Esquerda divide-se em rótulos. Governo seria “neoliberal” ou “neodesenvolvimentista”? As duas leituras erram: desarmam uma crítica que poderia derrotar a ultradireita em 2026 e construir estratégias para um novo projeto de país
Por Pedro Paulo Zahluth Bastos, em Outras Palavras
Mais de 23 anos depois de Lula assumir a presidência pela primeira vez, seu modo de governo continua um enigma não resolvido, pelo menos entre intelectuais de esquerda. Jones Manoel (Altman e Manoel, 2025) e David Deccache (2025) asseguram que o terceiro governo Lula é neoliberal, enquanto Marina Lacerda (2026) adverte que o risco do PT é tornar-se um gestor competente, porém conformista, inteiramente inserido no status quo neoliberal. Paulo Kliass (2025) mapeia avanços e contradições com a balança pendendo para o mesmo veredito. Gilberto Maringoni (2026) constata um “Lula contra Lula”, em que o presidente governante atrapalha o candidato combativo idealizado pelos pobres do país. O próprio Lula parece concordar com seus críticos, ao discursar no evento da Mobilização Progressista Global em Barcelona (18/04/2026):
“O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda sim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente agora como antissistema” (Planalto, 2026)
O diagnóstico crítico não é unânime, pelo menos não em sua ausência de nuances. Em debate acalorado com Jones Manoel, Breno Altman (2025) insistiu no caráter híbrido do governo: um socialdesenvolvimentismo limitado pelo neoliberalismo, a ser criticado e, ao mesmo tempo, defendido contra a extrema direita. Altman, contudo, enxergava o governo como representante inequívoco do interesse dos trabalhadores contra a burguesia, o que, a meu ver, inviabiliza o entendimento dos conflitos internos ao governo. O mesmo problema, em registro mais acadêmico, fragilizava a tese de André Singer (2012) a respeito do Lulismo. Para ele, tanto as políticas de estímulo e direcionamento do crescimento econômico quanto as políticas que o limitavam para conter a inflação resultavam de demandas contraditórias oriundas da camada popular que o lulismo representaria: não o conjunto das classes trabalhadoras como quer Altman, mas apenas o subproletariado.
Apresentei de outra maneira essa mesma leitura — o terceiro governo Lula como combinação contraditória entre socialdesenvolvimentismo e neoliberalismo, a ser criticada e defendida ao mesmo tempo — pela primeira vez em entrevista ao próprio programa “20 Minutos” em novembro de 2023 (Bastos, 2023), embora tenha expressado a mesma opinião sobre os governos do PT em artigo acadêmico mais de uma década antes e em outras ocasiões (Bastos, 2012, 2017; Moreira e Bastos, 2023). O que faltava à minha entrevista (e às intervenções de Altman) é a teorização e evidências sistemáticas sobre o campo de jogo e a relação entre frações de classe e grupos políticos que explica por que as duas faces (socialdesenvolvimentismo e neoliberalismo) coexistem no terceiro governo Lula, em vez de apenas constatar que coexistem. É isso que tento oferecer adiante, ainda que preliminarmente dado o escopo já excessivo para um site: advirto que se trata de um “textão” que antecipa argumentos de um livro.
Armando Boito foi além de Altman e respondeu aos críticos do governo Lula, em artigo recente em A Terra é Redonda (Boito, 2026) com aportes teóricos na tradição de Nicos Poulantzas, que Lula 3 não é um governo neoliberal e sim neodesenvolvimentista, como teriam sido Lula 1 e Lula 2. Na mesma tradição, Luiz Filgueiras (2026) replica que o governo administra, sem romper, o padrão de desenvolvimento liberal-periférico instalado nos anos 1990, com grande semelhança com o argumento original de Boito (2007) que ele inverteria mais tarde. Paulo Nogueira Batista Jr. (2026) não vê mudança relevante na política do Banco Central nomeado por Lula em relação à gestão do neoliberal Roberto Campos Neto — e qualifica a política de juros de desastre. Bresser-Pereira chega a chamar o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, de “traidor” (Brasil 247, 2026). O BC, sabemos, é independente, mas a nomeação de Galípolo foi patrocinada pelo então ministro da Fazenda Fernando Haddad, que não apenas teve Galípolo como seu secretário-executivo, como determinou a preservação de uma meta de inflação sugerida pelo governo Bolsonaro, de 3%, que – no mínimo – funciona como álibi para uma política de juros estratosférica.
