Lula contra Lula. Por Gilberto Maringoni

No A Terra é Redonda

O distanciamento entre a promessa de prosperidade e a entrega da austeridade fiscal converte a rejeição popular no principal oponente da continuidade governista

As pesquisas do Datafolha e da Genial Quaest, divulgadas respectivamente no sábado 10 de abril e na quarta 15 de abril, mostram algo inteiramente novo na disputa presidencial: o adversário principal de Lula não é apenas Flávio Bolsonaro, mas qualquer um que se coloque contra o presidente. Mesmo exibindo baixas intenções de voto nas simulações de primeiro turno, Ronaldo Caiado e Romeu Zema aproximam-se do petista nas sondagens da segunda volta.

Assim, pode ser pouco produtivo Lula montar uma campanha baseada apenas no ataque ao oponente, num quadro em que sua rejeição cresce. É o provável resultado da enorme frustração das expectativas geradas por uma campanha que prometia desenvolvimento e melhoria de vida e entregou um duro programa de austeridade fiscal. Foi opção e não equívoco diante do que se afigura como um plebiscito sobre sua atuação. Resta saber se há tempo hábil para uma brusca mudança de rota que evite um desastre em outubro.

Qualquer poste entra no jogo

O cenário é desconcertante. Nas sondagens do Datafolha, numa possível disputa de segundo turno, estariam Flávio Bolsonaro com 46% das intenções de voto, ante Lula com 45%. Se o oponente for Ronaldo Caiado (PSD), o presidente registra 45%, contra 42%. Se o desafiante for Romeu Zema (Novo), o placar fica 45% a 42%. No primeiro turno, Lula apresenta 39% contra 35% de Flavio Bolsonaro. O problema é que os governadores de Goiás e de Minas Gerais despontam na sondagem de 1º. turno com 5% e 4%, respectivamente. A aprovação do governo também está em 45%.

Na Genial Quaest, o quadro vai na mesma linha. Num hipotético segundo turno, Flávio teria 42% das intenções de voto contra 40% de Lula, situação de empate técnico. Quando Romeu Zema é apresentado, o placar fica favorável a Lula, que tem 43% frente a 36% do concorrente. Contra Ronaldo Caiado, Lula mantém os 43% e o pecuarista atinge 35%.

Em ambos os casos, as curvas mostram o presidente em queda e os adversários em ascensão. No primeiro turno, Lula tem 37%, Flávio Bolsonaro alcança 32%, Ronaldo Caiado 6% e Romeu Zema 3.%. Lula exibe a mais alta rejeição entre todos os principais postulantes: 48% no Datafolha e 55% na Genial/Quaest.

O que extrair desses levantamentos? Principalmente: (i) Que Flávio Bolsonaro consolidou-se como o oponente mais forte da extrema direita para enfrentar Lula e (ii) que na falta do filho do capitão, um dos outros dois pode alcançar o petista na segunda volta, com chances de vitória. Qualquer poste se mostra competitivo ao assumir o papel de anti-Lula.

Se assim é, Lula está diante de um cenário inédito: seu real inimigo é sua rejeição. De onde ela vem? A pista mais evidente aponta para o governo Lula, sua quebra de expectativas, suas promessas não cumpridas e a sensação de que a vida para as maiorias não mudou, apesar da cascata de estatísticas brandida a todo momento pelos governistas.

Prejuízos que o governo causa à campanha

Entre outras, essas sensações têm origem no escandaloso endividamento das famílias, por força dos juros estratosféricos, na fila de três milhões de brasileiros e brasileiras pobres no INSS, nas restrições e cortes do Bolsa Família, na criação de empregos de baixa qualificação, com salários entre 1 e 1,5 salários mínimos, e no fato da vida estar muito cara (apesar da inflação baixa).

São alguns dos fatores que provocam rombos muito mais profundos na campanha Lula do que qualquer meme da extrema direita ou power point da Globo news. Há ainda as promessas não cumpridas de 2022, como a reestatização da Eletrobrás, da BR distribuidora e de revogação da reforma Trabalhista. Pode-se apontar ainda o acobertamento do trabalho escravo pelo ministro Luiz Marinho, a penúria das universidades e a precarização dos serviços públicos, cujos impactos na economia são reais, mas apresentam-se quase como abstrações para boa parte da população. Fiquemos no slogan “picanha e cerveja para todo mundo”, repetida aos montes nos palanques. Cadê? Por que ela se torna um imenso flanco a ser utilizado pela extrema-direita nas eleições? Por se tratar de algo concreto e palpável.

