Sobre despejos, ossos e memória: Damiana, seu legado reverbera em nós!

Coletivo Terra Vermelha e Marcha Mundial das Mulheres

Por Priscila Anzoategui e Katiuscia  Galhera, em Revista Badaró

Em fevereiro de 2014, o Coletivo Terra Vermelha visitou, pela primeira vez, uma retomada no cone-sul: era Apyka’i, que tinha como liderança principal Dona Damiana. Os Guarani e Kaiowá (GK) daquele tekoha – “lugar em que se é” -,que fica perto da cidade de Dourados (MS), necessitavam de roupas e alimentos, além de apoio político para denunciar as violações que ocorriam há muitos anos. 

Naquela época, havia um mandado de reintegração de posse que seria cumprido em 30 dias para expulsar os indígenas que reivindicavam o direito ao seu território e habitavam Apyka’i. Chegamos até lá com a ajuda de um advogado do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Bruno Morais. Na beira da estrada, em direção a Ponta Porã, observamos uma bandeira do Brasil estendida no meio do mato. Estávamos em Apyka’i. 

Em meio a alguns barracos de lona uma pequena plantação de milho e abobrinha, circundada pela cana-de-açúcar, nos acomodamos em um banquinho de madeira. Três crianças, de mais ou menos sete e oito anos, nos encaravam com curiosidade. Quando Dona Damiana se apresentou, falando em guarani, ficamos impressionados com a coragem que ela transmitia, pequenininha e tão forte, com as palavras e rezas, contando a história da sua parentela. 

Há 14 anos, ela e outros parentes tentavam retomar aquela terra tradicional, pois havia outros parentes enterrados ali. Ficaram muito tempo na beira da estrada e aquela era a terceira tentativa de se firmarem no seu tekoha. Em 2008, na segunda tentativa, os parentes eram vigiados por funcionários de uma empresa particular de segurança: a tão temida e conhecida Gaspem Segurança, que fora desconstituída posteriormente. 

Quem queria impedir a sobrevivência daquele povo? Os “supostos” donos da  fazenda Serrana, de propriedade de Cássio Guilherme Bonilha Tecchio, que a arrendou para a Usina São Fernando, em 2008, a GASPEM não permitia a entrada da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), que à época ainda não era Fundação Nacional dos Povos indígenas, ou da então Fundação Nacional de Saúde (Funasa) para entregar as cestas básicas na comunidade. 

O fazendeiro mencionado conseguiu na justiça um mandado de reintegração de posse e lá se foi Dona Damiana, novamente, com o seu povo para a beira da estrada. Entretanto, a BR-463 estava em obras para ser duplicada e Damiana e seus parentes tiveram que se deslocar para o outro lado da rodovia, pois não tinham água potável para beber e buscavam água num córrego contaminado por agrotóxicos. 

Para piorar a situação, no ano seguinte um grupo armado invadiu o acampamento de madrugada, atirando em todos e botando fogo nas barracas. Um senhor de 62 anos foi ferido e o ataque ocorreu de madrugada, enquanto todos/as estavam dormindo.

Dona Damiana e seu filho, que traduzia o que a anciã relatava, nos levaram até o cemitério indígena, que naquele ano possuía seis parentes enterrados. Infelizmente, esse número foi aumentando posteriormente. Um dos últimos parentes mortos de Damiana, uma criança de quatro anos, seu neto, morreu atropelado. A única terra que ela e os parentes podiam utilizar naquela beira de estrada foi sendo destinada para enterrar os mortos.

Morrer atropelado era o mais comum em Apyka’i. Juntar o resto dos parentes, guardar os ossos, contar essas histórias para quem os visitava era uma forma de resistência, que nos impactava, nos indignava, fazendo entender como age o Estado e o agro, que sempre se coloca como uma máquina de moer gente. 

Se morria também por veneno. Damiana relembrava também que uma tia havia falecido ali: um avião passou por três vezes jogando agrotóxicos e a tia, que estava no meio de uma plantação, não resistiu e faleceu no mesmo dia.