É evidente que esse debate não tem apenas interesse analítico e acadêmico, mas forte interesse político. Caso se caracterize o governo Lula como neoliberal, é possível alegar que não se deve apoiá-lo, sendo necessário encontrar uma alternativa à sua esquerda. Autores que defendem apoiá-lo contra a alternativa de extrema-direita, por sua vez, tendem a rejeitar a caracterização neoliberal e a enfatizar as dimensões antineoliberais do governo — vinculadas ao esforço de redistribuição de renda e ao apoio a empresários nacionais que enfrentam a concorrência de grandes empresas internacionais amparadas pelas potências imperiais. O resultado é que as interpretações se polarizam em campos duais: de um lado, a denúncia do caráter neoliberal do governo; de outro, a defesa de que ele deve ser apoiado perante a ameaça neoliberal e neofascista representada pelo bolsonarismo, exatamente porque implementa políticas distributivas e desenvolvimentistas.
Considero necessário superar o dualismo, assumindo mais uma vez a existência de dimensões neoliberais e social-desenvolvimentistas no terceiro governo Lula. Venho defendendo essa tese pelo menos desde 2012 como sendo a composição característica dos governos do PT desde o primeiro mandato, ainda que a forma dessa composição se modifique ao longo do tempo, em função da conjuntura econômica e política e da correlação de forças sociais.
A acusação de neoliberalismo homogêneo entre o governo Lula e a oposição de direita tem um efeito colateral perverso: o neoliberalismo não aparecerá tão ameaçador assim perante parte da opinião pública que ouve a acusação, acredita nela e gosta dos governos do PT, mas é incapaz de entender a ameaça a direitos sociais que a radicalização do neoliberalismo teria com a vitória da oposição de direita. Se o neoliberalismo já é o que temos, como convencer cidadãos a votar contra o neoliberalismo que denunciamos ser a política econômica do bolsonarismo por trás da guerra cultural? Já a tese de que o governo resiste bravamente ao neoliberalismo nos desarma para identificar e enfrentar as conciliações — e mesmo adesões ativas — ao neoliberalismo que estão presentes no núcleo da política macroeconômica do governo Lula e que são responsáveis por enfraquecer o próprio projeto que os apoiadores do governo Lula dizem que ele encarna.
O que a tese da homogeneidade neoliberal acerta — e por que é unilateral
Os indícios mobilizados pelos críticos da dimensão neoliberal do governo Lula existem e não podem ser varridos para baixo do tapete. A proposta do novo arcabouço fiscal, a definição de metas de superavit primário restritivas, as iniciativas voltadas a reduzir gastos com o BPC e excluir beneficiários, o pente-fino nas contas do Bolsa Família, a nova política salarial que limita o crescimento real do salário mínimo a 2,5% ao ano — infelizmente menos do que o salário mínimo cresceu, em média, no governo Fernando Henrique Cardoso —, a meta de inflação de 3%, a taxa de juros fixada muito acima do risco-país e da média de países subdesenvolvidos com menos reservas cambiais que o Brasil, a defesa ativa do acordo Mercosul-União Europeia em benefício dos exportadores agrícolas e em prejuízo do desenvolvimento industrial, as declarações do presidente Lula de que não deseja um Estado produtor e sim um Estado regulador: tudo isso compõe uma face efetivamente neoliberal do governo, atestada por documentos do próprio Ministério da Fazenda (2026) ao justificar a política fiscal do terceiro governo Lula como um esforço de colaboração com a política monetária do Banco Central e declarações de Haddad de que deveria ter implementado ainda maior austeridade a partir de 2024.
Contudo, a leitura que daí extrai a homogeneidade neoliberal comete um erro simétrico: subestima dimensões materiais e institucionais que não são neoliberais. A recomposição real do salário mínimo no início do mandato, o Minha Casa Minha Vida, o Pé-de-Meia, o Gás do Povo, a retomada da política industrial com a Nova Indústria Brasil, o papel mais ativo do BNDES, as compras governamentais com preferência nacional, o conteúdo local na cadeia do petróleo e gás, a diplomacia dos BRICS e da desdolarização, a adesão — tardia, mas real — à luta contra a escala 6×1 puxada desde baixo: tudo isso compõe uma política efetivamente distinta da de Temer e Bolsonaro. Tratar essas políticas como propaganda, reduzindo o governo ao seu eixo fiscal-monetário, impede de captar a contradição real do arranjo e produz um diagnóstico politicamente ineficaz: se Lula 3 é apenas neoliberalismo com outro nome, não há razões econômicas e sociais para defendê-lo frente à alternativa do neoliberalismo autoritário.