Em momento algum, o governo decidiu retomar a política de estoques reguladores, iniciada ainda na República Velha, com a criação do Comissariado de Alimentação Pública, em 1918, e ampliado paulatinamente através das décadas. Os estoques, que chegaram a contar com mais de uma centena de armazéns e milhares de pequenas lojas pelo país nos anos 1970-80, comercializavam mantimentos comprados dos produtores em tempos de baixa e ofertados a preços módicos na alta, como fator de regulação mercantil.

A partir dos governos de Fernando Henrique Cardoso, elas foram sendo descartadas até sua extinção nas gestões de Michel Temer e Jair Bolsonaro. Lula jamais buscou recriar algo semelhante, até para não se contrapor ao mercado de alimentos, comandado pelo agro.

Agora, às vésperas das eleições presidenciais, buscando ocultar a falta de marcas ou iniciativas de real impacto para as camadas de baixa renda, Lula tira do bolso do colete o passe-livre e sua oposição às bets, impulsionadas em seu próprio governo. “No que depender de mim, vou acabar com elas”, garantiu ele à imprensa na primeira quinzena de abril. Evidentemente um factoide, que se soma à tentativa do presidente do PT, Edinho Silva, de se mostrar como outsider, ao declarar que o PT seria “um partido antissistema”.

Lula e suas personas

O conjunto da obra suscita o vislumbre de uma nova persona pública de Lula. Ele, que surgiu na cena política com a imagem de organizador do descontentamento, do dissenso e da revolta nas greves do ABC, se tornou ao longo das décadas um ordenador do status quo. O slogan de paz e amor funcionou para desossar o simbolismo rebelde carregado pelo dirigente sindical do século passado, tornando-o palatável à classe média ao mitigar o que a mídia erroneamente classificava como “radicalismo” num momento em que o governo FHC atingia picos de rejeição, em 2002.

Duas décadas depois, quando a extrema-direita se apresenta como outsider e antissistema (lugar que já foi de Lula), a contraposição só pode ser feita com definição nítida de projetos e rumos e não mais com declarações pretensamente contundentes. Em lugar do denunciante dos “300 picaretas” do Congresso, do líder operário que lotava assembleias e bradava ao microfone que “a classe trabalhadora não pode mais ser papel higiênico dos patrões”, o atual presidente esmera-se em estender mesuras ao Legislativo e ao STF e se entusiasma com o agro e com o fato de “os bancos nunca terem ganhado tanto dinheiro” como em seus governos.

Mas vale ressaltar: o candidato petista de 2022 apresentou um terceiro uniforme. O processo da Lava Jato e os 580 dias de cadeia durante o governo de Jair Bolsonaro não reavivaram o Lula “do Velho Testamento”, mas possibilitaram o surgimento de um novo e dramático personagem. Tratava-se do mártir que de fato enfrentara um sistema injusto, que perdera neto e irmão sem poder velar por eles e que voltava disposto a consertar o que fora destruído por seus algozes, sob a palavra de ordem de que “a verdade vencerá”.[i] E é como mártir aguerrido que ele sai consagrado das urnas pela terceira vez.

No governo, Lula encarna seu quarto personagem, uma variante da “paz e amor”. Agora ele é o grande pai, cuja tarefa é “cuidar das pessoas”, como volta e meia repete. Um pai que dá conselhos e se torna o campeão do status quo e do senso-comum. E tome parábolas de “só se gasta o que se arrecada”, da “economia de dona Lindu”, de o povo é endividado porque não planeja sua vida, de “o que tenho a ver com uma guerra que acontece a 14 mil quilômetros daqui?” etc, etc.

