Repórter da TV Globo quebra protocolo e faz denuncia ao vivo ao ser abordada de forma discriminatória em aeroporto nos Estados Unidos; casos de discriminação e vistos barrados são destaques na Copa do Mundo de 2026
Por Ana Beatriz Klen, graduanda de Jornalismo pela UFJF
A repórter brasileira, Karine Alves, denunciou em um desabafo ao vivo sobre abordagem racista de funcionários do aeroporto que desembarcou nos Estados Unidos para a cobertura da Copa do Mundo de 2026, que começou nesta quinta-feira, 11. “Quando eu cheguei nos Estados Unidos, eu não entendi direito, mas pediram para eu levantar o meu cabelo só que de uma forma um pouco ríspida. Eu fiquei sem ação, mas consegui entender no final de tudo e levantei o cabelo,” relata a jornalista após passar por abordagem e revista diferentes na imigração.
Karine contou que a situação das revistas com tais pedidos, é frequentemente direcionada para as mulheres negras que chegam no país norte-americano. “Muitas mulheres negras passam por isso e reclamam disso na chegada aos Estados Unidos”. A jornalista terminou o relato explicando que foi uma situação pontual, porém, que seus outros colegas de profissão não foram submetidos à mesma revista ao chegarem no país.
A fala foi feita no programa Bom Dia Brasil desta terça-feira (9), em conversa com Ana Paula Araújo sobre o esquema de segurança adotado pelas autoridades estadunidenses. As jornalistas comentavam sobre a abordagem de revista feita com a delegação do Senegal na pista do aeroporto que foi repercutida nas redes sociais.
Não é um caso isolado
Com estrutura inédita, a Copa do Mundo da FIFA 2026 está sendo sediada por três países pela primeira vez na história: Canadá, Estados Unidos e México. O mundial contará com 104 partidas e os Estados Unidos é o país que sediará a maior parte dos jogos com 78 jogos (incluindo todas as fases eliminatórias a partir das quartas de final e a grande final). Canadá e México, ambos, sediam 13 jogos, dando ao todo 26 jogos nos dois países.
Sendo o país com mais partidas e pela sua posição geopolítica recente, os Estados Unidos de Trump, com suporte da FIFA, está sendo palco de violações dos direitos humanos contra seleções de países africanos, do oriente médio, torcedores e profissionais com passaportes de países do Sul Global.
O Núcleo de Jornalismo e Audiovisual (NJA) separou uma série de polêmicas envolvendo a Copa do Mundo da FIFA 2026 antes mesmo dela ter começado.
Principal jogador do Iraque é interrogado por 7 horas ao chegar nos EUA para o mundial
Aymen Hussein, atacante e autor do gol da classificação para a Copa, passou por etapas de investigação e verificação antes de ser liberado pela imigração dos Estados Unidos. A informação é da agência de notícias “Shafaq News”.
Segundo a agência, Aymen Hussein foi detido pelas autoridades de imigração do aeroporto de Chicago, onde o Iraque se preparou para a Copa do Mundo. Os procedimentos de investigação duraram 7 horas antes do jogador conseguir ser liberado.
Árbitro da Somália é deportado dos EUA e barrado apitar na Copa do Mundo e volta para seu país
O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan foi barrado de entrar no território dos Estados Unidos e deportado ao entrar no país. O caso aconteceu nesta segunda-feira (8) logo após Artan desembarcar. EUA e Fifa não explicaram a decisão, tomada em contexto maior de cerceamento aos vistos dos cidadãos do país africano. Informações são do “Brasil de Fato”.
Omar Abdulkadir Artan foi eleito o melhor melhor árbitro da Confederação Africana de Futebol (CAF) em 2025 e é o primeiro representante da Somália a ser escalado para uma Copa do Mundo.
Segundo informações do Brasil de Fato, o árbitro recebeu o visto para os Estados Unidos após mobilização da embaixada da Somália, que o auxiliou na obtenção de um passaporte diplomático. No entanto, os agentes de imigração barraram sua entrada no país. O caso de Omar Artan está inserido em um cenário de obstáculos para a entrada de pessoas de determinadas nacionalidades nos Estados Unidos. Jornalistas de países africanos e do Irã tiveram seus vistos recusados para a cobertura da Copa do Mundo. A seleção do Irã acusou o governo dos Estados Unidos de negar vistos para sua comissão técnica.
Jogadores do Senegal tiveram revista irregular em aeroporto dos EUA
A delegação do Senegal foi submetida a revisão de segurança ríspida ao desembarcarem nos Estados Unidos para a Copa do Mundo. Inspeções com detectores de metais foram feitas e revisando até seus sapatos e solas dos pés, jogadores e profissionais da delegação senegalesa ficaram sob supervisão constante da polícia local; tudo isso logo após descerem do avião antes de chegar na área de desembarque do aeroporto.
De acordo com relatos e registros divulgados nas redes sociais, a inspeção foi conduzida por agentes de segurança e imigração dos Estados Unidos, seguindo os protocolos de controle de entrada no país. Embora as autoridades dos Estados Unidos considerem o procedimento uma ação comum, a maneira como foi realizado chamou a atenção pela possível motivação preconceituosa.