O que Boito acerta — e o que sua tipologia deixa de fora
Se esses fatos são suficientes para refutar a caracterização do governo como puramente neoliberal, eles não bastam para sustentar a interpretação oposta oferecida por Armando Boito (2026). Ele caracteriza o terceiro governo Lula como neodesenvolvimentista mobilizando a distinção entre política governamental e modelo de capitalismo para definir o neodesenvolvimentismo como o desenvolvimentismo possível dentro do modelo neoliberal. Boito usa, indistintamente, os conceitos de modelo capitalista, modelo econômico e modelo de acumulação para se referir à mesma invariante que seria administrada por governos que executam diferentes políticas, sendo por isso que um governo “neodesenvolvimentista” como o de Lula pode administrar o modelo neoliberal e os governos de Dutra e Café Filho (presumidamente liberais) puderam administrar o modelo desenvolvimentista.
O aporte é interessante para orientar a pesquisa sobre as formas diferentes de administração do modelo neoliberal e, como já disse várias vezes, a contribuição de Boito (1999; 2018) é incontornável para entendermos a política brasileira contemporânea com profundidade. Contudo, a separação rígida entre modelo e política não se sustenta nem teórica nem empiricamente.
Primeiro, um modelo de capitalismo não se reproduz sozinho, mas, a meu ver, inclui uma certa forma de Estado e um certo tipo de política de Estado de que depende para se reproduzir, assim como as ideologias que justificam o conjunto. O próprio Boito afirma que o modelo desenvolvimentista tinha um “objetivo”: a industrialização. Ora, ter um objetivo é um atributo que não deve ter um registro apenas no plano do modelo de acumulação, exigindo considerarmos as políticas econômicas e os valores ideológicos intrínsecos às políticas de Estado inerentes à reprodução do modelo, e trazer essas políticas e esses valores para a própria conceituação do modelo. É por isso que prefiro continuar usando o termo socialdesenvolvimentismo para designar a ideologia de economia política e a prática que inspira nos governos liderados pelo PT (Bastos, 2012), dimensão ideológica essa que o conceito de “neodesenvolvimentismo” não define sequer como negação ao desenvolvimentismo clássico.
Ao ser equiparado por Boito com modelo econômico e modelo de acumulação, o modelo de capitalismo é conceituado com reducionismo econômico para excluir a forma de Estado, a política de Estado e suas ideologias. Se seguirmos Louis Althusser ou Nancy Fraser para teorizar o capitalismo sem reducionismo econômico (Bastos, 2021; 2025a), um modelo capitalista tampouco pode ser definido unicamente com base em variáveis econômicas (modelo econômico, modelo de acumulação) separadas de características da forma de Estado, de política de Estado e de ideologia política. Em níveis mais concretos, outras variáveis podem ser incorporadas para entender a estrutura e a dinâmica de modelos particulares (Bastos, 2025b).
A fragilidade teórica da distinção rígida entre modelo econômico e política econômica se revela quando o próprio Boito a desrespeita ao aplicá-la na caracterização do modelo desenvolvimentista. Aí, ele alude não a características estruturais do modelo de acumulação, mas a características comuns da política econômica executada pelos diversos governos do período (com diferentes intensidades e combinações) a despeito das diversas coalizões sociais que pilotavam e das outras políticas públicas que promoviam: protecionismo, financiamento público, investimentos estatais, por exemplo. Contudo, outras políticas econômicas que ele alega caracterizarem o modelo desenvolvimentista, como centralização do câmbio e regulação protetiva do mercado de trabalho, não foram promovidas por todos os governos do período a despeito da forma de Estado herdada.