Lembremos: o senso comum não é neutro. Para Antonio Gramsci, ele é “é grosseiramente misoneísta [avesso às inovações] e conservador”. Com tais parâmetros, temos um Lula no qual se nota cada vez mais a “distância entre intenção e gesto”, como um dia cantou Chico Buarque. Lula transita da “metamorfose ambulante”, como se definia nos anos 1990, para a ambiguidade ambulante, capaz de dizer e desdizer uma ideia numa única frase. Um exemplo está no seguinte trecho de um discurso na Espanha, em 18 de abril: “Ninguém precisa ter medo, no mundo democrático, de ser o que é, de falar o que precisa falar, desde que se respeite as regras do jogo democrático estabelecidas pela própria sociedade”. Ué, mas quem quer “falar o que precisa falar” num mundo tomado pelo autoritarismo precisa necessariamente se opor a determinadas regras antidemocráticas.

O líder petista perdeu uma grande chance de “ser o que é” e demonstrar autoridade e ligação com o povo se tivesse demitido a presidenta da Petrobrás e o ministro das Minas e Energia por terem batido de frente contra uma iniciativa sua. Na quinta, 12 de março, o presidente anunciou uma série de isenções fiscais para os combustíveis, com o objetivo de segurar preços impactados pela guerra no Irã. No dia seguinte, a Petrobrás aumentou os preços do diesel, afrontando a autoridade máxima do país. A demissão colocaria o chefe do Executivo como um firme defensor da economia popular.

Se até 2010, final de seu segundo mandato, a ambiguidade era a ferramenta esperta para aparentar um comportamento antissistêmico sem se contrapor a ninguém, a irrupção da extrema-direita na cena política torna duplas mensagens inócuas e tediosas.

A ambiguidade leva Lula e seu governo a jogar parado em situações nas quais o enfrentamento é inevitável. Para se evitar a disputa, Lula e membros do PT passaram a lançar mão de um conceito militar e político de forma enviesada. Trata-se do conceito de “correlação de forças”, uma relação entre contrários, agora elevada à condição de sujeito político dotado de vontade própria. As barreiras para a superação de determinada condição ou para que se realizem mudanças sociais nunca são nominados pelos governistas.

Os inimigos nunca são banqueiros, plutocratas e magnatas do agronegócio, ou especuladores externos. Não se chamam as coisas pelos nomes, como luta de classes, imperialismo ou grande capital. O oponente a ser batido é a tal da “correlação de forças”, figura sorrateira sempre a tramar contra as boas intenções oficiais. Elevar um conceito abstrato à condição de ator político denota algo muito maior do que uma confusão escolástica-conceitual. Denota tentativa de confundir o distinto público.

Organizando a passividade

Ao organizar o status quo, difundir o senso comum e embaralhar conceitos políticos, Lula organiza a prostração e a passividade. Rebaixa a consciência política de sua audiência. A coisa não fica por aí. Se a vida concreta das pessoas não está boa e se a sensação de mal-estar é aferida até por pesquisas, o organizador do status quo tende a perder audiência e credibilidade.

Em outros momentos, em especial em seu segundo mandato, quando houve melhoria concreta dos padrões de vida, graças ao boom das commodities (ou seja, havia um amortecedor da luta de classes), a propagação do senso comum até agradava grandes parcelas da população.

Hoje, num quadro de baixo crescimento, de prioridade absoluta ao ajuste fiscal e de escassas perspectivas de futuro, esse discurso mostra-se inócuo. Em outras palavras, ou a liderança se opõe a “tudo isso que está aí”, ou tende a perder credibilidade e legitimidade. Ao não se colocar como o líder organizador do descontentamento, mas o campeão das reclamações vazias e a vanguarda do conformismo, sua ação política reduz-se aos terrenos do verbo, da declaração momentânea e da promessa sem base efetiva. Aliás, abre-se uma avenida para o repúdio à política entre a população e a naturalização de pregações autoritárias e golpistas.

O quadro das pesquisas é preocupante. Frente a elas, o governo aparenta estar sem rumo e tenta iniciativas isoladas e despolitizadas aqui e ali, sem lograr assumir a ofensiva no combate eleitoral que se inicia, num panorama em que o ajuste fiscal é visto como intocável. Ao que parece, a única chance de reverter o mergulho na preferência do eleitorado, provocado pelas opções petistas, é uma brusca, radical e visível mudança de rota nas próximas semanas, que de imediato coloque dinheiro nas mãos do povo, reduza a inflação de alimentos e reestabeleça a sensação de que o presidente comanda a luta contra os poderosos.

