Em Romaria, povos da terra, das águas e das florestas ecoam gritos em defesa da natureza e de seus modos de vida

As águas profundas do Cerrado transbordaram em resistências que alagaram o Pantanal, durante a II Romaria Nacional do Cerrado e I Romaria do Pantanal, em Corumbá/MS

Por Júlia Barbosa e João Palhares*, em CPT

“Viemos para dizer que nesses biomas, Cerrado e Pantanal,
insistem, existem e re-existem no direito de existir […]
a diversidade dos povos e comunidades tradicionais,
defendendo e preservando o equilíbrio de seus complexos
ecossistemas, e respeitando como obra da criação divina”
(Trecho da Carta da II Romaria do Cerrado e I Romaria do Pantanal)

A força da espiritualidade na luta coletiva pela Terra Sem Males, do Cerrado ao Pantanal, sustentou os passos de centenas de romeiras e romeiros durante a II Romaria do Cerrado e I Romaria do Pantanal, que reafirmaram suas re-existências e modos de vida, e denunciaram as violações do agrohidronegócio em sua Carta-Final (leia na íntegra ao final da matéria). O documento, escrito coletivamente, foi inspirado pelo lema da Romaria e construído a partir dos depoimentos e vivências compartilhadas, durante os dias de evento, pelos povos da terra, das águas e das florestas. 

Das profundezas das raízes e dos veios d’água subterrâneos que sustentam o Cerrado é que transbordam as resistências que alagam os territórios do Pantanal. Na carta, povos cerradeiros e pantaneiros ecoam os gritos da natureza e dos viventes, como afirmou a anciã Terena Maria Belizário: “O rio está gritando, a mata está gritando, os animais estão gritando. Nosso grito é o grito da terra, da dor do nosso território”, durante o intercâmbio vivenciado na Aldeia Mãe Terra, área de Retomada do Território Indígena Cachoeirinha, em Miranda/MS.

Durante a caminhada às margens do Rio Paraguai, várias vozes se ergueram em defesa da natureza e do futuro da humanidade, como expressou a anciã Guarani Edite: “Estamos aqui juntos, reunidos, para lutar, para nos ajudar a curar a nossa terra, a cuidar das nossas águas e das nossas matas, porque senão, meus filhos, quando a Terra afundar, nós também morreremos com ela”, alertou. Ao seu lado, a jovem Clara Lúcia Cunhã Potyrandi Guarani, também representando seu povo, relembrou que a Terra é uma herança divina: 

“As árvores têm espírito, os animais têm espírito. Toda a natureza tem espírito. Temos que lutar para defender a natureza, que é uma herança deixada a nós por Nhanderu”, manifestou a liderança. 

São muitos os sentidos da realização dessa Romaria com a reunião de povos dos dois biomas, segundo Isolete Wichinieski, da Articulação das Comissões Pastorais da Terra do Cerrado e da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado. Para ela, o encontro buscou fortalecer as conexões já profundas entre as águas e solos do Cerrado e Pantanal, para a proteção e defesa de seus povos, guardiões de toda essa biodiversidade, contra as violências historicamente perpetradas pelo agronegócio e intensificadas pelas diferentes expressões do capitalismo no campo, como a mineração e os grandes projetos de infraestrutura que ameaçam a vida nos territórios.

A força das águas e das raízes que resistem no Cerrado e no Pantanal encontra eco nas caravanas que viajaram milhares de quilômetros para compartilhar o horizonte da Romaria. O intercâmbio de vivências revelou que, independentemente das distâncias, as ameaças e as estratégias de resistência dos povos tradicionais se encontram nas encruzilhadas quando se caminha em Romaria. Sair do Maranhão até o território pantaneiro de Mato Grosso do Sul, para o coordenador operativo da Agro é Fogo, Raimundo Alves, é um ato essencial para “reafirmar esse compromisso de luta e defesa em prol da agroecologia”, além de compartilhar as experiências no enfrentamento à ofensiva do agronegócio. 

Raimundo destacou que a Romaria é uma rede importante para o fortalecimento de articulações contínuas. “Os processos do agronegócio e da mineração só tendem a destruir ainda mais a nossa perspectiva de vida”, refletiu. Diante de um modelo que, como alertam os povos da terra, das águas e das florestas, adota estratégias de morte, o maranhense acredita que a resposta coletiva a esse sistema não é apenas um contraponto, mas uma prática de vida: a agroecologia. “Ela [agroecologia] é o único modo possível hoje de resiliência, de convivência e de justiça social”, analisa. 

Confluências

Em agenda intercorrente, os últimos dias da programação abraçaram o debate sobre os caminhos de defesa das águas do Pantanal. Sobretudo, por meio da audiência pública “Ferrovia Sim, Hidrovia Não” e Seminário Estadual de Educação do Campo.

Na tarde da sexta-feira (5/7), educadoras, lideranças, estudantes e povos do campo, das águas e das florestas se reuniram no Seminário Estadual de Educação do Campo para partilhar experiências, desafios e sonhos construídos nos territórios. O encontro, promovido pelo Comissão Pastoral da Terra – regional de Mato Grosso do Sul e pela Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul (FETEMS), teceu laços com a programação da Romaria enquanto espaço estratégico para reafirmar a educação como uma ferramenta fundamental de resistência, de permanência e de transformação social.