Isso representa a Copa do Mundo? Isso representa os Estados Unidos?
Eventos de natureza discriminatória, racista e xenofóbica, infelizmente, estão surgindo de forma recorrente no território dos Estados Unidos de Donald Trump. Essas situações não podem mais ser consideradas eventos isolados visto tamanha campanha contra imigrantes e movimentos de imigração para o país norte-americano promovida ferrenhamente por seu presidente.
A Copa do Mundo sempre foi considerada um evento de celebração da diversidade, união e “quebra de preconceitos” onde o mundo todo torce e se reúne por um motivo: a celebração do esporte e empenho de torcer pelo seu país. Hoje, com com os casos relatos e muitos outros que aconteceram antes mesmo da abertura oficial do mundial, não é possível celebrar a diversidade onde as próprias delegações e profissionais que atuarão na copa estão passando por embargos burocráticos dificultando suas participações.
Um evento de tamanha magnitude estar sendo sediado em um país que, hoje, é um dos que mais busca retaliação contra imigrantes em seu território, pessoas negras e latino-americanas, é uma vergonha patrocinada diligentemente pela FIFA.
Como a mídia brasileira está cobrindo esses casos?
A denúncia da repórter Karine Alves, da TV Globo, não ficou restrita ao ao vivo no Bom Dia Brasil. Pelo contrário, o episódio desencadeou uma cobertura ampla, crítica e com desdobramentos institucionais significativos por parte da imprensa brasileira e perfis de comunicação.
Veículos e portais como Veja, Diário do Centro do Mundo, Meteoro Brasil e Revista Fórum repercutiram o relato da jornalista, dando ao constrangimento racial o mesmo peso editorial dado às polêmicas envolvendo delegações inteiras. A comoção foi tamanha que a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) emitiu nota oficial denunciando o sexismo e discriminação que afetam os profissionais de imprensa.
A presidente da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ), Zuliana Lainez, afirmou: “Estamos acompanhando de perto qualquer violação dos direitos de jornalistas e profissionais da mídia durante a Copa do Mundo. Todos os profissionais da mídia têm o direito de exercer seu trabalho em condições de segurança, dignidade e igualdade, livres de qualquer forma de discriminação com base em raça, gênero ou nacionalidade. O respeito à liberdade de imprensa e aos direitos dos profissionais da mídia deve ser mantido em todos os momentos durante o torneio.”
A imprensa brasileira não tratou a experiência de Karine como um evento pontual. Pelo contrário: conectou sua revista de cabelo às imagens da delegação do Senegal sendo revista de forma “ríspida” ainda na pista do aeroporto e o árbitro deportado da Somália. A CNN Brasil e outros portais mostraram como a própria repórter usou seu exemplo para ilustrar um padrão de tratamento direcionado a pessoas negras e a cidadãos de países do Sul Global. O GE publicou reportagem sobre o debate geopolítico que a Copa tem levantado pelas atitudes e restrições feitas pelos EUA e o G1 trouxe uma comparação na recepção feita pelos países sede do mundial, México e Estados Unidos.
A cobertura da mídia foi amplificada pela reação nas redes sociais, que também se tornou notícia. Perfis de veículos no Instagram e X (antigo Twitter) compartilharam os casos:
A chegada aos EUA de alguns profissionais envolvidos na disputa da Copa do Mundo está gerando controvérsias pela abordagem da imigração norte-americana.
Um vídeo que circula nas redes sociais mostra a delegação de Senegal sendo abordada ainda na pista – ou seja, antes mesmo de… pic.twitter.com/Je4Mlb5oSC
— g1 (@g1) June 9, 2026
O compartilhamento dos casos têm repercussão mais rápida e engajada nas redes sociais como Instagram e X. É ali que o debate ganha força, que as denúncias viralizam e que o público, de fato, consegue dimensionar a gravidade do que está acontecendo.
O compartilhamento dos casos e do tratamento dos EUA para com outros países, torcedores e delegações é muito importante para denunciar os abusos que têm acontecido e abrir os olhos do público para a realidade vivida nos Estados Unidos: um país com um projeto de política discriminatório e voltado contra os que “não são seus” ou que “não pareçam americanos” – o que quer que “parecer americano” signifique na mente de Trump.
Por outro lado, apesar da denúncia de Karine ter sido em um telejornal ao vivo durante a exposição do caso da delegação do Senegal na pista do aeroporto, a cobertura televisiva do caso na mídia tradicional ainda aparece tímida, tendo foco mais em vídeos e reproduções do que já viralizou nas redes, como se o jornalismo televisivo tivesse perdido a dianteira da própria pauta para o celular na mão do cidadão em relação aos casos apresentados da Copa do Mundo da FIFA 2026. Sem se aprofundar para apresentar para o público quais as motivações e cenário geopolítico por trás de tantas ocorrências hostis contra jogadores, delegações profissionais de imprensa e torcedores do Sul Global, a mídia tradicional brasileira fica presa pelas possíveis amarras editoriais empresariais em suas redações.




