Na manhã seguinte à entrega do título Doutor Honoris Causa, Stedile refletiu sobre a crise climática na palestra de abertura da Jornada Universitária
Por Agatha Azevedo, na Página do MST
Na manhã desta quarta-feira (8), o Anfiteatro de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) recebeu a abertura da XII Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária (JURA), com a presença de João Pedro Stedile, da Coordenação Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A atividade marcou o início de mais uma edição da Jornada, consolidada como espaço de articulação entre universidade e movimentos populares.
Realizada um dia após a concessão do título de Doutor Honoris Causa pela UFJF, a palestra reuniu estudantes, militantes e pesquisadores em torno do debate sobre estratégias de enfrentamento à crise climática e ambiental.
Em sua fala, Stedile destacou o papel central da classe trabalhadora do campo diante dos desafios impostos pelo modelo econômico vigente. “O futuro está nas mãos dos camponeses”, afirmou.
Ao longo da exposição, o dirigente do MST relacionou a intensificação da crise climática ao avanço do agronegócio. Segundo ele, o atual modelo de produção agrícola está orientado pela lógica do lucro e não pelas necessidades da população. “O agronegócio não produz para necessidade da nossa população. Ele produz lucro”, disse. Para Stedile, enfrentar a crise ambiental exige reorganizar as formas de produção e fortalecer práticas como a agroecologia.
Inspirando-se em reflexões do ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, Stedile reforçou a incompatibilidade entre interesses populares e a lógica do capital. “Como diria Pepe Mujica, servir ao povo é incompatível com servir ao capital”, pontuou. Ele também destacou o papel do conhecimento construído a partir da vivência do povo brasileiro que enfrenta suas mazelas: “A luta social tem conhecimento”.
Presente na atividade, Lua Oliveira, do Coletivo de Cultura do MST, reforça que a JURA é o espaço de troca de experiências entre campo e cidade.
A militante conta que a Reforma Agrária permeia as desigualdades sociais do nosso país e que a JURA convoca a Universidade a viver e construir um mundo de transformações sociais.
“Me lembro muito de um trecho do livro soviético Temperando o aço, que diz que é preciso apressar-se a viver porque qualquer casualidade trágica pode nos cortar o fio da existência. E nada mais justo do que viver em prol da luta pela liberdade da humanidade”, diz a militante.
Cerimônia do título Honoris Causa
A conferência, realizada um dia após a entrega do título Doutor Honoris Causa a Stedile, integrou um conjunto mais amplo de ações construídas ao longo de 26 anos de parceria entre a UFJF e o MST.
Essa relação envolve processos de formação, pesquisas sobre a realidade do campo e iniciativas concretas como o Plantio Solidário, que fortalece a agroecologia, combate a fome e aproxima campo e cidade na região de Juiz de Fora.
Outro destaque é o protagonismo das mulheres nas experiências organizativas e produtivas vinculadas ao Movimento.
A concessão do título de Doutor Honoris Causa a Stedile, realizada na véspera, foi destacada como reconhecimento não apenas de uma trajetória individual, mas de um projeto coletivo de transformação social.
A professora da UFJF e prefeita da cidade, Margarida Salomão, ressaltou que a homenagem reafirma o compromisso da universidade com “os valores democráticos, a luta coletiva e a busca por justiça social.”
Em sua fala durante a cerimônia, Stedile dedicou a honraria à militância do Movimento. “As honrarias que recebi não são minhas pessoais, mas do coletivo de militantes que dedicam a vida por um Brasil mais igualitário”, afirmou.
A XII JURA reafirma o papel das universidades públicas como espaços de produção de conhecimento comprometido com a realidade social.
Para Cristina Bezerra, professora da UFJF, o título reforça o compromisso da Universidade com a luta coletiva e é o reconhecimento de uma relação de troca mútua. “Conceder o título de Honoris Causa é homenagear. Na pessoa de João Pedro, é reconhecer um Movimento que compôs a vida e revolucionou a relação com a Universidade. Foi essa parceria que fez com que a questão agrária se aprofundasse dentro dos cursos da Universidade”, reforça.
Em um cenário de agravamento da crise climática, as ações da Universidade em torno da questão agrária se colocam como um espaço estratégico para a construção de alternativas, fortalecendo a agroecologia, a soberania alimentar e a defesa dos territórios.
*Editado por Fernanda Alcântara