Por sua vez, outras políticas econômicas que Boito alega só caracterizarem a adesão ativa dos governos neoliberais à “novíssima dependência” (abertura comercial e financeira) são características invariantes do modelo neoliberal no Brasil. Assim como a política macroeconômica que Boito sequer menciona – metas de inflação e superávit primário “austeras”, apreciação cambial para estimular importações baratas de bens, serviços e capitais – elas são políticas que mesmo os governos liderados pelo PT mantiveram ativamente, com a devida justificação ideológica operada por ministros do governo e, às vezes, até pelo presidente Lula (como entender as finanças públicas como finanças domésticas, ou alegar que o Estado deve preferencialmente regular e não produzir). Não é sequer possível dizer que os governos do PT sempre operaram essa políticas com menos intensidade. Gabriel Galípolo executa uma política de juros mais austera que a de Roberto Campos Neto, e admite uma volatilidade cambial muito superior à de Henrique Meirelles no primeiro mandato de Lula, embora tenha um colchão de reservas cambiais muito vezes maior. A partir de 2003, Pallocci e equipe aumentaram ano a ano as metas de superavit primário muito depois de superado o risco de uma fuga de capitais catastrófica até serem derrotados por Dilma Rousseff, a líder do campo socialdesenvolvimentista, quando pretenderam fazer o que nenhum governo liderado pela direita tentou no Brasil: assegurar o déficit nominal zero, ou seja, gerar um superávit primário no tamanho necessário para compensar todo o gasto com juros da dívida pública!
Isso não terminou em 2005 com a vitória de Dilma Rousseff sobre Palocci. Pelo menos até um texto (invejável) escrito dois anos depois dessa vitória, Boito (2007, p.42-46) ainda considerava o governo Lula como neoliberal porque “estimula a produção, mas no interior dos limites permitidos pelos interesses fundamentais do grande capital financeiro… o superavit primário e os juros devem permanecer elevados mesmo que isso limite o próprio crescimento das exportações… São o Ministério da Fazenda e o Banco Central que se constituem nos locais privilegiados nesse esquema de concentração do poder em benefício da fração hegemônica.” Se essa caracterização de governo neoliberal era excessiva, o outro polo que passaria a defender também é, sobretudo se abstrai os constrangimentos que as políticas macroeconômicas executadas pelo governo continuaram exercendo sobre qualquer política “neodesenvolvimentista” executada no período: ou o novo arcabouço fiscal – defendido ativamente pelo ministro Haddad – já não inviabilizou a regra de elevação do salário mínimo e a capitalização de empresas estatais que foram essenciais para o crescimento econômico nos primeiros mandatos de Lula?
Ademais, a abertura financeira foi aprofundada e consolidada institucionalmente nos primeiros governos de Lula que, aliás, consideravam fundamental converter o Brasil em “investment-grade” junto às agências de classificação de risco. Anos depois da comemoração ao obter esse título em 2008, mantê-lo foi a justificativa pública para a política de austeridade encomendada a Joaquim Levy depois da eleição de 2014 (Bastos, 2014). Como outras políticas, a abertura comercial sofreu reversões parciais e temporárias, nunca integrais e duradouras, a despeito da justificação do protecionismo pelo socialdesenvolvimentismo e do atendimento a demandas protecionistas setoriais que não são feitas apenas por empresários nacionais – como pelas filiais automobilísticas ocidentais preocupadas com a concorrência das asiáticas desde a década de 1990. No terceiro governo, a celebração do Acordo Mercosul-União Europeia por Lula é uma reviravolta em relação à posição original do primeiro mandato (mais preocupado com os riscos à indústria de transformação), mas mesmo a proposta brasileira de uma “grande barganha” durante a Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio, em 2005, já havia sido criticada pelas delegações da Índia e da Argentina como uma traição à coalizão pelo desenvolvimento (Bastos & Hiratuka, 2017; 2020).
Isso, é claro, se explica pela força econômica e política do agronegócio, que só cresceu desde 2005, a ponto de Lula ter afirmado em 2025 que “já não é quebra-galho trabalhar com o agronegócio. Virou o principal negócio do Brasil” (Konchinski, 2025). Atender à pressão política de exportadores locais de produtos primários por subsídios e tratados comerciais feitos às custas do projeto de reindustrialização que está no centro da ideologia socialdesenvolvimentista (como veremos) seria suficiente para negar a existência de dimensões neoliberais nas políticas econômicas de um governo presumidamente antineoliberal?