Não basta declarar desejos de mudança e xingar vagamente “as elites”. Não adianta afirmar na Espanha que “O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança”, quando o que se faz internamente é exatamente aplicar um projeto desse tipo. A mudança de rota, que poderia ser gradativa há um ano, tem de se concretizar agora num cavalo de pau imediato.

Um cavalo de pau como última saída

Aos que avaliam a proposta puro delírio, vai aqui uma pequena história, de um personagem que está longe de ser santo de minha devoção. Trata-se do seguinte.

Entre os dias 24 e 28 de maio de 1940, disputou-se em Londres um dos lances decisivos da Segunda Guerra Mundial. Nesse breve período, o então recém-empossado primeiro ministro Winston Churchill (1874-1965) enfrentou praticamente sozinho uma opinião dominante no Gabinete de Guerra. A maioria de seus membros defendia a assinatura de uma série de acordos com a Alemanha, para evitar agressões ao território inglês. Conservador, colonialista e tido como alcoólatra, Winston Churchill já granjeara a fama de belicista na Câmara dos Comuns, por sua defesa incisiva do investimento na indústria de guerra. O caso é narrado num livro primoroso,  Cinco dias em Londres, de John Lukacs (Zahar, 2001).

A situação na Europa ocidental era a pior possível para os aliados. A França estava prestes a se render, a Bélgica capitulava e as tropas inglesas no continente marchavam para a retirada de Dunquerque. Com a Espanha, Portugal e Itália simpáticos ao nazismo, o enfrentamento continental estava praticamente decidido. Hitler despertara admiração por parte de membros do gabinete inglês. Lorde Halifax, o ministro das Relações Exteriores, chegou a escrever em seu diário, após um encontro com o Führer em 1937, que “embora haja muito do sistema nazista a ofender profundamente a opinião britânica, não estou cego ao que ele fez pela Alemanha e para manter o comunismo fora de seu país”.

Em meio a uma situação de crise aparentemente insolúvel, Winston Churchill decidiu mudar toda a lógica da política externa e partir para a ofensiva, na tarde de 28 de maio, durante uma reunião extraordinária do Gabinete de Guerra. Leiamos o relato de Lukacs: “Durou cerca de uma hora. O espírito decidido de Winston Churchill impressionou e dominou a todos. (…) A questão decisiva (…) ficou para o final. Churchill admitia (se assim se pode dizer) que havia pensado ‘se não faria parte de sua obrigação considerar negociações’ com Hitler. Mas concluíra que seria tolice pensar que, se tentássemos fazer paz agora, conseguiríamos melhores termos dos alemães do que se resolvêssemos a questão pelas armas. Os alemães iriam pedir nossa frota – chamariam isso de ‘desarmamento’ –, nossas bases navais, e muito mais ainda. Seríamos um país escravo”.

O primeiro-ministro cancelava ali todas as negociações com a Alemanha e partia para o conflito. Entre 10 de julho e 31 de outubro de 1940, o país sofreu o mais violento ataque aéreo até então conhecido. A Luftwaffe, força aérea alemã, realizou centenas de bombardeios a Londres e outras cidades, no episódio conhecido como Batalha da Inglaterra. Apesar de sofrer 23 mil mortes e ter boa parte de sua força militar destruída, a Alemanha saiu derrotada. Com sangue, suor e lágrimas, como sintetizou Winston Churchill.

A guerra não foi vencida pela Inglaterra, e sim pela União Soviética, secundada pelos Estados Unidos. Mas aquele inglês reacionário e ar de pau d’água deu um cavalo de pau nas orientações anteriores e manteve a dignidade de seu país.

O presidente poderia desmontar parte das decisões que tomou no governo e comandar uma campanha que empolgue multidões e derrote o fascismo. O Lula governista não pode mais atrapalhar o Lula combativo, idealizado pelos pobres deste país. Ocorre que o segundo tem mais votos que o primeiro. O tempo é muito curto.

P. S. O autor dessas linhas votará em Lula nos dois turnos.

*Gilberto Maringoni é jornalista e professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC).

Notas

[i] Título de um livro com 15 horas de entrevistas com Lula (Boitempo, 2018) das quais participei com Ivana Jinkings, Maria Inês Nassif e Juca Kfouri, com edição de Mauro Lopes.

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