O ódio como projeto

Pesquisa revela o crescimento da censura e da perseguição a educadores, com alerta para um novo pico de ataques em 2026, ano de eleições presidenciais

Giulia Escuri – EPSJV/Fiocruz

“O  primeiro ataque foi durante o debate de um texto em uma disciplina da graduação. Um aluno pediu a palavra, eu concedi, e ele começou a fazer perguntas sobre o texto. Em seguida, passou a me atacar, em alto e bom som, sobretudo por conta da minha orientação sexual, de forma muito violenta, dizendo: ‘morte aos viados, devemos matar os viados’”. À primeira vista, o relato, feito por F.H.L., professor universitário que preferiu se manter anônimo, pode parecer apenas um ataque homofóbico individual. No entanto, situações como essa se inserem em um contexto mais amplo de ódio aos professores. É o que mostra pesquisa lançada no fim do ano passado pelo Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es (Onve), da Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com o Ministério da Educação (MEC). Segundo ela, 93% dos educadores em todo o Brasil já sofreram ou conhecem alguém que sofreu censura ou perseguição no trabalho.

O estudo reuniu informações de mais de 3 mil profissionais da educação básica e superior, das redes pública e privada, em todas as regiões do país. E identificou que 61% dos docentes da educação básica e 55% do ensino superior relataram ter sofrido perseguição. Entre as situações apontadas estão tentativas de intimidação (58%); questionamentos agressivos sobre seus métodos de trabalho (41%); proibições explícitas de conteúdo (35%); e agressões verbais (25%). O documento também revela que 10% desses profissionais já sofreram agressões físicas; 12% tiveram mudança forçada de local de trabalho; 11% foram removidos de seu cargo ou função; 6% chegaram a ser demitidos; e 2%, suspensos.

Pode piorar

Mas a pesquisa aponta um cenário ainda mais grave: a tendência é que, neste ano, os ataques se intensifiquem. “As eleições presidenciais são momentos de crescimento da violência contra educadores”, constata Fernando Penna, coordenador da pesquisa e professor da UFF.

Ele se baseia em um dado relevante, que levou em consideração o recorte temporal de 2010 a 2024. O gráfico apontou picos de violência contra professores nos anos de 2016, quando a então presidente da República Dilma Rousseff sofreu um golpe parlamentar; em 2018, ano da eleição de Jair Bolsonaro à Presidência; e nas eleições de 2022, quando o índice foi ainda maior em relação ao pleito anterior.

A pesquisa aponta que a violência contra educadores apresenta dois padrões. “Primeiro, a partir de 2010, os casos só aumentaram. A tendência do gráfico é de crescimento constante, o que já é uma preocupação enorme”, explica Penna, que completa: “A segunda é que, em momentos de debates políticos mais intensos, há aumentos nos índices”. Esse contexto confirma a hipótese inicial dos pesquisadores: a de que esse ódio constitui um projeto político. Com isso é viável antecipar o que pode ocorrer neste ano. “A tendência é que 2026 será mais um ano de pico de violência deste tipo”, avalia Penna.

Devido a essa projeção, o professor F.H.L. sente receio. “Em períodos eleitorais há uma potencialização do que já está presente no social, no cultural e no político”. Nesse contexto, ele atribui parte dessas perseguições a um projeto de desdemocratização e ao avanço do ultraconservadorismo, que vê diversos privilégios em risco. “É uma época em que determinados segmentos se mobilizam para manter privilégios que não são apenas econômicos, mas de mando e de opressão, cristalizados há muito tempo”, afirma.

O ódio é político

Em 2004, foi criado o movimento Escola sem Partido pelo procurador do Estado de São Paulo Miguel Nagib. Sua principal preocupação era evitar o que chamava de “doutrinação ideológica” nas escolas. Penna ressalta que o Escola sem Partido “se tornou quase sinônimo de falar de censura e perseguição a educadores” e afirma que suas iniciativas estimularam práticas ainda observadas hoje.

Diversos projetos de lei foram apresentados pelo movimento nas câmaras municipais, nas assembleias legislativas e no Congresso Nacional. O mais conhecido deles é o Projeto de Lei nº 7.180/2014, que previa o respeito “aos valores de ordem familiar sobre a educação escolar nos aspectos relacionados à educação moral, sexual e religiosa”.

Essa movimentação fez com que políticos passassem a projetar suas campanhas a partir dessa pauta. “As pessoas passaram a ganhar capital político usando essa perseguição. O próprio Jair Bolsonaro admitiu, em entrevistas, que o que catapultou a carreira política dele foi o combate ao chamado ‘kit gay’ ”, explica Penna, que ressalta que a mobilização de ataques a docentes se tornou uma forma de “empreendimento político”.