Creio que não. Alegar que a defesa governamental dos interesses particularistas do agronegócio às custas do aprofundamento da desindustrialização expressa algum tipo de “desenvolvimentismo” contradiz a melhor formulação do próprio Boito (1999) que, em sua tese de livre-docência sobre o neoliberalismo dos anos 1990, afirmava com todas as letras que a desindustrialização era um desejo das forças imperialistas na reconfiguração das economias e Estados dependentes latino-americanos. Defender o contrário hoje, acusando os que continuam relacionando desenvolvimento econômico com algum ganho de autonomia nacional associado ao domínio de capacitações tecnológicas industriais como “empiricistas”, é abandonar exatamente o terreno em que um embate estratégico com o imperialismo sempre se travou e, assim, fazer concessões exageradas à sua hegemonia ideológica. A abertura comercial sempre foi defendida pelos ideólogos neoliberais como o meio mediante o qual a estrutura produtiva com baixo valor agregado no Sul “complementaria” a (leia-se: seria subordinada à) estrutura produtiva de alto valor agregado no Norte. Não estavam errados: as políticas econômicas (e não o “modelo” em abstrato) de apreciação cambial e abertura comercial provocaram evidente especialização regressiva da estrutura produtiva desde a década de 1990, em tendência praticamente sem interrupção até hoje – e que até se aprofundou depois de 2010 –, pois as políticas socialdesenvolvimentistas fracassaram em compensar o efeito das políticas neoliberais (Moreira & Bastos, 2023; Bastos, 2022).
Gráfico 1 — Composição das exportações brasileiras (% do total), 1997–2025: a primarização da pauta.

Fonte: MDIC/SECEX. Adaptado de Vergnhanini & Biancarelli (2025), Gráfico 16.
Gráfico 2 — Coeficiente de penetração de importados na indústria de transformação (%): a face tecnológica do déficit industrial.

Fonte: IEDI, Carta nº 1.297 (jan. 2025), com base em dados Funcex
Uma vez que relações de poder e hegemonia também se expressam no campo ideológico (e na autopercepção dos sujeitos “sujeitados”), marxistas inspirados por Althusser sempre evitaram equacionar a preferência revelada dos “sujeitos” ao seu interesse objetivo. Não me parece correto equacionar o interesse objetivo e a preferência revelada das frações burguesas industriais que, a despeito de apoiarem ativamente a abertura comercial “em geral” no Brasil, buscam proteção estatal particularista diante de um modelo capitalista dependente que devasta estruturalmente suas condições de sobrevivência. Precisamos investigar como a própria estrutura hegemônica bloqueia a emergência de interesses objetivos contrários ao modelo capitalista que os devasta ou, pelo menos, os limita de modo a permitir sua incorporação subordinada em um modelo e em um bloco no poder sobre o qual não têm a hegemonia, como veremos.
É claro que não estou sugerindo que todos os governos administram um certo modelo capitalista da mesma forma: Boito e seus diversos alunos e alunas (que ajudei a formar em várias bancas de avaliação e seminários em grupo de pesquisa comum há quase quinze anos, como ele também ajuda a formar os meus) são insuperáveis na investigação sistemática das políticas “neodesenvolvimentistas” e de seus suportes sociais. O que alego é que os governos liderados pelo PT “herdam” um modelo de capitalismo, uma forma de Estado, e um tipo de política econômica hegemônica que continuam reproduzindo ativamente, inclusive com o trabalho ideológico necessário para tal.
O modelo capitalista e a forma de Estado resultantes das reformas neoliberais dos anos 1990 implicaram a preservação de políticas econômicas neoliberais hegemônicas — metas de inflação pouco flexíveis, autonomia (real ou formal) do Banco Central para elevar juros muito acima do necessário, regras fiscais que limitam estruturalmente o gasto público, abertura financeira nunca revertida, amplo nível de abertura comercial, apreciação cambial para estimular importações baratas de bens, serviços e capitais — mesmo em governos que não são inteiramente comprometidos com o neoliberalismo. Quem o diz, aliás, é o próprio presidente Lula, ao reconhecer em Barcelona que governos progressistas se limitavam a administrar o neoliberalismo.
Se devem ser rejeitadas as caracterizações dualistas dos governos do PT – neoliberal ou “neodesenvolvimentista” – qual o diagnóstico alternativo? E que tipo de prática política esse diagnóstico pode orientar? É o tema das partes 2 e 3.