Em 2016, Damiana foi expulsa do seu tekoha pela última vez. Tratores da polícia militar passaram em cima dos barracos, em uma manhã chuvosa, Ali, algumas faixas diziam “Despejo é genocídio”. Ela se mudou para o outro lado da estrada, não podendo mais ter acesso ao seu tekoha e sequer ao cemitério no qual estava enterrada sua família.

Em julho de 2022, a Marcha Mundial das Mulheres (MMM) foi até Damiana levar alguns mantimentos. Não seria de estranhar que o despejo e a falta de acesso à roça tradicional (kokue) levassem a uma situação de fome recorrente. Não sabemos como o povo Guarani e Kaiowá consegue ser tão generoso em meio à marcha fúnebre, mas Damiana era assim. 

Quando íamos lá, participávamos das rezas na beira da estrada: o que sobrou de Apyka’i. O fato é que o território ancestral nunca foi recuperado. Os dias passaram sem água apropriada e às vezes sem comida, tentando dormir do lado de barulho pesado de caminhão.

Damiana faleceu em 07 de novembro de 2023, não foi enterrada em Apyka’i e não presenciou a demarcação da sua terra sagrada. Como a vida foi dura para ela! A gente achava que era uma daquelas mulheres que não iam morrer nunca. Pequena guerreira, grande liderança. Nos últimos anos de vida ainda passava fome. 

No dia 28 de janeiro de 2026, a FUNAI aprovou finalmente o Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID) da Terra Indígena (TI) Apyka’i. Após a assinatura, o Despacho Decisório foi publicado no Diário Oficial da União (DOU).

 Essa é a primeira etapa administrativa para que a TI de Damiana seja demarcada, como militantes indigenistas e feministas, comemoramos, esse avanço se deu não apenas pelo fato do Governo Federal ter uma abertura maior para essa pauta (portanto não fez mais que sua obrigação legal), essa vitória é fruto da luta de Damiana, que tombou mas enquanto viveu não deixou de lutar pela demarcação do seu tekoha

No dia 27 de março de 2026, a Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) reconheceu a anistia política relacionada a violações cometidas durante a ditadura militar contra Marçal de Souza Tupã-Y, a então Ministra Macaé Evaristo reconheceu que o estado brasileiro falhou no acesso à terra aos indígenas, que estes nunca aceitaram o silêncio, que a resistência indígena não é um capítulo secundário da história brasileira, ela é central, estruturante e permanente, ainda que não há Brasil sem os povos indígenas. 

Assim como Tupã-Y dizia “Sou uma pessoa marcada para morrer, mas por uma causa justa a gente morre”, Dona Damiana também era uma liderança marcada pra morrer, o seu enfrentamento ao agronegócio, em um estado como Mato Grosso do Sul era grandioso, ela nunca desistiu. 

Seus parentes ainda vão viver o tekoharã, é o que nos conformaAguardamos atentamente a demarcação de Apyka’i, quando a morte se transforma em vida das próximas gerações. Dona Damiana, seu legado reverbera em todas nós!

*Priscila Anzoategui é antropóloga e advogada. Integra o Coletivo Terra Vermelha (CTV) e do Observatório da Kunhangue Aty Guasu (OKA).
**Katiuscia Galhera é doutora em Ciência Política e professora universitária, com pesquisas sobre o impacto dos agrotóxicos sobre comunidades indígenas e camponesas.

 1. Mais informações do contexto do despejo podem ser encontradas na carta de denúncia da MMM, em: https://www.marchamundialdasmulheres.org.br/deixem-apykai-viver-demarcacao-das-terras-indigenas-ja/

2. A Marcha Mundial das Mulheres é um movimento internacional feminista, antirracista e anticapitalista. Instagram no MS: https://www.instagram.com/marchamulheresms/ 

Enviada por Zelik Trajber

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

11 − 2 =