Construirão casas e nelas habitarão

Ao longo dos séculos, profetas e profetisas lutaram para manter vivo e sempre atual o projeto popular que não pode ser reduzido a um sonho futuro, pois é fruto de todas e todos que lutamos para que todos, a partir dos mais pobres, tenham Terra, Teto e Trabalho

Por Sandro Gallazzi e Anna Maria Rizzante, em CPT

Ai dos que juntam casa a casa
e campo a campo (Isaías 5,8)

O texto base da Campanha FRATERNIDADE E MORADIA, de 2026, a respeito da situação rural, diz que “a realidade dos nômades, indígenas e quilombolas não é menos importante. Trata-se, em relação a estes povos, de uma dívida e de uma reparação histórica, frente à expropriação de que foram vítimas em suas vidas, terras, liberdades e culturas” e acrescenta: “Quanto à população rural, vítima do desenvolvimento excludente nos séculos XX e XXI, trata-se de uma demanda que deve acompanhar e complementar uma reforma agrária efetiva, trazendo dignidade plena a 14% dos brasileiros, atualmente dela privados” (73).

É uma “história” que, de tantas maneiras diferentes, se repete desde o surgimento do estado. Desde os antigos Egípcios, como desde os antigos Aztecas e Incas, na nossa Abya Yala, o aparelho estatal (palácio, tribunal, quartel, templo e escola) sempre esteve a serviço da exígua minoria que mora na “casa grande” e que controla o mercado, explorando a imensa maioria da “senzala” produtiva. Qualquer tentativa de revolta ou de mudança foi e continua sendo reprimida com força e brutalidade.

A nossa referência, porém, continuará sendo a “memória subversiva do Evangelho” de Jesus de Nazaré, crucificado como blasfemador e subversivo, por ter sido fiel ao Deus dos pobres e aos pobres da terra e por acreditar que a terra, com todos os seus bens, é “herança” de Iahweh para todos e todas.

Se, na realidade urbana, basta pouca terra para construir uma casa ou, até coloca-se casa sobre casa, nos edifícios de apartamentos, no mundo rural a casa é parte de um território essencial para a vida como um todo. 

Nas denúncias proféticas, casa e território andam sempre juntos: “Ai dos que juntam casa a casa, emendando campo com campo, até não sobrar espaço para mais ninguém!” (Is 5,8). “Ai dos que se desejam um campo, roubam-no, querem uma casa, ficam com ela. Tomam posse da casa e do dono, do campoe do proprietário” (Mq 2,1-2).

Palavras de extrema atualidade, pois o “agrobusiness”, sobretudo do boi, da soja e da madeira, e a “mineração” continuam concentrando terras, águas e riquezas; e o fazem, muitas vezes, ao arrepio da legislação, com a conivência e/ou a inoperosidade dos órgãos do estado. À lentidão do INCRA em demarcar os territórios dos posseiros, dos ribeirinhos e dos povos tradicionais, corresponde a rapidez dos cartórios que produzem documentos que têm “fé pública” e a partir dos quais, tribunais sentenciam, muitas vezes preliminarmente, o despejo de inteiras comunidades, legalizando a grilagem e a devastação de imensos territórios. 

Parecem ter sido ditas, hoje, as palavras seculares de Amós: “Ai dos que fazem do direito uma amargura e jogam a justiça ao chão (…) Pois eu sei como são numerosos os vossos crimes, sei como são pesados os vossos pecados, exploradores de inocentes, cobradores de suborno, que enganais o pobre no tribunal” (Am 5,7.12). 

A lei (Torah) garantia o direito à terra para todas as casas camponesas, mas os poderosos de turno a desprezavam, como gritava Miqueias: “Ouvi, chefes de Israel: Não é vossa obrigação saber o que é de direito? Mas sois inimigos do bem e apaixonados pelo mal (…) Construís Jerusalém com a injustiça. Seus chefes dão sentença a troco de uma propina, seus sacerdotes instruem em vista do lucro, seus profetas adivinham por dinheiro” (Mq 3,1.10-11). 

Ao longo dos séculos, profetas e profetisas, lutaram para manter vivo e sempre atual o projeto popular: “Quem fizer casas, nelas vai morar, quem plantar vinhedos, dos seus frutos vai comer. Ninguém construirá para outro morar, ninguém plantará para outro comer; meus eleitos vão gozar do fruto do seu trabalho” (Is 65,21-22). Um projeto cantado nos salmos: “os pobres herdarão a terra, vão se alegrar com uma paz imensa” (Sl 37,11). Uma certeza proclamada por Jesus: “Bem-aventurados os mansos porque herdarão a terra” (Mt 5,5).

Um projeto, porém, que não pode ser reduzido a um sonho futuro, pois é fruto de todas e todos que lutamos para que todos, a partir dos mais pobres, tenham Terra, Teto e Trabalho. Missão que papa Francisco entregou aos movimentos sociais populares, nossos “poetas sociais”.

O jejum que aprecio é este: solta as algemas, desata a canga, liberta os oprimidos e despedaça todo jugo. Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa os pobres sem teto” (Is 58,6-7).

É o que garante Jesus que não tinha onde deitar a cabeça: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei em herança o reino que desde sempre está preparado para vós (…) Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,34-36.40).

É o exemplo luminoso que nos deixam a mártir Ir. Dorothy e nossos e nossas mártires, testemunhas fiéis até à morte ao projeto do Pai e encarnado em Jesus de Nazaré. 

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