Referências da Parte 1
ALTMAN, Breno; MANOEL, Jones. Governo Lula é neoliberal?: Breno Altman x Jones Manoel. Mediação: Mauro Lopes. [S. l.]: Opera Mundi; Farol Brasil, 21 mar. 2025. 1 vídeo (debate). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TqPhJnShKWA. Acesso em: 26 jun. 2026.
BASTOS, Pedro Paulo Zahluth. A economia política do novo-desenvolvimentismo e do social-desenvolvimentismo. Economia e Sociedade, Campinas, v. 21, n. especial, p. 779-810, dez. 2012.
BASTOS, Pedro Paulo Zahluth. Ascensão e crise do governo Dilma Rousseff e o golpe de 2016: poder estrutural, contradição e ideologia. Revista de Economia Contemporânea, [S. l.], n. especial, p. 1-63, 2017.
BASTOS, Pedro Paulo Zahluth. Capitalismo em debate: uma conversa na teoria crítica. Crítica Marxista, Campinas, SP, v. 28, n. 53, p. 163–165, 2021. DOI: 10.53000/cma.v28i53.18932BASTOS, Pedro Paulo Zahluth. [TÍTULO A CONFIRMAR]. 2023b. (a completar — sua resenha de Nancy Fraser)
BASTOS, Pedro Paulo Zahluth. Hegemonia no bloco no poder, forma de Estado e política econômica em capitalismos dependentes. In: BOITO JR., Armando; MARTUSCELLI, Danilo; GUILMO, N. (org.). Instabilidade e crise na política brasileira. Marília: Lutas Anticapital, 2025b. (versão precursora: Hegemonia no bloco no poder e condomínio hegemônico: uma releitura teórica. Crítica Marxista, n. 56, p. 33-47, 2023.)
BASTOS, Pedro Paulo Zahluth. O capitalismo segundo Nancy Fraser: um diálogo crítico. Crítica Marxista, Campinas, SP, v. 32, n. 58, p. 63-78, 2025. DOI: 10.53000/cma.v32i58.20033. Disponível em: https://doi.org/10.53000/cma.v32i58.20033
BASTOS, Pedro Paulo Zahluth. [Entrevista]. In: 20 Minutos. [Entrevistador: Breno Altman]. [S. l.]: Opera Mundi, nov. 2023a. 1 vídeo. (confirmar data e link)BASTOS, BASTOS, Pedro Paulo Zahluth. O governo Lula é neoliberal?: Programa 20 Minutos. [Entrevista cedida a] Opera Mundi. São Paulo: Opera Mundi, 21 dez. 2023. 1 vídeo. Disponível em: https://youtube.com/live/jlsrH7rXwsU.
BASTOS, Pedro Paulo Zahluth. O terceiro turno já começou. O austericídio também? In: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia/O-terceiro-turno-ja-comecou-O-austericidio-tambem-/7/32118. [TÍTULO A CONFIRMAR]. Carta Maior, [S. l.], 2014. (a completar — coluna sua sobre austeridade)
BASTOS, Pedro Paulo Zahluth. The meaning of the trade policy of the Jair Bolsonaro administration: A historical perspective. Baltic Rim Economies, v. 18, 2022. https://sites.utu.fi/bre/the-meaning-of-thetrade-policy-of-the-j
BASTOS, Pedro Paulo Zahluth; HIRATUKA, Celio. A política econômica externa do governo Dilma Rousseff: comércio, cooperação e dependência. Texto para Discussão, Campinas: IE/Unicamp, n. 306, jun. 2017. ISSN 0103-9466.
BASTOS, Pedro Paulo Zahluth; HIRATUKA, Celio. The limits of dependency: the foreign policy of Rousseff’s administration. Latin American Perspectives, 2020. Também em: SAAD-FILHO, A.; COLOMBI, A. P. F.; GRIGERA, J. (ed.). Neoliberalism or developmentalism: the PT governments in the eye of the storm. Leiden; Boston: Brill, 2022. p. 241-267.
BOITO, Armando. Estado, burguesia e neoliberalismo no governo Lula. Revista de Sociologia e Política, vol. 28, 2007, pp. 57-73. Disponível em Boito (2018), op. cit.
