porque nossos governantes não têm nenhuma visão de futuro. Apenas querem mostrar números, porque tudo na vida humana foi numeralizado. Infelizmente, o projeto iluminista científico, e, como cientista é duro falar isso publicamente, mas é a realidade, o projeto do iluminismo foi levado ao extremo, a ponto de se acreditar que toda a condição humana pode ser quantificada, que tudo pode ser financeirizado e se pode dar um número para tudo.
Por isso que damos um número para a inteligência e para a capacidade produtiva. Tudo tem que ser numeralizado porque, quando é numeralizado pode se aplicar a lógica do capital e da produção para tudo. Quando cheguei na universidade americana, em 1989, ninguém cobrava de mim anualmente quantos Papers tinha produzido, quantas ideias tive e quanto dinheiro trouxe. Trinta e seis anos depois, era só o que se falava numa das maiores universidades americanas que trabalhei durante quase trinta anos. Quanto dinheiro você trouxe para a universidade, quantos Papers você publicou, quantos alunos você teve. Ou seja, eram as mesmas métricas de uma empresa e de uma indústria.
Com 22 anos, quando comecei a fazer pesquisa, não assinei para entrar em um modo de produção. Infelizmente, nos deixamos levar por isso. Hoje, quando vamos publicar um livro, não no Brasil, graças ao Big Bang eu tenho uma editora que me dá grande apoio, mas, em editoras americanas, a primeira coisa que querem saber é quantas palavras vai ter seu livro e te pedem para pôr a informação na proposta do livro. Como posso saber quantas palavras vai ter meu livro, se estou começando a escrever o livro nesse instante? Então, tudo virou um fetiche e uma obsessão em quantificar coisas que não são quantificáveis.
Qual é a escala do amor ao próximo? Qual é a escala que você usa o amor maternal, filial, o ódio, a inteligência, a própria inteligência… As pessoas acham que você olha para o intelligence quotient (IQ) e você define a inteligência de um indivíduo.
Contudo, a resistência tem que começar dentro de cada ser humano, permitindo a criação de um novo magma humano, em defesa da humanidade, em defesa da raça humana e do planeta. Na semana passada, cerca de 80% das abelhas americanas morreram, uma espécie de abelha americana morreu no ano passado. Sem abelhas, estamos mortos. Porque sem abelha, a polinização vai para o vinagre. Sem polinização não se produz comida e acabou a brincadeira.
As pessoas que acham que devemos que nos livrar dos insetos ou das baratinhas, não têm a menor ideia da estrutura ecológica otimizada que levou milhões, bilhões de anos para ser estruturada e que estamos danificando de forma quase irreversível. Então, isso teria que ser prioridade. Em vez de procurar mais poços de petróleo, devíamos estar cuidando do aquecimento global que está causando catástrofes climáticas no Sul, no norte do Brasil, no Nordeste… O Sudeste nunca tinha visto antes ciclones, e, de repente apareceram dois em seis meses. Uma cidade no Paraná foi completamente devastada. Avistei um ciclone cruzar São Paulo onde nunca imaginei ver, nasci aqui e nunca imaginei ver um fenômeno como já vi nos Estados Unidos. São ciclones, os tornados podem acontecer aqui e não damos importância, não pomos prioridade nisso. Queremos continuar jogando o jogo do mesmo jeito, só que não dá. O tabuleiro foi destruído, ou a gente muda a estratégia do jogo ou não vai sobrar tabuleiro para a gente jogar.
IHU – Quais as suas impressões sobre o trabalho filosófico e científico em um tempo de apropriação privada do conhecimento socialmente produzido (parasitas digitais) e da compreensão do tempo e espaço?
Miguel Nicolelis – Nunca foi tão fundamental o trabalho filosófico e científico real humano. Um dos overlords das big techs, Mark Anderson, deu uma entrevista catastrófica em um podcast americano dizendo que nunca refletiu sobre nada, que esse troço de introspecção é tudo balela e nunca aconteceu de verdade, que isso é só conversa de bar. Mark só esqueceu de um certo Platão, Aristóteles, toda a história da filosofia humana, enfim. Mas, para ver o grau do absurdo, esse é um dos homens mais poderosos nesse momento da indústria digital americana, dizendo que a introspecção humana não existe e que ele nunca usou. Está explicado, né, porque ele nunca usou. Então, se há um momento onde a humanidade precisou do trabalho humano intelectual filosófico científico humanista é esse.