A atividade também foi marcada por uma certeza que ecoou entre todos os presentes: a de que sem Educação do Campo não há caminhos possíveis para as comunidades camponesas e tradicionais. As comunidades querem, e assim reafirmaram, a necessidade de construção contínua de uma educação contextualizada, que dialogue com a realidade local e valorize os saberes populares. “Defender esse modelo educacional é, essencialmente, defender o direito de existir, de produzir, de viver e de permanecer na terra”, citou uma liderança camponesa durante o encontro. 

Há algumas ruas da plenária, na Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul, em Corumbá, representantes da sociedade civil, pesquisadoras e povos da terra, das águas e das florestas  se reuniram para discutir os impactos da proposta de implantação da hidrovia no Rio Paraguai. O encontro, proposto pelo deputado estadual Pedro Kemp (PT/MS), resultou em encaminhamentos políticos para levar a pauta ao Governo Federal e ampliar a mobilização em defesa da terra-território.

A atividade também foi marcada pela presença da liderança Onísio Guató e povos da etnia Guató, conhecidos pela ocupação histórica da região pantaneira . Em seus relatos, partilharam a relação ancestral de sua comunidade com os rios do Pantanal e reafirmaram que a preservação das águas está diretamente ligada à continuidade física, cultural e espiritual dos povos originários. Na cosmovisão Guató apresentada, seus corpos também são rios, e que não há futuro possível para o Pantanal sem a escuta e a participação daqueles que historicamente vivem, conservam e conhecem suas águas.

A Feira Cultural e Ecológica da Romaria do Cerrado e Pantanal também integrou a programação de atividades, promovendo um espaço de encontros, valorização das produções das comunidades camponesas e dos saberes dos povos do campo, das águas, das florestas. Além da exposição e comercialização de produtos e artesanatos, a Feira também acolheu apresentações culturais e artísticas, que celebraram a diversidade e identidade dos povos do Cerrado e Pantanal, além de fortalecer as diversas expressões das tradições e dos modos de vida dos povos como faces de suas lutas e resistências.

Leia na íntegra a Carta-Final da II Romaria do Cerrado e I Romaria do Pantanal:

“E DEUS VIU QUE TUDO ERA MUITO BOM” (GN, 1,31)

“Nós, participantes da II Romaria do Cerrado e I Romaria do Pantanal, viemos de diferentes estados dos biomas Cerrado e Pantanal, dizer para a sociedade: 

Que o lema da romaria, “No Cerrado e Pantanal correm os segredos sagrados das águas”, vem carregado de significados. Significados de Ecologia, sabedoria ancestral, espiritualidade e reverência pela natureza. É uma maneira bonita de dizer que nesses biomas existe uma inteligência natural profunda, essencial para a vida de todos os seres viventes. Existem nascentes escondidas no Cerrado donde saem rios que abastecem grandes bacias brasileiras. O ciclo das cheias do Pantanal do qual depende o equilíbrio delicado entre chuva, rios, solo e vegetação. Sem estas águas desaparecem animais, plantas, culturas e modos de vida.

Viemos para dizer que onde antes havia uma nascente, havia brejo, onde se ouvia o cantar dos insetos, hoje restou a poeira dos grandes maquinários do agrohidronegócio.

Viemos para dizer que as queimadas no Pantanal sufocam o céu, expulsam animais e deixam cinzas no lugar da esperança, rompendo o equilíbrio das águas do Pantanal.

E há quem chame isso de progresso.

Viemos para denunciar que estes biomas estão ameaçados pelo desmatamento, pelas queimadas, pelos monocultivos de soja, cana, eucalipto, pelos agrotóxicos, pela exploração dos minérios e pelas agressões aos povos indígenas e às comunidades tradicionais. Que o desmatamento reduz a biodiversidade essencial para o equilíbrio do ecossistema e para o alimento para os animais.

Denunciamos a ação das mineradoras, siderúrgicas, agrohidronegócio, grupos empresariais, ferrovias, hidrovias, que muda a paisagem do Cerrado e Pantanal e impacta os modos de vida dos povos e comunidades tradicionais.

Denunciamos a falta de vontade política dos governos estaduais e municipais pela falta de implementação e execução de políticas públicas e garantia dos direitos básicos de educação, saúde, energia, demonstrando de forma clara o racismo institucional dos estados e municípios nesses territórios.

Viemos dizer as autoridades municipais, estaduais e federais, responsáveis por grande parte do que as águas do Pantanal e do Cerrado vêm sofrendo, que há sinais concretos de que estes biomas podem virar deserto com as mudanças climáticas, grilagem de terras, expropriação e privatização das águas, agravando-se com a construção da hidrovia no rio Paraguai.

Viemos para dizer que o silêncio diante dessa destruição também queima. E que entre o silêncio imposto e a vida que insiste e resiste, cabe a nós decidir que paisagem queremos legar para futuras gerações.

Viemos para dizer que é possível ter um outro modelo de desenvolvimento com produção de forma agroecológica respeitando a natureza e as pessoas.

E por fim, viemos para dizer que nesses biomas, Cerrado e Pantanal, insistem, existem e re-existem no direito de existir, há alguns séculos, na força da ancestralidade, na luta das mulheres, nas retomadas indígenas, na reforma agrária, nas teias, redes e coletivos que se conectam, na agroecologia e na organização coletiva para produção de alimentos, na troca de saberes, sabores, histórias e memórias, na diversidade dos povos e comunidades tradicionais, defendendo e preservando o equilíbrio de seus complexos ecossistemas, e respeitando como obra da criação divina.”

*Comunicação nacional da CPT e Articulação Agro é Fogo – Da equipe de comunicação da II Romaria Nacional do Cerrado e I Romaria do Pantanal

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