Favela Nova Brasília: MPF e entidades cobram cumprimento de sentença internacional por violações de direitos humanos

Documento denuncia descumprimento da decisão da Corte Interamericana que condenou Estado brasileiro pelas operações policiais no Complexo do Alemão (RJ)

Procuradoria da República no Rio de Janeiro

O Ministério Público Federal (MPF) sediou, na última sexta-feira (8), o lançamento por familiares de vítimas e organizações da sociedade civil do Sumário Executivo do Caso Favela Nova Brasília. O documento denuncia o descumprimento da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos que condenou o Estado brasileiro pelas operações policiais realizadas no Complexo do Alemão em 1994 e 1995, com graves violações de direitos humanos. O evento de lançamento ocorreu no auditório da Procuradoria da República no Rio de Janeiro, na mesma data que marcou os 31 anos da segunda incursão da Polícia Civil na comunidade.

O encontro foi promovido pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PRDC/RJ) em parceria com o Instituto de Estudos da Religião (Iser) e o Centro pela Justiça e o Direito Internacional (Cejil). As organizações foram responsáveis pela elaboração do Sumário Executivo e pela representação das vítimas e familiares na Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Durante o evento, o procurador regional dos Direitos do Cidadão adjunto Julio Araujo destacou o compromisso MPF com a defesa e a efetivação da sentença internacional. Segundo ele, o encontro representa não apenas um espaço de denúncia das violações ainda persistentes, mas também um esforço coletivo de preservação da memória e do fortalecimento da busca por verdade e justiça.

A diretora executiva adjunta do Iser, Moema Salgado, ressaltou o caráter coletivo da publicação, construída com a participação de movimentos sociais, familiares, vítimas e pessoas que atuam há décadas na luta por reparação e responsabilização.

Por sua vez, a co-diretora do Programa Brasil e Cone Sul do Cejil, Helena Rocha, destacou o longo percurso realizado em conjunto com as famílias e enfatizou a importância de que o sumário seja feito pela sociedade civil. A advogada Nina Barrouin, frisou que a ideia é que o Sumário também funcione como um instrumento de memória. “Diante da reprodução cotidiana da violência do Estado, do aumento das chacinas e da ausência de respostas às determinações da Corte, entendemos ser importante que a sociedade civil tenha mais esse registro para contar essa história”, afirmou.

Caso Favela Nova Brasília – O Caso Favela Nova Brasília refere-se a duas operações policiais conduzidas em 1994 e 1995 por agentes da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro no Complexo do Alemão. As ações resultaram na morte de 26 homens e em atos de violência sexual contra três mulheres. Entre as vítimas, majoritariamente negras e jovens, estavam duas adolescentes, de 15 e 16 anos, submetidas à violência sexual, além de seis meninos menores de 18 anos mortos em execuções extrajudiciais.

Em 2017, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Estado brasileiro pelo caso e determinou medidas de reparação e de não repetição. Vinculada à Organização dos Estados Americanos (OEA), a Corte atua no julgamento de violações de direitos humanos cometidas por Estados-membros.

Nove anos após a decisão internacional, familiares e movimentos sociais seguem mobilizados pela responsabilização dos agentes envolvidos e pela preservação da memória das vítimas. Ao discursar, Tereza Genoveva relembrou os mais de 30 anos de luta da família por justiça pela morte do irmão e criticou a violência direcionada à população negra e periférica. “O meu CEP me condena. Para o Estado, morar em comunidade e ter a cor da pele negra já é uma condenação”, afirmou.

Segundo a professora de direito constitucional da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Reflexão e Memória Afrodescendente (Nirema) da universidade, Thula Pires, a violência praticada por forças de segurança nas comunidades do Rio opera como mecanismo de dominação sobre corpos negros e periféricos. Segundo ela, é uma dominação que retira dessas pessoas qualquer possibilidade de resistência, pois afeta a sua alma.

Por fim, a secretária-executiva do Fórum Popular de Segurança, Rhayssa Ruas, apontou que o caso evidencia uma dinâmica sistemática de extermínio marcada pela letalidade policial, pela ausência de responsabilização dos agentes e por falhas recorrentes nos processos de investigação.


Íntegra do Sumário Executivo Caso Nova Brasília

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