Após denúncias, gestão Nunes aditou R$ 49 mi à ONG de produtora de Dark Horse

Contrato de Wi-Fi com a ONG Instituto Conhecer Brasil sobe para R$ 157 milhões; MP investiga possíveis irregularidades

Por Leonardo Fuhrmann | Edição: Thiago Domenici, Agência Pública

A gestão de Ricardo Nunes (MDB) na Prefeitura de São Paulo fez um aditamento de R$ 49 milhões ao contrato com a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB). A entidade é presidida por Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse — cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. 

A renovação dos valores ocorreu poucos dias após a publicação das primeiras denúncias de irregularidades no contrato assinado em 2024 que previa a instalação de 5 mil pontos de Wi-Fi em áreas periféricas da cidade de São Paulo, com um custo inicial de R$ 108 milhões.

Ao longo de 2025, a prefeitura firmou quatro aditamentos ao contrato original, uma vez que a meta contratada não seria atingida. Os três primeiros termos serviram para estender os prazos de entrega e antecipar pagamentos. O quarto aditamento, assinado em 16 de dezembro de 2025, elevou o valor total para mais de R$ 157 milhões. 

A meta foi reduzida para atender 3,2 mil pontos, o equivalente a 64% do volume originalmente contratado. A justificativa apresentada no documento foi a manutenção dos pontos já instalados até o final de 2026. O texto não apresenta previsão para a entrega do restante da meta à população.

Além do montante, o momento da assinatura do quarto aditamento também chama a atenção. Seis dias antes, o Intercept Brasil publicou uma reportagem que revelou a relação entre a prefeitura e a entidade presidida por Karina Ferreira da Gama. O texto destacou que a dirigente não tinha atuação comprovada no fornecimento de redes Wi‑Fi e expôs que era dona da Go Up Entertainment, responsável por Dark Horse.

A reportagem também mostrou que Karina presidia a Academia Nacional de Cultura (ANC). A instituição recebeu R$ 2,6 milhões em emendas parlamentares dos deputados federais do PL Bia Kicis, Marcos Pollon, Carla Zambelli e Alexandre Ramagem (os dois últimos atualmente foragidos da Justiça), além do deputado estadual Gil Diniz. O recurso era destinado à produção de uma série conservadora, que não foi realizada. A ANC também recebeu R$ 1 milhão do então vereador Atílio Francisco (Republicanos) para um festival de dança ligado à Igreja Universal. Karina não respondeu aos contatos feitos pela reportagem.

O próprio ICB obteve duas emendas parlamentares, no valor de R$ 1 milhão cada, para projetos de naturezas distintas: incentivo ao esporte e letramento digital. O autor dos repasses foi o deputado federal Mario Frias (PL-SP), creditado como produtor-executivo e roteirista de Dark Horse. Ele também atua no filme, interpretando o médico que opera Bolsonaro.

Outra empresa de Karina, a Conhecer Brasil Assessoria, Produção e Marketing Cultural, prestou serviços à campanha de Mário Frias à Câmara dos Deputados em 2022, no valor de R$ 54 mil. A mesma empresa atendeu à campanha de Felipe Carmona, então número 2 da Secretaria de Cultura, que foi candidato a deputado estadual e não se elegeu, e recebeu R$ 13 mil.

Alertas prévios e investigações em curso

No dia 10 de dezembro do ano passado, o vereador Nabil Bonduki (PT) ingressou com uma representação no Ministério Público de São Paulo (MP-SP). Ele solicitou a investigação do chamamento público para a seleção da empresa fornecedora de Wi-Fi, processo no qual apenas a entidade de Karina apresentou proposta. No dia seguinte, a deputada federal Luciene Cavalcante, o deputado estadual Celso Giannazi e o vereador Carlos Giannazi (todos do PSOL) pediram ao MP-SP a apuração da responsabilidade de Ricardo Nunes.

O inquérito civil que investiga o caso foi instaurado em janeiro. A 2ª Delegacia da Divisão de Investigações sobre Crimes contra a Administração do DPPC (Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania), da Polícia Civil de São Paulo, também conduz uma apuração.

As reportagens e os pedidos de investigação não foram os primeiros sinais de problemas na contratação. Um relatório do Tribunal de Contas do Município (TCM) já havia apontado falhas antes da assinatura do contrato. O documento destacou a ausência de estudo técnico preliminar e de comprovação de que o chamamento público para organizações da sociedade civil era a melhor solução técnica. O TCM também criticou a fragilidade dos critérios para avaliar a capacidade técnica e operacional da entidade, bem como a ausência de audiências e de consultas públicas.

Os auditores do TCM alertaram para a possibilidade, prevista no edital, de a organização subcontratar empresas privadas para prestar o serviço, o que foi efetivado pela entidade de Karina. O tribunal defendeu que o mapeamento deveria ter sido realizado previamente pelo poder público, e não pela própria contratada. O relatório apontou a ausência de parâmetros técnicos fundamentais para a utilização da internet, a segurança de dados, a fiscalização e o monitoramento da qualidade do serviço, além de falhas na estruturação da execução orçamentária.

Financiamento e conexões políticas

O caso ganhou novos desdobramentos neste mês. Um áudio divulgado pelo Intercept revelou que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro, acusado de fraudes na gestão do Banco Master, para financiar o filme sobre seu pai, produzido pela empresa de Karina.

Em outro áudio, Mario Frias agradece a Daniel Vorcaro pelo apoio ao filme. Atualmente, o deputado é alvo de apuração preliminar no Supremo Tribunal Federal (STF) por suposto desvio de finalidade na destinação de R$ 2 milhões ao Instituto Conhecer Brasil, recursos que poderiam ter sido destinados à produção cinematográfica.

Nesta segunda-feira, 25 de maio, Frias enviou uma manifestação ao STF negando qualquer irregularidade nas emendas. Antes disso, um oficial de Justiça tentou intimá-lo cinco vezes, sem êxito. O parlamentar está em viagem ao exterior, que não é considerada oficial pela Câmara dos Deputados.

Recentemente, a Agência Pública mostrou que Karina estreitou laços com a administração paulistana após a eleição de Nunes. Os pagamentos por serviços prestados pelas empresas e entidades ligadas a ela continuaram, mesmo após funcionários da prefeitura registrarem dificuldades de contato.

O que diz a gestão Nunes

Em nota, a gestão Nunes afirmou que “os pontos de Wi‑Fi Livre viabilizados pelo Termo de Colaboração com o ICB seguem em pleno funcionamento com 3.200 pontos instalados, que registram cerca de 760 milhões de acessos”. Sobre o aditamento, a prefeitura declarou que “teve por finalidade a continuidade da prestação dos serviços dos pontos já em operação, o que inclui manutenção, fornecimento contínuo de sinal de internet, monitoramento de rede em tempo real, substituição de ativos vandalizados ou furtados, eventuais remanejamentos técnicos para melhoria do sinal, entre outros”.

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