BOITO JR., Armando. Lula 3 não é um governo neoliberal. A Terra é Redonda, [S. l.], 16 abr. 2026. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/lula-3-nao-e-um-governo-neoliberal/. Acesso em: 26 jun. 2026.
BOITO JR., Armando. Política neoliberal e sindicalismo no Brasil. São Paulo: Xamã, 1999.
BOITO JR., Armando. Reforma e crise política no Brasil: os conflitos de classe nos governos do PT. Campinas: Editora da Unicamp; São Paulo: Editora Unesp, 2018.
BRASIL 247. Bresser-Pereira dispara contra Galípolo e o chama de “traidor”. Brasil 247, [S. l.], 2026. Disponível em: https://www.brasil247.com/economia/bresser-pereira-dispara-contra-galipolo-e-o-chama-de-traidor. Acesso em: 26 jun. 2026.
DECCACHE, David. A política econômica do governo Lula 3: limites e possibilidades. [S. l.]: YouTube, 23 abr. 2025. 1 vídeo (live). Publicado pelo canal MEP SINASEFE. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=AGTRemPULc4.
FILGUEIRAS, Luiz. O governo Lula e o neoliberalismo. A Terra é Redonda, [S. l.], 21 abr. 2026. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/o-governo-lula-e-o-neoliberalismo/. Acesso em: 26 jun. 2026.
KLIASS, Paulo. Em dois mapas, avanços e contradições de Lula 3. Outras Palavras, [S. l.], 29 jul. 2025. Disponível em: https://outraspalavras.net/mercadovsdemocracia/em-dois-mapas-avancos-e-contradicoes-de-lula-3/. Acesso em: 26 jun. 2026.
KONCHINSKI, Vinicius. Lula ignora números e afirma que agro é o “principal negócio do Brasil”. Brasil de Fato, [São Paulo], 6 jun. 2025. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2025/06/06/lula-ignora-numeros-e-afirma-que-agro-e-o-principal-negocio-do-brasil/. Acesso em: 25 jun. 2026.
LACERDA, Marina Basso. Uma “esquerda brâmane” não serve ao Brasil. Outras Palavras, [S. l.], 15 maio 2025. Disponível em: https://outraspalavras.net/estadoemdisputa/uma-esquerda-bramane-nao-serve-ao-brasil/.
LACERDA, Marina Basso. Uma “esquerda brâmane” não serve ao Brasil. [S. l.], 2026. (confirmar veículo e data)
MARINGONI, Gilberto. Lula contra Lula. Combate Racismo Ambiental, [S. l.], 19 abr. 2026. Disponível em: https://racismoambiental.net.br/2026/04/19/lula-contra-lula-por-gilberto-maringoni/. Acesso em: 26 jun. 2026. (confirmar veículo de publicação original)
MINISTÉRIO DA FAZENDA (Brasil). Secretaria de Política Econômica. Boletim Impulso Estrutural do Gasto: IEG de 2024 e prévia de 2025. Brasília, DF: SPE/MF, dez. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/central-de-conteudo/publicacoes/conjuntura-economica/estudos-economicos/2025/boletim-ieg-2024-previa-de-2025.pdf.
MINISTÉRIO DA FAZENDA (Brasil). Secretaria de Política Econômica. [DOCUMENTO A ESPECIFICAR]. Brasília, DF, 2026. (a completar — nota/documento e números)
MOREIRA, Cássio Silva; BASTOS, Pedro Paulo Zahluth. O Projeto Nacional de Desenvolvimento no governo Lula (2003-2010): conceito, controvérsias e evidências. Princípios, [S. l.], v. 42, n. 168, 2023. Disponível em: https://revistaprincipios.emnuvens.com.br/principios/article/view/352. Acesso em: 26 jun. 2026.
NOGUEIRA BATISTA JR., Paulo. A política de juros do Banco Central é um desastre. Brasil de Fato, [S. l.], 4 maio 2026. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/colunista/paulo-nogueira-batista-jr/2026/05/04/a-politica-de-juros-do-banco-central-e-um-desastre/. Acesso em: 26 jun. 2026.
PLANALTO. Discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (encerramento da Mobilização Progressista Global). Barcelona, 18 abr. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/planalto/. Acesso em: 26 jun. 2026. (confirmar título e link exatos)
SINGER, André. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.