IHU – Enxerga maneiras de relacionamento homem-máquina que possa produzir diferentes realidades?
Miguel Nicolelis – Sim, fazemos isso há centenas de anos. A inteligência artificial não é a primeira máquina que criamos, só é a primeira máquina que, provavelmente está tentando reverter a relação de interação e passar a nos controlar. Não porque tenha essa consciência ou desejo íntimo, mas por ser controlada por um par de seres humanos que querem se transformar nos imperadores do planeta. Isso é muito bom de esclarecer com essa pergunta. A inteligência artificial não é consciente, não tem desejos, não tem nenhum tipo de ambição, mas sim é uma ferramenta política ideológica econômica usada por um pequeno grupo de pessoas que tem o intuito de transformar todos nós em seus escravos. É basicamente isso.
IHU – A solução que o senhor desenvolveu para a recuperação neurológica pode ser usada para portadores de comprometimento neurológico severo, como exemplo na síndrome de CLIFAHDD?
Miguel Nicolelis – Não sabemos ainda, não temos nenhum estudo nem na síndrome mencionada aqui, nem em outras síndromes, apenas nas patologias que mencionei. Especialmente lesão medular, derrame, e reabilitação de pacientes sofrendo derrames. Essa é uma área enorme, principalmente na Europa.
A doença de Parkinson está começando e existem alguns projetos em outras doenças preliminares.
IHU – Além dos impactos mencionados, está a questão das guerras. O professor Sérgio Amadeu publicou o livro As Big Techs e a Guerra Total. O que você pensa?
Miguel Nicolelis – Como estamos vendo nesse instante na guerra do Irã, é evidente que essas ferramentas foram cooptadas como sempre foram, porque foram originariamente pagas pelo Departamento de Defesa Americana, ao longo dos 80 anos de história. Tais foram sendo usadas cotidianamente num arsenal bélico americano, não há mínima dúvida. Estão sendo usadas para aumentar a letalidade e literalmente identificar rapidamente potenciais alvos materiais e humanos. E, não há novidade alguma, porque o próprio John McCarthy, é muito curiosa a história desse cara. John cresceu com pais que eram membros do Partido Comunista, nisso, cogitou entrar no Partido Comunista nos anos 40.
Quando se formou professor do MIT, acabou rejeitando as teses do Partido Comunista Americano, enveredou para a extrema direita e no meio de sua carreira, por volta dos anos 70, quando era uma personalidade americana, literalmente se associou ao poder do Departamento de Estado, vendendo para o Departamento de Defesa todas as noções distópicas do partido republicano americano de uso. E, a ponto de dizer, quando perguntado numa entrevista se um termostato é consciente, John falou claro ao entrevistador, “mas como quais são os estados de consciência que um termostato experimenta?”, nisso acrescentou “quente, frio, muito quente e muito frio”. Ou seja, achava ou vendia a ideia, né? Duvido que achasse que um termostato era consciente da sensação térmica que demonstrava numa coluna de mercúrio. Então, para ver o grau de distopia que desde o início tinha como objetivo o uso dessas ferramentas pelas forças armadas. Não conheço o livro do professor Sérgio, mas isso é documentado há décadas, desde o início da área.
IHU – No cérebro humano ainda tem lugar para poesia, arte, música e para os afetos?
Miguel Nicolelis – Isso é uma arma de resistência! Lewis Mumford e outros historiadores da tecnologia, são muito categóricos em dizer que, antes do ser humano criar ferramentas e máquinas, o próprio pintava com as próprias mãos os tetos e as paredes das cavernas subterrâneas ao redor do mundo. Então, a arte, a comunicação artística, a poesia, a literatura, são inerentes à condição humana e se manifestaram antes da nossa aptidão de criar tecnologias. Ou seja, antecedem o Homo habilis, do Richard Lick e do pai dele, Robert Lick.
Antes de sermos o ser humano que produz tecnologias, estávamos representando as nossas emoções nas pinturas rupestres espalhadas por todo mundo. Então, a arte antecede a nossa capacidade tecnológica? Sim, sem dúvida nenhuma, é uma das últimas esperanças que nós temos de manter a espécie humana da forma como foi gerada.




