Putin volta à China e a pergunta de Xi continua no ar: “O que fazer?”

Na visita do líder russo a Beijing, uma citação literária feita por Xi no BRICS ajuda a pensar memória revolucionária, poder e futuro em um mundo em transição

por Iara Vidal, em Substack

“O que fazer?”

A pergunta atravessa a literatura russa, a Revolução de 1917, a história do socialismo e, curiosamente, reapareceu pela boca de Xi Jinping em Kazan, diante de Vladimir Putin, durante a Cúpula do BRICS de 2024.

Agora que Putin volta à China para mais uma visita de alto nível a Xi, essa referência me parece ainda mais interessante. Não pelo noticiário imediato da viagem, que já será amplamente coberto, mas pelo que ela revela das camadas simbólicas, históricas e ideológicas por trás da aproximação entre Beijing e Moscou.

Segundo a diplomacia chinesa, esta é a 25ª vez que Putin visita a China. Desde 2013, Xi e Putin se reuniram mais de 40 vezes; o presidente chinês esteve na Rússia 11 vezes, enquanto Putin veio à China 13 vezes apenas nesse período, seja em visitas de Estado, seja para participar de eventos internacionais. A contabilidade diplomática também é uma mensagem política: China e Rússia fazem questão de apresentar sua relação como algo denso, contínuo e estratégico em um mundo cada vez mais instável.

A visita, marcada para os dias 19 e 20 de maio de 2026, ocorre poucos dias depois da passagem de Donald Trump por Beijing e em meio à reorganização acelerada da ordem internacional. Na agenda oficial, os dois presidentes devem tratar de relações bilaterais, cooperação em diferentes áreas e temas internacionais e regionais de interesse comum.

Mas este texto não é exatamente sobre a agenda da visita.

É sobre uma pergunta.

Uma pergunta, não apenas uma visita

Em outubro de 2024, durante a 16ª Cúpula do BRICS, realizada em Kazan, Xi Jinping afirmou que o mundo atravessa um período de turbulência e transformação, diante de escolhas capazes de moldar o futuro. Em seguida, evocou o romance “O Que Fazer?”, de Nikolay Chernyshevsky, publicado em 1863.

À época do evento, escrevi um artigo para a Revista Fórum sobre essa fala de Xi Jinping. Deixo o link aqui para quem quiser retomar o contexto original. Mas resolvi voltar ao tema agora, diante de mais esse encontro entre Xi e Putin e, sobretudo, diante de tudo o que o mundo atravessou desde então. A pergunta, afinal, continua aberta: o que fazer?

Naquela fala oficial, Xi disse que a determinação inabalável e o impulso entusiasmado da protagonista do romance eram justamente a força de vontade necessária para enfrentar os desafios do presente.

A referência passou quase despercebida no noticiário. Mas, para mim, ela é reveladora.

Chernyshevsky não foi apenas um escritor russo. Foi um dos nomes centrais da tradição revolucionária do século 19, crítico do czarismo, defensor da emancipação social e influência decisiva sobre gerações de militantes russos. Seu romance “O Que Fazer?” se tornou uma espécie de manual sentimental e político para jovens revolucionários.

O livro conta a história de Vera Pavlovna, uma jovem que rompe com uma família repressiva, escapa de um casamento arranjado e busca construir uma vida autônoma. Ao longo da narrativa, Vera cria uma oficina de costura cooperativa, símbolo de independência econômica e emancipação feminina.

O romance combina socialismo utópico, crítica à opressão de classe, defesa da liberdade individual e uma visão radicalmente nova das relações afetivas e sociais.

Chernyshevsky, Vera Pavlovna e Lenin

Não por acaso, Vladimir Lenin ficou profundamente impactado pela obra. Décadas depois, em 1902, deu a um de seus textos políticos mais importantes o mesmo título: “O Que Fazer?”. O ensaio leninista se tornaria uma das bases da organização revolucionária que desembocaria na Revolução Russa de 1917.

É aí que a referência de Xi ganha densidade política.

Ao citar Chernyshevsky em Kazan, Xi não citou apenas um clássico da literatura russa. Citou um autor que alimentou a imaginação política de Lenin, figura incontornável da história russa e soviética, mas também objeto de disputas, releituras e incômodos na Rússia contemporânea.

Isso não significa que Xi tenha feito uma provocação direta. A diplomacia chinesa costuma trabalhar com camadas, alusões e escolhas cuidadosamente calculadas. Mas a citação revela algo interessante: diferentes formas de lidar com a história revolucionária.

Para Putin, a memória soviética aparece frequentemente filtrada pela ideia de Estado, potência, estabilidade e continuidade histórica. Para Xi, a tradição revolucionária aparece como energia política, disciplina coletiva e capacidade de transformação.

A pergunta “O que fazer?” deixa de ser apenas uma referência literária e passa a funcionar como método: diante da desordem global, qual caminho seguir?

Memória, poder e imaginação política

É por isso que a citação de Chernyshevsky continua interessante. Ela desloca a visita de Putin a Beijing do terreno imediato da diplomacia para outro campo: o da memória, da linguagem política e da imaginação de futuro.

Quando Xi Jinping evoca “O Que Fazer?”, não está apenas citando um clássico russo. Está recolocando no centro do debate uma pergunta que nasce na literatura, atravessa a tradição revolucionária e chega ao século 21 como interrogação estratégica.

O que fazer diante de uma ordem internacional em transição?

O que fazer quando velhas hierarquias já não dão conta de organizar o mundo?

O que fazer quando o Sul Global busca mais voz, mais autonomia e mais capacidade de definir seus próprios caminhos?

A força da referência está justamente aí. Em vez de oferecer uma resposta simples, Xi recupera uma pergunta. E perguntas, às vezes, dizem mais do que declarações diplomáticas.

Na boca de Xi, “O Que Fazer?” deixa de ser apenas o título de um romance russo do século 19. Torna-se uma chave para pensar o presente: como agir em um mundo turbulento, como construir estabilidade sem aceitar submissão, como imaginar futuro em meio à disputa entre projetos de ordem global.

A visita de Putin à China, nesse sentido, não interessa apenas pelo protocolo, pelos comunicados oficiais ou pelas fotografias entre dois líderes. Interessa também pelo que ela permite observar nas entrelinhas: a disputa contemporânea não é apenas por mercados, rotas, tecnologia ou influência. É também uma disputa de memória, repertório histórico e imaginação política.

E, nesse terreno, uma pergunta escrita por um socialista russo na prisão há mais de 160 anos ainda atravessa a mesa entre Xi Jinping e Vladimir Putin:

o que fazer?

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