O bolsonarismo opera como um partido político genuíno, organizado, disciplinado e financeiramente bilionário, mas que se mantém na clandestinidade
1.
Acontece nas famílias mais fofas. Na sua também, pode admitir. Aos poucos, meio assim do nada, vai aparecendo lá um sobrinho amuado, uma tia falastrona ou um primo de segundo grau com sintomas esquisitos. Primeiro, discretos. Depois, desinibidos. Até que, num dia aleatório, numa terça-feira à tarde, num feriado modorrento ou numa noite de domingo, o quadro fica patente e escarrapachado. O cidadão ou a cidadã assume de vez o seu bolsonarismo extremofrênico. Aí, é tarde demais.
Nos primeiros surtos, há quem tente argumentar. E o desmazelo com a Covid? O familiar em questão desconversa. E o contrabando de joias? Fake news. E o apoio aos torturadores? Olhos baços se desviam na direção do teto. Só resta desistir. Não tem cura. Por favor, não vá falar do Banco Master. É perigoso, pode gerar reações inamistosas. Na dúvida, não arrisque. E nunca, em hipótese alguma, fale disso na frente das crianças. Exorcismo não funciona.
No princípio, há uns dez anos, a eclosão de casos tinha contornos de epidemia aguda, que logo evoluiu para uma pandemia fora de controle. As pessoas infectadas são distintas umas das outras, mas, de repente, todas assumem trejeitos idênticos, num mimetismo crônico, num automatismo intrigante. O bolsonarismo é pura repetição robotizada.
Até na hora de disfarçar o indisfarçável, os tipos seguem condutas iguais. Todos eles organizam o whatsapp da turma da escola, aquela que se formou há vinte, quarenta ou sessenta anos. Todos eles disparam mensagens de autoajuda intercaladas com uns videozinhos de amor à cerveja. Depois vem lá, sub-reptícia, uma ode a Donald Trump. Nenhuma surpresa. O protocolo é invariavelmente o mesmo, copiado, previsível e sufocante.
Então você se questiona: mas de onde vem todo esse acervo de tolices meticulosamente editadas para o celular, em escala industrial? De onde vem tanto mau gosto? Quem abastece as torrentes de sandices? Quem são os fornecedores? Onde ficam os estoques de patacoadas? E mais: como os difusores do contágio conseguem atuar de forma tão coesa? O que explica tanta uniformidade no bojo de alucinação que acomete milhões? Como sujeitos tão diferentes assumiram um padrão de comportamento tão unificado (e tão desagradável)? O que transformou o fanatismo fascista nessa poderosa tropa digital?
2.
As respostas podem não estar apenas na psicologia social ou nas enfermarias psiquiátricas. Talvez a medicina tenha pouco a dizer, por mais que a proliferação dos desvarios carregue tantos indícios de demência clínica. Agora, pistas valiosas nos chegam da ciência política. É ela quem tem as lentes que nos deixam ver o lado de dentro do monstrengo que, antes, só conseguíamos observar pelo lado de fora.
No furor das massas hipnotizadas, no abominável histrionismo de extrema direita, dentro daquele feixe caudaloso de desvios comportamentais, mora um bicho inesperado. A sanha de ódio surdo que atropela as boas maneiras domésticas tem por trás de si o arcabouço e a essência de um – pode acreditar – partido político muito bem azeitado.
O bolsonarismo não é só um amontoado de milícias digitais em transe, assim como não é apenas um movimento de redes sociais animadas influencers ensandecidos. Esse negócio não é só um sucesso de comunicação. Acima de tudo e acima de todos, é um fenômeno de organização profissional: um partido amarrado por uma disciplina férrea. Pior ainda, é um partido na clandestinidade: sua atuação é pública, mas sua máquina é secreta. O partido do bolsonarismo nunca se registrou na Justiça Eleitoral e não presta contas a ninguém. Age como um aparelho influente e centralizado, mas, diferentemente das siglas partidárias normais, não tem existência oficial nem personalidade jurídica.
O conceito – inédito e desconcertante – está muito bem exposto e defendido no livro organizado pelos cientistas políticos do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Título: Partido digital bolsonarista. Trata-se de “um partido autêntico e não de um conjunto de episódios de atuação mais ou menos coordenada nas redes”, ainda que não caiba “nas definições habituais encontradas no debate público e na literatura especializada sobre o que seja um partido”. A análise se apoia em uma pesquisa sólida, que se estendeu por três anos, e em bases teóricas depuradas.
Os organizadores avisam que o estudo ainda é “exploratório, incipiente e preliminar”. O que eles descortinam, contudo, joga uma luz pioneira sobre um aparato bilionário que se escondia nas trevas. O partido digital bolsonarista aprendeu a se valer de todas as plataformas disponíveis na internet para desenvolver uma “dinâmica partidária” própria, com “mecanismos de coordenação” típicos do mundo digital, “não dos partidos convencionais”.
Em linguagem simples, quase jornalística, a obra explica muita coisa, inclusive as abduções teleguiadas daquele seu parente distante, ou mesmo próximo. O livro pode ser acessado e baixado, gratuitamente, no site do Cebrap (https://pdb.cci-cebrap.org.br). Vale a leitura.
*Eugênio Bucci é professor titular na Escola de Comunicações e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de Incerteza, um ensaio: como pensamos a ideia que nos desorienta (e oriente o mundo digital) (Autêntica). [https://amzn.to/3SytDKl]
Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.




