Entrega das chaves ocorreu nesta sexta-feira (24) após uma ocupação no condomínio que custou R$ 71,4 milhões
Por Ana Beatriz Assenço, Brasil de Fato
Um ano depois do despejo violento no Sol Nascente, a Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (Codhab) fez a entrega do condomínio que vai abrigar as famílias. A conquista só veio após uma ocupação no hall de entrada do prédio.
O protesto durou 10 dias até a entrega das chaves e de um termo provisório nesta sexta-feira (24). Moradores relataram ao Brasil de Fato DF que a entrega estava prometida para dezembro, mas foi adiada pelo menos três vezes. Segundo o coordenador nacional do MTST, Eduardo Borges, a entrega foi resultado da mobilização.
“De dezembro de 2025 até o dia de hoje, foram desmarcadas várias vezes a data de entrega, então decidimos ocupar a área de convivência do prédio até que tivesse uma nova data. Até que foi antecipada e hoje as famílias receberam as chaves e um termo provisório de posse, isso prova que eles não tinham intenção de fazer essa entrega agora”, afirmou.
Desde que foram despejadas, há um ano, as famílias foram alocadas no Setor de Inflamáveis, na região do Guará, e passaram a viver em situação insalubre, com esgoto a céu aberto, e presença de insetos e roedores. Em vídeo publicado nas redes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), uma moradora contou que a vizinha acabou adoecendo e morreu por uma infecção devido à contaminação do esgoto.
“O que estão esperando? Uma criança morrer de uma bactéria, uma mãe de família ser enterrada novamente? Porque a gente não sabe mais nem o que fazer”, disse.
Eduardo Borges explica que a maioria das famílias é formada por catadores de material reciclável e, por isso, foram se instalando no local. Além de estarem expostos a graves riscos de saúde, a demora na entrega das chaves teve diversos outros impactos.
“Quando não matricularam os filhos na escola, com a promessa de receber [a moradia] em dezembro em um outro endereço e ter que matriculá-las em outro local, elas acabaram perdendo o benefício por falta de matrícula. Então esse problema só se agravou”, relata.
Ocupação
Desde o dia 14 de abril, as famílias estavam acampadas em um dos blocos do condomínio construído pela Codhab no Sol Nascente para reivindicar a entrega das unidades. O condomínio custou R$ 71,4 milhões e os apartamentos serão doados para as 14 famílias que se encontram no Setor de Inflamáveis.
Em nota ao Brasil de Fato DF, a Codhab afirmou que “a entrega das unidades habitacionais segue um rito judicial e um plano de ação rigoroso, com cronograma previamente ajustado entre as partes processuais”. A companhia ressaltou que a entrega “está prevista para sexta-feira (24), em estrita observância ao cronograma estabelecido”.
Histórico
A desocupação da região da Fazendinha aconteceu em julho de 2025 e foi marcada pela truculência da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF). A ação derrubou, sem aviso, mais de 60 casas, empurrando para a extrema vulnerabilidade uma comunidade formada principalmente por mulheres e crianças.
Balas de borracha, gás lacrimogêneo e spray de pimenta foram usados pela polícia para dispersar os moradores, incluindo grávidas, idosos e crianças, que tentavam resistir à derrubada de suas casas. Somente dias após as derrubadas, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF) decidiu suspender a ação.