O professor da UFF avalia que o movimento foi perdendo força nos últimos anos. Um dos marcos desse enfraquecimento foi a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que declarou inconstitucional a Lei nº 7.800/2016, de Alagoas – inspirada no Escola sem Partido e responsável por instituir o “Programa Escola Livre” no estado. No entanto, o movimento deixou um legado de censura e perseguição aos professores: “As práticas de denuncismo, gravações retiradas de contexto, essa campanha de ódio aos professores — isso infelizmente já está enraizado”, completa Penna.

Como evidência desse cenário, a pesquisa mostra que os educadores são, principalmente, vítimas de membros da própria comunidade escolar. Pelo menos 57% dos participantes apontaram ter sofrido violência praticada por profissionais da instituição em que trabalhavam, como diretores e coordenadores; 44% mencionaram familiares de alunos; e 34%, os próprios estudantes.

Acontece mais de uma vez
“Na aula da semana seguinte [ao primeiro ataque], um aluno pediu a palavra, se apresentou com um nome que não constava na lista de matriculados e começou novamente a me dirigir ofensas homofóbicas, ainda mais pesadas. Ao fundo de sua fala, ele colocou um áudio que me pareceu ser de um filme pornográfico, com pessoas gemendo em voz alta”. O relato é novamente, de F.H.L. sobre o segundo ataque que sofreu durante aulas online, durante a pandemia de covid-19.

A perseguição e a censura são recorrentes. O estudo do Observatório Nacional da Violência contra Educadores aponta que 44% dos participantes passaram por esse tipo de experiência quatro vezes ou mais. “Se a violência não é interrompida pela instituição, pela secretaria ou por qualquer outra instância, a tendência é que se agrave”, considera Penna, que ressalta: “Quando uma pessoa passa por quatro ou mais ações violentas, não é casual. Ela pode ter virado alvo por insistir em discutir determinadas temáticas”.

F.H.L. conta que o episódio o afetou profundamente e que, por isso, precisou se afastar por licença psiquiátrica durante três meses. “Depois de tudo isso, eu cogitei não voltar a dar aulas. Me sentia muito vulnerabilizado e exposto, inclusive dentro da universidade”, relembra o professor.

Assim como ele, outros educadores que viveram situações semelhantes também relataram impactos significativos na saúde mental: 79% afirmaram que se sentiam mais tristes e estressados; 60% desenvolveram transtorno de ansiedade e/ou depressão; e 41% receiam pela própria segurança.

“Foram experiências extremamente traumáticas, tanto no nível pessoal quanto no político e profissional”, conta F.H.L., que, apesar disso, decidiu voltar às salas de aula. O impacto profissional relatado por ele não é isolado: 60% dos educadores dizem ter começado a refletir mais sobre o que falam durante sua atuação; 59% passaram a se sentir constantemente vigiados e inseguros; e 53% e 52%, respectivamente, passaram a questionar a permanência no local de trabalho e na própria área da educação.

Como fica o ensino?

Não há como negar: essa violência impacta cada instância da vida do professor – tanto no âmbito profissional, quanto pessoal. Pelo menos é o que mostra outro achado do estudo, destacado pelo coordenador da pesquisa: os ataques podem provocar um efeito de autocensura. De acordo com o documento, entre os educadores que foram perseguidos ou censurados, 38% afirmaram ter retirado conteúdos, materiais ou metodologias de suas práticas; 32% desistiram de algum projeto; 30% diminuíram sua atuação nas redes sociais; e 9% mudaram seus projetos de pesquisa.

Também foi constatado que o impacto é sentido inclusive por aqueles que não foram vítimas diretas, mas que conhecem ou ouviram falar de colegas que sofreram essas agressões. Fernando Penna explica: “Mesmo que você não tenha sido vítima direta, se está trabalhando em uma escola na qual um professor foi agredido, censurado ou perseguido por discutir uma temática obrigatória por lei, você começa a se perguntar: ‘Será que eu posso falar sobre isso?’”.

Ele exemplifica com relatos colhidos durante a segunda fase da pesquisa, que contará com entrevistas realizadas com educadores que sofreram perseguição. “Estamos falando de um professor de ciências que tem medo de discutir teoria da evolução porque já foi questionado por pais religiosos que defendem o criacionismo; de um professor de português que, ao abordar gêneros textuais, foi repreendido pela coordenação da escola apenas por utilizar a palavra ‘gênero’. São casos reais”, relata Penna.

Para o pesquisador, esse cenário revela um processo de degradação da democracia nas escolas e universidades, com consequências graves para o ensino. “É uma estratégia para impedir uma educação democrática, que traga representatividade na construção do conhecimento, que dialogue com a realidade do estudante, que combata a desigualdade e que tente garantir o direito à educação para todos e todas”, afirma o professor.

Apesar desse cenário, F.H.L. reflete: “Em momento algum me permiti mudar o que estava estudando ou como estava trabalhando, seja na pesquisa, seja em sala de aula”. Ele ressalta que, em vez de agir conforme seus perseguidores esperavam, decidiu seguir realizando seu trabalho com base no que acredita. Essa resistência, no entanto, não anula as marcas deixadas por essas experiências – nem para ele, nem para tantos outros professores. 

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